Não foi a festa mais antiga, mas logo se tornou popular nas igrejas.
O Natal não figurava entre as primeiras festas celebradas antigamente pela Igreja. Ireneu e Tertuliano o omitem em sua lista de festas; Orígenes, levando em conta talvez a desonrosa Natalitia imperial, afirma (Hom. VIII sobre o Lev., em Migne, Patrologia Graeca, XII, 495) que, na Sagrada Escritura, somente os pecadores, nunca os santos, celebravam a data de seu nascimento; Arnóbio (VII, 32, em Patrologia Latina, V, 1264) chega inclusive a ridicularizar o “aniversário” dos deuses.
A primeira evidência sobre esta festa nós a encontramos no Egito. Por volta do ano 200 d.C., Clemente de Alexandria (Strom., I, XXI, em P.G., VIII, 888) diz que certos teólogos egípcios, “de maneira bastante curiosa”, indicam não somente o ano, mas também o dia do nascimento de Cristo, situando-o no dia 25 de Pachon (20 de maio), no vigésimo oitavo ano do reinado de Augusto. Ideler (Chron., II, 397, N.) pensa que assim o fizeram por acreditarem que o nono mês em que nasceu Cristo era o nono mês de seu calendário. Outros declaram que a data foi o dia 24 ou 25 de Pharmuthi (19 ou 20 de abril). Clemente, em sua obra “De paschæ computus”, escrita em 243 e falsamente atribuída a Cipriano (P.L., IV, 963 ss.), dá como data do nascimento de Cristo o dia 28 de março, dia em que o sol material foi criado. Mas Lupi demonstrou (Zaccaria, Dissertazioni ecc. del p. A. M. Lupi, Faenza, 1785, p. 219) que não existe um mês no ano ao qual respeitáveis autoridades não tenham designado como data do nascimento de Cristo. Clemente, no entanto, também nos diz que os basilidianos celebravam a Epifania e, provavelmente junto com esta festa, o Nascimento de Cristo, no dia 15 ou 11 de Tybi (10 ou 6 de janeiro).
Esta dupla comemoração tornou-se popular, em parte porque a aparição aos pastores foi considerada uma manifestação da glória de Cristo, comemorada entre as mais importantes solenidades e celebrada no dia 6 de janeiro; e também, em parte, porque, na manifestação dada no Batismo, muitos códices (por exemplo, o Codex Bezæ) põem erroneamente que as Divinas palavras foram: “Tu és o meu Filho bem-amado, eu hoje te gerei”, em vez de “em ti ponho minha afeição”, lido em Lucas 3,22. Abraão Ecchellensis (Labbe, II, 402) cita, nas Constituições da Igreja de Alexandria dos tempos de Niceia, a frase: dies Nativitatis et Epiphaniæ; Epifânio (Hær., li, ed. Dindorf, 1860, II, 483) relata uma surpreendente cerimônia semignóstica em Alexandria na qual, na noite de 5–6 de janeiro, uma estranha cruz com a imagem de Kore estampada nela era levada em procissão ao redor de uma cripta, enquanto se entoava o canto: “Hoje, a esta hora, Kore deu à luz o Eterno”; João Cassiano, em suas “Conferências” (X, 2, em P.L., XLIX, 820), escritas entre os anos 418 e 427, diz que os mosteiros egípcios ainda observam o “antigo costume”; mas Paulo de Emesa pregou no dia 29 de Choiak (25 de dezembro) e no dia 1º de janeiro de 433 diante de Cirilo de Alexandria, e seus sermões (ver Mansi, IV, 293; apêndice do livro dos Atos, Conc. Eph.) mostram que a celebração de dezembro estava firmemente estabelecida naquele lugar, e os calendários demonstram sua permanência. Por isso, a tradição de celebrar esta festa em dezembro chegou ao Egito por volta dos anos 427 e 433.
Em Chipre, no fim do quarto século, Epifânio declara-se contra os Alogi (Hær., li, 16, 24, em P.G., XLI, 919, 931) que Cristo nasceu no dia 6 de janeiro e foi batizado no dia 8 de novembro. Efrém da Síria (cujos hinos são de Epifania e não de Natal) mostra que a Mesopotâmia ainda celebrava a festa do nascimento de Cristo treze dias depois do solstício de inverno; isto é, no dia 6 de janeiro; do mesmo modo, a Armênia ignorava, e continua ignorando, a celebração de dezembro. (Cf. Eutímio, “Pan. Dogm.”, 23, em P.G., CXXX, 1175; Nicéforo, “Hist. Eccl.”, XVIII, 53, em P.G., CXLVII, 440, etc.) Na Capadócia, os sermões de Gregório de Nissa sobre São Basílio (que morreu antes de 1º de janeiro de 379) e seus dois sermões seguintes, pregados na festa de Santo Estêvão (P.G., XLVI, 788; cf. 701, 721), demonstram que, no ano 380, o dia 25 de dezembro já era ali celebrado, a menos que, seguindo os argumentos demasiado engenhosos de Usener (Religionsgeschichtliche Untersuchungen, Bonn, 1889, 247–250), devamos situar esses sermões no ano 383. Também Astério de Amaseia (século quinto) e Anfilóquio de Icônio (contemporâneo de Basílio e Gregório) celebravam em suas dioceses ambas as festas —Epifania e Natividade— de forma separada (P.G., XL, 337; XXXIX, 36).
Quanto à Terra Santa, no ano 385, Egéria ficou profundamente impressionada com as esplêndidas festas sobre a infância do Senhor Jesus celebradas em Jerusalém. Eles celebravam a “Natividade”; o Bispo ia de noite a Belém, regressando a Jerusalém para as celebrações do dia. A festa da Apresentação celebrava-se quarenta dias depois. Mas este cálculo começava a partir do dia 6 de janeiro, e a festa durava até a oitava dessa data (Peregr. Silv., ed. Geyer, pp. 75 ss.). Novamente (na pág. 101), ela menciona como festas muito importantes a Páscoa e a Epifania. Como podemos ver, em 385, o dia 25 de dezembro não era observado em Jerusalém. Este dado confirma as citações dadas por João de Nikiu (c. 900), tomadas das cartas entre Cirilo de Jerusalém (348–386) e o Papa Júlio I (337–352), com o propósito de conseguir que na Armênia se celebrasse o Natal no dia 25 de dezembro (ver P.L., VIII, 964 ss.). Cirilo declara que seu clero não pode realizar, na mesma data da festa do Nascimento e do Batismo, uma procissão a Belém e ao Jordão. (Esta última prática é um anacronismo.) Ele pede a Júlio que atribua ao Natal a sua verdadeira data, “tomando-a dos documentos do censo trazidos por Tito a Roma”; Júlio atribui como data o dia 25 de dezembro. Outro documento (Cotelier, Patr. Apost., I, 316, ed. 1724) diz que Júlio escreveu a Juvenal de Jerusalém (c. 425–458), informando-o de que Gregório Nazianzeno, em Constantinopla, estava sendo criticado por “dividir a festa em duas”. Júlio morreu no ano 352 e, por volta de 385, Cirilo não havia introduzido mudança alguma; de fato, Jerônimo, escrevendo por volta de 411, censura a Palestina pelo fato de celebrar o nascimento de Jesus (quando Ele se ocultava) no dia da festa da Manifestação. Cosme Indicopleustes sugere (P.G., LXXXVIII, 197) que, mesmo em meados do século sexto, Jerusalém distinguia-se por combinar as duas comemorações, argumentando que, em Lucas 3,23, o dia do batismo de Cristo se realizou no dia de Seu nascimento. Contudo, a comemoração em Jerusalém de Davi e do Apóstolo Tiago realizava-se no dia 25 de dezembro, fato que mostra que esta festa não era celebrada neste dia. Usener, tomando argumentos do “Laudatio S. Stephani” de Basílio de Selêucia (c. 430 —P.G., LXXXV, 469), pensa que Juvenal tentou introduzir esta festa, mas que a fama do nome de Cirilo fez com que a data se mantivesse sem variação.
Em Roma, a evidência mais antiga que temos está no Calendário de Filocálio (P.L., XIII, 675; pode ser visto na íntegra em J. Strzygowski, Kalenderbilder des Chron. von Jahre 354, Berlim, 1888), compilado em 354, o qual contém três importantes dados. No calendário civil, o dia 25 de dezembro figura como “Natalis Invicti”. No “Depositio Martyrum”, uma antiga lista de mártires romanos e universalmente venerados, o dia 25 de dezembro diz: “VIII kal. ian. natus Christus in Betleem Iudeæ”. Menciona também, no “VIII kal. mart.” (22 de fevereiro), a Cátedra de São Pedro. Na lista de cônsules, encontramos quatro estranhos registros eclesiásticos: os dias em que Cristo nasceu e morreu; a chegada a Roma e o martírio de São Pedro e São Paulo. Esta significativa entrada diz que, durante o consulado de (Augusto) César e Paulo, nasceu Nosso Senhor Jesus Cristo na oitava antes das calendas de janeiro (25 de dezembro), numa sexta-feira, o décimo quarto dia da lua. Os detalhes concordam com a tradição e com as possibilidades. Mas a tradição é constante em situar o nascimento de Cristo numa quarta-feira. Além disso, segundo a data dada para a morte de Cristo (o ano 29 d.C.), Cristo morreu aos vinte e oito anos. Ademais, o fato de que estes dados apareçam numa lista de cônsules deixa claro que são uma interpolação. Mas não estão estes dois dados também no “Depositio Martyrum”? Aqui encontramos somente o dia do nascimento de Cristo na carne, de modo que pode encabeçar o ano dos natalícios espirituais dos mártires; mas o 22 de fevereiro está totalmente fora de lugar. Aqui, como no fasti consular, foram inseridas, por conveniência, algumas festas populares. O próprio calendário civil não foi exclusivamente modificado, pois deixou de ser útil depois do abandono das festas pagãs. Por isso, ainda que o “Depositio Martyrum” seja, como é provável, do ano 336, não fica claro se o calendário contém evidências anteriores ao próprio Filocálio, isto é, a 354, salvo que, com efeito, a pré-existência desta celebração popular represente a possibilidade de seu reconhecimento oficial. Se o manuscrito Chalki de Hipólito for genuíno, teríamos evidências sobre esta festa de dezembro desde aproximadamente o ano 205. A passagem pertinente [a qual existe no manuscrito Chigi, sem as palavras entre parênteses, e que sempre foi citada assim antes de Jorge Sincelo (c. 1000)] diz assim:
“A primeira vinda de Nosso Senhor na carne [na qual foi gerado], em Belém, sucedeu [no dia 25 de dezembro, o quarto dia] durante o reinado de Augusto [o quadragésimo segundo ano, e] no ano 5500 [desde Adão]. Sofreu em Seu trigésimo terceiro ano [no dia 25 de março, no décimo oitavo ano de Tibério César, durante o consulado de Rufo e Rubélio].”
A interpolação é clara, e é um fato admitido por Funk, Bonwetsch, etc. Os nomes dos cônsules [os quais deviam ser Fúfio e Rubélio] estão equivocados; Cristo vive trinta e três anos; no genuíno de Hipólito, trinta e um; estes minuciosos dados não têm nada em comum com os do milenarista Severiano; além disso, é pouco crível que Hipólito conhecesse estes detalhes, quando seus contemporâneos (Clemente, Tertuliano, etc.), ao tratar deste tema, o ignoram ou guardam silêncio; ou que, depois de tê-lo publicado, continuasse sem tais anotações (Kellner, op. cit., pág. 104, tem um excurso sobre esta passagem).
Santo Ambrósio (de virg., III, 1, em P.L., XVI, 219) preservou um sermão pregado pelo Papa Libério I em São Pedro, quando, no dia de Natalis Christi, Marcelina, a irmã de Ambrósio, tomou o véu. O pontificado deste Papa foi de maio de 352 até 366, excetuando os anos 355–357, época em que esteve desterrado. Se Marcelina se fez monja depois da idade canônica —vinte e cinco anos— e se Ambrósio nasceu no ano 340, o mais provável é que este fato tenha ocorrido depois de 357. Ainda que o sermão abunde em referências apropriadas para a Epifania (as bodas de Caná, a multiplicação dos pães, etc.), isto se deve aparentemente a (Kellner, op. cit., pág. 109) uma ordem em seu pensamento, e não ao fato de ter sido pronunciado no dia 6 de janeiro, uma festa que só foi conhecida em Roma bastante depois. No entanto, Usener defende (pág. 272) a teoria de que Libério o pregou nessa data, em 353, instituindo a festa da Natividade em dezembro desse mesmo ano; mas Filocálio justifica nossa suposição de que esta festa antecedeu o seu pontificado por algum tempo, embora Duchesne a relegue a 243 (Bull. crit., 1890, 3, pp. 41 ss.), algo que não é muito digno de louvor.
No Ocidente, o Concílio de Saragoça (380) ainda ignora a festa do dia 25 de dezembro (ver can. XXI, 2). O Papa Sirício, escrevendo no ano 385 (P.L., XII, 1134) a Himério, na Espanha, distingue as festas do Natal e da Epifania; mas não fica claro se está se referindo ao costume romano ou espanhol. Amiano Marcelino (XXI, ii) e Zonaras (Ann., XIII, 11) datam uma visita que Juliano, o Apóstata, fez a uma igreja de Vienne, na Gália, durante a Epifania e a Natividade, respectivamente. A menos que sejam duas visitas, Vienne, no ano 361 d.C., combinava estas festas, embora a data exata seja duvidosa. Durante a época de Jerônimo e Agostinho, a festa de dezembro foi estabelecida, ainda que este último (Epp., II, liv, 12, em P.L., XXXIII, 200) a omita numa lista de festas de primeira importância. A partir do quarto século, os calendários do Ocidente atribuem a esta festa o dia 25 de dezembro. Em conclusão, em Roma o Natal celebrava-se no dia 25 de dezembro desde antes de 354; no Oriente, em Constantinopla, não antes de 379, a menos que sigamos Erbes e rejeitemos Gregório, caso em que diríamos que foi desde 330. Portanto, é quase universalmente aceito que a data chegou ao Oriente vinda de Roma, pelo Bósforo, durante o reavivamento antiariano, e graças aos defensores da ortodoxia. De Santi (L’Orig. delle Fest. Nat., em Civiltà Cattolica, 1907), seguindo Erbes, diz que Roma tomou a festa da Epifania do Oriente, com um claro sentido natalino, e, junto com um número crescente de Igrejas Orientais, celebrou-a no dia 25 de dezembro; depois, o Oriente e o Ocidente dividiram suas festas, deixando a Epifania no dia 6 de janeiro e o Natal no dia 25 de dezembro. A primeira hipótese continua sendo a mais aceitável.
Autor: Cyril Martindale
Fonte: Temas de história da Igreja, Blog de Infocatolica.com