Gerald Daly, administrador de Allen Hall, o seminário diocesano de Westminster, foi durante muitos anos ateu e marxista convicto, muito ativo na política municipal. Na revista inglesa GoodNews (www.ccr.org.uk) explicou em primeira pessoa a sua conversão: a de uma pessoa fria e racional que teve uma impactante experiência mística quando menos esperava.

“Nasci nos anos 50, no East End de Londres, numa típica família irlandesa. Minha mãe era uma católica muito devota, e meu pai era praticante, mas a sua grande paixão era a política. Era um sindicalista ativo e conselheiro do sindicato, de modo que em casa sempre se falava de política. Eu era o mais velho de quatro meninos, e minha mãe, como muitas naquela época, teria adorado que eu me tornasse sacerdote, mas, à medida que ia crescendo, comecei a duvidar da fé. Achava a Missa entediante e, embora frequentasse uma escola católica, a maioria dos meus amigos não era católica, e eu via toda essa questão da Missa como uma imposição, da qual queria livrar-me a todo custo”.

Sua juventude nos anos 60 foi marcada pela política e pelo questionamento de tudo o que estava estabelecido.

“Queríamos ser livres e não estar presos ao convencional. Quando eu tinha 17 anos, minha namorada Helen ficou grávida, então, em vez de continuar meus estudos, tive de começar a trabalhar. Talvez eu tivesse preferido não me casar, mas via como aquela situação estava arrasando minha mãe; assim, de fato, se acabamos nos casando quando eu tinha 19 anos, foi para que ela ficasse contente. No entanto, mais tarde fiquei sabendo que, na realidade, Helen sempre tinha querido se casar e apenas fingia que não se importava, porque naquela época se considerava que casar-se era coisa de ultrapassados.”

Acreditávamos que íamos mudar a sociedade
“Aos 22 anos consegui uma vaga como estudante adulto na universidade de Lampeter, onde estudei Filosofia. Nessa época nasceu também a nossa segunda filha; foram uns três anos fabulosos. Viver nos anos 60 era emocionante. Acreditávamos sinceramente que éramos parte de uma época em movimento que ia mudar a sociedade para melhor; a universidade era um viveiro do radicalismo estudantil. Todo resquício de fé católica que ainda pudesse me restar desapareceu, por causa dos estudos de filosofia e das pessoas que conheci. Todo o departamento de filosofia e, de fato, a maioria dos departamentos de ciências sociais do país estavam dominados pelo marxismo. Mais ainda: nem sequer era possível sobreviver defendendo outras ideias, o que não era o meu caso.”

“Naquele momento envolvi-me no IMG (Grupo Marxista Internacional). Pertencer a esse grupo dava muito prestígio e, ao mesmo tempo, oferecia também uma certa imagem de perigo, o que me caía como uma luva. As reuniões se prolongavam até altas horas da madrugada, e discutia-se muito sobre como mudaríamos o mundo. O líder do IMG era Tariq Ali, uma figura muito carismática naquela época.”

Como muitos outros na esquerda marxista, Gerald conseguiu um trabalho no governo municipal.

“Sentíamos que ali tínhamos possibilidades reais de pôr em prática a revolução, e nos considerávamos veículos para a mudança social. Para ser sincero, não tínhamos nenhum modelo real pelo qual trabalhássemos. Era apenas o sonho vago de um futuro socialista, que na realidade não tínhamos analisado a fundo, mas tínhamos, sim, muitos debates no pub, íamos a muitas manifestações e comparecíamos às reuniões dos sindicatos. Também tínhamos nos infiltrado no Partido Trabalhista e buscávamos a forma de controlá-lo.”

“A verdadeira morte da esquerda”
Gerald explica que “a verdadeira morte da esquerda foi anunciada com a queda do muro de Berlim e o colapso do comunismo no bloco soviético, seguido pelo surgimento de Tony Blair e do Novo Trabalhismo. Embora estivéssemos conscientes de que a União Soviética não era um modelo perfeito de estado socialista, ao menos existia, e continha alguns dos elementos essenciais pelos quais lutávamos. No entanto, o fato de 500 milhões de pessoas rejeitarem o que constituía a base das nossas crenças nos fez perder a confiança, e produziu-se um colapso maciço no seio da esquerda. Eu continuei ali durante um tempo, tentando encontrar sentido no que estava acontecendo, mas era muito difícil. Passamos da certeza absoluta sobre o desenvolvimento histórico da sociedade a um estado de confusão”.

Prometeram ao se casar: educar os filhos na fé
“Naquela época eu já tinha trinta e muitos anos, e meus três filhos iam crescendo. Embora eu fosse ateu e minha esposa não fosse católica, ela tinha levado muito a sério o compromisso matrimonial de educar nossos filhos na fé católica, e os havia enviado a escolas católicas, embora evidentemente em casa não fomentássemos precisamente a fé. Por isso ficamos bastante surpresos quando Kerry, minha filha mais velha, começou a namorar Andrew, que era católico praticante; ela até começou a ir à Missa com ele. E foi através desse jovem que Cristo começou a entrar de novo em nosso lar, depois de 20 anos, quase sem que eu me desse conta disso. Creio que só a sua presença física provocou um gatilho emocional que me devolvia ao meu passado católico”.

Gerald, sua família e Andrew, o namorado de sua filha, viajaram todos juntos para umas férias na Grécia. “Enquanto jantávamos numa taverna, sentados à beira-mar, Andrew e eu começamos uma discussão sobre a fé religiosa. Não me lembro de como começou, mas parece-me que eu simplesmente devia querer me exibir um pouco. Ele era um jovem com uma fé bastante simples, e eu, com minha formação filosófica e minha experiência de vida, não tive nenhum escrúpulo em humilhá-lo a ele e às suas crenças”, recorda Gerald.

Mas dois dias depois, ainda na Grécia, chegou o momento que mudou a vida de Gerald Daly.

“Saí por conta própria para subir a um monte dos arredores, que tinha um mosteiro no cume, onde havia uma espécie de capela dedicada à Virgem. Não me lembro de ter rezado ali, mas detive-me durante um momento, enquanto uma freirinha me olhava. Depois voltei à praia e comecei a ler um livro que levava na mochila sobre a história dos Bálcãs. De repente cheguei a uma parte do livro sumamente perturbadora, que relatava o massacre de 30.000 cristãos nas mãos dos turcos. A horrível maldade do ato me abalou. Comecei a me sentir muito estranho, e senti como um sentimento avassalador de inutilidade passava através de mim. Fiquei com bastante medo. Olhei para trás, para a minha vida passada e o pouco sentido que ela havia tido. E tudo isso para quê, perguntei-me”.

“Senti a presença de Cristo”
“Do que aconteceu imediatamente depois, só me lembro de perder a visão. Não sei quanto durou — podem ter sido alguns segundos ou alguns minutos —, mas de repente senti a presença de Cristo. Era estranho, mas no mesmo instante soube quem estava ali, quem estava ao meu lado se dando a conhecer. Não vi nada, mas o Espírito Santo estava se comunicando comigo através de um sentido interior que eu não conseguia entender. Tudo girava em torno do amor e, sem palavras, o amor se apresentava a mim como aquilo que mantinha unido o universo, e ali jazia o sentido da vida. Também sabia que a fonte desse amor era Cristo. Quando me virei, encontrava-me num profundo estado de choque”.

“Sabia que, de alguma maneira, Cristo tinha vindo a mim, mas minha cabeça queria rejeitar essa ideia. Afinal de contas, eu tinha sido ateu durante 20 anos, e essa era a base de uma abordagem intelectual e profana profundamente enraizada, que não era tão fácil de largar.Perguntei-me se teria sido uma alucinação, ou se eu estava passando por algum tipo de crise, ou se tinha algo a ver com o estresse. Mas eu não conseguia parar de pensar naquela experiência. Não me atrevi a contá-la a ninguém, para que não achassem que eu tinha enlouquecido. No entanto, durante os meses seguintes continuei dando voltas ao assunto, tentando encontrar-lhe uma explicação humana. Sou uma pessoa muito lógica e racional, mas no final tive de chegar à conclusão de que o que me havia acontecido era real, e que o sobrenatural existia, embora não estivesse muito seguro do que devia fazer a respeito”.

O poder da Missa de Natal… em inglês!
“Lembro que, algum tempo depois, era a manhã do dia de Natal, eu estava preparando uma xícara de café e de repente senti a convicção de que devia ir à Missa. Estou seguro de que foi inspiração do Espírito Santo. Minha esposa ficou pasma, já que não tinha a menor ideia das lutas interiores pelas quais eu havia passado. Eu não tinha comentado nada com ninguém, porque me preocupava o fato de poder ser satirizado da mesma forma como eu havia feito com outros.”

“Chegar à Missa foi um momento de muita emoção para mim. Tudo era muito diferente de como eu me lembrava. Para começar, a Missa era em inglês, e eu não conhecia as respostas. Era um sacerdote nigeriano que estava celebrando. Sempre lembrarei o momento em que ele se levantou para ler o Evangelho. Eu não conseguia ouvir uma só palavra do que ele dizia, só ouvia o fluir da água, que brotava dele e fluía através de mim. Desatei a chorar desconsoladamente, porque entendi que era ali que eu pertencia. Soube que tinha voltado para casa. Minha esposa ficou afetada por tudo isso e achou que eu tinha tido uma crise. De fato, passamos por uma época muito difícil por causa disso, mas, de uma forma estranha, o lado sacramental do meu matrimônio era mais forte do que antes. Havia se enriquecido e se tornado mais profundo de uma forma totalmente distinta. Kerry acabou se casando com Andrew. Agora tem dois filhos e se tornou uma católica muito comprometida. Tem sido uma grande bênção para mim”.

Gerald escreveu seu testemunho 13 anos depois. Durante esse tempo teve de fazer mudanças, inclusive de trabalho, porque ser cristão e político é complicado.

“Eu trabalhava como assessor político, para vereadores do governo local, e em grande parte esse trabalho consistia em encontrar maneiras de destruir a reputação dos adversários, para promover o seu candidato. Às vezes me pediam que fizesse e dissesse coisas que, como cristão, eu acreditava não serem moralmente corretas, mas dava-se por certo que essas tarefas faziam parte do trabalho, de modo que me era difícil saber o que devia fazer. Fiz tudo o que pude para não transigir, mas não o consegui de todo. Percebia que o contraste entre o que eu acreditava e o que me pediam que fizesse se tornava cada vez mais complicado para mim. A situação chegou a um ponto em que eu já não podia continuar trabalhando ali, mas não estava seguro do que faria”.

Finalmente, encontrou uma oferta para trabalhar como administrador no seminário de Westminster. “Era um grande corte de salário, e afetaria gravemente minha aposentadoria, mas assim que a vi me dei conta de que era o trabalho que Deus queria para mim”.

“Cada vez me dou mais conta de que se trata de confiar em Deus e trabalhar com Ele, porque Ele pode mais do que podemos imaginar. Muito longe de ver a vida como algo sem sentido, como tive a tentação de pensar há tantos anos naquela praia grega, agora a vida se converteu numa incrível aventura para mim. Demos graças a Deus”.

Fonte: REL