Irmão que lês estas linhas, quis aproveitar esta ocasião para vos contar um pouco a minha experiência e as razões pelas quais me tenho reafirmado cada dia mais na minha fé católica.

Houve um tempo em que me dediquei a estudar as doutrinas das Igrejas não católicas, em parte por curiosidade, em parte por cultura geral, em parte para compreender melhor os nossos irmãos. Devo confessar também que, como não tinha maneira de sintonizar uma rádio católica no trabalho (na verdade podia, mas na altura não sabia como, por ser novato), optava pelo “aproveitar o que houvesse” e dedicava-me a ouvir os sermões dos pastores evangélicos da rádio que sabia sintonizar pela Internet enquanto trabalhava.

Ao mesmo tempo dediquei-me a aprofundar cada vez mais o estudo da Bíblia e apercebi-me de várias coisas que, no cristianismo evangélico de hoje, não estavam de acordo com a própria palavra, apesar de dizerem que se regiam apenas por ela.

Começo por dizer que me parecia muito estranho que, na mesma emissora, enquanto ouvia o programa das 11:00 da manhã, ouvisse um pastor dizer categoricamente que a salvação não se pode perder, que é exclusivamente fé e que as obras nada valem, e, curiosamente, na mesma emissora, noutro programa de outro pastor, este dizia não só que se pode perder, mas também que não se podem desligar a fé das obras. Aprofundando, as contradições não paravam por aí: uns afirmavam, com fundamento bíblico, que é indispensável batizar as crianças (os luteranos, presbiterianos e metodistas, por exemplo) e outros afirmavam categoricamente que só se devem batizar os adultos. Uns pregavam que Cristo está presente na fração do pão ou ceia do Senhor (luteranos, anglicanos) e outros que é apenas um símbolo (batistas e presbiterianos). Havia até quem negasse a doutrina da Trindade e afirmasse que é uma invenção de Constantino, e outros afirmavam que quem não cresse na Trindade não podia ser verdadeiramente cristão. Enfim, depois de obter as confissões de fé de algumas das denominações mais importantes (luterana, presbiteriana, batista, etc.), apercebi-me de que aquilo que uns condenavam outros o afirmavam.

Estes são apenas alguns exemplos entre dezenas; atualmente há mais de 28.000 denominações diferentes com doutrinas diferentes, baseando-se cada uma apenas no que diz a Bíblia, mas entendendo o oposto dela.

Inclusive, ao recuar na história, vi que, no início de tudo, nos tempos da reforma, já Lutero não conseguia entender-se com Zuínglio (ambos reformadores protestantes) em temas tão elementares como o batismo e a presença de Cristo na eucaristia, e, depois do tão falado colóquio de Marburgo em 1925, acabaram irreconciliáveis.

Analisando tudo isto à luz da Bíblia, vi que há um problema. A Bíblia diz:

“Exorto-vos, pois, eu, prisioneiro no Senhor, a que procedais de maneira digna da vocação a que fostes chamados, com toda a humildade, mansidão e paciência, suportando-vos uns aos outros com amor, esforçando-vos por conservar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz. Há um só Corpo e um só Espírito, como é uma só a esperança a que fostes chamados. Um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos, que está acima de todos, por todos e em todos.” Efésios 4,1-6

Quando Paulo fala de uma só fé refere-se à doutrina (pois dirigia-se a crentes em Cristo), refere-se a estar unidos num mesmo credo e mentalidade, porque a fé é uma só:

“Rogo-vos, irmãos, pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que tenhais todos uma mesma linguagem, e não haja divisões entre vós; antes, estejais unidos num mesmo pensamento e num mesmo parecer.” 1 Coríntios 1,10

A passagem anterior é muito clara: “não haja divisões entre vós” Isso cumpre-se com as 28.000 denominações de hoje?

Também deixa claro como é essa unidade: uma unidade doutrinal: “estejais unidos num mesmo pensamento e num mesmo parecer.”

Quando a Igreja de Cristo se divide doutrinalmente, é um indício de que se está a desviar da verdade, porque a verdade é uma só; não é possível que seja verdade, segundo os luteranos, que se devem batizar as crianças e, ao mesmo tempo, que não, segundo os batistas. Não é possível dizer que Cristo não é Deus e, ao mesmo tempo, que é. Duas posições opostas não podem estar certas, porque só uma é a verdade.

Apercebi-me de que a origem de toda esta divisão reside na base sobre a qual está construído o protestantismo, que é o desconhecer a autoridade que Cristo legitimamente constituiu, e por isso Paulo dizia:

“Portanto, que os homens nos considerem como servos de Cristo e administradores dos mistérios de Deus.” 1 Coríntios 4,1

Muitos poderiam alegar que há administradores que não foram fiéis à sua vocação, mas Paulo, já sabendo isto, acrescentou logo a seguir:

“Ora bem, o que, ao fim e ao cabo, se exige dos administradores é que sejam fiéisQuanto a mim, o que menos me importa é ser julgado por vós ou por um tribunal humano. Nem sequer a mim mesmo me julgo! É certo que a minha consciência de nada me acusa; mas nem por isso fico justificado. O meu juiz é o SenhorPortanto, não julgueis nada antes de tempo, até que venha o Senhor. Ele iluminará os segredos das trevas e porá a descoberto os desígnios dos corações. Então receberá cada um do Senhor o louvor que lhe corresponda.” 1 Coríntios 4,2-5

Inclusive Cristo, apesar de arrasar os fariseus, mandou obedecer-lhes quando falassem da cátedra, porque a sua autoridade era legítima e provinha daquela que Deus concedeu a Moisés:

“e disse-lhes: «Na cátedra de Moisés sentaram-se os escribas e os fariseus. Fazei, pois, e observai tudo o que vos disserem; mas não imiteis o seu proceder, porque dizem e não fazem.” Mateus 23,2-3

Cristo foi claro na sua repreensão, mas diz: “Fazei e observai tudo o que vos disserem”, e esclarecendo “não imiteis o seu proceder, porque dizem e não fazem”

Em toda a Igreja haverá falsos pastores, e se alguém deixa a Igreja por esta razão deixará a seguinte e a seguinte, porque em nenhuma se está “sem pecadores”, e, se a houvesse, no momento em que ele entrasse deixaria de o ser, porque ele também é pecador.

Nesse sentido, o argumento de Martinho Lutero de que não tinha de obedecer à Igreja, mas apenas à Bíblia, falhava na sua raiz, pois desconhecia a própria ordem que a Bíblia dá a respeito, que é a de que Cristo instaurou legitimamente administradores dos seus mistérios e manda obedecer-lhes como seus representantes:

“Obedecei aos vossos dirigentes e sede-lhes submissos, pois velam pelas vossas almas como quem há de dar conta delas, para que o façam com alegria e não a lamentar-se, o que não vos traria proveito algum.” Hebreus 13,17

“«Quem vos escuta a vós, a mim me escuta; e quem vos rejeita a vós, a mim me rejeita; e quem me rejeita a mim, rejeita aquele que me enviou.»” Lucas 10,16

“Jesus disse-lhes outra vez: «A paz esteja convosco. Assim como o Pai me enviou, também eu vos envio.» “João 20,21

E, ao derrubar esse pilar da autoridade que a Bíblia ensina, fez com que depois também ninguém respeitasse a sua autoridade (afinal, ele ensinou que cada um devia obedecer à Bíblia, mas, como cada um entendia algo diferente, produziu-se uma fragmentação exponencial do corpo de Cristo).

Lutero apercebeu-se tarde disto e acabou por escrever:

“Este não quer ouvir falar do batismo, aquele nega o sacramento, um outro põe um mundo de diferença entre este e o último dia: alguns ensinam que Cristo não é Deus, outros ensinam isto e aqueles aquilo: existem tantas seitas e credos quantas as cabeças. Nenhum labrego é tão rude como quando tem sonhos e fantasias, crê ter sido inspirado pelo Espírito Santo e ser um profeta.” (De Wette III, 61. Citado em O’Hare, Os factos de Lutero, 208.)

“Se o mundo durar muito tempo, será necessário de novo, tendo em conta as diferentes interpretações da Escritura que agora existem, preservar a unidade da fé que recebemos dos Concílios e decretos [da Igreja Católica] e voar para eles como refúgio” Martinho Lutero (Carta a Zuínglio).

Pois o mundo, na verdade, durou muito tempo, e, embora a Igreja Luterana procure regressar às suas raízes e os diálogos ecuménicos com a Igreja Católica avancem (em 1999 assinou-se o acordo oficial conjunto católico-luterano), muitas novas igrejas surgidas a partir da reforma não reconhecem tais acordos e chegam mesmo a rotular estas Igrejas evangélicas, com mais antiguidade do que a que elas sonham ter, de “pseudoevangélicas”.

Eu apercebi-me de que Cristo instituiu uma autoridade, alguém a quem confiou as suas chaves:

“A ti darei as chaves do Reino dos Céus; e o que ligares na terra ficará ligado nos céus, e o que desligares na terra ficará desligado nos céus.»” Mateus 16,19

O significado das chaves é claro: ser o mordomo do reino. O ministro que tinha as chaves era o braço direito do rei, com autoridade sobre os restantes ministros, e era o encarregado de legislar em nome do rei:

“Naquele dia chamarei o meu servo Eliaquim, filho de Helcias. Vesti-lo-ei com a tua túnica e cingi-lo-ei com o teu cinto, porei nas suas mãos a tua autoridadee ele será um pai para os habitantes de Jerusalém e para a casa de Judá. Porei sobre o seu ombro a chave da casa de David; ele abrirá, e ninguém fechará; fechará, e ninguém abrirá. Fixá-lo-ei como estaca em lugar seguro, e será trono de glória para a casa de seu pai. Ali pendurarão tudo o que há de valor na casa de seu pai – os seus descendentes e a sua posteridade -, todos os utensílios miúdos, todas as taças e os cântaros. Naquele dia – oráculo de Javé Sebaot – será removida a estaca fixada em lugar seguro, cederá e cairá, e far-se-á em pedaços o peso que sustentava, porque Javé falou” Isaías 22,20-25

E aqui vi outra grande contradição: muitos dizem obedecer apenas a Cristo, mas não obedecem realmente ao que Cristo disse. Se Cristo entregou as chaves a Pedro, quem somos nós para dizer que não temos de lhe obedecer? Já viram um operário que não obedeça ao chefe do departamento alegando obedecer apenas ao gerente? Um soldado que não obedeça ao seu capitão, mas apenas ao general?

A autoridade sempre foi respeitada. Não se lembram do que aconteceu quando Maria e Aarão murmuraram contra a autoridade de Moisés? Diziam:

“Diziam: «Acaso Javé falou apenas com Moisés? Não falou também connosco?» E Javé ouviu.” Números 12,2

E sucedeu que Maria foi depois castigada com lepra:

“… Por que motivo, então, ousastes falar contra o meu servo Moisés?» E acendeu-se a ira de Javé contra eles. Quando Ele Se retirou, e a Nuvem se afastou de cima da Tenda, eis que Maria estava leprosa, branca como a neve.” Números 12,8-10

E a Datã e Abiram, que quiseram passar por cima da autoridade, o que lhes aconteceu?

“Coré, filho de Isaar, filho de Coat, filho de Levi, Datã e Abiram, filhos de Eliab, e On, filho de Pelet, filhos de Rúben, ensoberbeceram-se e levantaram-se contra Moisés juntamente com 250 israelitas, chefes da comunidade, distintos na assembleia, homens de renome.” Números 16,1-2

O que lhes aconteceu?

“Filhos de Eliab: Nemuel, Datã e Abiram. Estes Datã e Abiram, homens de renome na comunidade, rebelaram-se contra Moisés e Aarão com o bando de Coré, quando este se revoltou contra Javé. A terra abriu a sua boca e engoliu-os a eles e a Coré, quando o fogo devorou 250 homens, para que servissem de exemplo.” Números 26,9-10

O pecado foi desconhecer a autoridade que Deus tinha instituído, pois, por ser instituída por Deus, desconhecê-la implicava desconhecer o próprio Deus.

Mesmo quando a pessoa com autoridade nem sempre foi justa, isso não foi desculpa para a desconhecer. Lembras-te de quando David pôde matar Saul, que tinha pecado enormemente? Lembras-te de como respondeu?

“Livre-me Javé de levantar a minha mão contra o ungido de Javé.” 1 Samuel 26,11

Inclusive Paulo tem o cuidado de falar com respeito quando se dirige ao sumo sacerdote, apesar de já estar sob a nova aliança:

“Mas os que estavam ao seu lado disseram-lhe: «Insultas o Sumo Sacerdote de Deus?» Paulo respondeu: «Não sabia, irmãos, que era o Sumo Sacerdote; pois está escrito: = Não injuriarás o chefe do teu povo.» = ” Atos 23,4-5

Apesar disto, encontrei pessoas que se dizem cristãs e não hesitam em rotular o Papa de “anticristo” e a Igreja de “prostituta”. O que é evidentemente absurdo, pois, ainda que não professem obediência ao Papa como representante de Cristo, será próprio de um cristão difamar alguém dessa maneira?

Apercebi-me de que essas atitudes não eram de Deus; só o inimigo pode desencadear tanto ódio entre os próprios cristãos e, embora muitos não sejam assim, a doutrina do livre exame expõe-nos ao erro e à fragmentação:

“Mas, antes de tudo, tende presente que nenhuma profecia da Escritura pode interpretar-se por conta própria; porque nunca profecia alguma veio por vontade humana, mas sim homens movidos pelo Espírito Santo, falaram da parte de Deus” 2 Pedro 1,20-21

A que achas que Pedro se referia com isto? Isto há que meditá-lo com o coração.

Eu, pela minha parte, estou muito firme e não pretendo ser arrastado por qualquer vento de doutrina, por qualquer interpretação “pessoal” de nenhum homem, por mais carismático que seja.

“Para que já não sejamos crianças, levados à deriva e agitados por qualquer vento de doutrina, à mercê da malícia humana e da astúcia que conduz enganosamente ao erro,” Efésios 4,14

Por alguma razão diz a Bíblia:

“Assim, pois, irmãos, mantende-vos firmes e conservai as tradições que aprendestes de nós, de viva voz ou por carta.” 2 Tessalonicenses 2,15

E eu agradeço a Deus ter-me mantido firme e não me ter perdido nesse universo desordenado de interpretações díspares, sem ordem, sem unidade e sem coesão.

Cada um dos temas em que costumam atacar a Igreja estudei-o a fundo e posso dizer que, em cada um dos temas em que uma Igreja tem uma doutrina diferente da da Igreja Católica, se engana, e só tem razão quando concorda com esta. A única forma de um católico poder ser atraído é quando não conhece a fundo a sua fé, quando não teve um encontro pessoal com Cristo, quando é virtualmente um católico nominal.

Encontrei pessoas que deixaram a Igreja por argumentos tão absurdos como “Puseram-me muitos requisitos na hora de me casar, ao passo que na Igreja evangélica o pastor perguntou-me se a amava e pronto!”. O problema deste tipo de pessoas, que muda de religião conforme algo se lhe torna difícil, é que, depois de o pastor lhe pedir o dízimo, vai sair a correr para os adventistas; quando estes lhe disserem que deve ser vegetariano, vai correr para os mórmones; quando estes lhe disserem que não pode tomar café, vai correr para as testemunhas de Jeová; quando estas lhe disserem que tem de pregar de porta em porta e vender Sentinelas, vai voltar à Igreja Católica, e voltará a ser um católico nominal até que Deus lhe dê um golpe de graça e decida verdadeiramente viver a sua fé.

Outros nunca conheceram o que a Igreja ensina, e qualquer um que lhes leia Êxodo 20,4 acaba por os fazer pensar que eram verdadeiros idólatras e que, por terem uma imagem, já a consideravam Deus. Estas pessoas que não conhecem a sua fé são presa fácil para o proselitismo e, depois de convertidas, não são capazes, apesar de terem sido católicas, de comparar a doutrina católica com a que agora professam, porque nunca a conheceram.

Irmão que te deste ao trabalho de ler estas linhas: a minha intenção não é ofender-te e muito menos duvidar da tua fé. Considero-te um crente verdadeiro e autêntico, mas Cristo chama-nos à unidade e esta unidade é necessária para que o mundo creia:

“Não rogo apenas por estes, mas também por aqueles que, por meio da sua palavra, hão de crer em mim, para que todos sejam um. Como Tu, Pai, estás em mim e eu em Ti, que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que Tu me enviaste. Eu dei-lhes a glória que Tu me deste, para que sejam um como nós somos um: eu neles e Tu em mim, para que sejam perfeitamente ume o mundo conheça que Tu me enviaste e que os amaste a eles como me amaste a mim.” João 19,20-23

A minha intenção é convidar-te a refletir, a aperceberes-te de que a verdadeira unidade que o evangelho exige só pode ser encontrada na única Igreja que Cristo fundou, a única com autoridade legítima. Haverá muitas Igrejas com coisas muito boas, mas é lógico: têm parte do património que foi entregue à Igreja que é UMA, SANTA, CATÓLICA E APOSTÓLICA.

Autor: Eng. José M. Arráiz