A imposição das mãos como gesto de “ordenação”. Os graus hierárquicos do sacerdócio.
Capítulo VIII: A TRANSMISSÃO DO SACERDÓCIO E A HIERARQUIA NOS ATOS DOS APÓSTOLOS E NAS CARTAS DE SÃO PAULO.
A graça… conferida através da imposição das mãos.
Nos livros do NT encontram-se muito frequentemente alusões às imposições das mãos. Quanto ao conteúdo, este rito tem diversos significados. Em Mt 10,13-16, por exemplo, exprime a bênção dada a alguém através deste gesto. Muito frequentemente, sobretudo nas descrições de curas milagrosas, trata-se de Cristo que impõe as mãos. (Mt 9,18; Mc 6,5; 8,23-25; Lc 4,40; 13,13). Os apóstolos por vezes recorreram também eles àquele gesto para conceder a cura (At 28,8). O próprio Paulo recobra a vista quando Ananias impõe as mãos sobre ele (At 9,12-17).
Mas há textos nos quais a imposição das mãos é um sinal exterior da transmissão de um certo poder ou de uma função. Assim, por exemplo, a eleição dos diáconos realiza-se através da oração e da imposição das mãos por parte do colégio dos apóstolos sobre os sete candidatos que lhes são apresentados (At 6,6). Do mesmo modo, impondo as mãos, Paulo e Barnabé instituíram anciãos em todas as comunidades (14,23); com o mesmo rito foram instituídos os presbíteros e os bispos em Éfeso; assim vem descrito o envio à missão de Paulo e Barnabé entre os pagãos: «Então, depois de terem orado e jejuado, impuseram as mãos sobre eles e os deixaram partir para a sua missão» (13,3).[1]
Com base nestes textos, pode-se crer que o poder de exercer o apostolado desde o tempo de Paulo era transmitido mediante a imposição das mãos e uma oração não melhor especificada. Os textos de At 13,13 e 14,23 demonstram-no claramente. Merecem um atento exame três declinações de Pedro nas cartas a Timóteo: 1Tm 4,14; 5,22; 2Tm 1,6.
Para resolver mais comodamente uma dificuldade destes textos, convém analisar juntos 1Tm 4,14 e 2Tm 1,6: «não descuides o dom espiritual que há em ti, que te foi conferido mediante uma intervenção profética, acompanhado pela imposição das mãos por parte do colégio dos presbíteros» (1Tm 4,14); «é por isto que te exorto a reavivar o dom que Deus depositou em ti através da imposição das mãos» (2Tm 1,6). Aqui é o próprio Paulo que impôs as mãos sobre o discípulo, enquanto o texto de 1Tm 4,14 fala de uma comunidade sacerdotal não demasiado precisada. Bastantes dados parecem indicar, portanto, que aquela comunidade acompanhava Paulo e que ele era o ator principal do referido rito: de fato, nos dois textos foram usadas duas preposições diversas. A participação da comunidade sacerdotal na cerimónia da imposição das mãos está expressa na preposição metá, que quase sempre designa as circunstâncias que acompanham uma ação. No texto de 2Tm 1,6, ao contrário, a frase que fala da imposição das mãos por parte de Paulo traz a preposição diá, que em geral exprime a ideia de causalidade instrumental.
Não se trata de uma simples particularidade gramatical, mas parece antes um convite a considerar que em ambos os casos é Paulo que impõe as mãos a Timóteo. Paulo está citado sozinho no segundo texto, enquanto o primeiro fala da participação da comunidade dos anciãos.
O contexto não permite assimilar esta imposição das mãos a qualquer bênção e menos ainda à narração de uma cura. O conteúdo teológico do texto recebe todo o seu significado em virtude dos paralelos vétero-testamentários, nos quais a imposição das mãos sublinha a solidariedade entre aquele que abençoava e aquele que recebia a bênção, e recebia assim um certo bem. (Lv 1,4; 16,21; Nm 8,10; 27,15; Dt 34,9) Está-se, pois, em presença de um rito bíblico que confere o Espírito e transmite um ofício, como se vê em Nm 27,18-23, onde Moisés confere a sucessão a Josué.
O significado do rito da imposição das mãos é também o seguinte: o ministério da nova aliança transmite-se, para que a missão e o sacerdócio de Cristo não sejam comunicados apenas aos apóstolos, mas também aos seus sucessores, até ao fim dos tempos, como sugere 1Cor 11,26: «cada vez que comeis este pão e bebeis este cálice, anunciais a morte do Senhor, até que Ele venha».
A imposição das mãos era acompanhada por uma oração, cuja fórmula não se conservou. Esta devia exprimir a vontade de Deus sobre o eleito, invocar sobre ele o Espírito de Deus. Disto se pode ter uma ideia, considerando o especial carisma produzido pela imposição das mãos e pela oração pronunciada naquela ocasião, carisma do qual se fala só nos textos que aludem àquele rito: anunciar o evangelho com verdadeira autoridade doutrinal; cumprir bem a obra apostólica (1Tm 4,12-16); receber «um espírito de fortaleza, de amor e de domínio de si» (2Tm 1,7). Em graça deste «dom (chárisma) que Deus depositou» nele, o apóstolo pode mostrar-se forte pela graça de Deus, não se envergonhar do evangelho e proclamá-lo no mundo inteiro.
Paulo, então, transmitiu o seu poder (que ele mesmo tinha recebido de Deus: 2Tm 1,11) a Timóteo. Este, por sua vez, poderá comunicá-lo a outros. De fato, 1Tm 5,22 põe em guarda contra a pressa de impor as mãos sobre quem quer que seja. Alguns exegetas quereriam distinguir aí algum traço de rito penitencial. Trata-se antes do mesmo rito do qual falam 1Tm 4,14 e 2Tm 1,6; a alusão aos presbíteros imediatamente precedente (vv. 17-21) dá sustento a esta interpretação.[2]
Estes textos mostram que o ofício dos ministros do sacerdócio de Cristo se transmite através da imposição das mãos e da oração que a acompanha. É pouco provável que aqui se refira a um rito instituído como tal pelo próprio Jesus; e tampouco se pode fazer valer a ideia de uma origem judeu-rabínica[3]. Os apóstolos, conscientes de empenhar o futuro, referiram-se a um rito significativo praticado pelos responsáveis do velho Israel (Nm 27,18-23); no novo povo de Deus, mediante o mesmo rito que comunica o Espírito, os chefes asseguraram a perenidade da sua sucessão.
Autor: Casimir Romaniuk
Casimir Romaniuk, Il sacerdozio del Nuovo Testamento. Esegesi e Tradizione, Bologna (1976), 213-226.
Traduziu a Irmã María de las Virtudes, SSVM, Convento de Contemplativas, Pontina, Itália
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Os graus hierárquicos do sacerdócio nos Atos dos Apóstolos e nas cartas de São Paulo.[4]
Discípulos e apóstolos
Há algumas diferenças de terminologia quanto ao uso do termo «discípulo» nos evangelhos e nos Atos dos Apóstolos. Nos evangelhos são indicados como discípulos homens que tinham unido a sua sorte à de Jesus, seja por um consentimento tácito, seja por um desejo explícito. Eles constituíam sem dúvida um grupo consistente, mas não a ponto de se confundirem com a multidão de gente.
O autor do terceiro evangelho usa frequentemente o termo «discípulo» também nos Atos dos Apóstolos: desta vez, ele indica simplesmente os fiéis, os membros das diversas igrejas: «naqueles dias, como aumentava o número dos discípulos, surgiram alguns murmuradores entre os helenistas contra os hebreus… Os doze convocaram então a assembleia dos discípulos e disseram: …» (At 6,1-2; cf. também At 6,7; 9,25; 9,38; 11,26-29; 13,52; 14,20.22.28; 15,10; 16,1; 18,23-27; 19,1-30; 20,1-30; 21,4-16).
As formas de organização da igreja foram-se desenvolvendo desde quando Cristo escolheu os doze. Os Atos dos Apóstolos deixam entrever que a hierarquia na igreja se foi constituindo propriamente a partir deste grupo. Os Atos dão-lhes o nome de apóstolos sem o reservar exclusivamente a eles, já que é atribuído também a Paulo e àqueles que os doze e Paulo chamaram a fazer parte do grupo, como José chamado Barnabé, originário de Chipre (At 4,36). Tiago, o irmão do mestre, chefe da comunidade de Jerusalém, foi também ele, ao menos segundo alguns exegetas, um apóstolo instituído não por Cristo, mas pelos homens. Contrariamente a Barnabé, apóstolo itinerante, Tiago permanece em Jerusalém até ao fim da sua vida. O primeiro representa uma hierarquia ambulante e o segundo o tipo de um poder residencial. Ambos eram plenipotenciários do Colégio dos Apóstolos, isto é, daqueles que acompanharam o Senhor Jesus todo o tempo que Ele viveu entre eles (At 1,21) e que O viram ressuscitado.
Por serem menos conhecidos, também Andrónico e Júnia eram, segundo o próprio Paulo, autênticos apóstolos instituídos pelos homens (Rm 16,7).
Portanto, assim são chamados apóstolos homens que se consagram a um trabalho apostólico, qualquer que seja. Paulo distingue-os claramente do corpo dos doze, nunca os põe ao mesmo nível e nunca diz que eles são instituídos como apóstolos de Jesus Cristo.
Ele tem consciência de que a presença de algo incomunicável reside na experiência dos doze e na sua.
Os diáconos
Com o passar do tempo, a Igreja separa-se cada vez mais da sinagoga e, pelos empenhos de caráter social que vai assumindo, tem necessidade de novas forças. Chega-se assim à instituição do diaconado (At 6,1-7), cuja existência assinala uma etapa na história da organização da Igreja primitiva. Os diáconos têm principalmente a tarefa de organizar a obra caritativa da Igreja (At 6,3)[5]. Eles podem também ensinar, como prova a atividade de Santo Estêvão (6,8-51) e de Filipe (8,5 ss); têm também o direito de batizar (8,38). E mais acima vimos que eles são instituídos diáconos por meio da imposição das mãos. Participam muito de perto no ministério dos apóstolos.
Em Fl 1,1 eles são recordados como personagens particularmente dignos. Sobre eles são impostas algumas exigências morais importantes: cf. 1Tm 3,8-10.12.13.
Vale a pena notar que em 1Tm 3,11 se faz alusão a algumas mulheres, as diaconisas. Parece que uma delas seja Febe, uma piedosa mulher recordada em Rm 16,1, que prestava serviço em Cencreia. Documentos posteriores atribuem a essas mulheres o dever de ensinar a outras mulheres as verdades da fé, de assistir aos ritos de batismo de outras mulheres e de visitar os enfermos. Os textos do NT nada dizem acerca do modo como são recrutadas e não conhecemos os detalhes da sua atividade apostólica.
Os diáconos, portanto, não tinham o poder de governar as diversas igrejas locais. Assim também nunca se diz que tenham imposto as mãos sobre alguém. A comunidade estava unida à pessoa do apóstolo que era o seu chefe efetivo e exercia o seu poder, quer pessoalmente com visitas periódicas às Igrejas que tinha fundado, quer por correspondência, quer também por meio de enviados especiais.
Os presbíteros-bispos
Com o passar do tempo, junto a esta hierarquia itinerante instala-se uma hierarquia local, particularmente nas comunidades palestinas e sobre o modelo das administrações civis.
Pensamos assinaladamente na instituição dos anciãos (presbyteroi). Era um colégio geralmente composto por sete homens experimentados e respeitados por todos. Tinham um poder administrativo e judicial e deviam preocupar-se com as questões financeiras da comunidade. Portanto, parece que nunca desempenharam funções sacerdotais.[6] Nas sociedades não cristãs, os anciãos formavam, com os peritos nas Escrituras, a classe dos chefes do povo; em Jerusalém eram membros do Sinédrio (Flávio Josefo, Antiq. IX, 3,15; XIV, 5,4). Ora, alguns textos dos Atos dos Apóstolos fazem-nos pensar num similar sistema administrativo também entre os cristãos. Por exemplo, Paulo e Barnabé entregam os donativos para a Igreja de Antioquia propriamente nas mãos dos anciãos (At 11,30). Além disso, alguns deveres dos anciãos necessitam das funções dos diáconos. Segundo At 15,6, os anciãos tomaram parte ativa no «concílio» de Jerusalém: não só tomaram ali a palavra, mas também certas decisões: «então os apóstolos e os anciãos, de acordo com a Igreja inteira, decidiram eleger alguns dentre eles e enviá-los a Antioquia com Paulo e Barnabé» (At 15,22). A fórmula «os apóstolos e os anciãos» repete-se várias vezes nos Atos dos Apóstolos (15,2-4.22), o que faz pensar que os presbíteros tinham não somente um certo poder administrativo, mas também a possibilidade de se pronunciarem sobre as questões que implicavam a vida e o futuro da Igreja. Sobre o modelo da sociedade palestina, existem colégios de anciãos também nas comunidades fundadas por Paulo e Barnabé na Ásia Menor e na Grécia. Como já vimos, eles recebem o seu ofício mediante a imposição das mãos (At 14,23)[7].
Os anciãos estão unidos pessoalmente à comunidade de origem; por isso se diz comumente: «Os anciãos desta ou daquela igreja». Mas nada indica que um deles tenha usurpado o privilégio do primado, nem que tenha estado por chefe da Igreja local. O poder supremo está sempre nas mãos dos apóstolos em pessoa, embora os anciãos exercessem um certo poder de direção (1Tm 5,17). Contrariamente ao procedimento de eleição observado nas comunidades palestinas não cristãs, Paulo, nas igrejas por ele fundadas, escolhe ele só os anciãos e impõe-lhes as mãos. Tem-se aqui uma nova indicação sobre a natureza do sacerdócio ministerial: a mediação vem de Deus, e esta é transmitida por tradição.
O termo «ancião», visto o uso frequente que dele fazem os Atos dos Apóstolos, parece remontar muito longe, o que faz pensar que a mesma função tenha começado a existir nos costumes da Igreja primitiva antes da do episcopado[8].
Com o passar do tempo aparece nas mesmas comunidades um novo título: «guardião», «epíscopos», e os titulares deste ofício têm um certo poder sobre os diáconos e sobre os fiéis. A comunidade sobre a qual se encontram como guias chama-se a igreja de Deus (1Tm 3,5) e na vida destas comunidades a oração litúrgica ocupa o primeiro lugar. O «governo» (proistámenoi, 1Tm 3,4) é um dos principais deveres do bispo. Ele deve também saber dirigir e, sobre o exemplo de Cristo, deve ser um pastor (poimén). Mas principalmente ele vela sobre a comunidade, «vigia-a».
Assim é sobretudo nas igrejas da Ásia Menor, no tempo de Inácio de Antioquia, isto é, entre o 1.º e o 2.º século. Dão fé disto os escritos de Inácio de Antioquia, as cartas de Clemente de Roma e a «doutrina dos doze apóstolos»[9]. Mas o termo epíscopos aparecia já nos Atos dos Apóstolos e nas cartas de São Paulo, onde indica, por vezes, as mesmas pessoas que noutro lugar são chamadas «anciãos». Por exemplo, em At 20,17, Paulo convoca em Mileto os anciãos de Éfeso e recorda-lhes a responsabilidade que eles têm em virtude da sua instituição no ofício de bispos, por parte do Espírito Santo. Eles são bispos para velar pela igreja de Deus: «tende cuidado de vós mesmos e de todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu guardiães» (At 20,28).
Na introdução da carta aos filipenses, Paulo saúda os bispos e os diáconos. O fato de deixar de lado os anciãos poderia explicar-se admitindo que o termo epíscopoi designe ao mesmo tempo tanto os bispos como os anciãos. É provável que o termo epíscopoi seja usado de modo análogo em 1Tm 3,2. Não se poderia compreender de outro modo a brusca mudança com a qual o texto passa dos bispos aos diáconos. Ainda mais: a alusão aos bispos (no plural) da cidade de Filipos ou de Éfeso estaria em plena contradição com a tradição da Igreja: é notável, de fato, que o uso proíbe a dois bispos residir numa mesma cidade[10]. O texto de Tt 1,5-7 é ainda mais iluminador sobre o significado dos termos epíscopos e presbyteros: «deixei-te em Creta para que leves a termo a organização e para que instituas os presbíteros em cada cidade, conforme as minhas instruções…»
O bispo, de fato, na sua qualidade (deî gár tòn epíscopon eînai). Trata-se aqui das mesmas pessoas, ainda que no início sejam chamadas «bispos» e depois «anciãos».
Estes termos, epíscopos e presbyteros, não são, contudo, sinónimos. O segundo designa um estado, enquanto o primeiro exprime a ideia de uma vigilância e indica uma determinada função[11].
Como consequência, quando estes mesmos personagens constituíam o colégio dirigente das igrejas locais eram chamados anciãos; e quando, com o passar do tempo, algumas das suas funções se foram precisando melhor, começou-se a chamá-los bispos[12].
Os resultados das exegeses mais recentes não permitem sustentar mais a tese segundo a qual os epíscopoi do NT seriam os verdadeiros predecessores dos sacerdotes ministeriais, enquanto os presbyteroi teriam sido leigos, sem voz no capítulo no que respeita ao ensino e ao culto, com atividade limitada à administração puramente exterior das igrejas. Muitos textos escriturísticos permanecem em contradição com tal interpretação. Em At 5,24 vem dito, com efeito, que se impunham as mãos tanto aos anciãos como aos bispos; e da carta de Tg 5,14 pode-se concluir que eram propriamente os anciãos que cumpriam a unção dos enfermos, a qual, em verdade, tinha um caráter sacramental. Parece então que têm razão aqueles que sustentam que os anciãos tinham o mesmo poder sacerdotal que os bispos. Estes últimos, em certas circunstâncias, formavam um comité executivo especial criado pelo colégio dos anciãos. O regime de organização das comunidades não cristãs, judaicas e helenistas, dá-nos muitos exemplos que sustentam esta hipótese[13]. Na Igreja primitiva existiam, portanto, por uma parte, anciãos-bispos que tinham o dever de presidir às assembleias litúrgicas, oferecer a eucaristia, ensinar no sentido estrito da palavra e administrar os bens materiais da igreja; por outra parte, os anciãos que não eram bispos, embora tivessem recebido todos os poderes requeridos para cumprir os atos recém-mencionados, não exerciam este poder; ou, se o exerciam, faziam-no por turnos, tornando-se assim bispos[14].
Mas esta regra admite demasiadas exceções. Já tivemos ocasião de constatar como, no espaço de alguns versículos, os autores inspirados, mesmo dirigindo-se aos mesmos destinatários, se serviam de dois termos, querendo assim atrair a atenção sobre a diversidade e amplitude das funções do chefe da comunidade.
Esta observação assume todo o seu significado quando se recordam os outros títulos atribuídos aos responsáveis. Trata-se de palavras correntes que, nos ambientes judaicos ou gregos, designam os funcionários e os chefes. Paulo fala dos «antepostos à assistência e ao governo da Igreja» (1Cor 12,38). Termo usado também em Rm 12,8 «aquele que preside» e em 1Tm 5,17. Não se trata de um posto honorífico, mas de um grave encargo de governo. Os nomes hegeúmenoi (Hb 13,7.17.24) e poiménes (Ef 4,11-12; 1Pe 5,1-4) exprimem a ideia de que na comunidade cristã o chefe-guia conduz, nutre o seu rebanho: «os pastores (estão) encarregados de organizar os santos para a obra do ministério, em vista da construção do corpo de Cristo que é a igreja» (Ef 4,11-12). Enfim, a palavra epimeletés evoca a função do curator romano, que convocava a assembleia para as festas e para os jogos ou vigiava os trabalhos ordenados pelos organismos públicos.
O estudo dos graus hierárquicos do sacerdócio conduz-nos a tirar as seguintes conclusões:
1- Nos livros do NT e sobretudo nas cartas de São Paulo, os termos «bispo» e «ancião» são usados de modo a poderem ser intercambiáveis, ainda que não se devam minimizar certas diferenças de significado.
2- O uso de definir o chefe da comunidade com o nome de «ancião» é de origem judaica. Põe em relevo a seriedade, a dignidade, a maturidade pessoal do responsável da Igreja.
3- O termo epíscopos e a função que ele designa são antes de origem helenista. Indica a função mais do que a dignidade da pessoa.
4- Assim, a situação que se reflete nas cartas de Paulo, por causa da imprecisão e da fluidez das expressões, afasta-se do estado de coisas que observamos na vida da Igreja do segundo e terceiro século.
5- O vocabulário sublinha que a função dos apóstolos e da hierarquia por eles instituída é antes de tudo de governo, de responsabilidade para com o novo povo de Deus. Este dever realiza-se, por uma parte, na evangelização e, por outra, na assembleia litúrgica. O ministro de Jesus anuncia aos homens a palavra e faz subir a Deus a oferta do povo santo reunido em torno do sacrifício do seu Senhor.
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Notas
- O livro dos Números mostra-nos um exemplo análogo no Antigo Testamento: «Moisés fez como o Senhor lhe havia ordenado. Tomou Josué, apresentou-o ao sacerdote Eleazar e a toda a assembleia; impôs-lhe as mãos e deu-lhe as suas ordens, como o Senhor havia dito por meio de Moisés» (27,22-23). ↩
- Sobre este tema, cf. N. ADLER, Die Handauflegung im NT bereits ein Bussritus? Zur Auslegung von 1 Tim 5,22 (Neutestamentliche Aufsätze-Festschrift für J. Schmid), Regensburg, 1963, pp. 1-6. ↩
- Cf. J. LECUYER, Il sacerdozio di Cristo e della Chiesa, Bologna 1964, p. 319 s. ↩
- Aqueles que recusam admitir a autenticidade paulina das cartas pastorais apoiam-se, entre outras coisas, no fato de que os graus hierárquicos do sacerdócio citados nestes textos não se encontram confirmados senão nas fontes históricas não bíblicas do 2.º e início do 3.º século. Segundo estes autores, as cartas pastorais proviriam daquela época e não seriam, por isso, de São Paulo. Outros, que também não reconhecem a autenticidade das cartas pastorais, pensam que se pode falar de interpolações ulteriores, ao menos para os fragmentos nos quais se trata de graus hierárquicos já determinados. Cf. A. HARNACK, Entstehung und Entwicklung der Kirchenverfassung und des Kirchenrechts, Leipzig 1910, p. 50 ss; H. LIETZMANN, Zur altchristlichen Verfassungsgeschichte, ZwissTh 55, 1913, pp. 97-152. ↩
- «O serviço da mesa», ainda que tal seja o sentido exato do verbo diakonéin, não é certamente o único motivo pelo qual os sete diáconos foram chamados. Cf. J. COLSON, Les ecclésiales aux premiers siècles, París, 1956, p. 30 ss; K. THIEME, Diaconie primordiale, remède au schisme primordial, «Dieu vivant» 26, 1954, pp. 101-123. ↩
- Cf. W. MICHELIS, Das Altesamt der christlichen Gemeinde im Lichte der Heiligen Schrift, Bern, 1953, p. 9 ss; E. SCHURER, Geschichte des jüdischen Volkes, Leipzig, 1907, II, pp. 241-258; J. B. FREY, Les Communautés juives aux premiers siècles de l’Église, RSR 19, 1931, pp. 137-139. ↩
- A eleição dos zeqenim, isto é, dos anciãos, já no AT se fazia de modo análogo. (cf. Nm 11,16; 28,18). ↩
- Mas os textos de Qumran poderiam sugerir que o título de bispo, na forma hebraica mebbaqqer, poderia remontar tão longe quanto o de ancião. ↩
- Já é usado pelos Setenta (Nm 4,16), no qual exprime também a dignidade da pessoa que o traz. No NT, este título aplica-se uma vez a Cristo em pessoa (1Pe 2,25). ↩
- Cf. P. BENOIT, Les origines apostoliques de l’épiscopat, in «L’Evêque dans l’Eglise du Christ». Trabalho do Symposium de L’Abresle, 1960, recolhido e editado por H. BUESSÈ e A. MANDUOZE, París, 1963, p. 16 ss. Poder-se-á referir também ao artigo traduzido em língua italiana: BENOIT, Le origini dell’episcopato nel NT, «Benoit, Esegesi e teologia», Roma, 1964, p. 461-487 (n.d.E.). ↩
- Esta diferenciação no uso dos dois termos é já visível nos tradutores dos 70 e na literatura grega não bíblica. Cf. P. BENOIT, Les origines apostoliques de l’épiscopat, pp. 18-32. ↩
- Ibidem, p. 36. ↩
- Ibidem, p. 44, notas 1-2. ↩
- Cf. P. BENOIT, Les origines apostoliques de l’épiscopat, pp. 44-45. A hipótese avançada por J. COLSON, o qual sustenta que os termos episcopos e presbyteros sejam sinónimos, é menos verosímil e simplifica demasiado o problema: ter-se-ia feito uso do primeiro sobretudo no ambiente helenístico e do segundo nas comunidades formadas principalmente por judeus-cristãos. (Les fonctions ecclésiales aux deux premiers siècles, p. 108 ss). ↩