Estudo das Escrituras e da doutrina patrística.
Do livro “No todo el que dice Señor Señor” (Nem todo o que diz Senhor, Senhor)
A menos que se indique o contrário, todas as citações bíblicas foram tiradas da Bíblia Ave-Maria.
Presença verdadeira ou apenas símbolo?
Tomarei o cálice da salvação (Sl 116, 13).
Pouco depois de Martinho Lutero, as igrejas protestantes rejeitaram a crença de que Jesus Cristo está verdadeira e sacramentalmente no pão e no vinho consagrados. Elas dizem que são apenas símbolos da presença de Cristo e, por isso, não adoram os elementos consagrados como os católicos. Seu argumento é que Cristo falou em parábola quando falou de comer sua carne, e que a ceia do Senhor não passa de uma lembrança: Fazei isto em memória de mim.
Se os irmãos têm razão, nada perdem. Mas se a Igreja católica a tem, ou seja, que o pão e o vinho significam eficaz e literalmente o corpo e o sangue de Jesus Cristo, os irmãos perdem muitíssimo, porque não têm a oportunidade de receber este alimento que dá a vida eterna.
“A transubstanciação, ou seja, a mudança da substância do pão e do vinho na Ceia do Senhor, não pode ser demonstrada pelas Sagradas Escrituras, mas repugna às palavras simples da Bíblia….” (Art. 18 da Constituição da Igreja Metodista do México, 1975 e Disciplina Igreja Metodista do México, 1991, p 54).
“Essa doutrina que sustenta uma mudança de substância do pão e do vinho na substância do corpo e do sangue de Cristo… foi e é a causa de muitíssimas superstições, e, além disso, de uma crassa idolatria” (Confissão de Fé de Westminster, Publicaciones el Faro, México, 1984,1993, Cap 29, art. F).
Entretanto…
Os que recebem a comunhão devem estar plenamente convencidos de que o que aparenta ser pão não é pão, ainda que tenha esse sabor, mas o corpo de Cristo, e o que aparenta ser vinho não é vinho, ainda que o sabor seja esse (Cirilo de Jerusalém, ano 350 d.C. Discursos Catequéticos).
Primeiro, é importante saber o que quer dizer a palavra “transubstanciação”. É a crença de que o corpo-sangue-alma e divindade (em outras palavras, o próprio Cristo) está verdadeiramente presente sob as aparências de pão e vinho.
O que diz a Bíblia?
Como afirmam os irmãos, é certo que Jesus falou de si mesmo em símbolos: Eu sou a porta (Jo 10, 9); Eu sou a videira (Jo 15, 1). Nessas ocasiões, ninguém dentre os que escutavam Jesus o tomou literalmente. Ninguém perguntou: “Se és uma porta, onde está a maçaneta?; se és a videira, onde estão as folhas e por que não és verde?”. Todo o mundo entendia que ele estava falando em símbolos e que isso fazia sentido. Cristo é como uma porta —vamos ao céu por Ele— também é como uma videira, porque nos dá vida quando permanecemos Nele. Em outras ocasiões, quando as pessoas não o compreendiam, ele corrigia seu mal-entendido. É interessante notar que, em algumas dessas ocasiões, o mal-entendido tinha a ver com a comida: Ele, porém, respondeu: Tenho para me alimentar um alimento que não conheceis. Os discípulos perguntavam entre si: Alguém lhe teria trazido de comer? Disse-lhes Jesus: Meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou (Jo 4, 32-34). Jesus esclareceu o assunto. Ver também “o fermento dos fariseus” em Mt 16, 5-12.
Mas não foi assim em João 6 e na Última Ceia. Jesus não deu nenhuma explicação, porque estava claro. Não há semelhança entre “Eu sou a videira”, “a porta” e “Eu sou o pão da vida” de Jo 6, 35. Jesus vai muito além do simbolismo: “Minha carne é verdadeiramente uma comida e meu sangue verdadeiramente uma bebida” (v. 55). Mas olhemos todo o contexto de João 6.
O que aconteceu no capítulo seis de João?
O contexto do capítulo é importante: Jesus fez um milagre com pão; alimentou toda a gente. Depois, ensinou que Ele é o pão que desceu do céu. Ele mesmo é alimento (Jo 6, 35-41).
A reação dos judeus durante o discurso é sumamente importante. Jesus começou a falar literalmente, e os judeus o tomaram ao pé da letra quando lhes disse que havia descido do céu. Por isso se aborreceram: Como pode ele dizer: Eu desci do céu? (Jo 6, 42). Mas Jesus realmente desceu do céu; tomaram-no literalmente e ele não os corrigiu. Os irmãos separados estarão de acordo conosco em que Jesus literalmente desceu do céu. Mas é triste que, enquanto os irmãos creem literalmente nesta parte do discurso de Jesus em João, não tomam assim o resto do capítulo. Para eles é simbólico. A seguir, veremos que não o é.
Jesus continuou falando ao pé da letra como antes: Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou não o atrair; e eu o ressuscitarei no último dia (Jo 6, 44). Os irmãos creem, sim, que aqui Jesus falou literalmente quando disse: “eu o ressuscitarei”. Também o crê a Igreja católica. Mas depois os irmãos, por razões históricas e não bíblicas, dizem que o seguinte é simbólico.
Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão que eu hei de dar é a minha carne para a salvação do mundo. Disputavam os judeus entre si, dizendo: Como pode ele dar-nos a sua carne a comer? Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós mesmos (Jo 6, 51-53).
Vemos que Jesus, em João 6, 51 a 60, teve de continuar repetindo que minha carne é verdadeiramente uma comida e que a gente o tomou ao pé da letra. Como pode ele dar-nos a sua carne a comer? E Jesus não os corrigiu! Ele não lhes disse que estava falando apenas em parábolas e que não o tomassem literalmente[1].
Outra vez Jesus repetiu: minha carne é verdadeiramente uma comida, meu sangue verdadeiramente uma bebida (v. Jo 6, 55). E outra vez os judeus reagiram. No v. 60 lemos que os discípulos disseram: Dura é esta linguagem. Quem a pode ouvir? Depois lemos que: Desde então, muitos dos seus discípulos se retiraram e já não andavam com ele (v. 66). É o único caso em que se afirma que Jesus foi abandonado por alguns discípulos por causa do que ele dizia. E JESUS NÃO OS IMPEDIU DE SE AFASTAREM DELE. Ele não lhes disse: “Não vos vades, estou apenas falando simbolicamente. Não me entendais mal”. Arriscou-se a perder todos os seus apóstolos, mas continuava falando ao pé da letra. E os Apóstolos captaram que ele falava assim. Por isso foi uma palavra “dura”.
Por que os fariseus e discípulos puderam captar que Jesus falava literalmente quando dizia que Ele desceu do céu e que sua carne é verdadeiramente uma comida, enquanto os irmãos pensam que Jesus falou apenas ao pé da letra quando disse que desceu do céu nos versículos anteriores? Que tipo de mestre seria Jesus se todo o mundo o toma literalmente quando não deveria ser assim?
Quando disse que sua carne é verdadeiramente uma comida, os irmãos dizem que foi uma parábola. Mas o texto não dá nenhuma ideia de que a primeira expressão seja literal e a segunda não. De fato, depois de dizer que sua carne é uma comida verdadeira, Jesus outra vez lhes disse que ele é o pão que desceu do céu (Jo 6, 58). Não faz sentido tomar, entre duas coisas que Jesus disse literalmente, uma terceira em sentido simbólico. Dizer que a primeira frase é literal, a segunda simbólica e a terceira literal é fazer violência ao contexto.
No fundo da expressão “Minha carne para que o mundo tenha vida” há uma fórmula aramaica na qual “carne” substitui “corpo” para designar a realidade criatural da pessoa humana. “Para a vida” traduz a palavra grega HYPER, que nos relatos da Última Ceia, quando Cristo institui a missa (adiante), denota o caráter sacrifical e expiatório da morte de Cristo.
Os irmãos separados citam o versículo 35, onde Jesus diz que “quem vem a mim não terá fome” e “quem crê em mim”, como provas de que o capítulo seis é simbólico. Afirmam que, quando Jesus se chama a si mesmo “o pão da vida”, apenas está dizendo que, se cremos Nele, nos alimentará espiritualmente como o pão nos alimenta fisicamente. Eles dizem que “comemos” e “bebemos” a Cristo ao ir a Ele e ao crer Nele. Mas, como vimos, o contexto é claramente literal e não simbólico. O próprio Martinho Lutero cria na presença verdadeira de Cristo (ver Luther’s Collected Works No. 7, Wittenburg Edit)[2].
Além disso, Jesus não os corrigiu quando os discípulos deixaram de segui-lo por tomá-lo literalmente (Jo 6, 66)[3]. Eles eram de sua raça e sabiam como entendê-lo, também podiam ver seu rosto e conheciam sua maneira de falar. Por isso se aborreceram quando falou de que sua carne era verdadeiramente uma comida. Se Ele falasse apenas da instituição de uma refeição como bênção, não teria causado o abandono por parte de seus discípulos, porque a religião judaica e os costumes do mundo antigo estavam repletos de refeições especiais. Vê quantas vezes Jesus participou de refeições quando visitava as pessoas e como utilizava a imagem do banquete em suas parábolas.
Notamos o quão literais são as palavras de Jesus ao utilizar a palavra grega TROGO em vez de PHAGO. TROGO é mais específica quanto a mastigar, roer, enquanto PHAGO é uma palavra geral para comer. Os únicos outros lugares onde o NT tem TROGO são Mt 24, 38 e Jo 13, 18. EM NENHUMA VEZ QUER DIZER COMER SIMBOLICAMENTE[4]. Além disso, os judeus já sabiam que Jesus falava de comer literalmente, porque perguntaram Como pode ele dar-nos a sua carne a comer? (v. 52), ainda antes de que Jesus utilizasse TROGO.
Outra razão para termos certeza de que Jesus falava literalmente é que, no tempo de Jesus, “comer a carne de alguém” em sentido simbólico estava associado à perseguição, à violência, à traição e à matança: Vós que odiais o bem e amais o mal, que arrancais a pele dos meus filhos e a carne de seus ossos; que devoram a carne do meu povo e lhes arrancam a pele, e lhes quebram os ossos, e os despedaçam como para a panela, e como carne dentro da caldeira (Mq 3, 2-3). Quando avançam contra mim os maus para me devorar, são eles, meus inimigos e adversários, que tropeçam e caem (Sl 27, 2). Cada um devora à direita, e continua com fome; come à esquerda, e não se farta; cada um devora a carne do seu próprio braço (Is 9, 20) Farei os teus opressores comerem a sua própria carne, e embriagarem-se com o seu sangue como com vinho novo; e todo homem saberá que eu sou o Senhor, o teu salvador… (Is 49, 26). (Ver 2Sm 23, 15-17 e Ap 17, 6 e 16). Se Jesus falasse figuradamente, estaria dizendo: Eu vos asseguro que, a menos que persigais, traiais e mateis, não tereis vida. Quem comete a violência tem a vida eterna e o ressuscitarei no último dia.
Alguns irmãos acrescentam que não podem ser literais, porque Jesus diz que o espírito é que vivifica; a carne para nada aproveita (Jo 6, 63). Mas Jesus não diz “minha carne” não aproveita, e sim “a carne”. Na Bíblia, “carne” refere-se não somente ao corpo físico de um ser humano, mas também ao pecado em comparação com a vida do Espírito: Pois, enquanto vivíamos segundo a carne, as paixões pecaminosas, provocadas pela lei, operavam em nossos membros, a fim de produzir frutos para a morte (Rm 7, 5 e 1Cor 2, 14-3, 4). Não vivemos segundo a carne, mas segundo o espírito. Os que vivem segundo a carne pendem para as coisas da carne, mas os que vivem segundo o espírito afeiçoam-se às coisas do espírito (Rm 8, 4-5).
Jesus não estava oferecendo comer seu corpo naquele momento. Isso teria sido canibalismo[5]. O que dizia era que, pelo poder do Espírito Santo —o espírito é que vivifica— logo seu corpo seria glorificado. Lembra-te de que o contexto do capítulo é a Páscoa (Jo 6, 4). Ele estava apontando para o momento após a sua morte, quando daria a seus discípulos seu corpo transformado pelo Espírito para “a vida do mundo”. Porque o espírito vivifica: o pão que eu hei de dar é a minha carne para a salvação do mundo (Jo 6, 51)[6].
Na missa, não é o corpo de Jesus-homem, como tu e eu, o que recebemos, mas o corpo do Cristo glorificado. Cristo não sofre mais, não há sangue de glóbulos vermelhos e brancos. Por isso dizemos “Corpo de Cristo”, não “Corpo de Jesus”. Como o Sumo Sacerdote o fez na Última Ceia, na missa o sacerdote, representando a Cristo, pronuncia sobre o pão e o vinho as mesmas palavras: Isto é o meu corpo, isto é o meu sangue. E o Espírito vivifica: As palavras que vos disse são espírito e vida (Jo 6, 63). Este mesmo Espírito que deu vida à Criação (Gn 1, 2) e formou a vida do Messias no seio de Maria transforma o pão em corpo de Cristo.
Citar Jesus, “minhas palavras são espírito e vida”, para afirmar que as palavras de Jesus são simbólicas não faz sentido quando refletimos: as palavras de Jesus são espírito e vida, com certeza. Mas nem todas são simbólicas.
Quando Deus diz uma coisa, ela acontece (Is 55, 11). Sua palavra é eficaz: Isto é o meu corpo (Mc 14, 22-24). Não disse “Isto simboliza o meu corpo”, e sim “Isto É”. Tendo Cristo dito “isto é o meu corpo”, quem vai dizer: “Não, Senhor, isto não é o teu corpo. É pão, nada mais”? Dizer: “isto é a minha casa, isto é o meu amigo” não quer dizer “isto é símbolo da minha casa, símbolo do meu amigo”[7] . Por 1.500 anos, até depois de Lutero, ninguém discutiu esta crença.
É um milagre, e não é por acaso que Jesus Cristo fez este discurso depois da multiplicação dos pães. O milagre para alimentar o corpo. Agora quis alimentar a alma.
Vós me procurais não porque vistes milagres, mas porque comestes do pão e vos fartastes. Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela comida que permanece até a vida eterna, e que o Filho do Homem vos dará… (Jo 6, 26-27). Nossos pais comeram o maná no deserto…. Respondeu-lhes Jesus:… Não foi Moisés quem vos deu o pão do céu; mas meu Pai é quem vos dá o verdadeiro pão do céu (Jo 6, 31-32). Jesus afirmou que a comida que daria é superior ao pão multiplicado e ao maná (vv. 31-32). Se o pão e o vinho não se convertem no Corpo e Sangue de Cristo, estas palavras são mentiras. O pão e o vinho normais não são melhores que o maná e o que alimentou milagrosamente cinco mil homens.
Afinal de contas, se é como dizem os irmãos —que Cristo não falava de sua própria carne porque “a carne para nada aproveita” (v. 63)—, então todo o capítulo NÃO TEM SENTIDO. Teríamos de compreender que, apesar de Jesus acabar de mandar seus discípulos comerem sua carne, depois diz que fazer isso não tem sentido (“para nada aproveita”)! “Come a minha carne, mas verás que é uma perda de tempo”. É isto o que está dizendo Jesus? Com certeza não. A frase as palavras que vos disse são espírito e vida NÃO QUER DIZER “o que acabo de dizer é simbólico”. A palavra “espírito” nunca se toma assim na Bíblia. Além disso, se Jesus esclarece que estava falando em símbolos e que —“a carne [literalmente falando] para nada aproveita”— por que, entretanto, seus discípulos o deixaram? É importante notar também que, na Última Ceia, Jesus utiliza a palavra corpo. “Isto é o meu corpo”, e não carne. Isso torna o assunto ainda mais claro, porque, no pensamento judaico, não há dualismo entre corpo e alma. “Meu corpo” quer dizer a pessoa em sua totalidade. “Isto é o meu corpo” significa “isto sou Eu”.
Em Lucas 22, 19 lemos: Fazei isto em memória de mim. Os evangélicos pensam que isso quer dizer que celebrar a Ceia não passa de uma lembrança intelectual, recordando o que Jesus fez naquela noite. Para eles, Ele está presente apenas espiritualmente pela “comunhão” dos crentes quando celebram juntos.
Mas temos de compreender que Jesus estava celebrando a Páscoa, e para os judeus “fazer memória” não é apenas recordar um fato histórico, uma lembrança de algo passado, mas um REVIVER. Um “memorial” para os cristãos e judeus é uma proclamação eficaz da obra poderosa que Deus faz de novo. Significa que o acontecimento irrepetível do Calvário se torna realidade no presente por meio do Espírito Santo. No altar, o pão e o vinho não permanecem apenas como símbolos, mas se convertem no Jesus Cristo daquela primeira sexta-feira santa no lugar da Caveira (Mc 15, 22). (Ver capítulo seguinte.) É algo do passado que entra espiritualmente no presente, como o expressa a palavra grega ANAMNESIS (1Cor 11, 25).
Em Êxodo 24, 8 lemos: Moisés tomou o sangue e aspergiu com ele o povo, dizendo: Eis o sangue da aliança que o Senhor fez convosco, mediante todas estas cláusulas. Prefiguram as palavras de Jesus quando tomou o vinho: Bebei dele todos. Isto é o meu sangue, o sangue da aliança, que é derramado por muitos para remissão dos pecados (Mt 26, 27-28). Para completar a aliança, Moisés utilizou sangue de cordeiro e não um símbolo dele. Igualmente, quando Jesus, o Cordeiro de Deus, firmou o Novo Pacto em seu sangue. É importante notar que o único lugar onde Jesus fala do Novo Pacto em seu sangue é na Última Ceia, quando compartilhou o cálice de vinho[8].
Como Paulo entendeu as palavras de Jesus?[9]
Aquele, pois, que comer o pão ou beber o cálice do Senhor indignamente será réu do corpo e do sangue do Senhor (1Cor 11, 27). Ou então, a Versão Latino-americana: Se alguém come o pão e bebe do cálice do Senhor indignamente, peca contra o corpo e o sangue do Senhor.
Paulo estava falando da celebração da Ceia do Senhor. E pecar contra o pão é pecar contra o corpo (não contra o pão). Pecar contra o cálice é pecar contra o Sangue (e não contra o cálice). O pão é o corpo. Pecar contra Deus é pecar contra o Criador, porque Deus e Criador são iguais. Como poderia ser tão grande o pecado vinculado a “comer” se apenas fosse pão e vinho? (Ver v. 29 em diante.) O Criador não nos dá apenas “coisinhas que simbolizam”. Ele mandou seu filho para tomar nossa pobre carne, e o filho nos dá de si mesmo. Que grande amor!
No v. 29, Paulo utiliza a palavra DIAKRINO (discernir)[10]: quem come e bebe indignamente, sem distinguir o corpo do Senhor, come e bebe a sua própria condenação… Então, os coríntios não estavam discernindo, ou estavam duvidando de que fosse o corpo de Jesus Cristo. Se não fosse assim, teríamos de nos perguntar: por que ser julgados com enfermidade e morte espiritual (v. 30) se fosse apenas do pão que abusavam? Paulo diz que eram culpados de pecar contra o corpo e o sangue de Cristo (v. 27), mas como, se não estava presente fisicamente na comida? Paulo não diz que pecam contra a Ceia do Senhor. Não se pode pecar contra algo se não se está presente. A conclusão é clara: quem come indignamente é culpado quanto ao que come.
O cálice de bénção, que benzemos, não é a comunhão do sangue de Cristo? E o pão, que partimos, não é a comunhão do corpo de Cristo? (1Cor 10, 16)
Um folheto chamado Roman Catholics and Communion (Os católicos romanos e a comunhão), do grupo Evangelical Outreach, argumenta que, se fosse certo que Jo 6, 53 é interpretado literalmente —que comer sua carne e beber seu sangue dá a vida eterna—, então como pôde ter sido salvo Zaqueu (Lc 19, 9) se a comunhão foi instituída apenas na Última Ceia (Lc 22, 15-20)? Para a Igreja católica, esta pergunta é igual a perguntar como os Patriarcas do AT puderam salvar-se sem conhecer e crer em Jesus Cristo. A resposta é que Deus não pede o impossível, como, p. ex., crer em Cristo antes de que Ele nascesse, comungar antes de instituir a comunhão (no caso de Zaqueu), ou que um deficiente creia em Cristo para salvar-se quando não tem a capacidade mental. Jesus não pediria ao “bom” ladrão que se batizasse quando não podia (Lc 23, 42-43). Este folheto diz que a hóstia DEVE ter sabor de carne se de fato o é. Mas este argumento é como dizer que Jesus deveria ter parecido Deus-Onipresente quando esteve na terra e não como um judeu comum, se de fato o era. Contudo, apareceu como um homem qualquer. Quem somos nós para dizer como Deus deve ou não agir? Se Ele quer que a hóstia continue com o mesmo sabor, é seu desejo.
Previsto no AT
É muito importante ler Êxodo 12, 11ss para entender o que Jesus fazia e pensava ao celebrar a Última Ceia durante a festa da Páscoa.
Cada ano os judeus revivem a fuga do Egito quando celebram a páscoa em suas casas, seguindo as ordens de Deus: O Senhor disse a Moisés… no décimo dia deste mês, tome cada um… um cordeiro… tomarão do seu sangue e marcarão as duas ombreiras e a verga da porta das casas… Nessa noite comerão a carne… e pães sem fermento… Eis como o comereis: os vossos rins cingidos, o vosso calçado nos pés e o vosso bastão na mão; comê-lo-eis à pressa: é a Páscoa do Senhor (Êx 12, 1-11). Literalmente carne de cordeiro e sangue vivo!
Para o judeu, esta festa e a maneira de celebrá-la é costume perpétuo por mandato do Senhor (Êx 12, 17).
Por que comer à pressa, como manda Deus, se hoje em dia o judeu não tem de fugir dos egípcios? É que está revivendo o acontecimento. É assim como os católicos, quando celebramos a missa, revivemos a Última Ceia, a Nova Páscoa em que saímos da escravidão do pecado. E, como vimos acima, é mais que uma lembrança intelectual. Não é o mesmo significado de uma festa nacional em que a pessoa simplesmente recorda o passado, mas não o revive, não torna presente um acontecimento passado. Nossa Páscoa é diferente: É REVIVER A ÚLTIMA CEIA, um encontro com Jesus EM SUA PLENITUDE na “Fração do Pão” (Lc 24, 30-31).
Ele sacia a alma sedenta, e enche de bens a alma faminta (Sl 107, 9). Feliz aquele… cuja esperança está posta no Senhor, seu Deus… que dá pão aos famintos (Sl 146, 5-7).
Como você se sentiria se, com fome, o pai de uma criança lhe desse uma maçã artificial (de cera ou de madeira) que simboliza uma fruta verdadeira? Terrível! Jesus disse: Quem dentre vós dará uma pedra a seu filho, se ele lhe pedir pão? Ou se lhe pedir um peixe, dar-lhe-á uma cobra? Se vós, pois, maus como sois, sabeis dar boas coisas a vossos filhos, QUANTO MAIS vosso Pai celeste dará boas coisas aos que lhas pedirem? (Mt 7, 9-11). Contudo, os irmãos dizem que Jesus nos dá apenas um símbolo do Pão do Déu. Se dizemos que temos fome, e se Jesus nos diz: Trabalhai pela comida que permanece até a vida eterna, e que o Filho do Homem vos dará …e o pão que eu hei de dar é a minha carne (Jo 6, 27-51), nos dará algo artificial que apenas é um símbolo, que a simboliza, como a maçã de cera que só representa a comida verdadeira? Senhor, temos fome de ti. Quem dentre vós dará uma pedra a seu filho, se ele lhe pedir pão… quanto mais vosso Pai dará boas coisas…
Irmão, talvez, como os judeus, penses que dura é esta linguagem, quem a pode ouvir?. Crer em Jesus é um ato de fé e da vontade, não da sabedoria do homem, diz Paulo (1Cor 1, 19)[11]. Se continuas afastando-te da Igreja que Cristo fundou, segues o exemplo de alguns dos discípulos que também se afastaram de Jesus naquele dia (Jo 6, 66). Melhor é seguir a Pedro, o líder dos Apóstoles e de nós, como quer Jesus (Jo 21, 15-17; Mt 16, 18-19). Volta à Igreja verdadeira, porque o próprio Jesus disse: quem come a minha carne e bebe o meu sangue TEM A VIDA ETERNA. Se o maná do AT, algo milagroso, mas apenas pão, foi chamado trigo do céu, pão dos anjos (Sl 78, 24-25), quanto mais é o Pão descido do Céu: Jesus Cristo!
Em resumo, podemos dizer que há um sentido profundamente espiritual em João 6: Jesus é o pão espiritual enviado pelo Pai. Dando-nos sua carne, aponta para sua morte na cruz. A vida eterna é a força que impele as palavras deste capítulo (Jo 6). Mas a glória da cristandade é que não somente se apresenta simbolicamente, mas fisicamente também. Porque somos físicos, Deus oferece esta dimensão à nossa fé para nos abençoar. Por isso tomamos parte do sacrifício de Cristo não apenas ao crer em Jesus com nossa mente, mas também ao receber seu corpo. Como em um matrimônio cristão os dois serão uma só carne (Mc 10, 8), assim é com Cristo e sua esposa, a Igreja (Ef 5, 31-32). Cristo entra fisicamente em nós e torna-se um conosco. Pode parecer ridículo, mas, como diz Paulo, Deus utiliza coisas absurdas que para os gentios são loucura (1Cor 1, 23).
Jesus usou vinho e não suco de uva
Muitos irmãos tentam nos convencer de que Jesus tomou um tipo de vinho sem álcool chamado “mosto”, isso porque condenam todo uso de licor, e até condenam os católicos por serem beberrões. Mas o que diz a Palavra de Deus?
A promessa de Deus incluía uma terra com vinho. As eiras se encherão de trigo, e os lagares transbordarão de vinho e de azeite (Jl 2, 24). O Senhor dos exércitos prepara, para todos os povos, sobre este monte, um festim de manjares suculentos, um festim de vinhos requintados… (Is 25, 6. Ver Ne 8, 10). Deus sabe distinguir entre o bom e o mau uso do vinho, aprova o bom uso. Além disso, se fosse apenas “suco de uva”, como poderia Isaías falar de “vinhos requintados” (outras traduções: “vinhos refinados”)? Também o Apóstolo Paulo fala de usar vinho para as enfermidades: Não continues a beber só água; toma também um pouco de vinho por causa do teu estômago e das tuas frequentes indisposições (1Tm 5, 23).
Se Jesus não queria que tomássemos vinho, por que transformou a água em vinho nas bodas de Caná? (Jo 2). Nas bodas judaicas, a festa durava pelo menos uma semana (Gn 29, 27 e Jz 14, 10-12.) Jesus duplicou a quantidade de vinho! Não é correto dizer que este vinho não tinha álcool. Usa-se aqui a mesma palavra grega OINOS que Paulo utiliza para dizer que ninguém deve embriagar-se; também a utilizou para condenar os coríntios por se embriagarem na Ceia do Senhor (embora tomar com moderação não fosse mau: Pois quê! Não tendes casas para aí comer e beber?… (1Cor 11, 20-22). Quer dizer que este “vinho” tem álcool. Se não, por que proibir embriagar-se, se é apenas suco de uva? Em João 2, 7-10, a palavra vinho é a mesma palavra grega que Paulo usa em sua primeira carta a Timóteo (3, 8 e 5, 23). O mestre-sala (mordomo) da boda não teria dito que bom vinho era este se tivesse sido apenas suco!
O teólogo biblista das Assembleias de Deus, Stanley M. Horton, diz que mosto é “vinho novo, não é suco de uvas, mas uma palavra que significa um vinho especialmente intoxicante, o que se faz de uvas doces” (El Espíritu Santo revelado en la Biblia, Edit Vida, USA, 1976, 1992, ediç. revisada). Esta frase vem de alguém que está contra tomar!
Jesus não se embriagou, mas tomou vinho, sim. Os fariseus o criticaram por não jejuar, até o chamaram de comilão e beberrão (Mt 11, 19). Não o teriam criticado por tomar vinho se ele nunca o tivesse bebido. Vemos o contraste com João, que não tomava: Veio João, que não come nem bebe (como os evangélicos), e dizem: Ele está possesso do demônio! Veio o Filho do Homem, que come e bebe, e dizem: Eis um comilão e beberrão (Mt 11, 18-19).
É claro que a Bíblia condena as bebedeiras (Gl 5, 21; Ef 5, 18). Mas diz outras coisas sobre o uso do vinho também. No Salmo 104, 15 lemos que Deus faz produzir o vinho que alegra o coração do homem. Tomar vinho não é o mesmo que embriagar-se. É a quantidade excessiva o que é mau. Os diáconos não devem tomar demasiado vinho: não dados a muito vinho, diz Paulo (1Tm 3, 8).
A Igreja católica está contra a bebedeira (mas não contra a pessoa); sua sabedoria e sua maturidade lhe permitem distinguir entre o bom e o mau uso. A Bíblia diz que julgar e criticar o beberrão é pior que a própria bebedeira (Gn 9, 21-27). Ao citar Gálatas 5, 20-21 para criticar os católicos que se embriagam, os irmãos esquecem que Paulo também condenou, ao mesmo tempo, o sectarismo e as divisões (Versão Latino-americana), divisões e partidarismos (Dios Habla Hoy).
Vinde comer o meu pão, e bebei o vinho… (Pr 9, 5).
E pus diante deles a comida (Os 11, 4).
As testemunhas de Jeová celebram sua “ceia” apenas uma vez ao ano, os presbiterianos quatro vezes ao ano, os batistas em geral cada mês. Mas a Igreja segue os primeiros cristãos, que celebravam cada semana (At 20, 7 — o primeiro dia da semana). Não percas nenhuma outra semana sem poder comer o pão da vida que, desde o primeiro século, os cristãos comem.
“Não sou católico romano porque, como evangélico, creio que a participação da Ceia do Senhor (ou Santa Ceia) é uma comemoração simbólica da morte de Cristo… e, portanto, nunca poderia crer nas incríveis asserções da Igreja Católica de que seus sacerdotes têm o poder misterioso de mudar pão e vinho comuns na mesma carne e sangue do Senhor Jesus Cristo”[12] .
Agora sabemos que esta maneira de entender a crença católica é incorreta. Não é o sacerdote que faz o milagre, mas o próprio Espírito Santo por meio dele. Não é que creiamos porque entendamos como é que o pão se converte no corpo de Cristo. Cremos porque Jesus o disse: Ele tem palavras de vida eterna.
O que diz a Igreja Primitiva?
A verdadeira presença de Cristo
- Inácio de Antioquia (110 d.C.): Carta aos romanos, 7:3, “emm>o pão é a carne de Jesus Cristo, o vinho o sangue”.
Carta aos Esmirnenses, 6:2-7:1, “alguns maus se afastam da igreja por não confessarem que a Eucaristia é a carne de nosso salvador Jesus Cristo, a mesma que padeceu por nossos pecados” - Didaqué (9): As orações do ofertório da missa vêm deste capítulo. (14): A missa é “um sacrifício puro”. Este é o sacrifício do qual disse o Senhor: “Em todo lugar e em todo tempo se me oferece um sacrifício puro, porque eu sou Rei Grande”
- Justino Mártir (151 d.C.): Primeira Apologia 65, 66. Justino descreve a Missa Católica que celebravam naquele tempo. No capítulo 66, Justino diz que o pão não é qualquer pão nem o vinho qualquer bebida, mas Jesus que, pelo poder de sua palavra, nos alimenta com seu corpo e seu sangue, o mesmo corpo e sangue de nossa natureza que ele toma ao fazer-se homem. “Porque recebemos dos Apóstolos que Jesus disse ‘Isto é o meu sangue’ e foi-lhes dado”.
- Ireneu (189 d.C.): Contra as heresias, 4:32-33: “O vinho e o pão, ao receberem as palavras da consagração, convertem-se no corpo e no sangue de Cristo”.
- Clemente de Alexandria (191 d.C.): O Pedagogo, 1:6:43:3.
- Tertuliano (210 d.C.): A Ressurreição dos mortos, 8.
- Hipólito (217 d.C.): Fragmento do Comentário sobre os provérbios.
- Eusébio: Provas do Evangelho.
- Orígenes (248 d.C.): Homilias sobre os Números, 7:2.
- Tertuliano: Sobre a oração, A Ressurreição do corpo, A coroa
- Cipriano (251 d.C.): Epístola aos que deixaram de assistir, 15-16.
- Concílio de Niceia I (325 d.C.), Cânon 18.
- Afraates (340 d.C.): Tratados, 12:6.
- Cirilo de Jerusalém (350): Leituras catequéticas, 19:7 e 22:6-9.
“Não houve verdadeira controvérsia (sobre a verdadeira presença de Cristo na Missa) nos dez primeiros séculos da igreja (p. xiii).
“A fé de todos os tempos é a mesma. No início do século II, São Inácio de Antioquia expressava a fé comum, em contraposição ao erro doceta, com a expressão gráfica de que a Eucaristia é <<a carne de Nosso Salvador Jesus Cristo, a qual padeceu por nossos pecados, e à qual ressuscitou o Pai por sua boa dignidade>> (Carta aos Esmirnenses).
“Cirilonas (século IV): “o pão convertido no verdadeiro corpo de Jesus, de modo tão real que naquela última ceia Jesus… se elevou a si mesmo por amor e manteve levantado seu próprio corpo em suas mãos”. (Hinos Homilias sobre a Páscoa de Cristo #1)
“O caráter sacrifical (da Eucaristia) está indicado manifestamente na Sagrada Escritura. Encontramo-nos, com efeito, com expressões tipicamente sacrificais, principalmente a propósito do sangue, do qual se diz: <<derramado por muitos para remissão dos pecados>> (Mt 26, 28)… Maior força tem o fato de São Lucas dizer que <<o cálice>> é derramado (22, 20), pois assim aparece mais claramente que não se trata do sangue derramado na cruz, mas do sangue contido no cálice. Trata-se, portanto, do sacrifício oferecido por Jesus na última ceia em indissolúvel união com o sacrifício da cruz” (p. 21).
Do Livro Textos Eucarísticos Primitivos Tomo I (dos evangelhos até fins do Século IV). J. Jesús Solano, Editorial B.A.C., Espanha, 1952.
O erudito protestante J. N. D. Kelly admite que “o ensino Eucarístico, desde o princípio, era realisticamente sem questionamentos, ou seja, que o pão e o vinho consagrados eram tomados, tratados e designados como o Corpo e Sangue do Salvador… Inácio (de Antioquia) claramente declara que o pão é a Carne de Jesus, o cálice seu Sangue… Ensina que o pão e o vinho são verdadeiramente o Corpo e Sangue do Senhor” (Early Christian Doctrines, pp. 440, 197-198
Banquete e Sacrifício
A Missa (ou Eucaristia) é o culto principal da Igreja. Esta celebração deriva da Última Ceia, e está dividida em duas partes: a Palavra de Deus, AT e NT, e a partilha, a fração do pão mencionada em Atos 2, 42. Um modelo desta celebração é o de Jesus com os discípulos de Emaús. Explicou-lhes que o AT se referia a ele, e depois celebrou com eles a fração do pão (Lc 24, 27-30). Vemos os primeiros cristãos seguindo este exemplo: No primeiro dia da semana, tendo-nos reunido para partir o pão, Paulo, que devia viajar no dia seguinte, dirigia a palavra à assembleia…. Depois subiu, partiu o pão e comeu; e falou-lhes largamente até o romper do dia; então partiu (At 20, 7-11).
Um Sacrifício
“Neste sacramento (A Ceia do Senhor) Cristo não é oferecido a seu Pai, nem se faz nenhum verdadeiro sacrifício… apenas é uma comemoração do único oferecimento de si mesmo e por si mesmo na cruz… Assim, o sacrifício papal da missa, como eles o chamam, é a injúria mais abominável ao único sacrifício de Cristo, a única propiciação por todos os pecados dos eleitos” (Confissão de Westminster, Cap. 29, art. B).
A Igreja Católica ensina que a missa, além de ser um banquete de ação de graças (“Eucaristia”), é também um sacrifício.
Os irmãos, citando Hebreus 9, 27-28, argumentam que não pode ser um sacrifício porque este sucedeu uma só vez no Calvário. A Igreja está de acordo em que Jesus morreu uma só vez para sempre.
O Sacrifício de Cristo na cruz foi único e suficiente para expiar os pecados de todos, e não se pode repeti-lo. Mas há mais sobre o sacrifício de Jesus Cristo. É mais preciso dizer que sua morte aconteceu uma só vez e não voltou a repetir-se. Mas veremos que a missa revive, reatualizando (torna presente de novo) o Sacrifício. Jesus não morre, mas a missa é um verdadeiro sacrifício que aplica aos homens os frutos do calvário. É uma atualização sacramental deste mesmo sacrifício.
A Última Ceia do Senhor e o Calvário formam uma unidade[13]
A Última Ceia sucedeu durante a festa da Páscoa (Mc 14, 1). Jesus teria podido celebrar a Ceia outro dia, mas o fez durante esta festa. E lhe deu um novo sentido. Para entender a Última Ceia (Missa), temos de saber o que Jesus fez.
A Páscoa se celebrava cada ano. Ainda a celebram os judeus. É a comemoração da libertação dos israelitas da escravidão no Egito. O anjo da morte passou por cima de cada casa que fora untada com o sangue de um cordeiro. Depois a família comeu o cordeiro. Não foi suficiente untar a verga da porta da casa com o sangue. Tiveram de comer: Nessa noite comerão a carne assada ao fogo e pães sem fermento (Êx 12, 8). O cordeiro teve de ser sem defeito (v. 5) como prefiguração de Jesus, o Cordeiro de Deus (Jo 1, 36), que também é sem mácula. Nesta celebração Deus realizou uma aliança, um pacto com seu povo.
Em Êxodo 24, 7-8 narra-se que Moisés aspergiu o povo com o sangue do cordeiro para selar este pacto.
Agora Jesus celebrou esta mesma festa, mas a transformou. É seu sangue o que salvaria da morte do pecado, não o do cordeiro. O pão que se usa na festa da Páscoa (e na missa) é pão sem fermento (Mc 14, 1). Com o pão em suas mãos, Jesus disse: Isto é o meu corpo. Lembremos o que já dissemos sobre o capítulo seis de João: o discurso de Jesus sobre comer seu corpo deu-se próximo à Páscoa (Jo 6, 4). Pode-se ver nisto o vínculo entre o discurso e a celebração da Última Ceia. Isto é o meu sangue, o sangue da aliança (Mc 14, 24 e 1Cor 11, 25) alude ao Antigo Pacto de Êxodo 24.
Quatro cálices
Entravam na celebração da Páscoa mais de um cálice de vinho, como vemos em Lucas 22, 17-20. Se hoje celebras a Páscoa com uma família judia, celebrá-la-ão com quatro cálices[14]. Foi o terceiro cálice de vinho que Jesus mudou em seu sangue. Assim Paulo identifica o cálice de bênção com a Eucaristia em 1Cor 10, 16. Ele disse algo que teria surpreendido os apóstolos: não beberei mais deste fruto da videira, até o dia em que o beberei de novo, no Reino de Deus (Mc 14, 25). Que surpresa para os Apóstolos, porque eles sabiam que ainda restava outro cálice na festa pascal, mas Jesus não o tomou. Onde está o último cálice para terminar a festa da Páscoa? A festa que Jesus celebrava na Última Ceia não havia terminado. Daria outro sentido ao “cálice” e à festa.
O quarto
Em Marcos 14, 36 Jesus disse: Pai, afasta de mim este cálice. Aqui está o outro cálice do qual Jesus falou: Porventura não hei de beber o cálice que o Pai me deu? (Jo 18, 11). É o sofrimento e a morte na Cruz. A celebração da Última Ceia continua na Paixão do Senhor. O Calvário terminaria a Páscoa (e a Ceia). Seria um só ato de Sacrifício Pascal. O Calvário representa o sacrifício do Cordeiro perfeito. A túnica que Jesus levava era como a que usava o sacerdote judeu para os sacrifícios no templo (Jo 19, 23). Ele é o Sacerdote Supremo.
No caminho ao calvário, os soldados ofereceram vinho a Jesus (Mc 15, 23), mas ele não o tomou. Havia dito que não tomaria até aquele dia em que o beberia no reino (14, 25). Depois, na cruz, Jesus disse: Tenho sede. Será que de repente Jesus tinha sede? Não. Fazia horas que estava sofrendo de sede pela perda de sangue (e em um clima de deserto). Mas agora, na cruz, Ele quer terminar a Última Ceia (o último cálice da Páscoa), para que a Escritura se cumprisse (Jo 19, 28). Os soldados lhe dão vinho azedo (“atuu” [gr: OXOS], uma espécie de vinagre para os soldados comuns), e desta vez, sim, ele o bebe (Jo 19, 29). Dão-lho com um ramo de hissopo, igual ao que usaram quando untaram a casa com sangue do cordeiro (Êx 12, 22). Depois Jesus diz (tudo) está consumado. O que está “consumado” se Jesus ainda não ressuscitou? Ele foi ressuscitado para nossa justificação, diz Paulo (Rm 4, 25). É a Última Ceia da Páscoa que está concluída. E é de notar que o nome do quarto cálice era “o Dálice de Consumação”, e o que Jesus disse (em hebraico) é exatamente o que dizia o pai de família quando terminava o quarto cálice.
A Páscoa celebrava o acontecimento da morte dos primogênitos dos egípcios. Agora é Jesus quem é o primogênito sacrificado para salvar, não somente os judeus, mas todo o mundo. Ele é a Páscoa que nos liberta (1Cor 5, 7), é o sangue do Novo Pacto que por muitos é derramado (Mc 14, 24). Mas não terminou a festa na mesa.
Para os judeus não era suficiente untar a porta para salvar-se, havia que comer. E nós, os do Novo Pacto, temos de celebrá-lo também: Fazei isto em memória de mim (1Cor 11, 24). E não é por acaso que a Palavra de Deus vincula “recordar/fazer memória” com “sacrifício” em Hb 10, 3. Os únicos dois lugares onde se fala do holocausto —Lv 24, 7 e Nm 10, 10 (temas nos Sl 37 e 39)— fazem uma ligação entre pão e sacrifício.
Por isso Paulo diz: celebremos a festa (1Cor 5, 8) para manter presente o sacrifício. Ou, como o disse Jesus: quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna (Jo 6, 54). Para salvar-se da morte, os judeus no Egito não comeram uma coisa que representava um cordeiro. Comeram cordeiro. Tampouco creem os católicos que comem apenas um símbolo do Cordeiro de Deus. Moisés não aspergiu algo que simboliza sangue de cordeiro (Êx 24, 8).
Jesus Cristo é nosso sacrifício, foi sacrificado uma vez no Calvário, mas temos de comer seu corpo para cumprir a Aliança. A Última Ceia foi um reviver a Páscoa. A missa católica é um reviver a Última Ceia. Não é apenas uma lembrança. A missa não é “outro sacrifício”, mas a participação no mesmo e único sacrifício de Cristo na cruz, igual a como a Páscoa para os judeus hoje é participar naquela noite quando celebravam sua libertação do Egito. O passado é tornado presente —ANAMNESIS— fazei isto em memória de mim.
Temos de distinguir entre a morte de Cristo e o sacrifício na Cruz. A Igreja Católica sabe que Cristo morreu de uma vez para sempre. Não morre na missa. Mas seu sacrifício é tornado presente em cada uma delas. A santa Ceia está infinitamente vinculada com o sacrifício do calvário. Todas as vezes, com efeito, que comeis desse pão e bebeis desse cálice, anunciais a morte do Senhor, até que ele venha (1Cor 11, 26).
João presencia a missa celestial
Era um domingo, o dia do Senhor (Ap 1, 10) quando o autor do Apocalipse viu Jesus: Então vi, no meio do trono… um Cordeiro de pé, imolado (Ap 5, 5-6). Como João viu Jesus? Como rei triunfante? Como o Leão de Judá? Viu-o em sua glória como um cordeiro imolado. Espiritualmente, o sacrifício continua. A missa reflete e participa nesta celebração celestial, como diziam os Padres da Igreja primitiva. O autor da carta aos Hebreus fala da possibilidade de que Jesus seja sacrificado “novamente” por nossos pecados: e, todavia, recaíram, sejam renovados outra vez para a penitência, pois, quanto a eles, crucificam de novo o Filho de Deus e o expõem à ignomínia (Hb 6, 6). Na Bíblia Dios Habla Hoy lemos: porque eles mesmos estão crucificando outra vez o Filho de Deus e expondo-o à zombaria. Obviamente, Jesus não é crucificado de maneira igual à do Calvário. O sentido é espiritual.
Nós participamos neste cálice, neste sacrifício: Por tua causa somos entregues à morte a longo dia; tratam-nos como ovelhas destinadas ao matadouro (Rm 8, 36). Podeis beber o cálice que eu vou beber, ou ser batizados no batismo em que eu vou ser batizado? perguntou Jesus (Mc 10, 38). Com Cristo estou pregado na cruz. Vivo, mas já não sou eu que vivo; é Cristo que vive em mim (Gl 2, 20).
Jesus claramente se refere ao sacrifício durante a Ceia: este cálice é a Nova Aliança em meu sangue (1Cor 11, 25. Ver Jeremias 31, 31). Ele selou o Novo Pacto entre Deus e o povo com seu sangue. O novo sacrifício no sangue de Cristo é eficaz para selar o Novo Pacto, como o sacrifício de animais o era para o Antigo Pacto (Ver 1Cor 10, 14-21). É por meio da Eucaristia que Paulo entende como se cumpriu a profecia de Malaquias de que “a mesa do Senhor” em Jerusalém seria substituída pelo sacrifício Cristão, a nova “mesa do Senhor”: Portanto, meus caríssimos, fugi da idolatria …. Considerai Israel segundo a carne: aqueles que comem as vítimas não entram em comunhão com o altar? Que quero então dizer? Que a carne sacrificada aos ídolos seja realmente alguma coisa? Ou que os ídolos sejam também alguma coisa? Não! O que eles sacrificam, sacrificam-no a demônios e não a Deus. E eu não quero que tenhais comunhão com os demônios. Não podeis beber ao mesmo tempo o cálice do Senhor e o cálice dos demônios; não podeis participar da mesa do Senhor e da mesa dos demônios (1Cor 10, 14 e 18-21). Nota como Paulo situa os sacrifícios no Templo Judeu, os sacrifícios pagãos e a Eucaristia na mesma categoria: mesas sacrificiais, altares aos quais a gente participa por comer os sacrifícios e assim comungar com a divindade.
Outra ligação entre a Última Ceia e a Cruz é a água e o sangue que saíram do lado do Crucificado, que a Igreja primitiva entendeu como símbolos representando o Batismo e a Eucaristia.
O Apocalipse mostra o Cordeiro imolado de pé (Ap 5, 5). Imolado, como sacrificado, não é sinônimo de morto. Paulo disse: Rogo-vos, pois, irmãos, pela misericórdia de Deus, que ofereçais os vossos corpos como hóstia viva, santa e agradável a Deus (Rm 12, 1). A festa da Páscoa é eterna: Celebremos a festa (1Cor 5, 8). A Missa cumpre a profecia de que a Páscoa seria eterna, segundo disse Deus aos israelitas: Este dia será para vós memorável, e o celebrareis como festa em honra do Senhor durante as vossas gerações;… por instituição perpétua o celebrareis… Guardareis a festa dos pães sem fermento… nas vossas gerações, como instituição perpétua (Êx 12, 14-17).
Os irmãos citam a Carta aos Hebreus para dizer que não há outro sacrifício, que o sacrifício de Cristo na cruz foi de uma vez para sempre. ESTAMOS DE ACORDO. Mas olhando mais a carta aos hebreus, o que vemos?:
1) Hebreus põe ao lado o sacrifício levítico do AT, não o sacrifício memorial de Cristo instituído na Última Ceia. Os sacrifícios levíticos eram parte da Lei (Hb 7, 11, 18 e 28). O contexto de Hebreus 7 a 9 não se opõe ao sacrifício de Cristo, mas ao levítico.
2) O sacrifício memorial de Cristo não está sob a Lei, mas dentro da promessa ou juramento de Deus (Hb 7, 20-21) (Nota: “sacramento” vem da palavra latina para juramento). É a mesma distinção entre Lei e promessa que encontramos em Rm 4, 13-17; Gl 3, 15-22.)
3) Posto que Cristo é “sacerdote para sempre”, seu ofício de oferecer sacrifício continua: vivendo sempre para interceder (Hb 7, 25). Irmão, se todos os teus pecados são perdoados e estás salvo para sempre, por que Jesus Cristo continua intercedendo por ti? (Ver tema 19). A Bíblia diz: Ele é a propiciação pelos nossos pecados (a mesma palavra utilizada em Rm 3, 25, onde fala de Cristo oferecendo-se como sacrifício pelos pecados). Se alguém pecar, temos um advogado junto do Pai (1Jo 2, 1). Não é apenas de uma vez para sempre. Seu ministério de propiciação por nossos pecados continua.
4) A primeira intercessão ao Pai teve lugar na cruz. Sua intercessão continua no sacrifício memorial. NÃO É UM NOVO SACRIFÍCIO, mas o mesmo sacrifício, porém de uma maneira não sangrenta. Sacrifício não quer dizer morrer, mas oferecer-se a si mesmo (ofereçais os vossos corpos como hóstia viva, Rm 12, 1)[15]. Ou seja, Cristo não derrama seu sangue como o fez no Calvário; contudo, oferece-se ao Pai na Eucaristia. Cristo morreu na cruz “uma vez para sempre” (Hb 7, 27), isto é, por toda a humanidade em toda a eternidade. Não vai voltar ao Calvário para morrer. Mas a re-presentação (tornar presente) deste sacrifício é oferecida ao Pai por seu sacerdócio eterno.
5) A palavra “memória” ou “comemoração” que Jesus utiliza na Última Ceia (Lc 22, 19; 1Cor 11, 24-25) é a palavra ANAMNESIS, que traduz a palavra hebraica AZKARAH (utilizada sete vezes no AT para referir-se aos sacrifícios: Lv 2, 2, 9, 16; 5, 12; 6, 15 e Nm 5, 26) na Septuaginta. É significativo que ANAMNESIS seja utilizada apenas quatro vezes no NT, a quarta em Hb 10, 3, referindo-se a um sacrifício memorial[16]. O uso de ANAMNESIS por Jesus em Lc 22, 19 sublinha, então, a dimensão de sacrifício da Eucaristia. Jesus está dizendo: quando fizerdes isto, fazei-o em sacrifício memorial de mim.
6) O uso de ANAMNESIS em Lc 22, 19 é ainda mais significativo porque sublinha o aspecto de sacrifício, posto que existia outra palavra grega que Lucas teria podido utilizar para um memorial não de sacrifício: MNEMOSUNON (ver Mt 26, 13; Mc 14, 9; At 10, 4).
7) Se tomamos o argumento protestante de que “não há mais sacrifício” depois da Cruz, então não devemos obedecer à Palavra de Deus que nos diz “fazer (oferecer) sacrifícios”: de nosso corpo (Rm 12, 1), de nossos donativos (Fl 4, 18) ou de louvor (Hb 13, 15-16). Por que oferecer nossos corpos como sacrifício se tudo está cumprido na Cruz?
Em resumo, a carta aos Hebreus adverte os recém-batizados que não voltem ao sacrifício anterior, que não traz salvação, mas que continuem com a Páscoa Nova e “não deixem de congregar-se” (Hb 10, 25). A implicação é clara: o sacrifício da missa —nova páscoa— continuava. Temos um altar, [não tem sentido se não há sacerdotes!] do qual não têm o direito de comer os que servem ao tabernáculo (Hb 13, 10). Lembrai-vos dos vossos guias (Hb 13, 7).
Mais provas bíblicas
O AT prediz que Cristo ofereceria um sacrifício de pão e vinho a Deus. Melquisedec, um sacerdote que prefigura a Cristo, ofereceu isto e bendisse a Deus (Gn 14, 18-20). Ora, o Salmo 110 diz: tu és sacerdote eternamente, segundo a ordem de Melquisedec (v. 4). Em Hebreus, Cristo é este sacerdote (Hb 5, 5-6). Um sacerdote é aquele que oferece sacrifício. No caso de Jesus, Ele é ao mesmo tempo sacerdote e sacrifício. Onde se encontra a forma de sacrifício eterno (“sacerdote para sempre”) de Jesus que seja de acordo com o sacrifício oferecido por Melquisedec e, portanto, distinto do Calvário? O de Melquisedec era em forma de pão e vinho. Os católicos creem que a única coisa que cumpre isto acontece na Missa, onde o próprio Jesus se oferece para sempre ao Pai em sacrifício sob a aparência de pão e vinho.
Vimos que a Última Ceia começou o sacrifício de Jesus, culminado no “altar” da Cruz[17]: Isto é o meu corpo, que é dado por vós…. Este cálice é a Nova Aliança em meu sangue, que é derramado por vós (Lc 22, 19-20). Em ambos os casos, os verbos —dado e derramado— estão no presente, o que mostra que se refere não unicamente ao sacrifício da Cruz. Além disso, “dado/derramado” indica uma imolação na Ceia.
O profeta Malaquias disse: em todo lugar se oferece ao meu nome… uma oblação pura (Ml 1, 11). Cristo é a oblação pura. O sacrifício do Calvário ocorreu uma só vez e em um só lugar. O que profetizou Malaquias então? Para os católicos, são as Missas celebradas a toda hora e em todo o mundo, onde se realiza o sacrifício de Cristo profetizado por Malaquias. Se não é ali, onde podemos dizer que se cumpre a profecia?
Hebreus 9, 25-27 mostra que Jesus não morre mais. Ele ofereceu sua vida uma só vez, e foi entronizado como: Rei de justiça… Rei de Paz como Sumo Sacerdote (Hb 7, 1-3). E é exatamente assim que o Pai olha o oferecimento perfeito e perpétuo de seu Filho Jesus. Se tivesse terminado, não haveria sacrifício eterno: Tu és sacerdote eternamente (Hb 5, 6). E os outros sacerdotes chegaram a ser muitos, porque a morte os impedia de permanecer; este, porém, porque permanece para sempre, possui um sacerdócio eterno (Hb 7, 23-24). O sacrifício não sangrento da missa aplica os méritos de Jesus Cristo ganhos de uma vez para sempre na Cruz. Ainda que não morra mais, seu Sangue derramado no Calvário é oferecido ao Pai perpetuamente por ele. Se não, não haveria necessidade de um altar aqui na terra, como diz Hebreus 13, 10: temos um altar do qual não têm direito de comer os que servem ao tabernáculo (dos judeus) (Hb 13, 10). Não sabeis que os ministros do templo vivem do templo, e que os que servem ao altar participam do altar? (1Cor 9, 13). O sacrifício de uma vez para sempre de Jesus é tornado presente sobre os nossos altares na missa: Por ele, ofereçamos sempre a Deus um sacrifício de louvor (Hb 13, 15).
Afinal de contas, os irmãos que se fixam em Hebreus 9 se opõem ao ensino católico do sacrifício na missa: “Não sou católico romano porque, como evangélico, creio que, quando Cristo morreu na cruz, morreu uma vez e para sempre —e, portanto, eu nunca poderia crer na fantástica heresia da Igreja Católica que declara que, cada vez que um de seus sacerdotes oferece a missa, Cristo é crucificado novamente naquele altar romanista”[18] .
No livro Un Católico Investiga el Evangelio (Um Católico Investiga o Evangelho) (pp. 21-22), o autor evangélico supõe o seguinte diálogo com um católico: “Vou supor que tu és o Senhor Jesus. Estás à direita de Deus, gerindo todos os assuntos do Universo. És o objeto da admiração de milhões e milhões de anjos e santos…. Agora, numerosíssimas vezes ao dia chega a ordem de uns ínfimos vermes da terra: Desce imediatamente, Jesus, quero sacrificar-te e comer-te. Que te parece? Qual seria a tua reação?” E o católico responde: Eu diria que estavam loucos e blasfemos. O evangélico responde, entre outras coisas, que “Cristo diria: já não morro. A morte não me domina”.
Irmão, na missa o sacerdote diz: “Santo és, na verdade, Senhor, fonte de toda santidade; por isso te pedimos que santifiques estes dons (o pão e o vinho) com a efusão do teu Espírito, de maneira que se tornem para nós Corpo e Sangue de Jesus Cristo, nosso Senhor”. O sacerdote não diz: “desce imediatamente, Jesus, quero matar-te”. É o Espírito o que realiza o milagre. Além disso, Jesus é onipresente. Não precisaria descer. Por outro lado, chamar os sacerdotes de “ínfimos vermes” é faltar ao mandamento do amor.
Para nós, é um erro na interpretação. Hebreus 9 examina o Antigo Pacto. Moisés toma o sangue dos bezerros e bodes para purificar o tabernáculo (9, 19-25). Sob a Antiga Lei, o sacrifício teve de ser repetido para a remissão dos pecados. Na dispensação Cristã, o sangue de Cristo foi derramado uma só vez, mas é oferecido continuamente ao Pai. Como pode ser isto? Jesus Cristo é o mesmo, ontem e hoje: ele o será por toda a eternidade (Hb 13, 8). De fato, a Bíblia diz que o Sacrifício é oferecido desde a fundação do mundo: o Cordeiro que foi imolado desde a origem do mundo (Ap 13, 8); este não está fixo no tempo[19]. O que Jesus fez no passado é para Deus presente agora, e Deus pode fazer que o Sacrifício de Cristo no Calvário se torne presente para nós na missa: Todas as vezes que comeis desse pão e bebeis desse cálice, anunciais a morte do Senhor, até que ele venha (1Cor 11, 26).
O que diz a Igreja Primitiva?
A Missa é sacrifício
- Didaqué: Onde cita Ml 1, 11 e 14 e Mt 5, 23-24.
- Clemente: Carta aos Coríntios, 44: 4-5.
- Inácio de Antioquia: Carta aos Filadélfios, 4.
- Justino Mártir: Diálogo com Trifão, 41.
- Ireneu (180-199 d.C.): Contra as heresias, 4:17:5
- Justino Mártir: Em Diálogo com Trifão escreve que a Missa é um sacrifício, p. 41.
- Cipriano (252 d.C.): Carta de Cipriano a um certo Cecílio, 53:14.
- Cirilo de Jerusalém (350 d.C.): Leituras Catequéticas, 23:Mistagógica, 5:8.
Autor: Daniel Gagnon
Fonte: Apologetica.org
Notas
-
Outra razão para saber que Jesus não estava falando em símbolos é que, quando disse que era “a videira” e “a porta”, estava apontando para si mesmo, “eu sou”, e explicou o que isso significava. Mas na Última Ceia ele se refere a um objeto (pão) e diz que é seu corpo, e nunca explica que significava outra coisa que não seu corpo. ↩
-
Se “comer minha carne” era simbólico para crer, por que mencionar “beber meu sangue” também? Que se consegue ao dizer ambos, comer e beber? O pão teria podido levar o sentido simbólico por si mesmo. ↩
-
O anticatólico James G. McCarthy (The Mass from Mystery to meaning) diz que houve outros momentos em que Jesus falou figurativamente e os apóstolos não compreenderam e o tomaram literalmente. Ele cita quando Jesus falou de seu corpo como templo, e quando falou do fermento dos fariseus. Mas em AMBOS OS CASOS Jesus os corrigiu (ver Jo 2, 21 e Mt 16, 11), algo que não fez em Jo 6. Além disso, em Jo 6 até seus discípulos o deixaram! McCarthy menciona corretamente que beber o sangue está proibido no A.T. É exatamente por isso que a palavra de Jesus é DURA! Não o seria se fosse simbólica. Além disso, esqueceu-se de que era VERDADEIRA COMIDA (pães) que Jesus multiplicou anteriormente, e o vinculou com o maná. Por isso não menciona vinho.
McCarthy argumenta que, em 1Cor 11, 26, Paulo fala de “beber o cálice” e não beber seu conteúdo, então é figurativo. Não necessariamente. Quando alguém quer um refrigerante ou pede “uma garrafa” na loja, o vendedor sabe que estás falando de seu conteúdo. Não te dá uma garrafa vazia! McCarthy diz que João 6 não tem nada a ver com a Última Ceia, mas o contexto é a Páscoa (Jo 6, 4), igual que nos outros evangelhos. Além disso, as palavras são iguais, “beber meu sangue” e comer minha carne, em Jo 6 e 1Cor 10, 16-17 e 11, 23-30. ↩
-
PHAGO, sim, pode ter um significado simbólico ↩
-
Este é um dos argumentos que utilizo também quando alguns irmãos citam Lv 7, 26: não comer sangue. Não metabolizamos sangue quando comungamos. Além disso, a lei Levítica foi abolida por Cristo. Se eles querem voltar a esta lei, por que não levam sacrifícios ao templo, como diz Lv 12? Os mandamentos do N. T. subsistiam aos do Antigo (ver Mt 5, 27). O mandamento de não comer sangue é substituído por Jesus, que nos diz que, se não comemos de seu Sangue, não temos a vida eterna. ↩
-
Em NENHUM LUGAR encontramos que a Bíblia trate a palavra “Espírito” como simbólica. Sempre é real, como o é a matéria. Por isso, neste texto “comer sua carne” não é símbolo de receber o Espírito. Os discípulos não teriam deixado a Jesus se ele tivesse estado falando simbolicamente. ↩
-
Salvo quando alguém nos mostra uma foto e diz “este é meu filho”. Não se tem de explicar que a foto é uma imagem do filho e não o filho mesmo. Mas se a imagem na foto é outra pessoa ou é uma coisa, então tem de explicar por que diz que é seu filho, se não o é. Um argumento que utilizam alguns irmãos para dizer que o pão consagrado não é o corpo de Cristo é o seguinte: “Isto é o meu corpo não significa identidade, mas representação. Se eu mostro uma fotografia e digo: Esta é minha mãe, ninguém chegará à conclusão de que esse pedaço de cartão é minha mãe” (La Cena del Señor, Ronald Harris, p. 8). Este argumento não é lógico. Com certeza “sua mãe” não é a foto, mas a pessoa na foto, sim, é a mãe. E é a ela que se refere quando diz “é minha mãe”, não ao “pedaço de cartão”. Se Jesus tivesse mostrado uma foto de pão e dito que “isto é o meu corpo”, estaria referindo-se ao pão e não à fotografia. De maneira semelhante, Jesus, tomando pão, disse que era seu corpo. Assim que este argumento protestante não serve. ↩
-
Quando Jesus diz que não beberá do fruto da videira, é no sentido de estado de origem. Não nega a mudança para o sangue de Cristo (ver Gn 2, 23; Êx 7, 12; Jo 2, 9 e 2Pd 2, 22). Além disso, a palavra grega é GENNEEMA, significando geração/origem. O sentido da frase, então, é “o que foi gerado ou produzido da videira”. Seu sentido literal não precisa se é suco de uva, vinho ou o sangue de Cristo, porque todos os três podem ser produtos da videira. É o mesmo em 1Cor 11, 23-29, onde Paulo intercambia “pão” e “corpo”. ↩
-
A Igreja La Luz del Mundo fala de seu fundador, Aarón Joaquín Flores, como outro “apóstolo” (ao mesmo nível de Paulo, então). Contradizendo seu companheiro, o Apóstolo (verdadeiro) Paulo, Aarón disse: “Quando, em 1928, (Aarón) retornasse novamente à cidade de Tepic, pôs-se a falar do Evangelho, diante da própria Catedral da Igreja Católica, dizendo às gentes: Não são Deuses (a hóstia) os que se fazem com as mãos (dos sacerdotes)!”. Da revista La Luz del Mundo No. 2, Edição de Janeiro de 1984, p. 4. Com certeza, se fosse apenas pão, seria idolatria adorá-la. A Bíblia proíbe a idolatria (ver capítulo 16) ↩
-
Muitas vezes esta palavra se entende como “discernir SEM DUVIDAR” (Mt 21, 21; Mc 11, 23; At 10, 20 e 11, 12; Rm 4, 20 e 14, 23; Tg 1, 6). ↩
-
Como outros fundamentalistas, o já mencionado Sr. McCarthy termina seu folheto dizendo quão absurdo é crer que a hóstia consagrada, que continua igual em aparência e sabor, é corpo de Cristo. Igualmente tolice, para ele, é que Jesus, com seu corpo presente na Última Ceia, fale do pão como corpo, como se houvesse dois corpos. Mas os mesmos argumentos se ouvem de um judeu: Quão difícil crer na encarnação, que este bebê em fraldas nas mãos de Maria e que mais tarde é traído, abandonado, negado por seus próprios discípulos, condenado pelas autoridades religiosas e depois morre em uma cruz é a Segunda Pessoa da Trindade. E como Jesus teria estado presente na terra e, entretanto, ser membro da Trindade no céu? Obviamente, não nos baseamos apenas em aparências e lógica para entender os mistérios. Jesus pede fé. ↩
-
Ibid., Fisher p. 75 ↩
-
Graças a Dr. Scott Hahn por aportar parte deste capítulo. ↩
-
O primeiro cálice se chama o Kadush. A celebração verdadeiramente começa com o segundo cálice, que se toma depois de recitar o Salmo 113. O terceiro cálice é o cálice de bénção, que se toma depois de dar graças e orar sobre o pão e cantar o Hallel (Salmos de louvor Nos. 114-118). Em Marcos, Jesus canta estes salmos, mas não conclui com o quarto cálice, que se chama o cálice de consumação. O Evangelho de Lucas mudou um pouco a ordem das palavras de Jesus. É reconhecido por todos os eruditos da Bíblia que Lucas se baseou no Evangelho de Marcos. Se não, parece que Jesus se contradiz. Para mais sobre os quatro cálices e como os judeus celebravam a Ceia Pascal, ver cap. 15 de La Plegaria Eucarística, Luis Maldonado, pp. 166-170. ↩
-
Vivei em amor, como também Cristo vos amou, e se entregou por nós como oblação e vítima de suave odor a Deus (Ef 5, 2). ↩
-
Uma das definições de ANAMNESIS no léxico é “sacrifício de memorial” (Bauer, Welter, A Greek English Lexicon of the New Testament and other Early Christian Literature, Univ of Chicago, 1979, p. 58) ↩
-
A ideia de um altar como mesa é implícita no Salmo 50, onde os sacrifícios são apresentados como comida divina. O vínculo entre ambos é explícito em Ez 41, 22 e Ml 1, 6b-7. ↩
-
Ibid., Fisher, p. 75. ↩
-
(A Igreja católica) assegura que o pão e o vinho se transformam, em virtude da autoridade do sacerdote, no corpo e sangue de nosso Senhor Jesus, de tal maneira que estão presentes a alma e a natureza divina. Não se nos diz se é o corpo terreno ou o corpo glorificado o que comem os bons católicos…” Análisis del ROMANISMO, por J.A. Phillips, p. 107. Mentira! Mentira, porque a Igreja o diz, sim. Que tipo de “análise”! Alguns dirão que “não seria possível que na Última Ceia Jesus mudasse o pão e vinho em seu corpo e sangue. Isto significaria que houve dois corpos de Jesus, o corpo normal e o pão mudado em seu corpo e sangue. Não se desvaneceu para transformar-se em pão e vinho. Seu corpo normal continuava presente junto a seus Apóstolos”. O Sr. Phillips diz: “Que era seu corpo? Precisamente o pequeno fragmento de pão que Cristo tinha em sua mão naquele momento. Em outras palavras, ele tinha dois corpos” (p. 108). Mas por que limitar a Jesus? Que Cristo possa estar presente de duas maneiras simultaneamente é um mistério, como o é que Deus está em todo lugar. Como diz Keating: “um mistério é uma verdade religiosa que não pode ser compreendida plenamente pela razão, mas nem por isso é impossível. Algo não chega a ser impossível apenas porque não o podemos entender” (p. 243). Vimos que o pão consagrado não é o mesmo corpo de Jesus antes de ser transformado na ressurreição. ↩
Do livro No todo el que dice Señor, Señor
Parroquial de Claveria, México, 1998
© Daniel Gagnon
Versão internet: Carlos Alberto Jardón