A razão mais sublime da dignidade do homem consiste na sua vocação à união com Deus. É desde o começo da sua existência que o homem é convidado a dialogar com Deus: pois, se existe, é só porque, criado por Deus por amor, é por Ele por amor constantemente conservado; nem pode viver plenamente segundo a verdade, se não reconhecer livremente esse amor e se entregar ao seu Criador. Porém, muitos dos nossos contemporâneos não atendem a esta íntima e vital ligação a Deus, ou até a rejeitam explicitamente; de tal maneira que o ateísmo deve ser considerado entre os factos mais graves do tempo actual e submetido a atento exame.
(GS, 19)
É certo que, em nosso tempo, se difundiu o fenômeno do ateísmo, especialmente nos países dominados pelo marxismo, como consequência da perseguição sistemática à religião, mas também nos países de liberdades democráticas e desenvolvimento econômico.
Ateu é uma palavra que significa sem Deus. Podem-se distinguir duas classes de ateus: uns, chamados ateus práticos, vivem de fato como se Deus não existisse, sem levantar maiores problemas; outros, ao contrário, pretendem argumentar, de diversas maneiras, que não é razoável crer em Deus: são chamados ateus teóricos. O Concílio Vaticano II o expressa assim: “Porém, muitos dos nossos contemporâneos não atendem a esta íntima e vital ligação a Deus, ou até a rejeitam explicitamente” (GS, 19).
Acrescenta o Concílio: “Sem dúvida que não estão imunes de culpa todos aqueles que procuram voluntariamente expulsar Deus do seu coração e evitar os problemas religiosos, não seguindo o ditame da própria consciência” (ibid.).
O ateísmo moderno apresenta muitas vezes uma forma sistemática, a qual, prescindindo de outros motivos, leva o desejo de autonomia do homem a um tal grau que constitui um obstáculo a qualquer dependência com relação a Deus. Os que professam tal ateísmo, pretendem que a liberdade consiste em ser o homem o seu próprio fim, autor único e demiurgo da sua história; e pensam que isso é incompatível com o reconhecimento de um Senhor, autor e fim de todas as coisas.
(GS, 20)
Uma das formas de ateísmo que mais influenciou nosso tempo é a elaborada por alguns pensadores, entre eles os marxistas, segundo a qual a afirmação de Deus significaria a “alienação” ou negação do homem. Explicam-no dizendo que, se o homem deve viver em função de outro ser (Deus), não viverá para si mesmo. A isso chamam “alienar-se” ou “enajenar-se”, isto é, tornar-se alheio e estranho a si mesmo. Por isso consideram que, para afirmar o homem, é preciso suprimir Deus. Tirado Deus, “o homem é Deus para o homem” e não deve viver em função desse outro, distinto dele.
Essa doutrina perde de vista algo tão evidente como o fato de que o homem é um ser limitado, imperfeito. E, mais ainda, esquece que o Deus de que fala a religião é um ser que nada necessita do homem. É exatamente o contrário de um mau senhor que tratasse cruelmente seus escravos. É precisamente Amor, Bondade, e nada fez senão mostrar com obras seu amor pelo homem. A Criação já é uma obra de seu amor.
A experiência demonstrou que essas doutrinas não conduzem precisamente à defesa do homem, que era o que pretendiam, mas à sua destruição, que era o que criticavam. O amor e o respeito a Deus fizeram os homens, durante tantos séculos, dominar suas tendências mais baixas e cruéis. A falta de religião nos mostra todos os dias a ausência de escrúpulos diante dos atos mais vis.
O homem crente, longe de “alienar-se”, enriquece-se e torna-se mais fiel a si mesmo quando vive religado a Deus. E Deus lhe oferece como meta dar-se por completo na vida futura, tão real quanto a presente.
“Diz o insensato no seu coração: Não há Deus!”
Autor: Pe. Dr. Enrique Cases
Fonte: Encuentra.com