Não se trata de algo que a Bíblia proíbe?
Colocando o problema em contexto
Enquanto Paul e Sandra e seus filhos saíam da igreja num domingo depois da Missa, eles pararam para cumprimentar o sacerdote:
“Obrigado pela homilia, Padre Ryan,” disse Paul. “Foi muito convincente”.
“Obrigado,” respondeu o Padre com um sorriso, “Fico contente que a tenha achado proveitosa.”
“Mudando de assunto, Padre”, Sandra aventurou-se a perguntar ao padre, “nós gostaríamos de saber se o senhor estaria livre para vir à nossa casa e jantar conosco esta semana.”
O Padre sorriu, “Claro que sim. Isso seria ótimo! Obrigado.” E combinaram um dia antes de se despedirem.
Nada nesse encontro pareceria estranho a um católico, mas muitos protestantes ficam horrorizados com isso. Muitos clamam que, quando os católicos se referem ao sacerdote como “padre”, mostram que a Igreja está contra a Bíblia, porque Jesus o proibiu: “A ninguém chameis de pai na terra, porque um só é o vosso Pai, aquele que está nos céus” (Mt 23,9).
Em seu ensaio 10 Razões pelas quais não sou Católico Romano, o escritor anticatólico e fundamentalista Donald Maconaghie cita essa passagem como apoio para a sua acusação de que “o papado é uma farsa.”
Bill Jackson, outro fundamentalista que dirige uma organização anticatólica em tempo integral, diz em seu livro, Guia Cristão para o Catolicismo Romano, que um “estudo de Mateus 23,9 revela que Jesus estava falando de ser chamado pai como um título de superioridade religiosa…[a qual é] a base da hierarquia [católica]” (p. 53).
Como devemos nós, católicos, responder a essas acusações?
Para entender por que a acusação não é válida, é preciso primeiro considerar o uso da palavra “pai” em referência aos nossos pais terrenos. Ninguém negaria a uma menina a oportunidade de dizer a alguém que ela ama o seu pai. O senso comum nos diz que Jesus não estava proibindo esse tipo de uso da palavra “pai”.
De fato, para proibi-lo, seria preciso tirar da palavra “Pai” o seu significado quando aplicada a Deus, porque não haveria mais a contraparte para a analogia da Paternidade divina. O conceito do papel de Deus como Pai não teria significado se destruíssemos o conceito da paternidade terrena.
Mas, na Bíblia, o conceito de paternidade não está restrito somente aos nossos pais terrenos e a Deus. É usado para referir-se a pessoas diferentes dos pais biológicos ou legais, e é usado como um sinal de respeito para com aqueles com quem temos uma relação especial.
Por exemplo, José fala a seus irmãos de uma especial relação paternal que Deus lhe deu com o rei do Egito: “Não fostes vós que me enviastes para cá, mas Deus; e ele me fez um pai para o Faraó, senhor de toda a sua casa e governador de toda a terra do Egito” (Gn 45,8).
Jó indica que ele teve um papel de paternidade para com os menos afortunados: “Eu era o pai dos pobres, e examinava a causa daquele que eu não conhecia” (Jó 29,16). E o próprio Deus declara que dará um papel de paternidade a Eliacim, o guardião da casa de Davi: “Naquele dia chamarei o meu servo Eliacim, filho de Helcias…e o vestirei com a tua túnica, e o cingirei com o teu cinto, e porei…a tua autoridade em suas mãos; e ele será um pai para os habitantes de Jerusalém e para a casa de Judá” (Is 22,20)
Esse tipo de paternidade não se aplica somente àqueles que são sábios conselheiros (como José) ou benfeitores (como Jó) ou ambos (como Eliacim); aplica-se também àqueles que têm uma relação espiritual paternal conosco. Por exemplo, Eliseu exclama, “Meu pai, meu pai!” a Elias, enquanto este é levado ao céu num redemoinho (2 Rs 2,12). Depois, o próprio Eliseu é chamado de pai pelo rei de Israel (2 Rs 6,21).
Uma mudança com o Novo Testamento?
Alguns fundamentalistas argumentam que esse uso mudou com o Novo Testamento–que, embora possa ter sido permitido chamar certos homens de “pai” no Antigo Testamento, desde o tempo de Cristo isso já não é permitido. Esse argumento falha por várias razões.
Primeiro, como vimos, o imperativo “a ninguém chameis de pai” não se aplica ao próprio pai biológico. Tampouco exclui chamar os antepassados de “pai”, como se mostra em Atos 7,2, onde Estêvão se refere a “nosso pai Abraão,” ou em Romanos 9,10, onde São Paulo fala de “nosso pai Isaac.”
Segundo, há numerosos exemplos no Novo Testamento do termo “pai” sendo usado como forma de tratamento e de referência, até para homens que não são pais biológicos de quem fala. Há, de fato, tantos usos de “pai” no Novo Testamento que a interpretação fundamentalista de Mateus 23 (e a objeção contra os católicos por chamarem os sacerdotes de “padre”) deve estar equivocada, como veremos.
Terceiro, uma análise cuidadosa do contexto de Mateus 23 mostra que Jesus não pretendeu que suas palavras fossem entendidas literalmente. A passagem completa diz assim, “Vós, porém, não vos façais chamar ‘Rabi,’ porque um só é o vosso Mestre, e vós sois todos irmãos. E a ninguém chameis de pai na terra, porque um só é o vosso Pai, aquele que está nos céus. Nem vos façais chamar de ‘mestres,’ porque um só é o vosso Mestre, o Cristo (Mt 23,8).
O primeiro problema é que, embora Jesus parecesse proibir o uso do termo “mestre”, o próprio Cristo designou certos homens para serem mestres em sua Igreja (“Ide, pois, e fazei discípulos de todas as nações…)
Os próprios fundamentalistas se contradizem nesse ponto ao chamar todo tipo de pessoas de “Doutor,” por exemplo no caso dos médicos, assim como também professores e cientistas que possuem graus de Ph.D. (isto é, doutorados). No que eles se equivocam é que “doutor” é simplesmente a palavra latina para “mestre”.
Então, o que Jesus queria dizer?
Jesus criticou os líderes judeus que amavam “os primeiros lugares nos banquetes e os primeiros assentos nas sinagogas e as saudações nas praças públicas, e ser chamados de ‘Rabi’ pelos homens (Mt 23,6).
Ele estava fazendo uma hipérbole (um exagero para ir direto ao ponto) para mostrar aos escribas e fariseus quão pecadores e orgulhosos eram por não olharem humildemente para Deus como a origem de toda autoridade e paternidade e ensino, e por se colocarem, em vez disso, como a autoridade última, figuras paternas e mestres.
Cristo usou hipérboles com frequência, por exemplo quando declarou, “Se o teu olho direito te leva a pecar, arranca-o e lança-o para longe de ti; é melhor que percas um dos teus membros do que entrares inteiro no inferno” (Mt 5,28, cf. 18,9, Mc 9,47). Cristo certamente não pretendeu que isso fosse aplicado literalmente, porque, de outra maneira, todos nós, cristãos, estaríamos privados da vista! (cf. 1 Jo 1,8; 1 Tm 1,15). Todos nós estamos sujeitos à concupiscência da carne e à concupiscência dos olhos e à soberba da vida” (1 Jo 2,16).
Usando palavras fortes, como frequentemente fazia, Jesus condenou o mau uso da autoridade mais do que o uso de certos termos de posição. Ao referir-se ao termo “pai”, Jesus está nos proibindo de confundir qualquer relação de paternidade humana com a Paternidade espiritual que só Deus possui. Não devemos esquecer que estamos sujeitos à autoridade de Deus-Ele é nosso Mestre e Professor e Pai. É por isso que, quando nos referimos aos sacerdotes como “padres”, devemos sempre fazê-lo reconhecendo que Deus é o nosso verdadeiro Pai.
Os apóstolos nos mostram o caminho
A prática ancestral cristã de chamar os sacerdotes de “padres” remonta ao tempo dos apóstolos, e a teologia por trás dela é evidente na Escritura. Durante o julgamento diante do Sinédrio—o conselho maior dos judeus, formado pelos sacerdotes e pelos anciãos—o primeiro mártir cristão, Estêvão, refere-se a eles como “irmãos e pais” (At 7,24).
Essa é uma passagem chave a considerar, pois as Escrituras nos dizem que Estêvão estava cheio do Espírito Santo e falou essas palavras sob a inspiração do Espírito Santo (cf. At 7,55). Não há como o Espírito Santo poderia ter inspirado Estêvão a referir-se aos sacerdotes judeus como “pais” se Cristo tivesse de fato proibido literalmente os cristãos de chamar os homens por esse título. Se assim fosse, teria de haver uma contradição direta entre a ordem de Cristo e a ação do Espírito Santo.
O Novo Testamento está cheio de exemplos e de referências a relações espirituais de pai e filho e de pai e filhinho. Muitas pessoas não têm consciência de quão comuns elas são, por isso vale a pena citar algumas aqui.
Paulo regularmente se referia a Timóteo como seu filho: “Por isso vos enviei Timóteo, meu amado e fiel filho no Senhor: misericórdia e paz da parte de Deus Pai e de Jesus Cristo nosso Senhor” (1 Tm 1,2), “A Timóteo, meu filho amado: graça, misericórdia e paz da parte de Deus Pai e de Jesus Cristo nosso Senhor” (2 Tm 1,2).
Ele também se referiu a Timóteo como seu filho: “Esta recomendação te confio, Timóteo, meu filho, de acordo com as profecias antes feitas a teu respeito…” (1 Tm 1,18), “Tu, pois, meu filho, sê forte na graça de Jesus Cristo” (2 Tm 2,1), “Mas do mérito de Timóteo vós sabeis: como um filho ao lado do pai, ele serviu comigo no evangelho” (Fl 2,22).
Paulo também se referiu a outros de seus convertidos desta maneira: “A Tito, meu verdadeiro filho em uma fé comum: graça e paz da parte de Deus Pai e de Jesus Cristo nosso Salvador” (Tt 1,4), “rogo-te pelo meu filho Onésimo, que gerei nas prisões” (Fm 10). Claramente, nenhum desses homens era literalmente filho biológico. Pelo contrário, Paulo está enfatizando a sua paternidade espiritual para com eles.
Paternidade Espiritual
Talvez a referência mais marcante no Antigo Testamento sobre a teologia da paternidade espiritual dos sacerdotes seja a declaração de Paulo, “Não vos escrevo isto para vos envergonhar, mas para vos admoestar como meus filhos amados. Ainda que tivésseis dez mil pedagogos em Cristo, não teríeis muitos pais, pois fui eu que vos gerei em Cristo Jesus, pelo evangelho” (1 Cor 4,14-15).
Pedro seguiu o mesmo costume, referindo-se a Marcos como seu filho: “A igreja que está na Babilônia, igualmente escolhida, vos saúda; e também o meu filho Marcos” (1 Pd 5,13). Os apóstolos algumas vezes se referiram a igrejas inteiras sob o seu cuidado como seus filhos. Paulo escreve, “Eis que pela terceira vez estou pronto para ir ter convosco. E não vos serei pesado, porque não busco o que é vosso, mas a vós; pois não são os filhos que devem entesourar para os pais, mas os pais para os filhos” (2 Cor 12,14); e, “Meus filhinhos, por quem de novo sinto as dores do parto, até que Cristo seja formado em vós!” (Gl 4,19).
João disse, “Filhinhos meus, escrevo-vos isto para que não pequeis; mas, se alguém pecar, temos um advogado junto do Pai, Jesus Cristo, o Justo” (1 Jo 2,1), “Não tenho maior alegria do que esta: ouvir que os meus filhos caminham na verdade” (3 Jo 4). De fato, João também se referia a homens das primeiras comunidades como “pais” (1 Jo 2,13).
Ao referir-se a essas pessoas como “filhos” espirituais, Pedro, Paulo e João implicitamente se apresentam como seus “pais” espirituais. Porque a Bíblia frequentemente fala dessa paternidade espiritual, nós, católicos, a reconhecemos e mantemos o costume de chamar os sacerdotes de “padres”. Não reconhecer isso é, de fato, deixar de reconhecer e honrar um grande dom que Deus deu na Igreja: a paternidade espiritual do sacerdócio”
Os católicos têm um afeto filial pelos padres e os chamam de “padre”, sabendo que, como membros de suas paróquias, estão confiados ao seu cuidado espiritual e têm com eles uma relação filial. Os sacerdotes, por outro lado, seguem os exemplos bíblicos dos apóstolos ao referir-se aos membros de sua congregação como “meu filho” ou “meu filhinho” (cf. Gl 4,19, 1 Tm 1,18, 2 Tm 2,1, Fm 10, 1 Pd 5,13, 1 Jo 2,1, 3 Jo 4).
Autor: Steve Ray.
Fonte:Catholic-convert.com
Tradutor: Roberto Linares.