Encontra-se em Roma a tumba de São Pedro

No dia dois de setembro desapareceu a grande arqueóloga que descobriu em Roma a tumba e os ossos de São Pedro, confirmando assim os dados da tradição. Há um ano morria Federico Zeri, historiador da arte que estava entre os mais autorizados do mundo. Recordamo-los publicando suas intervenções, inéditas, numa conferência no Centro Cultural de Milão em 1990.

“Margherita Guarducci é uma ponta de diamante”. Assim a definiu certa vez Federico Zeri, contrapondo-a aos estudiosos, filólogos e arqueólogos que pertencem a outro tipo de pessoas: aqueles que submetem o próprio credo às intrigas acadêmicas, às conveniências ideológicas, ao comércio dos cargos e da clientela. “Não é crente em sentido estrito, mas ama o valor da verdade”. Assim, Margherita Guarducci correspondia, à distância, às considerações de Zeri, sem que um e outra soubessem que professavam estima recíproca. Entre os dois havia certa sintonia, mas talvez por discrição a demonstravam sem ostentação. Trabalhavam em diferentes âmbitos da cultura; Guarducci, insigne epigrafista, havia treinado Zeri na leitura das lápides de sua coleção. Zeri, como historiador da arte, havia defendido vigorosamente a senhorita Guarducci no que se refere à estátua de bronze do século VII de São Pedro no Vaticano, que outros haviam atribuído ao escultor do século XIII Arnolfo di Cambio.

Assim, de púlpitos distantes, e contudo muito sólidos, os dois haviam estabelecido uma aliança, de caráter inoxidável, que lhes assegurava prudência e se mostrava vencedora. Uma espécie de conjunção solidária na denúncia da mesquinhez do pequeno mundo dos filólogos sufocados na estreiteza de suas especializações, alheios a qualquer anseio ideal. Se esta missão, em Guarducci, extraía seu vigor do compromisso de defender, também através da cultura, a tradição da Igreja, no leigo Zeri se traduzia na investigação mais densa e variada possível dos estímulos culturais que pudessem contribuir para compreender o sentido da vida.

(Marco Bona Castellotti)

MARGHERITA GUARDUCCI

MARGHERITA GUARDUCCI

 

 

 

 

O que diz, há séculos, a tradição da Igreja? Diz que Pedro, o pescador da Galileia, que o próprio Cristo considerava protos, o primeiro de seus discípulos, o príncipe dos apóstolos naquele momento, veio a Roma para pregar a boa nova; em Roma morreu mártir sob Nero, no ano 64, no Circo Vaticano; foi sepultado a pouca distância do lugar do martírio e, sobre sua tumba, no começo do século IV, o imperador Constantino mandou construir a grande basílica vaticana.

Esta tradição secular da Igreja começou, a partir de certo momento, a suscitar dissensões por parte dos adversários da Igreja, e os dissidentes chegaram ao ponto de alguns se crerem obrigados a dizer, contra toda veracidade histórica, que Pedro nunca tinha ido a Roma, para poder negar assim a presença da tumba de Pedro no Vaticano. Isto é de suprema importância, pois dizer tumba de São Pedro em Roma, no Vaticano, significa, em certo sentido, dizer primado da Igreja de Roma.

É necessário chegar a Pio XII, homem de altíssimo engenho, de grande cultura, de enorme humanidade e dotado de espírito verdadeiramente previdente. Logo que foi eleito Papa, em 1939, quis abrir à ciência os subterrâneos da basílica vaticana e buscar resposta à pergunta centenária.

As escavações começaram e duraram até 1949. Foram escavações estranhas, nas quais muitos achados foram destruídos e se cometeram coisas quase inauditas.

Altares como “matrioskas”*

Encontraram uma necrópole, um antigo e vasto cemitério, que se estendia de leste a oeste, paralelo ao Circo de Nero, o mesmo circo em que Pedro havia sofrido o martírio. Esta grande necrópole estava repleta de terra, porque Constantino, ou alguém em seu nome (o papa Silvestre foi seu grande conselheiro), queria construir a base sobre a qual se deveria fundar a primeira basílica em honra de Pedro.

O que encontraram sob o altar papal? Uma sucessão de monumentos e de altares: uns debaixo dos outros, uns dentro dos outros. Isto significava que aquele lugar, o lugar da confissão, havia sido já havia muito tempo, desde séculos atrás, objeto do culto a Pedro. Debaixo do altar papal, que é o atual altar de Clemente VIII (1594), encontrou-se um anterior, o de Calisto II (1123); dentro do altar de Calisto II, encontrou-se o altar de Gregório Magno (590-604); o altar de Gregório Magno, por sua vez, apoiava-se sobre o monumento que Constantino, ainda antes de construir a basílica, mandara erigir sobre o lugar da tumba de Pedro, e este monumento constantiniano pode ser datado entre 321 e 326. O monumento de Constantino compreendia outro mais antigo, que remontava ao século II, o primeiro monumento a Pedro. Depois, o que foi incluído? Incluiu-se uma parte de um pequeno edifício que se encontrava encostado a um muro revestido de vermelho que servia de fundo ao primeiro monumento de Pedro. Neste pequeno edifício havia um muro coberto de símbolos e de antigas inscrições (naturalmente anteriores ao monumento de Constantino, já que foram incluídas dentro dele), cobertas de epígrafes que indicavam, por sua abundância, a imensa devoção dos fiéis. Depois, atrás disso, vê-se que o primeiro monumento de São Pedro tinha no pavimento uma tampa, a qual indicava a presença de uma antiga tumba na terra, sobre a qual se haviam sobreposto todos esses monumentos. Debaixo desta tampa, infelizmente, não havia nada. Encontrou-se a terra devastada e vazia.

Mensagem de rádio revolucionária

Pio XIIEste era o estado das coisas quando terminaram as escavações de 1940-49. Pio XII, em sua mensagem de rádio do Natal de 1950, notificou ao mundo o ocorrido nas escavações e disse que se havia encontrado a tumba de Pedro.

Comecei a ocupar-me das escavações de São Pedro depois de terem terminado e de se publicar a relação em 1952.

Um dos escavadores havia publicado, embora não corretamente, uma das epígrafes que se encontrara no lugar onde estava o muro coberto de inscrições do qual falei antes.

Eu já havia tido ocasião de ver uma das epígrafes, na qual intuía a leitura “Petros eni” (“eni” no sentido de “enesti”: Pedro está dentro).

Foi então que pedi a Pio XII para visitar as escavações, pois ninguém podia ter acesso a elas. Pio XII concedeu-me a permissão. Então comecei a procurar a inscrição, este “Petros eni”, e ela não estava, porque um dos escavadores a havia levado para casa.

Já entrado o ano de 1952, trabalhei até 1965; foram anos de trabalho muito intenso.

Comecei a estudar o muro das inscrições, que estava dentro do monumento constantiniano. Ora, este muro era uma selva selvagem, e eu desesperava da empresa; mas, com paciência, comecei a tentar decifrá-lo.

Esta tarefa durou meses. Foi uma das mais difíceis que eu havia feito. Depois, em determinado momento, agarrei o fio da meada e cheguei a compreender. Havia sido usada uma criptografia mística, isto é, brincava-se, em certo sentido, com as letras do alfabeto. Ali sobreabundava o nome de Pedro, expresso com as letras P, PE, PET, vinculado normalmente ao nome de Cristo, com o símbolo de Cristo, com a sigla de Cristo e com o nome de Maria, e sobretudo dominavam, naquele muro, as aclamações à vitória de Cristo, Pedro e Maria. Também se recordava a Trindade, Cristo, segunda pessoa da Trindade, e assim por diante. Enfim, toda a teologia do momento estava ali, exibida naquele muro.

A golpes de pilão

Depois comecei a interessar-me pelos ossos de Pedro. Num primeiro momento nem me passava pela cabeça a ideia de que um dia chegaria a encontrar os ossos de Pedro.

No entanto, enquanto ainda estava decifrando as inscrições (ainda em 1953), aproximava-me cada vez mais dos ossos de Pedro. Os ossos de Pedro estavam na tumba, na terra, sob a tampa, como sempre sustentara a tradição da Igreja. Depois, quando Constantino quis fazer o monumento em honra do Apóstolo, os ossos foram retirados da terra, envolvidos num precioso manto de púrpura e ouro e depositados neste nicho; depois, o nicho foi fechado para sempre. Sucedeu que, durante as escavações, os escavadores, querendo investigar este lugar que a tradição indicava como o lugar da sepultura de Pedro, não tiveram muitos cuidados. A golpes de pilão (um instrumento para cravar estacas no terreno duro), derrubaram o altar de Calisto II para chegar, o mais depressa possível, à tumba. E o que aconteceu? Sob os fortes golpes do pilão caiu, do interior do muro, uma quantidade de entulho, do interior e do exterior, quero dizer, do antigo muro revestido de vermelho, e tudo se derramou nesta cavidade, sobre os desgraçados ossos que Constantino havia depositado no nicho do monumento. Assim, apareceu um monte de detritos e os ossos não foram reconhecidos.

Naquele momento, o chefe da Fábrica de São Pedro era um homem inteligente, muito piedoso, muito sensível para não deixar descobertos os ossos de quem quer que fossem, cristãos ou pagãos. Monsenhor Cas (homem de confiança de Pio XII) notou que, entre os escombros do nicho, havia alguns ossos. Mandou separar os escombros, guardar os ossos dentro de uma caixa e pô-la num armário das grutas vaticanas, onde permaneceram ignorados durante dez anos.

Havia alguns ossos com fios de ouro e minúsculos pedacinhos de tecido de cor púrpura.

Um antropólogo de minha confiança, o professor Correnti, examinou o grupo de ossos da caixa e me disse: “Olhe, há algo estranho, porque todos os outros grupos que me fizeram examinar eram de diversos indivíduos; estes são de um só”. Perguntei-lhe: “De que sexo?”. Disse-me: “Masculino”. “Idade?”. “Avançada”. “Compleição?”. “Robusta”.

Não por “casualidade”

Em 1964, as investigações haviam terminado. Em 1965 saiu meu livro As relíquias de São Pedro sob a confissão da basílica vaticana, e ali começou a desencadear-se a tempestade, porque alguns, muitos de fato, estavam contentes com o resultado; outros, não. Depois de minha revisão do livro, que saiu em 1967, Paulo VI viu-se obrigado a anunciar que os ossos de Pedro haviam sido reencontrados.

Nós sabemos que Cristo fundou sua Igreja sobre a rocha de Pedro e lhe prometeu a vitória sobre as forças do mal. Ora, creio que não é simples casualidade que os ossos do príncipe dos apóstolos tenham sido — por uma exceção milagrosa — conservados e estejam precisamente dentro da basílica vaticana, isto é, no centro daquela Igreja que — por definição — é universal. Vocês sabem que catholicós significa em grego universal.

FEDERICO ZERI

Honra-me e alegra-me falar junto, e em seguida, da professora Margherita Guarducci, de quem sempre admirei tanto o saber como a integridade moral. Digo isto em voz alta. Por outro lado, é preciso que eu advirta desde já que falo como outsider, pois não sou crente.

Eu tinha uns vinte anos quando ouvi falar do início dessas escavações. Não me foi possível ter acesso a elas. E depois, à medida que foram saindo as publicações, acompanhei com extrema atenção, li e meditei aquilo que se escrevia, e posso dizer que, assim que a professora Guarducci interveio nas discussões, fiquei profundamente convencido de suas ideias. […]

Quando saíram as notícias acerca do nicho, do pequeno buraco e, por fim, o assunto dos ossos, fiquei totalmente convencido; e devo dizer isto: o que mais me persuadiu de que os ossos encontrados naquele nicho são os que a tradição atribuía a São Pedro, ou melhor, que na época de Constantino eram considerados os ossos de São Pedro, é o fato de estarem envolvidos naquele tecido do qual acabamos de ver alguns diapositivos, isto é, um tecido de púrpura (tingido com a concha que vinha da costa da Síria, da costa libanesa) e entretecido com fios de ouro. Um tecido deste gênero estava reservado exclusivamente à máxima autoridade sagrada do império, isto é, ao imperador, ao augusto; só o augusto tinha este atributo da púrpura e do ouro. Não existe absolutamente outra possibilidade: o próprio imperador devia tê-los mandado envolver naquele tecido preciosíssimo, que era o símbolo de sua autoridade e até de sua vontade. Púrpura e ouro, sobretudo na época constantiniana, são precisamente o emblema daquele que é a suma autoridade desse estado universal que era o império romano.

No entanto, depois, eu havia feito sempre outro raciocínio, que coincide com as descobertas da professora Guarducci e leva em conta a posição particular de Constantino com respeito à cidade de Roma.

A cidade de Roma era pagã, era em sua grande maioria pagã, e os cristãos, que no século III haviam tido a oportunidade de multiplicar-se atrás dos muros das grandes cidades e até de ter alguns momentos felizes, haviam sido rejeitados.

Os cristãos haviam sido totalmente o bode expiatório daquela grande reconstrução do império que Aureliano iniciou, que depois Diocleciano e Maximiano levaram adiante, e que Constantino levou a termo. […]

Na segunda metade dos anos 20 do século IV, isto é, por volta de 322-323, Constantino iniciou a construção dos grandes edifícios sagrados dedicados à religião cristã. […]

Sempre me pareceu extraordinário que, para fazer esta grande basílica, de enormes proporções (tinha cinco naves e uma grandiosidade só comparável à do Santo Sepulcro de Jerusalém. As maiores igrejas construídas por Constantino são a do Santo Sepulcro — o Martyrion, com a acrescentada Anastasis, isto é, o lugar da ressurreição —, e a grande basílica construída em Roma, na capital do império, edificada sobre a tumba de São Pedro); é algo extraordinário que, para fazer este imenso edifício caríssimo, importantíssimo, para o qual se importou mármore de todas as partes do império, para o qual foram sacrificados alguns imensos cedros do Líbano, um dos quais ainda existia no momento da demolição da basílica no início de 1500, sob Júlio II, e de fato se encontrou uma viga, dizem as fontes, cheia de ratos e outros animais, mas que trazia o selo do “Dominus Noster Costantinus Auguster”… para fazer esta basílica, Constantino havia sacrificado totalmente um edifício muito importante da Roma pagã, o Circo de Calígula no Vaticano.

Ora, sempre me pareceu que, para atrever-se a um ato tão importante e tão malvisto como mexer num circo onde havia um obelisco (que permaneceu de pé posteriormente até que Sisto V, no fim de 1500, quis levá-lo para a basílica de São Pedro); que tenha mexido neste circo, que tenha enterrado uma grande necrópole, onde havia tumbas de importantes famílias da Roma pagã; parece-me impossível que tivesse tomado esta decisão se efetivamente embaixo, no lugar onde construía esta basílica, não houvesse algo de extraordinário. Não é possível crer que, diante das críticas maliciosas dos pagãos — os quais sempre criticaram, nos primeiros séculos, a religião cristã, ou a obstaculizaram de todas as maneiras possíveis —, diante das críticas, Constantino não se desse conta de que era preciso edificar a basílica sobre algo concreto.

A meu ver, que ali estivesse a tumba de São Pedro com os ossos de São Pedro era algo notório em toda a Roma pagã, bem conhecido e irrefutável. […]

Quando apareceram as notícias das escavações e depois das pesquisas da professora Guarducci, tive a certeza de que essas pesquisas não faziam senão convalidar algo que eu, por minha conta, sempre havia pensado: que aquela era verdadeiramente a tumba de São Pedro. […]

Creio que muitas das críticas dirigidas contra as pesquisas da professora Guarducci, contra as escavações, pertencem a essa classe de crítica que não se baseia tanto nos dados de fato quanto numa espécie de preconceito ideológico. Isto é, não se deviam encontrar os ossos de São Pedro, não era preciso dizer que aquela era a tumba de São Pedro. É algo muito frequente, sobretudo quando o assunto tem a ver com religião, neste caso específico, o primado da Igreja de Roma. […]

Subscrevo plenamente tudo o que ela disse, e estou cheio de admiração pela força, pela tenacidade e pela constância com que conduziu suas indagações e chegou a suas conclusões. Posso dizer que, se eu tivesse tido de enfrentar certas maldades (porque algumas foram verdadeiramente pérfidas maldades, de uma sutileza quase diabólica), talvez tivesse cedido, teria me rendido. A professora Guarducci foi um raro exemplo de constância, integridade e dedicação absoluta à busca da verdade. Repito-vos: a professora Guarducci fala como crente; eu não sou crente. O que não me impede de expressar-lhe minha alta admiração e de subscrever até a última palavra tudo o que disse.

Fonte: Conoze.com