“Eu, judeu, por Pio XII”
ROMA, 23 nov. 02 (ACI).- Em um artigo publicado no jornal italiano L’Avvenire, o destacado historiador judeu David G. Dalin assinala que a verdadeira história deixa evidente que o Papa Pio XII foi um ardente defensor dos judeus e um crítico do nazismo, e que os que sustentam o contrário são ex-sacerdotes ou ex-católicos que têm “contas pendentes” doutrinais com o Papa Pacelli.
No artigo intitulado “Eu, judeu, por Pio XII”, Dalin assinala que “qualquer leitura honesta e completa das fontes demonstra que o Pontífice foi um tenaz crítico do nazismo”; e indica que “estranhamente, todos aqueles que o caluniam são ex-sacerdotes ou cristãos afastados da Igreja, mas novos documentos provam que o Führer desconfiava da Santa Sé precisamente porque ela escondia rabinos”.
O artigo do historiador surge em razão de que, nos últimos 18 meses, foram publicados 9 livros sobre Pio XII, dos quais 4 são em defesa do Papa e 2 tratam dele apenas dentro de um amplo ataque contra o catolicismo.
“Apesar disso, são os livros que caluniam o Papa os que receberam maior atenção da imprensa, particularmente ‘O Papa de Hitler’, um livro amplamente comentado e lançado no mercado”, diz Dalin, para quem “curiosamente, quase todos aqueles que hoje se colocam nessa linha —desde os ex-seminaristas John Cornwell e Garry Wills até o ex-sacerdote James Carroll— são católicos ou saídos da Igreja ou críticos em sua relação com ela”.
Em contrapartida, segundo o historiador, “para os líderes judeus de uma geração precedente, a campanha contra Pio XII teria sido causa de enorme surpresa. Durante e depois da guerra, muitos judeus famosos —Albert Einstein, Golda Meir, Moshe Sharett, o rabino Isaac Herzog e muitos outros— expressaram publicamente sua gratidão a Pio XII”.
O historiador judeu cita inclusive a obra “Three Popes and the Jews”, do diplomata judeu Pinchas Lapide, cônsul israelense em Milão, segundo a qual Pio XII salvou com certeza a vida de 700.000 judeus, e provavelmente chegou a salvar até 860.000 da maquinaria assassina dos nazistas.
Por isso, o historiador assinala que “converter Pio XII em alvo de nosso desdém moral contra o nazismo e arrastar o catolicismo para entre as instituições deslegitimadas pelo horror do Holocausto significa trair a tarefa de compreender a história”.
“Quase nenhum dos livros sobre Pio XII e o Holocausto se refere realmente a Pio XII e ao Holocausto —diz Dalin—. O verdadeiro tema acaba sendo uma discussão interna do catolicismo sobre o sentido da Igreja hoje, na qual o Holocausto se torna simplesmente o porrete mais grosso de que os católicos progressistas podem dispor para usá-lo como arma”.
Para Dalin, o debate sobre o futuro do papado não é um tema em que os não cristãos deveriam se meter; no entanto, opina que “os judeus, para além de seus sentimentos a respeito da Igreja Católica, têm o dever moral de rejeitar toda tentativa de instrumentalizar o Holocausto e de usá-lo de maneira partidária no interior de tal debate. E isto particularmente quando tal tentativa denigre os testemunhos dos sobreviventes do Holocausto e estende às pessoas erradas a condenação que corresponde a Hitler e aos nazistas”.
Dalin oferece depois o testemunho de numerosas figuras judaicas da Europa e dos Estados Unidos que hoje se opõem terminantemente à denigração que alguns irmãos de religião fazem de Pio XII, entre eles Sir Martin Gilbert, Michael Tagliacozzo —máxima autoridade da comunidade judaica de Roma sobre o Holocausto— e Richard Breitman —único historiador com acesso aos arquivos secretos norte-americanos—, e especialmente o próprio Lapide.
Por isso, o historiador conclui que “uma investigação séria sobre Pio XII chegaria, creio, a conclusões exatamente opostas às de Cornwell: Pio XII não foi o Papa de Hitler, mas o Papa que sustentou os judeus mais de perto e no momento em que isso era verdadeiramente importante”.