Qual é a verdade?

um ex-ministro protestante. Como muitos outros, percorri os caminhos que levam a Roma, pela via que se conhece como Protestantismo. Nunca imaginei que algum dia me converteria ao Catolicismo. Por temperamento e formação, sou mais um pastor do que um erudito; por isso, a história da minha conversão à Igreja Católica talvez careça dos detalhes técnicos nos quais alguns teólogos se movem e com os quais alguns leitores se deleitam. Mas espero poder explicar adequadamente por que fiz o que fiz e por que creio de todo o coração que todos os protestantes também deveriam fazê-lo.

Não vou me deter nos detalhes dos meus primeiros anos, exceto para dizer que cresci numa família tipicamente protestante, com pais bons que me deram muito carinho. Passei pela maioria das experiências que fazem parte da infância e da adolescência próprias de um americano da minha geração. Ensinaram-me a amar Jesus e a ir à igreja aos domingos.

Também consegui tropeçar nos erros tolos que muitos outros da minha geração cometiam. Mas, depois de uma temporada de rebeldia juvenil, aos vinte anos experimentei uma conversão radical a Jesus Cristo. Afastei-me dos prazeres do mundo e levei a sério a oração e o estudo bíblico. Já como jovem adulto, comprometi-me verdadeiramente com Cristo, aceitando-o como meu Senhor e Salvador, rezando para que me ajudasse a cumprir a missão que Ele tinha para mim na vida. Quanto mais eu desejava, por meio da oração e do estudo, seguir Jesus e submeter minha vida à sua vontade, mais sentia o ardente desejo de dedicar minha vida inteira a servi-lo.

Gradualmente, do mesmo modo que os primeiros raios da aurora aparecem no horizonte escuro, começou a crescer em mim a convicção de que o Senhor me estava chamando a ser ministro. Essa convicção tornou-se cada vez mais forte enquanto eu estava na universidade e, mais tarde, durante meu trabalho como engenheiro. Não pude ignorar por muito tempo esse chamado do Senhor; estava convencido de que o Senhor queria que eu me fizesse ministro. Deixei meu trabalho e entrei no seminário teológico de Gordon-Conwell, num subúrbio de Boston. Obtive o doutorado em Divindade e, pouco depois, fui ordenado ministro protestante. Meu filho Jon Marc, de seis anos, havia recentemente memorizado o juramento do clube dos Meninos Escoteiros: “prometo fazer todo o melhor que puder no meu serviço a Deus e aos homens”. Este honesto voto infantil resume em detalhe as minhas próprias razões para abandonar a carreira de engenharia e poder servir ao Senhor totalmente dedicado somente ao ministério.

Levei muito a sério minhas novas obrigações pastorais e desejava cumpri-las correta e fielmente, para que, no fim da minha vida, quando me encontrasse face a face com Deus, pudesse ouvi-lo dizer-me estas importantes palavras: “muito bem, servo bom e fiel”. Enquanto me adaptava à nova vida, bastante cômoda, de um ministro protestante, senti-me feliz comigo mesmo e com Deus. Finalmente senti que havia chegado! Mas não havia chegado! Muito em breve me vi diante de uma multidão de perguntas confusas de teologia e administração. Tinha dilemas de exegese sobre como interpretar corretamente uma difícil passagem bíblica e também sobre decisões litúrgicas que podiam facilmente dividir a congregação. Meus estudos no seminário não me haviam preparado adequadamente para responder a questões tão diversas.

A única coisa que eu desejava era ser um bom pastor, mas não conseguia encontrar respostas consistentes às minhas perguntas, nem às dos meus companheiros e amigos pastores; tampouco nos livros de “como fazer” que estavam na minha estante, nem nos líderes da minha denominação presbiteriana. Dava a impressão de que se esperava que cada pastor tivesse sua própria opinião nesses assuntos. Essa mentalidade de “reinvente a roda tantas vezes quantas precisar”, que é o coração do caráter pastoral do protestantismo, perturbava-me profundamente. Por que eu teria de reinventar a roda?, perguntava a mim mesmo com irritação. O que teria acontecido com os ministros dos séculos passados que enfrentaram os mesmos dilemas? O que fizeram eles?

A emancipação do protestantismo das leis e mandatos de Roma, “feitos pelo homem, que por séculos ‘amarraram’ os cristãos” (é claro que foi assim que nos ensinaram no seminário a ver o triunfo da Reforma sobre o romanismo), começava a parecer mais uma anarquia do que uma genuína liberdade. Nunca recebia as respostas de que necessitava, apesar de orar constantemente pedindo direção. Sentia que havia esgotado meus recursos e não sabia a quem recorrer. Ironicamente, esse sentimento de frustração, de estar sem respostas, foi providencial. Preparou-me para estar aberto às respostas oferecidas pela Igreja Católica.

Estou certo de que, se tivesse sentido que possuía todas as respostas, não teria estado disposto ou inclinado a investigar as coisas num nível mais profundo.

Uma brecha em minha defesa

Na antiguidade, as cidades eram construídas no alto de um monte e cercadas de grossas muralhas, que protegiam os habitantes dos invasores. Quando um exército invasor cercava uma cidade, como o exército de Nabucodonosor cercou Jerusalém (2 Reis 25,1-7), os habitantes estavam seguros enquanto tinham água e comida, e enquanto as muralhas podiam resistir ao violento ataque lançado pelas catapultas e pelas picaretas dos sapadores. Mas, se uma brecha se abria na muralha, a cidade estava perdida. Minha abertura para considerar as posições da Igreja Católica começou como resultado de uma brecha na muralha da teologia da Reforma Protestante que circundava minha alma. Por quase quarenta anos trabalhei para construir a muralha pedra por pedra, para proteger minhas convicções protestantes. As pedras eram feitas das minhas experiências pessoais, da educação do seminário, das relações com outros protestantes e dos meus êxitos e fracassos no ministério. A argamassa que cimentou as pedras em seu lugar foram minha fé e minha filosofia protestantes. Minha muralha era alta e grossa, e eu pensava que era impenetrável a qualquer força invasora. Mas, quando a argamassa se desfez e as pedras começaram a mover-se e escorregar — no início imperceptivelmente, mas depois com uma rapidez alarmante —, comecei a preocupar-me.

Esforcei-me para discernir a razão da crescente falta de confiança nas doutrinas protestantes. Não estava certo de que buscasse substituir minhas crenças calvinistas, mas sabia que minha teologia não era invencível. Li mais livros e consultei teólogos num esforço de remendar a muralha, mas não fiz nenhum progresso. Frequentemente refletia sobre Provérbios 3,5-6: “Confia no Senhor de todo o teu coração e não te apoies em tua própria inteligência. Pensa nele em todos os teus caminhos, e ele aplainará tuas veredas”. Essa exortação me perseguia e, ao mesmo tempo, me consolava, enquanto eu lutava com a confusão doutrinal e o caos processual do protestantismo. Os reformadores foram os campeões da ideia da interpretação privada da Bíblia pelo indivíduo, uma posição com a qual comecei a me sentir cada vez mais incomodado, à luz de Provérbios 3,5-6. Os crentes bíblico-protestantes dizem seguir os ensinamentos dessa passagem buscando a orientação de Deus.

O problema é que há milhares de caminhos doutrinais pelos quais os protestantes sentem que o Senhor lhes está ensinando a viajar. E essas doutrinas variam amplamente de acordo com a denominação. Lutei com perguntas como: como posso saber qual é a vontade de Deus para a minha vida e para o povo da minha congregação? Como posso estar seguro de que estou pregando o correto? Como sei qual é a verdade? À luz da mutilação doutrinal que existe no protestantismo, onde cada denominação delimita por si mesma a doutrina com base na interpretação do homem que a fundou, o critério de que os protestantes se vangloriam — “eu só creio no que a Bíblia diz” — começava a soar vazio. Eu prometi que olharia somente para a Bíblia para buscar a verdade, mas as doutrinas reformadas que herdei de João Calvino, John Knox e dos puritanos chocavam-se em muitos aspectos com as sustentadas por meus amigos luteranos, batistas e anglicanos. No Evangelho, Jesus explica o que significa ser um verdadeiro discípulo (Mateus 19,16-23). É mais do que ler a Bíblia, ou ter o nome na lista dos membros de uma igreja, ou assistir regularmente ao culto de domingo, ou mesmo fazer uma simples oração para aceitar Jesus como Senhor e Salvador.

Essas coisas, por melhores que sejam, por si sós não nos fazem verdadeiros discípulos de Jesus. Ser discípulo de Jesus significa assumir um compromisso radical de amar e obedecer ao Senhor em cada palavra e em cada atitude, e aspirar a irradiar seu amor aos outros. Jesus diz que o verdadeiro discípulo está disposto a renunciar a tudo, até à própria vida, se necessário, para servir ao Senhor. Eu estava profundamente convencido disso e, ao mesmo tempo que procurava praticá-lo em minha própria vida (nem sempre com êxito), também fazia todo o possível para convencer minha congregação de que esse chamado ao discipulado não é uma opção: é algo a que todos os cristãos têm de aspirar. O irônico era que minha teologia protestante me tornava impotente para chamá-los a um discipulado radical, e a eles os tornava impotentes para ouvir e seguir o chamado. Alguém poderia perguntar-se: se tudo o que se requer para ser salvo é confessar com os lábios que Jesus é o Senhor e crer no coração que Deus o ressuscitou dentre os mortos (Romanos 10,9), por que eu deveria mudar? Sim, certamente eu deveria mudar meus caminhos pecaminosos. Deveria aspirar a agradar a Deus. Mas, se não o faço, isso realmente importa? Afinal de contas, minha salvação está assegurada.

Há uma história sobre um repórter da cidade de Nova York que desejava escrever um artigo sobre o que as pessoas achavam ser a descoberta mais incrível do século XX. Lançou-se às ruas entrevistando pessoas ao acaso e recebeu uma variedade de respostas: o avião, o telefone, o automóvel, o computador, a energia nuclear, as viagens espaciais, os antibióticos. As respostas seguiram nessa linha, até que um indivíduo deu uma resposta inesperada: “É óbvio. A invenção mais incrível é a garrafa térmica”. “A garrafa térmica?”, perguntou o repórter, erguendo as sobrancelhas. “Claro. As coisas quentes ela mantém quentes, e as coisas frias mantém frias — como é que ela sabe?”.

Essa anedota tem um significado para mim. Posto que minha obrigação e meu desejo eram ensinar a verdade de Cristo à minha congregação, minha crescente preocupação era: como saber qual era a verdade e qual não era? Todos os domingos eu ficava de pé no meu púlpito e interpretava a Escritura para o meu rebanho, sabendo que, num raio de quinze milhas ao redor da minha igreja, havia dezenas de pastores protestantes que criam que somente a Bíblia é a única autoridade para a doutrina e a prática, mas cada um ensinava algo diferente do que eu estava ensinando. “Minha interpretação da Escritura é a correta ou não?”, eu me perguntava. “Talvez algum desses outros pastores esteja certo, e eu esteja enganando estas pessoas que confiam em mim.” Havia também a certeza (que me revirava o estômago) de que um dia eu teria de morrer e comparecer diante do Senhor Jesus Cristo, o Juiz Eterno, e responder não somente por minhas ações, mas também pelo modo como dirigi as pessoas que ele me havia dado para pastorear. Estou pregando a verdade ou o erro? Perguntava ao Senhor repetidamente: “eu creio que estou certo”, mas como ter certeza? Esse dilema me perseguia.

Comecei a questionar cada aspecto do meu ministério, da teologia e da Reforma, das coisas mais insignificantes às mais importantes. Agora olho para o passado com certo humor envergonhado ao ver como lutava duramente naqueles dias de prova e incerteza. Cheguei a um ponto em que lutei até com a dúvida sobre se deveria ou não usar colarinho clerical. Como não há uma forma obrigatória de vestir-se para os ministros presbiterianos, alguns usam colarinho clerical, outros ternos, outros túnicas e outros uma combinação de tudo isso. Um ministro amigo meu guardava um colarinho clerical no porta-luvas do carro, apenas para usá-lo caso em algum momento pudesse trazer-lhe alguma vantagem, como evitar uma multa por excesso de velocidade. Quando ele me contou isso, com um gesto de cumplicidade, decidi não usar colarinho clerical. No culto de domingo eu usava uma simples túnica preta sobre o terno. No que se refere à forma e ao conteúdo da liturgia dominical, cada igreja tem seus próprios pontos de vista sobre como as coisas devem ser feitas, e cada pastor é livre, dentro do possível, para fazer o que quiser. Sem diretrizes denominacionais obrigatórias que me guiassem, fiz o que outros pastores estavam fazendo: improvisava. Cantos, sermões, seleção das Escrituras, participação da congregação e a administração de batismos, matrimônios e da Ceia do Senhor eram um campo aberto à experimentação.

Estremeço-me com a lembrança de um domingo em particular em que, num esforço para tornar o culto dos jovens mais interessante e relevante, pronunciei as palavras do Senhor sobre uma jarra de refrigerante e uma travessa de batatas fritas: “Isto é o meu Corpo, isto é o meu Sangue. Fazei isto em memória de mim”.

As perguntas de teologia eram as que mais me afligiam. Lembro-me de estar de pé ao lado de um leito de hospital onde estava um homem próximo da morte depois de sofrer um ataque cardíaco; sua esposa, muito nervosa, perguntou-me: “Meu marido vai para o céu?”. Hesitei alguns momentos antes de dar minha adequada resposta presbiteriana, enquanto considerava a grande variedade de alternativas que poderia dar como resposta, dependendo do que a pessoa fosse: metodista, batista, luterana, das Assembleias de Deus, nazarena, da Ciência Cristã, do Evangelho Quadrangular, testemunha de Jeová etc. etc. Tudo o que consegui foi murmurar uma espécie de resposta piedosa, mas vaga: “Devemos confiar no Senhor quanto à salvação de seu esposo”.

Aquele homem havia entregado sua vida a Cristo, havia-se regenerado e estava confiante de que era um dos eleitos de Deus. Mas era realmente? Eu estava profundamente perturbado, sabendo que, por mais honestamente que ele pensasse ter sido predestinado para o céu (é interessante que todos os que pregam a doutrina da predestinação creem firmemente que eles próprios são um dos eleitos), e por mais sinceramente que cressem nisso os que o rodeavam, ele poderia não ir para o céu. E se, secretamente, ele tivesse se desviado e caído em pecado, e estivesse vivendo em estado de rebelião contra Deus no momento em que o ataque cardíaco o pegou de surpresa?

A teologia da Reforma me dizia que, se esse fosse o caso, então o pobre homem havia sido enganado por uma falsa segurança, pensando que fora regenerado e predestinado para o céu quando, de fato, não se desviara do seu caminho para o inferno. Calvino ensinou que os eleitos de Deus têm de perseverar na graça e na eleição. Se uma pessoa morre em estado de rebelião contra Deus, demonstra que nunca foi um dos eleitos. Que espécie de segurança absoluta era essa?, eu me perguntava. Achei muito difícil dar uma resposta clara e convincente ao tipo de perguntas que me faziam meus paroquianos: “Meu marido vai para o céu?”.

Cada pastor protestante que conheço tem um conjunto de critérios que considera “necessários” para a salvação. Como calvinista, eu cria que, se alguém aceitasse publicamente Jesus como seu Senhor e Salvador, era salvo pela graça mediante a fé. Mas, apesar de ter consolado outros com essas palavras bem-intencionadas, eu estava preocupado com o estilo de vida mundano e, às vezes, amplamente pecaminoso que haviam levado alguns membros, já falecidos, da minha congregação. Depois de alguns anos de ministério, comecei a duvidar se deveria continuar.

Considera os pardais

Certa manhã, levantei-me antes do amanhecer e, pegando uma cadeira dobrável, meu diário e a Bíblia, dirigi-me a um campo muito tranquilo atrás da minha igreja. Era a hora do dia de que mais gosto, quando os pássaros cantam o despertar do mundo. Muitas vezes me maravilhei com a exuberância dos pássaros de manhã cedo. Que memória maravilhosamente pequena eles têm! Começam cada dia de sua simples existência com uma sinfonia de louvor ao Senhor que os criou, totalmente despreocupados e sem planos.

Algumas vezes penso nos pardais e medito na simplicidade de suas vidas. Sentado quietamente no campo coberto pelo amanhecer, esperando o nascer do sol, leio a Escritura e medito nas questões que me têm incomodado, pondo minhas preocupações diante do Senhor. A Bíblia me advertira de “não me apoiar no meu próprio entendimento”; por isso, estava decidido a deixar que o Senhor me guiasse. Estava considerando deixar o pastorado e via três opções. Uma era ser o líder do ministério de jovens numa grande igreja presbiteriana que me havia oferecido o cargo. Outra era deixar completamente o ministério e voltar à engenharia. A terceira possibilidade era voltar à universidade e completar minha formação científica numa área que poderia abrir-me ainda mais as portas da profissão. Eu havia sido aceito num programa de pós-graduação em Biologia Molecular na Universidade de Ohio State.

Refleti sobre essas opções, pedindo a Deus que guiasse meus passos. “Uma voz audível teria sido estupenda”, sorria eu, enquanto fechava os olhos e esperava a resposta do Senhor. Não tinha ideia de que forma viria a resposta, mas ela não demorou muito. Meus devaneios terminaram abruptamente quando um pardal passou trinando alegremente e lançou seu excremento sobre a minha cabeça. “Que estás me dizendo, Senhor?”, clamei com a angústia de Jó.

O gorjeio dos pássaros foi a cínica resposta. Não havia vozes celestiais (nem sequer um sussurro disfarçado), somente os sons da natureza despertando de seu sono num milharal de Ohio. Seria um sinal divino ou simplesmente um comentário editorial do irmão pássaro às minhas preocupações? Contrariado, dobrei a cadeira, peguei minha Bíblia e fui para casa. Mais tarde, naquele dia, quando contei à minha esposa as três opções que estava considerando e o incidente com o pardal, ela riu e, com sua habitual sabedoria, exclamou: “O significado está claro, Marcos. O Senhor está dizendo: ‘nenhuma das três’”.

Embora eu tivesse preferido um método menos humilhante de comunicação, sei que nada acontece por acidente, e que nem os pardais nem o que eles deixam cair chegam à terra sem o conhecimento de Deus. Tomei aquilo como uma simpática insinuação de Deus para que eu permanecesse no ministério. Mas continuei percebendo que minha situação não estava bem. Talvez o que eu precisasse fosse uma igreja maior, com um orçamento maior e com mais funcionários. Certamente então eu seria feliz. Assim, tomei a direção do “quanto maior, melhor a igreja”, pensando que isso poderia satisfazer meu coração inquieto.

Seis meses depois, encontrei uma de que gostei e, ao que parecia, sua numerosa congregação também gostou de mim. Ofereceram-me o posto de pastor titular, com uma equipe de escritório e um orçamento dez vezes maior do que o que eu tivera na minha igreja anterior. O melhor de tudo é que era uma igreja evangélica forte, com muitos membros ativamente interessados no estudo das Escrituras e nos ministérios leigos. Eu gostava de pregar diante daquela nova e receptiva congregação a cada domingo. No início, pensei que havia resolvido o problema, mas apenas um mês depois percebi que “maior não era melhor”. Minha frustração cresceu proporcionalmente. Sorrisos corteses me iluminavam durante cada sermão, mas eu não estava cego para o fato de que, para muitos na congregação, minhas apaixonadas exortações a viver uma vida virtuosa apenas roçavam a superfície de um veio de religiosidade, como gotas de água numa frigideira quente.

Muitos diziam: “Grande sermão, realmente me abençoou”. Mas eu sentia que o que realmente pensavam era: “Está bem para os outros, pastor — para os pecadores —, mas eu já cheguei. Meu nome já está escrito nos rolos do Céu; não preciso me preocupar com todas essas coisas. Mas é claro que concordamos com o senhor, pastor: é isso que temos de dizer a todos os pecadores, que se acertem com Deus”. Um dia, encontrei-me diante da liderança local, como orador de um grupo de pastores e leigos que defendiam a ideia de chamar a Deus de Pai, e não de Mãe.

Defendi essa posição recorrendo às Escrituras e à Tradição cristã. Para minha consternação, percebi que a fração que eu representava era uma minoria e que estávamos lutando uma batalha perdida. O assunto seria resolvido não por um bom raciocínio, apelando às Escrituras ou à História da Igreja, mas pela maioria dos votos dos liberais, em favor de uma linguagem neutra. Foi nessa reunião que, pela primeira vez, reconheci o princípio anarquista situado no centro do protestantismo. Aqueles liberais (penosamente equivocados como estavam em seu projeto de reduzir Deus às meras funções de “criador”, “redentor” e “santificador”, em vez das pessoas do Pai, do Filho e do Espírito Santo) eram simplesmente bons protestantes. Estavam apenas seguindo o curso de protesto traçado para eles por seus teólogos antecessores: Martinho Lutero, Calvino e outros reformadores. A máxima da Reforma de “não acatar o ensinamento a menos que eu creia que é correto e bíblico” estava sendo invocada por aqueles protestantes liberais em favor de seu protesto contra os nomes masculinos de Deus.

Subitamente compreendi que estava observando o protestantismo em sua completa glória e em seu hábitat natural: protestar. “Em que espécie de igreja estou?”, perguntei a mim mesmo, desanimado, enquanto votavam e meu grupo perdia. Por essa época, minha esposa Marilyn, que havia sido diretora de um centro pró-vida para mulheres grávidas em crise, começou a me desafiar a resolver a inconsistência entre nossas inabaláveis convicções pró-vida e a postura pró-aborto da nossa igreja presbiteriana. “Como você pode ser membro de uma denominação que aprova matar os bebês que ainda não nasceram?”, perguntou-me ela. A liderança da nossa igreja havia se curvado à pressão das feministas radicais, dos homossexuais, dos grupos pró-aborto e de outros grupos extremistas de pressão dentro da denominação (apesar de membros proeminentes de outras congregações irmãs manterem pontos de vista pró-vida) e impôs estritas diretrizes liberais no processo de contratação de novos pastores.

Quando ela me fez ver que uma parte das doações que minha congregação enviava à Assembleia Geral Presbiteriana estava, muito provavelmente, pagando abortos, e que não havia nada que eu ou minha congregação pudéssemos fazer a respeito, fiquei atônito. Marilyn e eu sabíamos que tínhamos de deixar a congregação, mas para onde poderíamos ir? Essa pergunta nos levou a outra: onde vou encontrar um trabalho de ministro? Comprei um livro que continha os detalhes da maioria das denominações cristãs e comecei a avaliar algumas das denominações que me interessavam. Enquanto lia os sumários doutrinais, pensava: “está bem, mas não gosto dos seus pontos de vista sobre o batismo”; ou “isto não está mal, mas sua visão sobre os últimos tempos é um pouco tomada pelo pânico”; ou “esta outra parece exatamente o que eu estava buscando, mas me sinto incômodo com seu estilo de louvor”.

Depois de examinar cada possibilidade e não encontrar uma de que gostasse, fechei o livro, frustrado. Eu sabia que ia deixar o presbiterianismo, mas não tinha ideia de qual era a denominação correta a que pertencer. Parecia haver algo de errado em cada uma. “Que pena que não posso fazer a igreja perfeita, sob medida para mim!”, pensei ilusoriamente.

Por essa época, um amigo de Illinois me telefonou; ele também era um pastor presbiteriano que tinha ouvido o rumor de que eu estava pensando em deixar a igreja presbiteriana. “Marcos, você não pode deixar a igreja”, repreendia-me. “Você não pode nunca deixar a igreja; você está comprometido com a igreja. Não importa que alguns teólogos e pastores estejam loucos; nós temos de permanecer com a igreja e trabalhar para renová-la a partir de dentro. Devemos conservar a unidade a todo custo.” “Em primeiro lugar”, respondi mal-humorado, “se isso é verdade, por que nós, protestantes, nos separamos da Igreja Católica?”

Não sei de onde me saíram aquelas palavras; nunca antes na vida eu tivera o mais leve pensamento sobre se os reformadores estavam ou não equivocados ao romper com a Igreja Católica. Fazia parte da essência natural do protestantismo tentar trazer renovação por meio de um processo de divisão e fragmentação. O lema da Igreja Presbiteriana é “Reformada e sempre se reformando”. Poder-se-ia acrescentar: “e reformando, e reformando, e reformando… etc.”. Eu poderia ir para outra denominação sabendo que, mais cedo ou mais tarde, teria de ir para outra quando começasse a ficar insatisfeito; ou poderia decidir ficar onde estava e aguentar. Mas, então, como poderia justificar ficar onde estava? Não deveria voltar à denominação anterior, da qual nós, presbiterianos, nos havíamos separado com ar desafiador? Nenhuma dessas opções me parecia bem; portanto, decidi que deveria deixar o ministério até resolver o assunto de uma maneira ou de outra.

Voltar à universidade parecia a maneira mais fácil de dar um respiro em tudo aquilo; portanto, matriculei-me num programa de pós-graduação em Biologia Molecular na Universidade Case Western Reserve. Minha meta era combinar meus conhecimentos científicos e teológicos numa carreira de bioética. Imaginei que um doutorado em Biologia Molecular me daria uma melhor posição entre os cientistas do que um título em Teologia ou Ética; além disso, obter um doutorado em Teologia ou Ética exigiria aprender latim e alemão, e, aos 39 anos, eu imaginava que minhas células cerebrais estavam num declínio avançado demais para essa espécie de rigor mental. A viagem até a universidade, em Cleveland, durava mais de uma hora de ida e outro tanto de volta, e, pelos oito meses seguintes, tive bastante tempo de tranquilidade para introspecção e oração. Logo estava profundamente imerso num projeto de pesquisa de Engenharia Genética, que compreendia remover e reproduzir o DNA extraído dos rins homogeneizados de uma pessoa.

O programa era um grande desafio, e eu gostava dele, embora, comparando com a complexidade dos aminoácidos e dos ciclos bioquímicos, ter de lutar com as conjugações do latim e as declinações do alemão de repente parecesse muito mais fácil. O projeto me fascinava e me assustava. Eu apreciava o estímulo intelectual da pesquisa científica, mas também vi quão desumanizada pode ser a investigação de laboratório. O tecido genético, tomado dos cadáveres dos pacientes que morriam na Clínica de Cleveland, era enviado ao nosso laboratório para pesquisa do DNA. Comovia-me profundamente o fato de que aquele tecido provinha de pessoas — mães, pais, crianças e avós — que um dia haviam vivido, trabalhado, rido e amado, e que agora estavam mortas.

No laboratório, aqueles frascos com tecido, cuidadosamente numerados, eram simplesmente material experimental, totalmente dissociado da pessoa humana à qual haviam pertencido. Escrevi um ensaio sobre os problemas de ética envolvidos no transplante de tecido fetal e comecei a falar a grupos cristãos sobre os perigos e as bênçãos da técnica biológica moderna. As coisas pareciam estar caminhando de acordo com o plano, até que percebi que a razão real pela qual eu havia voltado à universidade não era obter um título. Havia sido para que eu comprasse um exemplar do jornal local de Cleveland!

Numa sexta-feira de manhã, depois de dirigir o longo trajeto até Cleveland, eu estava tomando o café da manhã, matando o tempo antes das aulas e tentando ficar acordado. Normalmente procuro estudar um pouco, mas naquela manhã fiz algo incomum: comprei um exemplar do Plain Dealer. Enquanto colocava as moedas na máquina de jornais, nem imaginava que havia chegado a uma encruzilhada do caminho e que estava prestes a iniciar uma senda que me levaria para fora do protestantismo e para dentro da Igreja Católica (suponho que, se soubesse aonde me levaria, teria ido em outra direção). Passando os olhos pelas manchetes com pouco interesse, deparei com um pequeno anúncio que me sobressaltou: “Teólogo católico Scott Hahn falará na paróquia católica local no domingo à tarde”.

Engasguei com o café. Teólogo católico, Scott Hahn? Não podia ser o Scott Hahn que eu havia conhecido. Havíamos frequentado juntos o seminário teológico Gordon-Conwell no começo dos anos 80. Naquele tempo, ele era um fiel calvinista, o anticatólico mais firme da universidade. Eu havia rondado um grupo de intenso estudo calvinista dirigido por Scott, mas, enquanto ele e outros passavam longas horas sublinhando a Bíblia como detetives, tentando descobrir todos os ângulos de cada implicação teológica, eu jogava basquete. Embora não visse Scott desde que ele se formou, em 1982, tinha ouvido o rumor de que ele se fizera católico; não havia pensado muito a respeito: certamente o rumor era falso, ou inventado por alguém com ciúmes da intensidade das convicções de Scott, ou então Scott havia dado uma guinada. Decidi fazer a viagem de hora e meia para descobrir. Estava totalmente despreparado para o que iria encontrar.

Muito estudo te deixou louco

Eu estava nervoso quando cheguei ao estacionamento da grande estrutura gótica. Nunca havia estado numa igreja católica e não sabia o que esperar. Entrei na igreja rapidamente, contornando as pias de água benta, fugindo pelo corredor, inseguro de qual era o protocolo correto para sentar-se nos bancos. Sabia que os católicos se ajoelhavam ou faziam uma reverência em direção ao altar antes de entrar nos bancos, mas eu apenas deslizei e, com um “rangido”, sentei-me, com a esperança de não ter sido reconhecido como protestante. Depois de alguns minutos — e depois que nenhum recepcionista de cara fechada me tocou no ombro e, apontando com o dedo para a porta, disse: “vamos, amigo, fora daqui; todos sabemos que você não é católico” —, comecei a relaxar e olhei atônito o interior da igreja, estranho, mas incomparavelmente belo.

Alguns segundos mais tarde, Scott dirigiu-se ao púlpito e começou sua palestra com uma oração. Quando ele fez o sinal da cruz, soube que realmente havia mudado de time. Meu coração foi ao chão. “Pobre Scott”, gemi interiormente, “os católicos o conquistaram com seus hábeis argumentos”. Escutei atentamente sua palestra sobre a Última Ceia, intitulada “A quarta taça”, esforçando-me por detectar erros, mas não encontrei nenhum (a palestra de Scott foi tão boa que plagiei a maior parte dela no meu sermão de comunhão seguinte). Enquanto ele falava, usando as Escrituras a cada passo para apoiar o ensinamento católico sobre a Missa e a Eucaristia, vi-me hipnotizado pelo que estava ouvindo. O catolicismo estava sendo explicado de uma forma que eu nunca imaginei ser possível: pela Bíblia.

A forma como Scott explicava a Missa e a Eucaristia não era ofensiva nem estranha para mim. No fim da palestra, quando Scott fez um comovente chamado a uma conversão radical a Cristo, perguntei-me se talvez ele estivesse apenas fingindo uma conversão para assim infiltrar-se na Igreja Católica e levar renovação e conversão aos católicos espiritualmente mortos. Não demorei muito a descobrir. Depois que os aplausos da plateia se apagaram, fui à frente para ver se ele me reconhecia.

Ele estava rodeado por uma multidão de pessoas com perguntas. Fiquei alguns passos atrás e estudei seu rosto enquanto ele falava, com seu típico encanto e convicção, ao grande grupo de gente. Sim, era o mesmo Scott que conheci no seminário! Agora ele exibia um bigode, e eu, uma barba (uma grande mudança em relação ao nosso aspecto asseado dos dias de seminário). Quando ele se voltou na minha direção, seus olhos brilharam com um sorriso, num cumprimento silencioso.

Num momento nos encontramos, trocando um caloroso aperto de mãos. Ele se desculpou caso me houvesse ofendido de alguma forma. “Não, claro que não”, assegurei-lhe, enquanto ríamos, compartilhando a alegria de nos vermos outra vez. Depois de alguns momentos e do obrigatório “como vão sua esposa e sua família?”, deixei escapar o que estava em minha mente: “suponho que é verdade o que ouvi. Por que você mudou de time e se fez católico?”. Scott me deu uma breve explicação de sua luta para encontrar a verdade sobre o catolicismo (o círculo de pessoas escutava atentamente a miniistória de sua conversão). Sugeriu-me que pegasse uma cópia da fita com o relato de sua conversão; tais cópias estavam desaparecendo como pão quente da mesa do vestíbulo. Trocamos números de telefone, demo-nos as mãos novamente e fui ao fundo da igreja, onde encontrei a mesa coberta de fitas sobre a fé católica gravadas por Scott e sua esposa Kimberly, assim como fitas de Steve Wood, outro convertido ao catolicismo, que também estudou no seminário de Gordon-Conwell. Comprei uma cópia de cada fita e um livro de Karl Keating, “Catholicism and Fundamentalism”, que Scott me havia recomendado. Antes de ir embora, detive-me no fundo da igreja, absorvendo a estranha e ao mesmo tempo atraente essência do catolicismo que me rodeava: ícones, estátuas, adornos no altar, velas e escuros confessionários.

Fiquei parado por um momento, meditando por que Deus me havia levado àquele lugar. Saí para o ar fresco da noite, a cabeça girando com tantos pensamentos e o coração transbordando de uma desconcertante confusão de emoções. Fui a um restaurante de comida rápida, comprei um hambúrguer para o longo caminho de volta para casa e coloquei a fita da conversão de Scott no toca-fitas do meu carro, planejando descobrir onde ele havia se equivocado. Ainda não havia percorrido a metade do caminho para casa quando estava tão embriagado pela emoção que tive de parar na beira da estrada para poder clarear a cabeça.

Embora a jornada de Scott à Igreja Católica tenha sido muito diferente da minha, as interrogações com que ele e eu lutamos foram essencialmente as mesmas. E as respostas que ele encontrou, e que mudaram tão drasticamente sua vida, eram muito convincentes. Seu testemunho me convenceu de que a razão da minha crescente insatisfação com o protestantismo não podia ser ignorada. As respostas às minhas perguntas, declarava ele, encontravam-se na Igreja Católica. A ideia me perfurou até a medula. Eu estava, ao mesmo tempo, assustado e entusiasmado, pensando que talvez Deus me estivesse chamando à Igreja Católica. Orei por um momento com a cabeça apoiada no volante, ordenando meus pensamentos, antes de ligar o carro outra vez e dirigir para casa. No dia seguinte, abri “Catholicism and Fundamentalism” e o li sem parar, terminando o último capítulo naquela mesma noite.

Enquanto me preparava para deitar, compreendi que estava em apuros. Agora estava claro para mim que os dois dogmas centrais da Reforma protestante (sola scriptura e sola fide) estavam num terreno bíblico muito movediço e, portanto, eu também estava. Meu apetite havia se aguçado; comecei a ler livros católicos, especialmente os primeiros Padres da Igreja, cujos escritos me ajudaram a entender a verdade sobre a história católica anterior à Reforma. Passei incontáveis horas debatendo com católicos e protestantes, tentando submeter as verdades católicas aos mais difíceis argumentos bíblicos que podia encontrar.

Marilyn, como vocês devem imaginar, não ficou nada contente quando lhe falei da minha luta com as doutrinas católicas. Embora no início me dissesse “isso vai passar”, com o tempo também ela começou a ficar intrigada com as coisas que eu estava aprendendo e começou a estudar por conta própria. Enquanto eu abria caminho, livro após livro, compartilhava com ela a clareza e o bom senso dos ensinamentos da Igreja Católica que estava descobrindo. Cada vez com mais frequência chegávamos juntos à conclusão de quanto mais sentido e quanta mais verdade tinha o ponto de vista católico das Escrituras do que tudo o que havíamos encontrado no amplo leque de opiniões protestantes. Descobrimos que havia na posição católica uma profundidade, uma força histórica, uma consistência filosófica.

O Senhor estava fazendo uma incrível transformação em nossa vida, persuadindo-nos, ombro a ombro, passo a passo, juntos por todo o caminho. Junto com as coisas boas que estávamos encontrando na Igreja Católica, também nos deparamos com assuntos confusos e perturbadores. Encontrei um sacerdote que me considerava esquisito por considerar a Igreja Católica; ele acreditava que a conversão era desnecessária. Conhecemos católicos que sabiam muito pouco sobre sua fé, e alguns cujos estilos de vida não concordavam com os ensinamentos morais da sua Igreja Católica. Quando assistimos à Missa, sentimos que não éramos bem-vindos, e ninguém nos acolheu. Mas, apesar desses obstáculos bloqueando nosso caminho para a Igreja, continuamos estudando e orando pela orientação do Senhor.

Depois de ouvir dezenas de fitas e digerir várias dezenas de livros, eu sabia que não podia permanecer por mais tempo sendo protestante; estava claro para mim que a resposta protestante à renovação da igreja foi completamente antibíblica. Jesus orou pela unidade entre seus seguidores, e Paulo e João desafiaram ambos os seus seguidores a manter a verdade que haviam recebido, não permitindo que as opiniões os dividissem. Como protestantes, havíamos agido com liberdade, pondo as opiniões pessoais acima da autoridade do ensinamento da Igreja. Críamos que a orientação do Espírito Santo é suficiente para dirigir qualquer crente que sinceramente buscasse o verdadeiro significado da Escritura. A resposta católica a esse ponto de vista é que é missão da Igreja ensinar com acerto infalível. Cristo prometeu a seus apóstolos e a seus sucessores: “quem vos ouve, a mim ouve; e quem vos rejeita, rejeita aquele que me enviou” (Lucas 10,16).

A Igreja primitiva também cria nisso. Uma passagem muito forte me impressionou enquanto eu estudava a história da Igreja: Os Apóstolos nos pregaram o Evangelho da parte do Senhor Jesus Cristo; Jesus Cristo foi enviado por Deus. Em resumo, Cristo da parte de Deus, e os Apóstolos da parte de Cristo: uma e outra coisa, portanto, aconteceram ordenadamente por vontade de Deus. Assim, pois, tendo os Apóstolos recebido os mandatos, plenamente assegurados pela ressurreição do Senhor Jesus Cristo e confirmados na fé pela palavra de Deus, saíram, cheios da certeza que lhes infundiu o Espírito Santo, a dar a alegre notícia de que o Reino de Deus estava para chegar. E assim, enquanto proclamavam por lugares e cidades a boa-nova, batizavam os que obedeciam ao desígnio de Deus e iam estabelecendo os que eram as primícias deles, depois de prová-los pelo espírito, como bispos e diáconos dentre os crentes. E isso não era novidade, pois desde muito tempo atrás já se havia escrito acerca de tais bispos e diáconos.

A Escritura, com efeito, diz assim: “Estabelecerei os seus bispos na justiça e os seus diáconos na fé” (Clemente de Roma, Epístola aos Coríntios 45,1-5). Outra citação patrística que me ajudou a abrir uma brecha na muralha das minhas presunções protestantes foi a seguinte, de Ireneu, bispo de Lyon: “Sendo, pois, tantos os testemunhos, já não é preciso buscar em outros a verdade que tão facilmente se pode receber da Igreja, pois os Apóstolos depositaram nela, como num rico armazém, tudo o que se refere à verdade” (Ap 22,17). “Esta é a entrada para a vida” (Jo 10,1.8-9). “Por isso é necessário evitá-los e, em vez disso, amar com todo o afeto o que pertence à Igreja e manter a Tradição da Verdade. Então, se se encontrar alguma divergência ainda que em coisa mínima, não seria conveniente voltar os olhos para as Igrejas mais antigas, nas quais viveram os Apóstolos, a fim de tomar delas a doutrina para resolver a questão, o que é mais claro e seguro? E, mesmo que os Apóstolos não nos tivessem deixado seus escritos, não seria necessário seguir a ordem da Tradição que eles legaram àqueles a quem confiaram as Igrejas?” (Contra as Heresias 3,4,1).

Estudei as causas da Reforma protestante. A Igreja Católica, naqueles dias, necessitava desesperadamente de renovação, mas Martinho Lutero e os outros reformadores escolheram, equivocadamente, um método não bíblico de lidar com os problemas que viram na Igreja. O caminho correto foi, e continua sendo, justamente o que me disse meu amigo presbiteriano: “não deixe a Igreja, não rompa a unidade da fé. Trabalhe por uma reforma genuína baseada no plano de Deus, não no do homem, alcançando-a por meio da oração, da penitência e do bom exemplo”. Não pude permanecer protestante por mais tempo. Fazê-lo significava negar a promessa de Cristo de guiar e proteger sua Igreja e de enviar o Espírito Santo para conduzi-la à verdade completa (Mateus 16,18-19; 18,18; 28,20; João 14,16-25; 16,13). Mas eu não podia suportar a ideia de me tornar católico. Fui ensinado por tanto tempo a desprezar o “romanismo” que, embora intelectualmente houvesse descoberto que o catolicismo era a verdade, tive um tempo muito difícil para me livrar dos preconceitos emocionais contra a Igreja. Uma dificuldade fundamental foi o ajuste psicológico à complexidade da teologia católica. Em contraste, o protestantismo é simples: admita que você é pecador, arrependa-se de seus pecados, aceite Jesus como seu salvador pessoal, confie no seu perdão e você está salvo.

Continuei estudando as Escrituras e livros católicos, e passei muitas horas debatendo com amigos e colegas protestantes sobre assuntos difíceis, como Maria, a oração aos santos, as indulgências, o Purgatório, o celibato sacerdotal e a Eucaristia. Com o tempo, compreendi que o assunto mais importante era a autoridade. Toda a luta sobre como interpretar a Escritura não leva a lugar nenhum se não há forma de saber, com infalível certeza, que uma interpretação é a correta. A autoridade de ensino da Igreja, no Magistério, centra-se em torno da cátedra de Pedro. Se eu pudesse aceitar essa doutrina, sabia que poderia confiar na Igreja em tudo o mais.

Li “The Keys of the Kingdom” e “And on This Rock”, de Frei Stanley Jaki, os documentos do Concílio Vaticano II e dos Concílios anteriores, especialmente o de Trento. Estudei cuidadosamente a Escritura e os escritos de Calvino, Lutero e dos outros reformadores para verificar os argumentos católicos. Vez após vez, descobri que os argumentos protestantes contra o primado de Pedro simplesmente não eram bíblicos nem históricos. Era claro que a posição católica era a bíblica. O Espírito Santo literalmente enviou um raio de sua luz sobre o que restava dos meus preconceitos anticatólicos quando li o livro do Cardeal John Henry Newman “An Essay on the Development of Christian Doctrine”. De fato, minhas objeções se evaporaram quando eu havia lido doze páginas do livro, nas quais Newman explica o desenvolvimento da autoridade papal. Meu estudo da posição católica levou cerca de um ano e meio. Durante esse período, Marilyn e eu estudamos juntos e compartilhamos, como casal, os medos, as esperanças e os desafios que nos assaltavam durante o caminho para Roma.

Assistíamos juntos à Missa semanalmente, viajando a uma paróquia suficientemente afastada da nossa cidade (minha antiga igreja presbiteriana ficava a menos de uma milha da nossa casa) para evitar a controvérsia e a confusão que sem dúvida se levantariam se nossos antigos paroquianos soubessem que eu estava explorando Roma. Gradualmente, começamos a nos sentir à vontade fazendo todas as coisas que os católicos fazem na Missa (exceto receber a Comunhão). Doutrinária, emocional e espiritualmente, sentíamo-nos prontos para entrar formalmente na Igreja, mas restava uma barreira que tínhamos de superar. Antes de nos conhecermos e nos apaixonarmos, Marilyn e eu, ela havia se divorciado depois de um breve matrimônio.

Como éramos protestantes quando nos conhecemos e nos casamos, isso não representou nenhum problema, até onde eu e minha denominação sabíamos. Foi só quando nos sentimos prontos para entrar na Igreja Católica que nos informaram que não poderíamos fazê-lo a menos que Marilyn recebesse a nulidade de seu primeiro matrimônio. No início, sentimos que Deus estava pregando uma peça em nós. Depois, passamos da surpresa à raiva. Parecia-nos tão injusto e ridiculamente hipócrita: poderíamos ter cometido qualquer outro pecado, por mais atroz que fosse, e, com uma confissão, ele teria sido adequadamente lavado para a admissão na Igreja; mas, por causa dessa falta, nossa entrada na Igreja parou de repente. Porém, quando recordamos o que nos havia trazido até esse ponto da nossa peregrinação espiritual, tivemos de confiar em Deus de todo o coração e não nos apoiar no nosso próprio entendimento.

Tivemos de reconhecer e confiar que Ele guiaria nossos caminhos. Era evidente que aquela era a prova final de perseverança enviada por Deus. Assim, Marilyn começou o difícil processo de investigação para a nulidade, e continuamos esperando. Continuamos assistindo à Missa, permanecendo sentados no banco, com o coração dolorido, enquanto todos ao nosso redor iam receber o Senhor na Sagrada Eucaristia e nós não podíamos fazê-lo. Foi por não poder receber a Eucaristia que aprendemos a apreciar o incrível privilégio que Jesus concedeu aos seus amados de receber o Corpo e o Sangue, a Alma e a Divindade no Santíssimo Sacramento.

A promessa do Senhor na Escritura tornou-se real para nós naquelas Missas: “o Senhor corrige a quem ama” (Hebreus 12,6). Depois de nove meses de espera, soubemos que a nulidade de Marilyn havia sido concedida. Sem nenhuma outra demora, nosso matrimônio foi abençoado e fomos recebidos, com grande expectativa e celebração, na Igreja Católica. Sentimo-nos incrivelmente bem por finalmente estar em casa, onde pertencíamos. Derramei lágrimas de alegria e gratidão na primeira Missa em que pude caminhar até a frente com meus irmãos católicos e receber Jesus na Sagrada Comunhão. Muitas vezes perguntei ao Senhor na oração: “qual é a verdade?”. Ele me respondeu com a Escritura, dizendo: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”. Agora, como católico, alegro-me de não somente conhecer a verdade, mas também recebê-lo na Eucaristia.

Resumindo em algumas palavras finais

Penso ser importante mencionar mais uma ideia do Cardeal Newman, que fez uma diferença crucial no processo da minha conversão à Igreja Católica: “Aprofundar-se na história é deixar de ser protestante”. Esta única linha resume a razão fundamental pela qual abandonei o protestantismo, evitei a Igreja Ortodoxa e me fiz católico. Newman estava certo. Quanto mais eu lia a história da Igreja e as Escrituras, menos podia permanecer confortavelmente protestante. Vi que foi a Igreja Católica que foi estabelecida por Jesus Cristo, e todas as outras igrejas pretendentes ao “título” de verdadeira igreja têm de ficar de lado. Foram a Bíblia e a história da Igreja que fizeram de mim um católico, contra a minha vontade (pelo menos no começo) e para minha imensa surpresa.

Também aprendi que o outro lado da moeda no adágio de Newman é igualmente verdadeiro. Deixar de aprofundar-se na história é tornar-se protestante. É por isso que nós, católicos, devemos saber por que cremos no que a Igreja ensina, assim como a história por trás dessas verdades de salvação. Devemos preparar a nós mesmos e a nossos filhos para estar sempre dispostos a dar uma explicação a quem quer que pergunte qual é a razão da nossa esperança (1 Pedro 3,15). Vivendo e proclamando nossa fé com valentia, muitos ouvirão Cristo falar por meio de nós, e isso os levará ao conhecimento da verdade completa na Igreja Católica. Deus abençoe a vossa própria jornada de fé!

Autor: Marcus Grodi

Fonte: Voxfidei.com

Cortesia de The Coming Home Network

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