No presente artigo daremos conta de como a seita das Testemunhas de Jeová, ao longo de seus menos de dois séculos de existência, teve a particularidade de possuir um conjunto de doutrinas com características dinâmicas à medida que os anos avançaram desde sua fundação em 1879. Diante disso, apresentamos a seguir alguns de seus postulados contraditórios ao longo do tempo, recorrendo à sua própria história como movimento, a fontes históricas primárias (as revistas A Sentinela), às suas próprias publicações e a algumas imagens representativas.

Para uma melhor compreensão do que se quer demonstrar, enumeramos ordenadamente os temas mais polêmicos utilizados por seus pregadores:

1-O famoso tema de que “Jesus não morreu numa cruz, mas num madeiro”.

-Nas páginas 204 e 205 do texto O Que a Bíblia Realmente Ensina?, a seita afirma o seguinte:

“Primeiramente, é preciso levar em conta um fato fundamental: Jesus Cristo não morreu numa cruz. A palavra grega que costuma ser traduzida por ‘cruz’ é staurós, que significa basicamente ‘poste ou pau vertical’. Além disso, esse termo grego ‘nunca significa duas peças de madeira cruzadas em qualquer ângulo […]. No grego do [Novo Testamento] não há nada que sequer dê a entender duas peças de madeira’… É a palavra grega xýlon, que significa simplesmente ‘madeira’ e ‘lenho, bastão ou pau’ (Atos 5,30; 10,39; 13,29; Gálatas 3,13; 1 Pedro 2,24)… Durante os trezentos anos seguintes, as pessoas que afirmavam ser cristãs não utilizaram a cruz no culto. Contudo, no século IV, o imperador Constantino converteu-se do paganismo a uma forma de cristianismo apóstata. A partir desse momento promoveu a cruz como símbolo de sua religião… a cruz nada tinha a ver com Jesus Cristo”

Os membros da Watchtower, quando se encontram com algum cristão, citam os seguintes textos bíblicos que trazem literalmente a palavra “madeiro”. Entre eles são mencionados: Atos 5,30; 10,39; 13,29; Gálatas 3,13 e 1 Pedro 2,24. Nessas passagens é verdade que aparece a palavra “madeiro”, mas a ênfase desses escritos não se relaciona com a forma do objeto, e sim com o material no qual Jesus foi crucificado. Vamos passo a passo desmontando essa extravagante tese histórica das testemunhas. Dois cravos nas mãos ou um só? Eles sustentam a presença de apenas um cravo em ambos os pulsos no momento da crucifixão. Pelo contrário, a Bíblia indica que foram dois cravos, um em cada mão. Isso se confirma explicitamente em João 20,25 quando São Tomé fala de pôr os dedos em suas mãos e se fala de dois cravos, um para cada mão. O grego utilizado nesse texto diz Tain Xepov, que significa “suas mãos”, e Tón Élon, que significa “os cravos”, e não Tou Élou, que é “do cravo”. É impossível uma crucifixão com dois cravos nos dois pulsos ao mesmo tempo, pois isso não faria sentido algum.

Morte de Cristo segundo a seita.

Jesus muere en un madero

Morte de Cristo segundo os cristãos.

Jesus crucificado

Se você observar bem a imagem acima, aparecem dois cravos sustentando cada uma das mãos separadamente. A isso se alude em João 20,25 ao referir-se a “os cravos” nas “mãos”, isto é, em ambas, e não a “um cravo” em ambas as mãos. Isso fica pressuposto na explicação anterior sobre a palavra grega utilizada por São João no relato chamado da “dúvida de São Tomé”. Além disso, em Mateus 27,37 se destaca que acima da cabeça de Jesus havia uma tabuleta com a inscrição “o rei dos judeus”, e não sobre suas mãos (veja a imagem anterior).

Cristo morreu numa cruz (interseção de dois paus). A palavra em latim é crux. Ela foi empregada pelos romanos para indicar a crucifixão, e não a execução num poste vertical. Em grego, staurós significa literalmente travessão e, ao mesmo tempo, é empregado para traduzir cruz, como no inglês like, que significa “gostar” e “como” em sentido comparativo. Staurós é utilizado conforme o contexto, como like em inglês, para designar coisas diferentes usando, em ambos os casos, a mesma palavra. Em latim, pau ou poste se diz palus ou adminiculum, enquanto os romanos, ao se referirem a um “poste de tormento”, utilizavam, descritos nas atas de julgamento com condenação à morte, os termos ad palum, alligare ou in palum figere. Para eles, crux é simplesmente uma cruz comum, e não um poste. Por isso, embora os romanos empalassem alguns, outros também eram crucificados numa crux, fato que aconteceu com Cristo.

A crucifixão romana era uma estrutura formada por duas peças: um poste chamado stipites e um travessão chamado patibulum. Os pés do executado iam no poste e os braços no travessão. Assim se formava uma crux.

Poste (Stipites) Travessão (Patibulum) União das duas partes: uma Cruz

A tradição histórica romana de humilhar aquele que seria crucificado teve relação direta com o patibulum, elemento de madeira carregado pela própria pessoa que seria executada até chegar ao lugar onde se encontrava o stipites. Se Cristo carregou a crux, há duas opções: carregou apenas o travessão e foi pregado nele, depois de chegar ao lugar onde estava o poste, para posteriormente ser levantado a fim de unir ambas as peças e formar uma cruz; ou carregou a cruz completa, sem divisão de peças: travessão e poste já unidos.

Carregando apenas o Patibulum

jesus cargando el madero

Carregando a Cruz completa

Jesus cargando la cruz

Se Jesus carregou algo, fossem as peças separadas ou juntas, definitivamente foi crucificado numa cruz e não num poste. Essa é a evidência fundamental que a Bíblia nos oferece para conhecer o modo de execução mediante a crucifixão.

Finalmente, convém assinalar que Santo André Apóstolo foi crucificado na Grécia numa cruz em forma de “X”. Essa era um staurós (poste) em forma de X, isto é, uma cruz. Jesus e Santo André foram pregados em cruzes de formas diferentes, e não em postes como assegura a seita. Também há estudos médicos que enfatizam que, se Jesus tivesse sido “pendurado” como dizem as testemunhas, não poderia ter durado tanto tempo pregado e agonizando como assinala a Bíblia. Teria sido uma asfixia imediata, fato que não ocorreu.

A palavra “madeiro” aparece quatro vezes na Bíblia, em comparação com cruz, presente mais de vinte vezes. No ano de 1937, as Testemunhas de Jeová determinaram que Cristo morreu num poste e não na cruz, torcendo formas gramaticais gregas para justificar sua tese. Lamentavelmente, a seita tem sérias contradições, pois eles utilizaram a cruz durante muito tempo. O argumento posterior do poste serve apenas para se considerarem exclusivos e contrariar a Igreja Católica.

A inconsequência doutrinária das Testemunhas de Jeová.

As Testemunhas de Jeová contradisseram seu próprio fundador com essa afirmação que rejeita a cruz, considerando-a um símbolo pagão e relacionando-a com forças diabólicas.

Nesta imagem do século XIX as Testemunhas de Jeová utilizavam a Cruz

los testigos de jehova y la cruz

Cruz utilizada pelas Testemunhas de Jeová antes de 1930

Cruz de los testigos de Jehová

No livro das Testemunhas de Jeová chamado “Plano Divino das Eras”, utilizou-se a cruz. Ela também estava presente na capa de suas bíblias antes de 1930.

Foi Constantino quem impôs a cruz no século VI? Isso é falso. Séculos antes do nascimento desse imperador, a Igreja primitiva já utilizava a cruz e seu sinal ao persignar-se. Vejamos as seguintes fontes históricas:

1-São João Apóstolo, antes de sua morte, desenhou uma cruz sobre sua cabeça com a mão. São João morreu pacificamente na cidade de Éfeso por volta do terceiro ano do reinado de Trajano, isto é, por volta do ano cem da era cristã, quando tinha noventa e quatro anos de idade, de acordo com Santo Epifânio.

2-Tertuliano, por volta do ano 200, assinalou, faltando mais de 100 anos para que Constantino chegasse ao trono imperial, a importância da cruz na vida dos cristãos.

3-Nas atas de Santo Afri relata-se que, por volta do ano 300, um pagão disse a São Narciso de Gerona e a seu diácono São Félix, mártires executados durante a perseguição do imperador Diocleciano: “Sei que são cristãos, pois com frequência assinalam sua fronte com a cruz.”

Diocleciano foi um imperador que governou anos antes de Constantino o Império Romano, onde já se encontra a presença do sinal da cruz. Diante dessas evidências históricas, a Watchtower e seus membros adotam posturas negacionistas, tais como as usadas para negar acontecimentos como o holocausto nazista, o genocídio ucraniano e a existência de detidos desaparecidos.

2-As datas equivocadas do Fim dos Tempos e sua posterior negação.

-Nas páginas 73 a 85 do texto O Que a Bíblia Realmente Ensina?, a seita afirma duas coisas. Em primeiro lugar, enfatiza que há duas ressurreições: uma celestial e outra na Terra; e, em segundo lugar, que no ano de 1914 Jesus foi coroado para governar de forma invisível a partir dos céus.

Ponto um: Não há duas ressurreições; há apenas uma. A ressurreição do último dia será igual para todos, sejam salvos ou condenados (João 5,28-29; Daniel 12,2). Para os católicos há uma primeira ressurreição, que é o batismo (Romanos 6,1-11; Apocalipse 20,5), onde “somos sepultados e morremos” para nossa vida de pecado e entramos na graça da Igreja Santa. Na Epístola de Barnabé, escrita por volta do ano 70, utiliza-se o batismo como sepultamento e ressurreição. A seita interpreta essa primeira ressurreição como se fosse no último dia, quando São Paulo em Romanos diz exatamente o contrário.

Ponto dois: De onde tiraram que Jesus governa desde 1914? Isso vem de um batista chamado William Miller, que fez cálculos falhos sobre o dia em que ocorreria a Segunda Vinda de Cristo ao mundo. Como nada do que foi prognosticado aconteceu, Miller arrependeu-se de sua dedução e morreu como batista. Mas foram as testemunhas que voltaram a assumir seus postulados, além de adaptá-los com o objetivo de validar suas posições teológicas sobre o tema. Convém assinalar que a Bíblia jamais fala do ano 1914, de forma literal como as seitas gostam quando lhes convém, mas diz: “Toda autoridade me foi dada no céu e na terra” (Mateus 28,18), e também diz que o Reino de Deus já está entre nós (Lucas 17,20-21), e não que era preciso esperar até 1914.

O que pensavam as testemunhas sobre 1914? Em certo momento disseram que seria o Fim dos Tempos. Esse fim nunca chegou e, como consequência, mudaram sua posição. Como sabemos que contradisseram essas coisas? Vejamos o que a Watchtower apresentou em sua propaganda:

The Watchtower, 1 de março de 1923, página 67. Desde 1874 começou a presença do senhor.

The Watchtower, 1 de janeiro de 1924. Jesus está presente reinando desde 1874. (Depois afirmaram que isso ocorreu em 1914).

1914: Charles T. Russell, fundador da seita, disse que em 1914 o Mundo terminaria. Naquele ano estourou a Primeira Guerra Mundial, mas não foi o fim.

No livro “O tempo está próximo”, de 1908, nas páginas 76 e 78, Russell, líder da seita, afirma: neste capítulo são apresentadas as provas bíblicas demonstrando que se alcançará o total final do tempo dos gentios, isto é, o fim completo do domínio de ocupação, no ano de 1914; e que essa data verá a desintegração do governo dos homens imperfeitos… está demonstrado nas Escrituras… Jesus estabelecerá sobre as ruínas seu reino terreno. Chegou a data tão esperada e absolutamente nada aconteceu.

Millions Now Living Will Never Die, página 97. Joseph Rutherford, segundo líder da seita depois da morte de Russell, afirmou: Moisés, Abraão e outros profetas ressuscitariam e o fim do mundo chegaria em 1925. Chegou esse ano e tal ressurreição não aconteceu.

Vida Eterna na Liberdade dos Filhos de Deus (1966), páginas 29 e 30, diz: Os seis mil anos da criação do homem terminariam em 1975. Absolutamente nada aconteceu em 1975.

O que fazem as Testemunhas de Jeová quando alguém lhes diz isso? Negam. Felizmente, todos esses arquivos estão disponíveis nas bibliotecas nacionais dos respectivos países onde existem cópias do original. Ali estão as provas. Em Mateus 24,36 Cristo afirma que ninguém sabe o dia nem a hora do fim.

3-Sobre a transfusão de sangue.

-Nas páginas 129 a 133 do texto O Que a Bíblia Realmente Ensina?, a seita diz que não se deve fazer transfusões de sangue e cita Gênesis 1,29; 9,3, Levítico 17,13-14, Atos 15,28, entre outros. O erro aqui está em que as testemunhas confundem, como outras seitas evangélicas, o fato de que a História da salvação está dividida em duas alianças: a Antiga Aliança, realizada com o Povo de Deus que são os judeus, e a Nova Aliança Eterna, que corresponde ao Novo Povo de Deus encarnado através da Igreja.

A seita toma citações de coisas estabelecidas na Antiga Aliança, como o tema do sangue de animais e outros. Então por que não se circuncidam, se isso aparece na Bíblia em Gênesis 17,1-14? Sai na Bíblia! Como diriam eles quando retificam uma de suas doutrinas erradas.

Na página 132 do texto mencionado, afirma-se que a Lei mosaica mostrou com clareza qual é o único uso apropriado do sangue. A Lei mosaica não é válida para os cristãos, mas sim a lei em Cristo (João 15,12-14). Além disso, São Paulo assinala constantemente que as “obras da Lei judaica” já não servem para nada (Gálatas 2,16). As obras em Cristo são válidas para os cristãos, mas não as obras da Lei. Estas foram a “sombra do que havia de vir” (Colossenses 2,16-17). Os cristãos não têm de obedecer à Lei mosaica, mas à Lei em Cristo.

O que pensaram as Testemunhas de Jeová sobre as transfusões de sangue em seu passado, que hoje a seita oculta?

Foi somente em 1952 que o ex-presidente das Testemunhas de Jeová, Nathan H. Knorr, decretou que as transfusões de sangue não eram corretas. O fundador da seita não acreditou nessa doutrina porque morreu décadas antes. O que está acontecendo com a seita? Questione.

4-Quando as Testemunhas de Jeová celebravam o Natal.

-As testemunhas ensinam que não se deve celebrar a festa do Natal, cuja origem seria pagã e diabólica. O que aconteceu com a seita em determinado tempo? Celebraram o Natal durante anos.

Charles T. Russell, o fundador da seita, celebrou o Natal com as testemunhas. Aqui apresentamos um convite de 1916 no qual as Testemunhas de Jeová desejam um feliz Natal. (Observe que aparece a assinatura do criador da seita).

A Sentinela de 15 de fevereiro de 1919, número 23, páginas 63 e 93. Nossos irmãos… desejamos-lhes um feliz Natal… levaram-lhes presentes que eram mercadorias.
Foto das Testemunhas de Jeová celebrando o Natal em 1926.

Em Watchtower, 1 de dezembro de 1904, página 364, a seita declarou que o Natal era um grande acontecimento para os cristãos e que era necessário levar em conta essa data como o aniversário de Jesus. Depois, como vimos constantemente neste escrito, mudaram sua doutrina dizendo em Watchtower, 15 de dezembro de 1983, página 7, que o Natal é um “horror” e que essa celebração provém do próprio Satanás. Por isso hoje a seita não celebra o Natal.

O criador da seita celebrou o Natal e quarenta anos depois o contradizem? Falsos profetas, meus irmãos.

Neste breve artigo apresentamos as principais contradições doutrinárias que as Testemunhas de Jeová possuem. Temas como o Natal ou a afirmação de que “Jesus não morreu numa cruz” não fizeram parte de seus planteamentos durante anos. Basta ver as evidências históricas para perceber que se trata de um grupo que vive em contradições, cujas doutrinas fazem parte de uma dinâmica de “causa-erro-negação”. O lamentável é que, quando alguém lhes apresenta esses argumentos, nada fazem senão negar seu passado, embora as fontes históricas estejam ali, deixando de lado o estudo, o debate e a honestidade intelectual.

Pergunto: Napoleão cruzou ou não os Alpes? Basta ver os escritos da época para sabê-lo.

Bênçãos.

21 de maio de 2011

Autor: Andrés Morasso. Licenciado em História