Muitos falam da Tradição da Igreja sem compreender realmente o que Tradição significa. Outros estão confusos sobre seu verdadeiro significado e composição. Então: O que é a Tradição da Igreja? Compreender o que a Tradição da Igreja é ou não é constitui um assunto de vital importância.

Como parte da Revelação, todos sabemos que a Tradição é tudo aquilo que, por via oral e não pelas Sagradas Escrituras, faz parte do Depósito da Fé. Nesse ponto não há complicação. Mas, do ponto de vista teológico, definir “Tradição” torna-se problemático e muito confuso para muitos.

A Tradição do ponto de vista teológico

A Tradição da Igreja, do ponto de vista teológico, é uma combinação de elementos que se somam para criar um todo inseparável; isso é a própria essência da Igreja fundada por Cristo. Esses elementos podem ser considerados em dois grupos: os imutáveis, que nunca mudam e sempre permanecem idênticos, e aqueles que podem mudar ou são modificáveis. É importantíssimo entender essa diferença, pois, se não se entende bem, pode-se cair em gravíssimos erros: aqueles que querem mudar o que não se pode mudar na Tradição caem no gravíssimo erro do modernismo ou progressismo, um erro condenado pelo Magistério no Sílabo e em tantos outros documentos oficiais. Aqueles que não entendem que a Tradição igualmente se compõe de elementos que podem mudar seguem uma noção errônea, limitada e incompleta da Tradição.

Os elementos que não mudam e sempre permanecem idênticos na Tradição são o dogma e a moral. O dogma e a moral da Igreja — o que temos de crer e o que devemos fazer ou não fazer para nos salvarmos — são imutáveis e permanecem idênticos por todos os séculos. Esse dogma e essa moral são um elemento da Tradição, mas não são a totalidade da Tradição. Em grande erro estão os que confundem o dogma e a moral imutável como sinônimos ou totalidade da Tradição. Não é assim, pois dogma e moral não são a totalidade da Tradição, mas apenas elementos dela.

Assim como Paris não é a totalidade da França, mas apenas parte dela. E, embora seja verdade que Paris é parte essencial e principal da França, também é verdade que a França é maior do que Paris. Há outras áreas, cidades e províncias na França além de Paris. O mesmo acontece com a Tradição. Dogma e moral imutáveis são parte essencial e principal da Tradição, mas não são a totalidade da Tradição, pois a Tradição abrange mais do que dogma e moral. A Tradição da Igreja contém mais elementos, é maior do que apenas dogma e moral imutáveis. Dizer ou crer que a Tradição se compõe única e exclusivamente de dogma e moral é um grande erro e uma visão limitada dela.

Dogma, Moral, Liturgia, Disciplina e Ação Pastoral, elementos da Tradição

A Tradição não se compõe apenas do dogma e da moral, que não podem mudar e permanecem idênticos por todos os séculos, mas também se compõe de liturgia, disciplina e da ação pastoral do Magistério. A soma de todos esses elementos — dogma e moral imutáveis, liturgia, disciplina e ação pastoral — forma o que se conhece como Tradição da Igreja.

Catecismo da Igreja Católica (78): “Essa transmissão viva, realizada no Espírito Santo, é chamada Tradição, enquanto distinta da Sagrada Escritura, ainda que estreitamente ligada a ela. Por meio dela, ‘a Igreja, em sua doutrina, sua vida e seu culto, perpetua e transmite a todas as gerações tudo o que ela é e tudo o que crê’ (DV 8). ‘As palavras dos Santos Padres atestam a presença viva dessa Tradição, cujas riquezas se derramam na prática e na vida da Igreja que crê e ora’ (DV 8).”

Assim, se a Tradição Apostólica é a parte da Revelação não contida na Bíblia, em sentido teológico a Tradição da Igreja como tal é uma combinação de elementos: alguns imutáveis e incambiáveis, outros mutáveis. Os imutáveis são o dogma e a moral, e os mutáveis, que se adaptam aos tempos e circunstâncias, são a liturgia, a disciplina e a ação pastoral. Assim define a Tradição, desde a perspectiva teológica, o Papa Bento XVI:

Papa Bento XVI (26 de abril de 2006): “Essa permanente atualização da presença ativa de nosso Senhor Jesus Cristo em seu povo, operada pelo Espírito Santo e expressa na Igreja por meio do ministério apostólico e da comunhão fraterna, é o que em sentido teológico se entende com o termo Tradição: não é a simples transmissão material do que foi doado no início aos Apóstolos, mas a presença eficaz do Senhor Jesus, crucificado e ressuscitado, que acompanha e guia mediante o Espírito Santo a comunidade reunida por ele.

A Tradição é a comunhão dos fiéis em torno dos legítimos pastores ao longo da história, uma comunhão que o Espírito Santo alimenta, assegurando o vínculo entre a experiência da fé apostólica, vivida na comunidade originária dos discípulos, e a experiência atual de Cristo em sua Igreja… Assim, pois, concluindo e resumindo, podemos dizer que a Tradição não é transmissão de coisas ou de palavras, uma coleção de coisas mortas. A Tradição é o rio vivo que remonta às origens, o rio vivo no qual as origens estão sempre presentes.”

A Tradição é, pois, a soma total do dogma e da moral imutáveis, da disciplina, da liturgia e da atividade pastoral. E, embora seja verdade que o dogma e a moral jamais podem mudar e permanecem idênticos para sempre, os outros elementos que completam o que é a Tradição podem mudar. Assim, por exemplo, a liturgia pode mudar de acordo com os tempos e circunstâncias, como o demonstra o Concílio de Trento. Esse Concílio nos diz que é um direito do Magistério da Igreja mudar ou modificar sua liturgia quando o quiser, pelas razões que considerar mais apropriadas.

Assim nos confirma o Concílio de Trento:

–Concílio de Trento (Sessão 21): “Na Igreja sempre existiu este poder, de que, na administração dos sacramentos…ela pode modificar ou mudar o que considera mais apropriado para o benefício dos que os recebem ou para a reverência devida aos próprios sacramentos, de acordo com circunstâncias variáveis, tempo ou lugares.”

O que o Concílio de Trento nos decreta a respeito da liturgia, a Enciclopédia Católica de 1907 (Nihil Obstat, Imprimatur) nos resume.

–Enciclopédia Católica (Nihil Obstat, Imprimatur, 1907): “Estreitamente relacionados com os direitos papais a respeito do ofício de ensinar estão aqueles acerca do culto divino. Pois é a lei da oração que fixa a lei da fé. Nesse campo é muito o que está reservado exclusivamente para ser regulamentado pela Santa Sé. Só o papa pode determinar os ritos litúrgicos empregados na Igreja. Caso surja alguma dúvida a respeito do cerimonial da liturgia, o bispo local não pode decidir com sua sola autoridade; deve recorrer a Roma. Da mesma maneira, o Papa tem total autoridade para interpretar, alterar e ab-rogar suas próprias leis e as que tenham sido estabelecidas por seus predecessores. Tem a mesma plenitude de poder que eles, e está diante das leis que eles estabeleceram na mesma posição que tem diante das promulgadas por ele mesmo.”

Da mesma maneira em que o Concílio de Trento e a Enciclopédia Católica nos dizem que a liturgia muda de acordo com circunstâncias variáveis, tempo e lugares,” dessa mesma forma a disciplina da Igreja muda igualmente quando a Igreja quer. O Catecismo de Baltimore de 1891 (Nihil Obstat, Imprimatur) nos recorda o pleno poder da Igreja para mudar e modificar sua disciplina do mesmo modo que a liturgia.

– Catecismo de Baltimore 126: Há duas coisas que devemos entender claramente e sobre as quais não cabe confusão, que são os dois tipos de leis na Igreja — aquelas que Cristo nos deu e aquelas que a própria Igreja criou. Por exemplo, a Igreja não pode abolir um dos sacramentos, deixando apenas seis; tampouco pode acrescentar um, fazendo oito. Mas, por exemplo, quando a Igreja declara que em certo dia não se pode comer carne, essa é uma lei que a Igreja fez e que pode mudar quando quiser. Nosso Senhor permitiu que sua Igreja fosse livre para fazer certas leis conforme fossem necessárias. A Igreja sempre exerceu esse poder e fez leis que se ajustam àscircunstâncias de lugar ou época. Ainda hoje a Igreja se desfaz de algumas leis antigas que já não são necessárias e faz outras que são mais necessárias. Mas as doutrinas, as verdades de Fé e Moral, as coisas que devemos crer e fazer para salvar nossas almas, nunca poderão ser mudadas: a Igreja pode regular algumas coisas na aplicação das leis divinas, mas as leis em si mesmas nunca poderão ser mudadas em sua substância. (Catecismo de Baltimore, Rev. Padre Thomas L. Kinkead, Nihil Obstat: D. J. McMahon, Censor Librorum, Imprimatur: *Michael Augustine, Arcebispo de Nova York, setembro de 1891)

Aqui, pois, vê-se claramente que, juntamente com os elementos que jamais mudam na Tradição, ou seja, o dogma e a moral, outros elementos dessa mesma Tradição, como a liturgia, a disciplina e a ação pastoral, podem mudar e de fato mudam de acordo com o tempo e as circunstâncias.

A Ação Pastoral e o Desenvolvimento do Dogma

Outro elemento chave na Tradição, do ponto de vista teológico, é a ação pastoral, isto é, a relação entre os pastores legítimos da Igreja e seu rebanho. Essa ação pastoral é parte íntegra da Tradição e compõe-se, por sua vez, de vários elementos que somam essa relação pastor-rebanho, ou, o que é o mesmo, do Magistério da Igreja com seus fiéis.

Um elemento importantíssimo da ação pastoral é a maneira pela qual o pastor, ou seja, o Magistério, explica aos fiéis a doutrina incambiável e imutável. Isto é, o Magistério da Igreja decide ou escolhe a maneira pela qual se explica um dogma; como se aplica uma doutrina incambiável e imutável às circunstâncias específicas de cada época e lugar. Porque uma coisa é o dogma em si mesmo, que é imutável e permanece idêntico para sempre, e outra coisa diferente é a maneira pela qual esse dogma se explica. A maneira pela qual um dogma incambiável ou imutável se explica ou se desenvolve é parte importante dessa ação Pastoral do Magistério, e essa maneira particular de explicar o dogma imutável é algo que igualmente se ajusta ou se adapta às circunstâncias, tempo e lugar.

Assim nos explica São Gregório Magno (In Ezechielem, lib. 2, hom. 4, 12):

«Com o correr do tempo foi crescendo a ciência dos patriarcas; pois Moisés recebeu maiores ilustrações do que Abraão na ciência de Deus onipotente, e os profetas as receberam maiores do que Moisés, e os apóstolos, por sua vez, maiores do que os profetas.»

Também o beato Papa João XXIII nos fala da importantíssima distinção entre o conteúdo ou substância do dogma e a maneira de expressá-lo. A substância e o significado do dogma jamais mudam, mas a maneira pela qual o Magistério explica ou desenvolve esse dogma pode adaptar-se à época e ao lugar. Uma coisa é o dogma em si mesmo e outra a maneira de explicar ou fazer entender esse dogma. Diz-nos o beato que estas são duas coisas diferentes e que não devem confundir-se entre si.

–Santo Padre beato João XXIII (11 de outubro de 1962): “O supremo interesse do Concílio Ecumênico é que o sagrado depósito da doutrina cristã seja guardado e ensinado de forma cada vez mais eficaz…antes de tudo, é necessário que a Igreja não se afaste do sagrado patrimônio da verdade, recebido dos padres; mas, ao mesmo tempo, deve olhar para o presente, para as novas condições e formas de vida introduzidas no mundo atual, que abriram novos caminhos para o apostolado católico…o Concílio Ecumênico XXI quer transmitir pura e íntegra, sem atenuações nem deformações, a doutrina que durante vinte séculos, apesar de dificuldades e de lutas, converteu-se em patrimônio comum dos homens… Contudo, da adesão renovada, serena e tranquila, a todos os ensinamentos da Igreja, em sua integridade e precisão, tal como resplandecem principalmente nas atas conciliares de Trento e do Vaticano I …espera-se que se dê um passo adiante rumo a uma penetração doutrinal e a uma formação das consciências em correspondência mais perfeita com a fidelidade à autêntica doutrina, estudando-a e expondo-a por meio das formas de investigação e das fórmulas literárias do pensamento moderno. Uma coisa é a substância da antiga doutrina, do ‘depositum fidei’, e outra a maneira de formular sua expressão…”

O que o beato João XXIII explica aqui é que uma coisa é a substância da doutrina e outra coisa é a maneira de formular ou expressar essa doutrina. Essa maneira de explicar a doutrina ou desenvolvê-la é elemento importantíssimo da ação pastoral do Magistério da Igreja. Conforme os tempos e circunstâncias, a Igreja adapta essa maneira de expressar o imutável dogma. Assim, o dogma permanece idêntico e incambiável para sempre, mas a maneira de explicá-lo muda conforme a ação pastoral da Igreja, que explica esses dogmas de maneira mais eficaz conforme os tempos e circunstâncias.

Esse desenvolvimento do dogma jamais deve confundir-se com a heresia do modernismo.

A heresia do modernismo busca mudar o significado e a essência do dogma e adaptá-lo à corrente filosófica da moda. O desenvolvimento católico do dogma apenas desdobra a maneira de explicar o dogma, deixando intacto seu significado, essência e substância. Enquanto a heresia do modernismo busca mudar o sentido e a essência do dogma imutável, o desenvolvimento católico do dogma apenas torna explícitas verdades anteriormente contidas no dogma de maneira implícita.

O desenvolvimento do dogma da ação pastoral jamais muda o significado do dogma, mas apenas a maneira de explicá-lo. Assim se define em termos teológicos esse desenvolvimento do dogma:

Fundamentos do Dogma Católico: A evolução do dogma em sentido católico. Quanto àforma do dogma, isto é, ao conhecimento e à proposição, por parte da Igreja, das verdades reveladas e, consequentemente, à fé pública nas mesmas, houve, sim, progresso (evolução acidentaldo dogma), e semelhante progresso ocorre das seguintes maneiras: a) Verdades que até um momento determinado eram cridas apenas de forma implícita chegam a ser conhecidas explicitamente e são propostas aos fiéis para sua crença nelas; cf. S.th. II-II 1, 7: «quanto à explicação, cresceu o número de artigos [da fé], porque certas coisas que pelos antigos não eram conhecidas explicitamente vieram a ser conhecidas de forma explícita por outros posteriores.» b) Os dogmas materiais convertem-se em dogmas formais. c) Para mais clara inteligência por parte de todos e para evitar mal-entendidos e falsas interpretações, as verdades antigas, cridas desde sempre, propõem-se por meio de novos e bem precisos conceitos. Assim ocorreu, por exemplo, com o conceito de união hipostática, de transubstanciação. d) Questões debatidas até um momento determinado são depois esclarecidas e definidas, condenando-se as proposições heréticas; cf. SANTO AGOSTINHO, De civ. Dei xvi 2, 1: «ab adversario mota quaestio discendi existit occasio» (uma questão promovida por um adversário converte-se em ocasião de adquirir novos ensinamentos).

A evolução do dogma no sentido indicado é precedida de um trabalho científico teológico e praticamente ensinada pelo Magistério ordinário da Igreja com assistência do Espírito Santo (Jo 14,26). Promovem essa formação, por um lado, o desejo natural que o homem tem de aprofundar o conhecimento da verdade adquirida e, por outro, influências externas, como são os ataques dos hereges ou dos infiéis, as controvérsias teológicas, o progresso das ideias filosóficas e asinvestigações históricas, a liturgia e a universal convicção de crenças que nela se manifesta. Os santos padres já puseram em relevo a necessidade de aprofundar o conhecimento das verdades reveladas, de dissipar as obscuridades e fazer progredir a doutrina da revelação. (Dr. Ludwig Ott, Nihil Obstat: Jeremiah J. O’Sullivan. Imprimatur: + Cornelius, 7 de outubro de 1954)

Também os santos nos dão testemunho da necessidade de explicar ou desenvolver os dogmas de maneira mais atualizada aos tempos, ao mesmo tempo em que se mantém em sua completa integridade seu conteúdo e substância. O grande São Vicente de Lérins nos esclarece esse ponto do desenvolvimento do dogma, ponto essencial da ação pastoral.

São Vicente de Lérins: «Mas talvez alguém diga: Então não haverá na Igreja de Cristo progresso algum da religião? Certamente existe esse progresso e muito grande progresso… Mas há de ser verdadeiro progresso na fé, não alteração dela. Pois é próprio do progresso que algo cresça em si mesmo, ao passo que é próprio da alteração transformar uma coisa em outra.» (Commonitorium 23; cf. Dz 1800.)

Aqui vemos que o desenvolvimento do dogma é possível na maneira pela qual a Igreja os explica e aprofunda de acordo com a época e as circunstâncias. A essência e a substância do dogma permanecem idênticas e são imutáveis por todos os séculos, mas a maneira de explicá-lo muda e se adapta. Isso é parte importante do elemento pastoral da Tradição.

Talvez o mais genial dos teólogos e tomistas da Hispano-América, o doutor em lógica e teologia, Rev. Padre Rafael Faria, explique assim o desenvolvimento católico do dogma em 1956:

–Curso Superior de Religião (1956): A indefectibilidade da Igreja consiste em que ela conservou e conservará invariável o tesouro que recebeu de Cristo, a saber: o Dogma, a Moral, os Sacramentos e a organização interna. Sem dúvida que houve desenvolvimento e aperfeiçoamento no Dogma católico. Mas esse desenvolvimento consiste não em que se hajam ensinado verdades novas, não contidas na Sagrada Escritura ou na Tradição, mas em que se declararam e ensinaram de forma perfeitamente clara e explícita verdades que ali estavam contidas de forma geral, obscura ou imprecisa. Por exemplo, a Escritura ensina que em Deus há Pai, Filho e Espírito Santo. O Dogma foi-se desenvolvendo até encontrar a fórmula precisa: em Deus há três pessoas em uma só Natureza. E assim aconteceu com outras verdades. A infalibilidade da Igreja consiste em não poder errar em assuntos pertinentes à Fé e à Moral. A infalibilidade é necessária à Igreja porque Deus obrigou todos os homens, sob pena de condenação, a pertencerem a ela. “Quem não crer será condenado.” (Mc 16,16). Mas, se a Igreja pudesse errar, Deus obrigaria os homens a aceitar o erro, o que repugna à sua sabedoria. (Rev. Padre Dr. Rafael Faria, Santa Fé de Bogotá, 1956, Livro I, Dogma, p. 135, Nihil Obstat, Imprimatur.)

Assim vemos que a Tradição da Igreja se compõe de elementos que jamais mudam, como o dogma e a moral, e de elementos que mudam com os tempos, como a liturgia, a disciplina e a ação pastoral. Explicar de melhor maneira ou de maneira mais desenvolvida esse dogma imutável e incambiável é parte importantíssima da ação pastoral.

O Magistério da Igreja, Guardião Invencível da Tradição

Segundo o plano de Cristo, os apóstolos e seus sucessores hão de ser, até o fim dos tempos, os guardiões invencíveis da Tradição. Foi somente ao Magistério que Cristo encarregou a missão de guardar a Tradição, defini-la e expô-la aos fiéis. Só o Magistério pode interpretar o depósito da Fé para nos dizer o que a Tradição é ou não é, e só o Magistério tem a divina promessa de Cristo de que jamais poderá ser infiel à Tradição ou dela se afastar.

É, pois, importantíssimo entender que, para compreender o que a Tradição é de época em época, só podemos escutar o Magistério vivo da Igreja; isto é, o Papa e os Bispos em plena comunhão com ele. Só esse Magistério vivo pode nos dizer, de época em época, o que a Tradição “é” conforme os tempos e as circunstâncias. Assim nos explica o grande Leão XIII em seu imortal Satis Cognitum:

—Papa Leão XIII, Satis Cognitum (1896): É, pois, incontestável, depois do que acabamos de dizer, que Jesus Cristo instituiu na Igreja um Magistério vivo, autêntico e, além disso, perpétuo, investido de sua própria autoridade, revestido do espírito de verdade, confirmado por milagres; e quis, e muito severamente o ordenou, que os ensinamentos doutrinais desse Magistério fossem recebidos como os seus próprios. Quantas vezes, portanto, a palavra desse Magistério declare que tal ou qual verdade faz parte do conjunto da doutrina divinamente revelada, cada um deve crer com certeza que isso é verdade; pois, se de algum modo pudesse ser falso, seguir-se-ia daí — o que é evidentemente absurdo — que o próprio Deus seria o autor do erro dos homens. «Senhor, se estamos em erro, tu mesmo nos enganaste.»

O mesmo que nos diz Leão XIII é o que a doutrina da Igreja nos repete sem cessar: só o Magistério da Igreja pode nos definir o que a Tradição da Igreja é de época em época, e ninguém mais: assim o repetem os santos padres, o Catecismo e os manuais de teologia dogmática uma e outra vez.

–Papa São Pio X (10 de maio de 1909): “O primeiro e o maior critério da fé, a regra suprema e inquebrantável da ortodoxia é a obediência ao Magistério sempre vivo e infalível da Igreja, estabelecida por Cristo como ‘a coluna e o sustentáculo da verdade’.”

–Papa Paulo VI (carta ao arcebispo Lefebvre, outubro de 1976): “Este é o assunto essencial…Cristo deu a suprema autoridade de Sua Igreja a Pedro e ao Colégio apostólico, isto é, ao Papa e ao colégio de Bispos una cum Capite. Por sua natureza, ‘o encargo de ensinar e governar não pode ser exercido senão em comunhão hierárquica com a cabeça do Colégio e com seus membros’ (Constituição Lumen Gentium, 21; cf. também 25). A fortiori, um só bispo sem missão canônica não tem in actu expedito ad agendum a faculdade de decidir em geral o que é regra de fé ou determinar o que é Tradição.”

–Catecismo da Igreja Católica: 85 “O ofício de interpretar autenticamente a palavra de Deus, oral ou escrita, foi confiado somente ao Magistério vivo da Igreja, o qual o exerce em nome de Jesus Cristo” (DV 10), isto é, aos bispos em comunhão com o sucessor de Pedro, o bispo de Roma.

–A Religião Demonstrada: “Ninguém é livre para explicar a seu modo a Sagrada Escritura e a Tradição; devemos submeter-nos à Igreja docente, estabelecida para nos dizer o que devemos crer e o que devemos fazer. … Aliás, a própria razão demonstra a necessidade de uma regra viva para dar aos fiéis a noção das verdades que se deve crer e dos deveres que se deve praticar…Era, pois, necessário um juiz vivo, um intérprete autêntico para fixar o sentido da revelação divina e condenar os erros. Por esse motivo, o Governador Supremo da Igreja e os bispos em comunhão com ele são os únicos intérpretes legítimos e infalíveis das Escrituras e da Tradição, a única regra da fé e da moral.” (A Religião Demonstrada, p. 449, P. A. Hillaire, edição de Mons. Agustín Piaggo, 1944, Barcelona, Nihil Obstat, Imprimatur.)

–Dicionário de teologia Dogmática: “Segundo a doutrina católica, a Sagrada Escritura e a Tradição não são mais que a fonte e a regra remota da fé, ao passo que a regra próxima é o Magistério vivo da Igreja, que reside no Romano Pontífice e nos Bispos enquanto estão sujeitos e unidos a ele.” (Dicionário de teologia dogmática, p. 206, Rev. Padre Pietro Parente, Nihil Obstat, Imprimatur, 1955)

Vemos assim que só o Papa e os Bispos em plena comunhão com ele podem nos dizer o que a Tradição é ou não é. Ninguém que não seja este autêntico Magistério vivo da Igreja, ou seja, o Papa e os bispos em plena comunhão com ele, pode nos dizer o que a Tradição é ou não é em determinado momento histórico.

Todos conhecemos os elementos que compõem a Tradição da Igreja: dogma, moral, liturgia, disciplina, ação pastoral, mas sua exata definição em cada determinada época só a pode determinar e nos pode transmitir o Magistério autêntico da Igreja e ninguém mais. Só o Papa e os bispos em comunhão com ele podem nos dizer o que a Tradição é ou não é em cada determinada época.

Dessa mesma forma podemos perceber que esse Magistério nunca poderá ser infiel ao depósito da Fé, ou seja, que o Magistério nunca poderá ser infiel à Tradição. A promessa de Cristo de ajudar e proteger sua Igreja por “todos os dias, até o fim do mundo” nos dá a garantia absoluta e categórica de que o Magistério da Igreja nunca será infiel à Tradição. Assim, o Magistério nunca poderá mudar o incambiável da Tradição, o dogma e a moral, nem deixar de ser fiel a ela. Assim nos explica o cardeal Ratzinger, hoje Papa Bento XVI:

—Cardeal Ratzinger (carta ao arcebispo Lefebvre, 28 de julho de 1987): “Divinamente instituída, a Igreja tem a promessa de assistência de Cristo até o fim dos tempos. Romper sua unidade com um ato de plena desobediência de sua parte causaria incalculável dano e destruiria o futuro mesmo de seu trabalho, pois fora da unidade com Pedro não se pode ter futuro, senão apenas a ruína de tudo o que se deseja e se aspira…De fato, é a Pedro que o Senhor confiou o governo de Sua Igreja; portanto, é o Papa o principal artesão de sua unidade. Assegurado na promessa de Cristo, o Papa nunca será capaz de opor-se à Santa Tradição nem ao Magistério autêntico.”

Assim podemos ver, como diz o cardeal Ratzinger (hoje Papa Bento XVI), que o Papa nunca será capaz de ser infiel à Tradição. Isso se baseia na oração de Cristo, que orou pela Fé de Pedro e de seus sucessores. Assim, é dogma divinamente revelado que o Papa, Vigário de Cristo na Terra, jamais será capaz de opor-se ou de ser infiel à Tradição e aos elementos imutáveis que jamais mudam nela, ou seja, a doutrina e a moral. O próprio Cristo nos assegura com sua divina promessa que o Papa jamais poderá ser infiel à Santa Tradição. Assim nos assegura o Primeiro Concílio Vaticano:

–Primeiro Concílio Vaticano, Constituição dogmática Pastor Aeternus (18 de julho de 1870): Assim, o Espírito Santo foi prometido aos sucessores de Pedro, não de maneira que eles pudessem, por revelação sua, dar a conhecer alguma nova doutrina, mas para que, por assistência sua, pudessem guardar santamente e expor fielmente a revelação transmitida pelos Apóstolos, isto é, o depósito da fé. Certamente sua apostólica doutrina foi abraçada por todos os veneráveis padres e reverenciada e seguida pelos santos e ortodoxos doutores, já que sabiam muito bem que esta Sé de São Pedro sempre permanece livre de erro algum, segundo a divina promessa de nosso Senhor e Salvador ao príncipe de seus discípulos: «Eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; e tu, quando te converteres, confirma os teus irmãos.» Este carisma de uma verdadeira e nunca deficiente fé foi, portanto, divinamente conferido a Pedro e a seus sucessores nesta cátedra, de maneira que possam desempenhar seu elevado ofício para a salvação de todos, e de maneira que todo o rebanho de Cristo possa ser afastado por eles do venenoso alimento do erro e possa ser alimentado com o sustento da doutrina celestial.

A Tradição da Igreja também é chamada Tradição “viva”

A Santa Tradição da Igreja também é chamada Tradição viva porque, como vimos, esta Tradição, do ponto de vista teológico, se compõe de elementos que jamais podem mudar e sempre permanecem idênticos, o dogma e a moral, mas igualmente de elementos que mudam ou se adaptam com os tempos e as circunstâncias. Precisamente devido a esses elementos que mudam ou se adaptam, ou seja, a liturgia, a ação pastoral e a disciplina, e que são parte íntegra da Tradição, é que também se chama “tradição viva” à Tradição. Esse nome de Tradição viva utiliza-se para denotar que existem elementos que mudam e são modificáveis na Tradição (ação pastoral, liturgia, disciplina) junto aos elementos que jamais mudam e são imutáveis por todos os tempos (dogma e moral).

Uma bela e douta visão da Tradição, sua composição e definição, deu-a o Santo Padre Bento XVI em maio de 2006. Aqui sua santidade explica o verdadeiro significado do que é a Tradição da Igreja:

–Papa Bento XVI (3 de maio de 2006): Queridos irmãos e irmãs: Nesta catequese queremos compreender um pouco o que é a Igreja. Da última vez meditamos sobre o tema da Tradição apostólica. Vimos que não é uma coleção de coisas, de palavras, como uma caixa de coisas mortas. A Tradição é o rio da vida nova, que vem desde as origens, desde Cristo, até nós, e nos insere na história de Deus com a humanidade…A Igreja transmite tudo o que é e tudo o que crê; transmite-o com o culto, com a vida e com o ensino. Assim, pois, a Tradição é o Evangelho vivo, anunciado pelos Apóstolos em sua integridade, segundo a plenitude de sua experiência única e irrepetível: por obra deles a fé se comunica aos demais, até nós, até o fim do mundo.

Por conseguinte, a Tradição é a história do Espírito que atua na história da Igreja através da mediação dos Apóstolos e de seus sucessores, em fiel continuidade com a experiência das origens…Esta cadeia de serviço prossegue até hoje, e prosseguirá até o fim do mundo. Com efeito, o mandato que Jesus deu aos Apóstolos foi transmitido por eles a seus sucessores. ..Assim, ainda que de maneira diversa da dos Apóstolos, também nós temos uma verdadeira experiência pessoal da presença do Senhor ressuscitado. Através do ministério apostólico, o próprio Cristo chega assim àqueles que são chamados à fé. A distância dos séculos é superada e o Ressuscitado apresenta-se vivo e operante para nós, no hoje da Igreja e do mundo. Esta é a nossa grande alegria. No rio vivo da Tradição, Cristo não está distante dois mil anos, mas está realmente presente entre nós e nos dá a Verdade, nos dá a luz que nos permite viver e encontrar o caminho rumo ao futuro.”

A heresia do Modernismo: ataque à Tradição

Um dos maiores e mais trágicos erros contra a Tradição da Igreja é o modernismo ou progressismo. Embora seja verdade que o modernismo, como escola filosófica, tem muitas variações, do ponto de vista teológico e em relação à Tradição, o principal erro do modernismo é querer mudar o incambiável dela. Assim, a heresia do modernismo defende o gravíssimo erro de que o incambiável e imutável da Tradição, ou seja, o dogma e a moral, pode mudar com o tempo, o lugar ou as circunstâncias. Esse trágico erro defende que, assim como os elementos que mudam na Tradição (disciplina, liturgia, ação pastoral), também se possam mudar da mesma forma os elementos incambiáveis e imutáveis dela (dogma e moral), ou que estes se adaptem conforme a corrente ou moda da época.

A heresia do modernismo busca romper com o passado irrompível da Tradição e mudar o que, por ser verdade eterna, não pode mudar. Ao tentar mudar o incambiável da Tradição — o dogma que se deve crer para se salvar e a moral que rege os atos, igualmente para a salvação —, o modernismo atenta contra a base fundamental do Depósito da Fé.

O gravíssimo erro modernista é, diferentemente do católico desenvolvimento do dogma, que sempre deixa intacta e sem contradição a essência e a substância do dogma, a mudança contraditória de uma doutrina; a heresia modernista busca mudar de significado e substância a doutrina, querendo fazer erro do que é verdade e verdade do que é erro, e mudar o incambiável da Tradição conforme o gosto ou a moda de uma época. O erro do modernismo foi condenado muitíssimas vezes pelo Magistério da Igreja, especialmente no Sílabo, por São Pio X, Paulo VI e por João Paulo II.

Assim fala São Pio X da heresia do modernismo em Pascendi:

–São Pio X (Pascendi, 8 de setembro de 1907): “Por sua vez, o homem, ao crer, pode estar em condições que podem ser muito diversas. Portanto, as fórmulas que chamamos dogma achar-se-ão expostas às mesmas vicissitudes e, por conseguinte, sujeitas a mutação. Assim fica aberto o caminho rumo à evolução íntima do dogma. Cúmulo, na verdade, infinito de sofismas, com que se resquebra e se destrói toda a religião! Não só pode o dogma desenvolver-se e mudar, mas deve; tal é a tese fundamental dos modernistas, que, por outra parte, decorre de seus princípios.”

Também o Papa Paulo VI nos fala da impossibilidade de aplicar a heresia modernista na Igreja e mudar o incambiável da Tradição. Sem importar a pressão e a corrente ou moda dos tempos, a Igreja jamais, por promessa do próprio Cristo, poderá mudar o incambiável da Tradição, ou seja, o dogma e a moral que compõem o Depósito da Fé. Paulo VI nos explica, em 19 de janeiro de 1972, que a Igreja jamais poderá mudar ou mutar o elemento imutável da Tradição. Assim explica o Papa Paulo VI que a Igreja jamais poderá ser vítima da heresia do modernismo:

–Papa Paulo VI (19 de janeiro de 1972): “Assim, queridos filhos, e ao afirmar isto, nós repudiamos estes erros que já estiveram em circulação no passado e que circulam desenfreados outra vez na vida espiritual de nosso tempo, e que podem destruir nosso entendimento cristão da vida e da história. O modernismo foi a expressão característica dessas falsas doutrinas; que, sob outros nomes, são influentes hoje.

Podemos entender hoje por que a Igreja Católica, agora como no passado, atribui tanta importância à estrita preservação da autêntica revelação e a considera um tesouro inviolável, e por que Ela tem uma noção estrita de sua missão fundamental de defender a doutrina da Fé e transmiti-la de uma maneira inequívoca. A ortodoxia é sua maior preocupação, e o ofício pastoral é sua mais importante e divina missão.

O ensino dos Apóstolos de fato determina o cânon de sua proclamação. As instruções do Apóstolo Paulo, “Guarda o que te foi confiado” (1Tm 6,20; 2Tm 1,14), apresentam-lhe um dever que seria traição não observar. A Igreja, como Mestra, não inventa sua doutrina; Ela dá testemunho, preserva, medeia. É uma questão da Verdade da mensagem do Evangelho que a Igreja possa caracterizar-se como conservadora e implacável. Àqueles que querem induzir a Igreja a simplificar sua Fé e moldá-la ao gosto do espírito mutável da época, ela responde com o “non possumus” (não podemos) dos Apóstolos. (At 4,20)”

Assim, o modernismo, a heresia que quer mudar o incambiável da Tradição e modificar a essência e a substância dos dogmas conforme a corrente ou moda das épocas, permanece como um dos mais graves erros contra a Tradição.

João Paulo II define os erros contra a Santa Tradição

O Papa beato João Paulo II definiu em 1988 os gravíssimos erros que atentam contra a Tradição. Em uma carta ao então Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Cardeal Joseph Ratzinger (hoje Papa Bento XVI), o beato João Paulo II definiu o gravíssimo erro do modernismo, ou seja, querer mudar o incambiável da Tradição, e também o gravíssimo erro do integrismo, ou seja, não entender que a Tradição abrange mais do que apenas elementos incambiáveis, mas também elementos que mudam com o tempo, como a liturgia, a ação pastoral e a disciplina. Assim nos explica magistralmente o beato João Paulo II:

–Beato João Paulo II (8 de abril de 1988): “…as palavras com que Cristo prometeu aos Apóstolos a vinda do Espírito Santo têm para nós especial relevância: “Eu rogarei ao Pai, e Ele vos dará outro Paráclito, para que fique convosco para sempre, o Espírito de verdade… que o Pai enviará em meu nome, ele vos ensinará todas as coisas e vos recordará tudo o que eu vos tenho dito. “(Jo 14,16-17.26.) Em todos os tempos e em todo momento, a Igreja tem sido guiada pela fé nas palavras de seu Mestre e Senhor, na certeza de que, com a ajuda e a assistência do Espírito Santo, a Igreja sempre permanecerá na verdade divina, mantendo a sucessão apostólica com os Bispos em comunhão com o sucessor de Pedro.

A Igreja também expressou esta convicção de fé no último Concílio que se reuniu para confirmar e reforçar o ensino que a Igreja herdou da Tradição, existente há quase vinte séculos como uma realidade viva que vai avançando em relação a problemas e necessidades de cada época, e aprofunda nossa compreensão do que já está contido na fé transmitida de uma vez por todas (cf. Jd 3).

Estamos profundamente convencidos de que “o Espírito de verdade que fala à Igreja” (cf. Ap 2,7.11.17, et al.) falou — de uma maneira particularmente solene e autoritativa — no Segundo Concílio Vaticano, preparando a Igreja para entrar no terceiro milênio depois de Cristo. Já que o trabalho do Concílio em seu conjunto é uma confirmação da mesma verdade, vivida pela Igreja desde o princípio, é também uma “renovação” dessa mesma verdade (um “aggiornamento”, como diz a famosa frase do Papa João XXIII), para aproximar a grande família humana no mundo contemporâneo tanto da maneira de ensinar a fé e a moral como das atividades apostólicas e pastorais da Igreja.

No período pós-conciliar vimos um grande esforço por parte da Igreja para assegurar-se de que este novum constituído pelo Vaticano II penetrasse corretamente a mente e a conduta das comunidades individuais do Povo de Deus. Contudo, junto a esse esforço, surgiram tendências que criaram certa dificuldade em pôr o Concílio em prática.

Uma dessas tendências caracteriza-se pelo desejo de mudanças que nem sempre estão em harmonia com os ensinamentos e o espírito do Vaticano II, ainda que se trate de apelar ao Concílio. Essas mudanças invocam e expressam um progresso, pelo que se designa essa tendência com o nome de “progressismo”. O progresso, neste caso, é uma orientação rumo a um futuro que rompe com o passado, sem contar com a função da Tradição, que é fundamental para a missão da Igreja, para que esta possa continuar na verdade que lhe foi transmitida por Cristo o Senhor e pelos Apóstolos, e que é diligentemente guardada pelo Magistério.

A tendência oposta, no entanto, definida como ‘conservadorismo’ ou ‘integrismo’, detém-se no passado mesmo, sem levar em conta a justa aspiração rumo ao futuro tal como se manifesta propriamente na obra do Vaticano II… Vê o justo somente naquilo que é “antigo”, retendo-o como sinônimo de tradição.

No entanto, não é o “antigo” enquanto tal, nem o “novo” por si mesmo, que correspondem ao conceito justo de tradição na vida da Igreja. Tal conceito, com efeito, significa a fiel permanência da Igreja na verdade recebida de Deus, através das mutáveis vicissitudes da história. A Igreja, como aquele pai de família do Evangelho, extrai com sabedoria ‘de seu tesouro coisas novas e coisas antigas’, permanecendo absolutamente obediente ao Espírito de verdade que Cristo deu à Igreja como guia divina. E a Igreja cumpre esta delicada obra de discernimento através do Magistério autêntico.”

O Integrismo, erro contra a Tradição do mesmo modo que o Modernismo

Assim como a heresia do modernismo quer mudar os elementos incambiáveis da Tradição (o depósito da Fé), outro gravíssimo erro contra a Tradição é o integrismo cismático. Esse integrismo pode ocorrer de duas maneiras: a primeira, quando a pessoa entende por Tradição o sinônimo de dogma e moral e não se dá conta de que a Tradição abrange outros elementos além desse dogma e moral imutável. A segunda maneira pela qual ocorre o integrismo é quando a pessoa entende que a Tradição se compõe de outros elementos além de dogma e moral e, portanto, reconhece que liturgia, disciplina e ação pastoral são parte íntegra da Tradição, mas igualmente a pessoa não reconhece que esses outros elementos podem mudar ou ser modificados conforme o tempo ou a circunstância.

O integrismo é um erro gravíssimo que pode levar a outros erros doutrinais, como negar de facto a infalibilidade e a indefectibilidade prometidas por Cristo à sua Igreja, e pode inclusive conduzir a cismas contrários à Constituição Divina da Igreja, conforme o solenemente decretado por Pastor Aeternus no Primeiro Concílio Vaticano. Não entender que a Tradição contém outros elementos além do dogma e da moral, ou não reconhecer que esses outros elementos (ação pastoral, disciplina, liturgia) podem mudar com o tempo, é o erro do integrismo, o qual se constitui como um grave atentado contra a Santa Tradição.

O Santo Padre Paulo VI nos fala de como este integrismo cismático pode levar, do mesmo modo que o modernismo, a gravíssimos erros a respeito do entendimento da Santa Tradição. Assim nos fala o santo Padre Paulo VI sobre o gravíssimo erro do integrismo e como este leva a um entendimento falso e errôneo da Santa Tradição:

–Papa Paulo VI (11 de outubro de 1976, carta ao arcebispo Lefebvre): “O senhor diz que é fiel à Igreja e à Tradição pelo simples fato de obedecer a certas normas do passado que foram decretadas pelo predecessor daquele a quem Deus hoje dá os poderes conferidos a Pedro. Nesse ponto, também o conceito de Tradição que o senhor invoca é errôneo. A Tradição não é um dado fixo ou morto, um fato estático, que de certa maneira bloquearia, em um momento determinado da história, a vida deste organismo ativo que é a Igreja, o corpo místico de Cristo.

Compete ao papa e aos concílios conduzir um juízo para discernir, nas tradições da Igreja, aquilo a que não é possível renunciar sem infidelidade ao Senhor e ao Espírito Santo — o depósito da fé — e aquilo que, pelo contrário, pode e deve ser posto em dia, para facilitar a missão da Igreja através da variedade dos tempos e dos lugares, para traduzir a mensagem divina à linguagem humana de hoje e comunicá-la melhor, sem compromisso de princípios, indubitavelmente. Assim, a Tradição é inseparável do Magistério vivo da Igreja como é inseparável das sagradas escrituras. Assim atuam os papas e os concílios ecumênicos, com a assistência especial do Espírito Santo.

Foi isso, precisamente, o que fez o Vaticano II. Nada do que foi decretado nesse Concílio, como nas reformas que Nós decidimos levar a cabo, se opõe ao que a Tradição bimilenar da Igreja considera fundamental e imutável. De tudo isso somos Nós garantes, em virtude, não de nossas qualidades pessoais, mas da tarefa que o Senhor nos confiou como sucessor legítimo de Pedro e da assistência especial que nos prometeu, como a Pedro: “Eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça. (Lc 22,32). Conosco é garante disto o episcopado universal. Novamente, o senhor não pode distinguir o que é pastoral do que é dogmático para aceitar alguns textos do concílio e rejeitar outros.”

Também o beato João Paulo II nos adverte do gravíssimo erro teológico do integrismo. Não reconhecer que a Santa Tradição tem outros elementos além do dogma e da moral, e que esses elementos (liturgia, ação pastoral, disciplina) podem e devem mudar com os tempos conforme o decreta o Concílio de Trento, é o gravíssimo erro e mau entendimento da Tradição que chamamos integrismo. Esse integrismo leva a outros erros, como o cisma, a negação da indefectibilidade e infalibilidade da Igreja e uma nova versão do erro luterano da livre interpretação, na qual o cismático dá sua própria interpretação à Tradição, independentemente e à parte do Papa e do autêntico Magistério. Assim nos diz o beato João Paulo II em 1988:

–Beato João Paulo II (Motu Proprio Ecclesia Dei, 1988): A raiz deste ato cismático pode ser identificada em uma imperfeita e contraditória noção de Tradição: imperfeita porque não leva suficientemente em conta o caráter vivo da Tradição, que … provém originariamente dos Apóstolos, “progride na Igreja sob a assistência do Espírito Santo; isto é, cresce com a compreensão das coisas e das palavras transmitidas, quando os fiéis as contemplam e estudam …quando as proclamam os bispos, sucessores dos Apóstolos no carisma da verdade“. Mas é sobretudo contraditória uma noção de Tradição que se oponha ao Magistério universal da Igreja, o qual corresponde ao Bispo de Roma e ao Colégio dos Bispos. Ninguém pode permanecer fiel à Tradição se rompe os laços e vínculos com aquele a quem o próprio Cristo, na pessoa do Apóstolo Pedro, confiou o ministério da unidade em sua Igreja.”

A Santa Tradição Sempre presente no Magistério Autêntico

Para nos mantermos fiéis à Santa Tradição da Igreja, só resta o caminho de seguir o Magistério autêntico da Igreja. Só o Magistério autêntico pode nos levar seguros pelo caminho da Santa Tradição. Só o Magistério tem a promessa divina de Cristo de nunca se desviar do depósito da Fé, e foi somente ao Magistério autêntico que Cristo autorizou a pregar a verdade. A única maneira de permanecer firmes na Fé contra os erros do modernismo e do integrismo é a permanência em adesão completa ao Magistério da Igreja.

Sobre a absoluta necessidade de estar unidos ao Vigário de Cristo nos adverte o grande Leão XIII em seu magistral Satis Cognitum de 1896:

— Papa Leão XIII (Satis Cognitum, 1896): “Por isso, é necessário fazer aqui uma advertência importante. Nada foi conferido aos apóstolos independentemente de Pedro; muitas coisas foram conferidas a Pedro isolada e independentemente dos apóstolos…Donde se vê claramente que os bispos perderiam o direito e o poder de governar se se separassem de Pedro ou de seus sucessores. Por essa separação, arrancam-se a si mesmos do fundamento sobre o qual deve sustentar-se todo o edifício e colocam-se fora do próprio edifício; pela mesma razão, ficam excluídos do rebanho que governa o Pastor supremo e desterrados do reino cujas chaves Deus deu a Pedro somente.

Estas considerações fazem compreender o plano e o desígnio de Deus na constituição da sociedade cristã. Este plano é o seguinte: o Autor divino da Igreja, ao decretar dar a esta a unidade da fé, de governo e de comunhão, escolheu Pedro e seus sucessores para estabelecer neles o princípio e como que o centro da unidade…Daí também esta sentença do mesmo São Cipriano, segundo a qual a heresia e o cisma se produzem e nascem do fato de negar ao poder supremo a obediência que lhe é devida: «A única fonte de onde surgiram as heresias e de onde nasceram os cismas é que não se obedece ao Pontífice de Deus, nem se quer reconhecer na Igreja um só Pontífice e um só juiz, que ocupa o lugar de Cristo.» Ninguém, pois, pode ter parte na autoridade se não estiver unido a Pedro, pois seria absurdo pretender que um homem excluído da Igreja tivesse autoridade na Igreja.”

Para sermos fiéis à Santa Tradição, permaneçamos unidos com firmeza absoluta ao Vigário de Cristo em humildade e obediência. Tenhamos em conta a promessa divina de Cristo da indefectibilidade da única Igreja verdadeira e tenhamos em conta as palavras do Concílio de Trento sobre como elementos íntegros da Tradição, como a liturgia, podem e devem mudar-se conforme o tempo e as circunstâncias:

–Concílio de Trento (Sessão 21): Na Igreja sempre existiu este poder, de que, na administração dos sacramentos…ela pode modificar ou mudar o que considera mais apropriado para o benefício dos que os recebem ou para a reverência devida aos próprios sacramentos, de acordo com circunstâncias variáveis, tempo ou lugares.”

Amém.

Autor: Cortesia de um leitor