Outros há que nem sequer abordam o problema de Deus: parecem alheios a qualquer inquietação religiosa e não percebem por que se devem ainda preocupar com a religião.
(GS, 19)
Além do ateísmo, certamente se deu nos últimos tempos um fenômeno que podemos chamar de indiferentismo religioso.
É a atitude daqueles que prescindem por completo do tema religioso. Esta atitude, que é possível, não é fácil que dure se o homem cultiva os valores humanos mais importantes. É difícil encontrar motivos para agir retamente se não se tem um sentido transcendente da vida, isto é, se não se considera que as próprias ações valem diante de Alguém, que não são os demais.
Outra coisa é não crer numa determinada Igreja ou confissão religiosa; não praticar certos ritos religiosos, etc. Mas no coração de um homem reto há uma relação a uma ordem transcendente, a valores supremos, que estão acima do terreno. Poder-se-ia exprimir com as famosas palavras que o trágico grego Sófocles pôs na boca de Antígona:
“E eu não acreditava que teus decretos (refere-se ao tirano Creonte) tivessem tanta força a ponto de permitir que um só homem pudesse saltar por cima das leis não escritas, imutáveis, dos deuses: sua vigência não é de hoje nem de ontem, mas de sempre, e ninguém sabe quando foi que apareceram.”
A EXISTÊNCIA DE DEUS E A INTELIGÊNCIA HUMANA
Tem sido um ensinamento constante da Igreja e, portanto, dos pensadores cristãos, que o homem pode conhecer com certeza o Deus vivo e verdadeiro, pela luz natural da razão humana, por meio das coisas visíveis (cf. Concílio Vaticano I)
Com efeito, o progresso das ciências não dá razão de por que existe o mundo, qual é sua origem, quem o organizou tão admiravelmente e para quê. Alguns quiseram explicá-lo pelo acaso e pela casualidade, como se, misturando letras sem ordem nem concerto, ou pondo um macaco à máquina de escrever, pudesse resultar o Quixote, ou unindo ao acaso notas musicais pudesse surgir a Nona Sinfonia de Beethoven.
Pensadores de todos os tempos elaboraram argumentos mais ou menos simples para raciocinar a existência de Deus. Entre todos eles destacam-se as chamadas —vias— de São Tomás de Aquino.
As vias de São Tomás partem de um fato de experiência; aplicam o princípio de que tudo o que surge há de ter uma causa proporcionada; esta causa, por sua vez, deve ter sido causada por outra; esta série de causas não pode ser infinita; logo, deve-se admitir uma primeira causa, não causada, que é a que chamamos Deus.
A terceira via considera que (…) na natureza encontramos coisas que podem existir ou não existir, pois vemos seres que se produzem e seres que se destroem (…) É impossível que os seres de tal condição tenham existido sempre, já que aquilo que tem possibilidade de não ser—houve um tempo em que não foi. Se todas as coisas têm a possibilidade de não ser, houve um tempo em que nenhuma existia. Se isto é verdade, tampouco deveria existir agora coisa alguma, porque o que não existe não começa a existir senão em virtude do que já existe (…) e, em consequência, agora não haveria nada, coisa evidentemente falsa. Por conseguinte, nem todos os seres são meramente possíveis (podem ser e não ser) ou contingentes, mas há de haver algum que seja necessário por si mesmo, ao qual todos nós chamamos Deus.
(São Tomás, Suma Teológica, q. 2)
Hoje, graças ao desenvolvimento das ciências, encontramo-nos diante de um fato indiscutível: Há milhares de milhões de anos o universo está se fazendo. Diante deste fato cabe uma pergunta: Faz-se a si mesmo ou é feito por outro?
O primeiro é impossível e contraditório, só explicável se se recorre à falácia de atribuir à matéria originária a capacidade de criar-se a si mesma, organizar-se por si mesma, de dar-se a si mesma a vida que antes não tinha e, o que é ainda mais ilógico, dar-se a capacidade de pensar; tudo o qual é absurdo. Só cabe a outra resposta: É feita. É feita por um Ser que existe antes de tudo.
Isto, que com nossa razão alcançamos, o povo de Israel o conheceu com certeza absoluta por um desígnio divino. A Bíblia, seu livro sagrado, começava com estas palavras: “No princípio, Deus criou o céu e a terra.” Deus existia antes do princípio de tudo.
Fonte: Encuentra.com