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Nesta seção, vamos compartilhar vários temas relacionados com a apologética, como o celibato sacerdotal, proibições alimentares para os cristãos, o dízimo, etc.

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Santo Agostinho e a Observância do Sábado

Por José Miguel Arráiz

Tradução: Carlos Martins Nabeto (apologeticacatolica.com.br)

Você pode lê-lo em Português, Inglês, Espanhol

San AgustínRecentemente recebi em meu Blog alguns comentários acerca de um artigo meu, “Sábado e Domingo na Igreja Primitiva”, da parte de alguns leitores adventistas. Referidos comentários vinham acompanhados de algumas citações patrísticas de Santo Agostinho de Hipona, nos quais supostamente defenderia a observância do sábado e não a do domingo, de modo a tentar sustentar a hipótese que é refutada pelo artigo principal, a saber: que foi Constantino o responsável pela alteração do dia do Senhor, do sábado para o domingo, e que nos tempos de Santo Agostinho os cristãos, todavia, ainda guardavam o sábado.

Eis algumas dessas citações:

“Se amais a Deus, dedicarás o sábado a Ele, para descansar (...) Senhor, nosso Deus: dai-nos a paz do sábado, com a sua manhã e tarde” (Agostinho de Hipona).

“É dito [por Deus] que guardeis o sábado. Vos converteis em adversários Dele quando não fazeis o que eu vos mando fazer; e eu sou vosso adversário se não digo o que Ele manda dizer: que guardeis o sábado” (Santo Agostinho de Hipona, “Obras Completas”).

Uma das primeiras coisas que chama a atenção é a maneira incorreta de citar essas passagens. Não se apontam as obras de que foram extraídas, nem muito menos de que parte em específico. Se pedirmos a eles que citem apropriadamente, costuma ser comum que nos respondam como um desses comentaristas: que as referidas citações “encontram-se em documentos históricos dos primeiros séculos e que são fáceis de serem encontradas”. Porém, por experiência, sei que em 99% das vezes o que ocorre é que a pessoa apenas retira a citação de algum site protestante, sem tomar o devido cuidado de verificá-las, de modo que é muito provável que sejam espúrias ou citadas fora do contexto. Uma referência ambígua como esta é sempre útil para as suas finalidades, já que a maioria das pessoas que lerão tampouco se darão ao trabalho de verificar sua autenticidade e as poucas pessoas que tentarão fazê-lo se afogarão em uma quantidade não pequena de livros.

Pois bem: o argumento em si mesmo é irrelevante, porque no artigo que tentavam refutar encontram-se testemunhos datados de séculos antes de Santo Agostinho, que demonstram não só que os primeiros cristãos não guardavam o sábado, como também que para eles o Dia do Senhor era o domingo; isso sem contar que o próprio São Paulo, no Novo Testamento, manda “que ninguém vos critique por questões de comida ou bebida, ou em razão de festas, novilúnios ou sábados” (Colossenses)... porém, mesmo assim, quero compartilhar alguns textos onde é possível observar no seu devido contexto o pensamento de Santo Agostinho sobre o Dia do Senhor e quanto a observância do sábado. Santo Agostinho explica que o sábado foi ordenado para os judeus, porém, para os cristãos, o domingo é o Dia do Senhor:

“Ao contrário, não nos é mandado observar ao pé da letra o dia de sábado, no que se refere à suspensão da atividade corporal, como os judeus observam; observância literal que é tida por ridícula, a não ser que signifique também descanso espiritual. Entendemos, portanto, com razão, que todas essas coisas que nas Sagradas Escrituras nos são ditas figuradamente valem para inflamar o amor que temos ao repouso, visto que no Decálogo nos é proposto figuradamente apenas o preceito do descanso, que é amado em todas as partes e somente em Deus se encontra com certeza e santidade. O domingo foi preceituado não aos judeus, mas aos cristãos, em razão da ressurreição do Senhor; e desde esse momento ganhou solenidade, porque as almas de todos os santos descansam realmente antes da ressurreição dos corpos, porém não têm aquela atividade que vitaliza os corpos que lhes foram consignados. Essa atividade é o que significa o oitavo dia, que se confunde com o primeiro, já que não suspende mas glorifica esse descanso (...) Os santos patriarcas, cheios do espírito profético antes da ressurreição do Senhor, conheceram também esse sacramento do oitavo dia, que significa a ressurreição (...) Mas quando ocorreu a ressurreição no corpo do Senhor, para que antecedesse na Cabeça da Igreja o que o Corpo da mesma espera apenas para o final, já era possível começar a celebrar o oitavo dia, que é idêntico ao primeiro, isto é, o domingo.”[1]

Além desta explicação, em “De Utilitate Credenci” enumera entre os preceitos e mandamentos legais, que já não é lícito aos cristãos guardar a observância do sábado:

Porém, todos estes preceitos e ordens legais, que já não é lícito aos cristãos observar, tais como a circuncisão, o sábado, os sacrifícios e outros idênticos, contêm mistérios tão imensos, que não há pessoa piedosa que desconheça os males que se seguem ao tomar em sentido literal do que ali é exposto, nem os ótimos frutos que resultam se são entendido tal e qual são revelados ao espírito. Por isso, diz São Paulo: 'A letra mata, porém o espírito dá vida'; e naquela outra passagem: 'O mesmo véu continua sobre a lição da Antiga Aliança, sem perceber que apenas por Cristo foi removido'. Não é que Cristo remova o Antigo Testamento, mas que o revela, para que por intermédio de Cristo se torne intelegível e patente o que sem Ele permaneceria nas trevas e fechado.”[2]

Também explica que, ainda que os judeus creiam que continuem obrigados a guardar os sábados, os cristãos não creem assim:

“Quando falou ao povo hebreu acerca da guarda do sábado, tampouco mencionou os alimentos que deveriam ou não comer. Apenas prescreveu a abstenção dos trabalhos servis. O povo hebreu aceitou esse preceito - que era um símbolo do descanso futuro -, e se absteve de trabalhar. Todavia, vemos que os judeus se abstêm de trabalhar no sábado, ainda que os judeus carnais não entendam o que os cristãos retamente entendem. Naquele tempo, quando isso era o que convinha, os profetas guardaram o repouso sabático, que os judeus ainda creem que deva ser observado.”[3]

Santo Agostinho explica que, antes que o véu fosse retirado, o sábado era uma sombra figurativa:

“Não obstante - advertência que julgo suficiente para o assunto que ora nos ocupa - não foi inutilmente preceituado ao povo judeu o abster-se, naquele dia (=sábado), de todo trabalho servil, que significa o pecado, porque o não pecar é efeito da santificação, isto é, do dom de Deus mediante o Espírito Santo; por isso, apenas este preceito, entre todos os outros, foi colocado na Lei, gravado nas tábuas de pedra, como sombra figurativa que os judeus observavam como santificação do sábado, significando com isso que aquele era o tempo em que a graça deveria permanecer oculta; mas pela Paixão de Cristo, com o rasgo do véu do Templo, foi revelada, pois é dito que o véu seria retirado quando Cristo houvesse chegado.”[4]

“Eis aqui o porquê, dentre os Dez Mandamentos, apenas nesse, que se refere ao sábado, se manda observar figuradamente. Essa figura nos é proposta para que a compreendamos, não para que a celebremos com o descanso corporal.”[5]

 Em outro texto, fala de como o sábado e a circuncisão são observâncias pertencentes à antiga e dura servidão da Lei carnal, diferentemente das leis morais que permanecem:

“O que são, portanto, os preceitos de Deus, escritos por Ele mesmo nos corações, senão a própria presença do Espírito Santo, que é o Dedo de Deus, por cuja presença é derramada em nossos corações a caridade, que é a plenitude da Lei e a finalidade do preceito? Porque, acerca do Antigo Terreno, são terrenas as promessas que nele se fazem, ainda que, com exceção dos sacramentos que eram figuras do futuro - como a circuncisão, o sábado, certas observâncias anexas a determinadas solenidades, as cerimônias usadas em certas refeições, e muitos ritos referentes aos sacrifícios e ao culto, que convinha assim à antiga e dura servidão daquela Lei carnal - continham neles os mesmos preceitos que agora nos é mandado observar, especialmente os que se encontram assinalados naquelas tábuas sem qualquer sombra figurativa, como estes: não cometerás adultério, não matarás, não cobiçarás, ou qualquer outro preceito que possa ser recapitulado.”[6]

Daí que se exclui das leis morais a observância do sábado:

“Pois dentre estes Dez Mandamentos, excetua-se [apenas] a observância do sábado. Quero que me digam qual deles não ser cumprido pelos cristãos: não fabricar ou adorar ídolos ou outros deuses, salvo o único Deus verdadeiro; não tomar o nome de Deus em vão; honrar os pais; evitar a fornicação, o homicídio, o furto, o falso testemunho, o adultério e a cobiça dos bens alheios. Quem ousará dizer que o cristão não deve observar todos estes preceitos?”[7]

Em outros textos, cita como exemplo o fato de os Apóstolos terem recolhido espigas no sábado (conforme a vontade de Jesus) como uma forma de ensinar que a observância do sábado após alterados os tempos (já não estando sob a Lei, mas sob a graça) era mera superstição:

“Porém, segundo lemos, os discípulos de Cristo não apenas comeram nesse sábado, como também colheram as espigas [nesse mesmo dia], o que era ilícito, já que proibido pela tradição dos antigos. Portanto, quanto a isso, iremos responder oportunamente, dizendo que o Senhor queria que os seus discípulos fizessem nesse dia ambas as coisas: que colhessem as espigas e que se alimentassem; o primeiro, contra aqueles que querem repousar no sábado e, o segundo, contra aqueles que querem obrigar a jejuar no sábado. O Senhor deu assim a entender que o primeiro caso é de superstição, já que mudados os tempos; e que o segundo é livre em qualquer época.”[8]

Assim, os cristãos devem entender o mandamento do sábado como uma certa promulgação do descanso e repouso do coração:

“Terceiro Mandamento: Lembra-te de santificar o dia de sábado. Neste terceiro mandamento, insinua-se uma certa promulgação do descanso, repouso do coração, tranquilidade da mente, que opera a boa consciencia.”[9]

Santo Agostinho explica que o Domingo é mais santo que o Sábado:

Na mesma carta a Casulano, Santo Agostinho afirma que o domingo é mais santo que o sábado porque no sábado o corpo do Senhor descansou no sepulcro enquanto que no domingo ressuscitou dentre os mortos (ver Carta a Casulano 5,12; 7,14).

Santo Agostinho pregava todos os Domingos na Celebração Eucarística:

“Ouvia-o, é verdade, pregar retamente ao povo a Palavra da Verdade todos os domingos, fazendo-me ver mais e mais que poderiam ser resolvidas todas as maliciosas calúnias que aqueles que nos enganavam levantavam contra os Livros Sagrados.”[10]

Também observa que há igrejas que celebram a Eucaristia todos os dias; outras, aos sábados e domingos; e outras, apenas aos domingos:

“Há outras práticas que variam segundo os diversos lugares e nações. Assim, por exemplo, alguns jejuam no sábado, outros não; alguns comungam todos os dias o Corpo e Sangue do Senhor, outros comungam apenas em determinados dias; alguns não deixam passar sequer um dia sem celebrar, outros celebram apenas nos sábados e nos domigos, outros ainda só nos domingos. Em tudo isto, a melhor disciplina para o cristão convicto e prudente é acomodar-se ao modo que é observado pela igreja em que por acaso se encontré.”[11]

Inclusive, para Santo Agostinho é inconcebível que um judeu convertido ao Cristianismo continue guardando o sábado ou outras leis como a circuncisão etc.:

“Volto a dizer: já que sois bispo e mestre nas igrejas de Cristo, podes fazer provar que é verdade o que dizes: toma um judeu que se fez cristão, porém que ainda circuncise o filho que lhe nasceu, que guarde o sábado, que se abstém dos alimentos que Deus criou para que usemos deles em ação de graças, que mate um cordeiro ao anoitecer do 14º dia do primeiro mês (=Nisan). Quando fizerdes isto (melhor dizendo, não o farás, porque sei que sois cristão e não cometerás tal sacrilégio), queiras ou não, reprovarás a tua sentença.”[12]

Uma Conclusão necessária

O fato de os Adventistas pretenderem usar algumas citações patrísticas de Santo Agostinho para defender a sua tese [sabática], coloca em evidência duas coisas:

1) Ignorância ou desonestidade intelectual: se for por ignorância, porque desconhecem estes outros textos de Santo Agostinho, pecam por negligência ao escrever sobre uma matéria sobre a qual não efetuaram as pesquisas necessárias; porém, se conhecem e omitem estes textos, demonstram desonestidade intelectual ao apresentarem uma informação deturpada, apenas para favorecer suas próprias doutrinas humanas.

2) Hipocrisia: ao pretenderem empregar textos patrísticos quando lhes convêm, e não empregar quando não lhes são favoráveis.

NOTAS

[1] Santo Agostinho, Carta 55: resposta às perguntas de Jenaro 13,23; Obras Completas de Santo Agostinho, Tomo 8. Madri: Biblioteca de Autores Cristãos, 1986, pp. 368-369)

[2] Santo Agostinho, De Utilitate Credenci 3,9; Obras Completas de Santo Agostinho, Tomo 4. Madri: Biblioteca de Autores Cristãos, 1956, p. 843

[3] Santo Agostinho, Carta 36: a Casulano 3,5; Obras Completas de Santo Agostinho, Tomo 8. Madri: Biblioteca de Autores Cristãos, 1986, p. 207

[4] Santo Agostinho, Do Espírito e da Letra 15,27; Obras Completas de Santo Agostinho, Tomo 6. Madri: Biblioteca de Autores Cristãos, 1956, p. 733

[5] Santo Agostinho, Carta 55: resposta às perguntas de Jenaro 12,22; Obras Completas de Santo Agostinho, Tomo 8. Madri: Biblioteca de Autores Cristãos, 1986, p. 367

[6] Santo Agostinho, Do Espírito e da Letra 21,36; Obras Completas de Santo Agostinho, Tomo 6. Madri: Biblioteca de Autores Cristãos, 1956, p. 747

[7] Santo Agostinho, Do Espírito e da Letra 14,23; Obras Completas de Santo Agostinho, Tomo 6. Madri: Biblioteca de Autores Cristãos, 1956, p. 727

[8] Santo Agostinho, Carta 36: a Casulano 3,6; Obras Completas de Santo Agostinho, Tomo 8. Madri: Biblioteca de Autores Cristãos, 1986, p. 208

[9] Santo Agostinho, Sermão 8: as Dez Pragas e os Dez Mandamentos 6; Obras Completas de Santo Agostinho, Tomo 7. Madri: Biblioteca de Autores Cristãos, 1981, p. 125

[10] Santo Agostinho, Confissões 6,3,4; Obras Completas de Santo Agostinho, Tomo 2. Madri: Biblioteca de Autores Cristãos, 1979, p. 234

[11] Santo Agostinho, Carta 54: a Jenaro 2,2; Obras Completas de Santo Agostinho, Tomo 8. Madri: Biblioteca de Autores Cristãos, 1986, p. 338

[12] Santo Agostinho, Carta 75: Jerônimo a Agostinho 4,15; Obras Completas de Santo Agostinho, Tomo 8. Madri: Biblioteca de Autores Cristãos, 1986, p. 466

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