A polêmica sobre as Cruzadas não se acalma. O fato de neste ano se celebrar o 900º aniversário da primeira Cruzada tornou-se, aos olhos de certa publicística anticatólica, um argumento para desacreditar a Igreja e seus ensinamentos.
Apareceram artigos nos quais as Cruzadas são descritas como guerras santas, e os massacres de judeus que ocorreram naquela ocasião como a antessala do Holocausto. A Igreja foi acusada de ter sempre procurado eliminar os adversários em nome da ortodoxia. «La Repubblica», o segundo jornal em circulação na Itália, escreveu que «os francos massacraram setenta mil pessoas numa mesquita», o que levaria a supor que a mesquita era tão grande quanto um estádio de futebol moderno.
Para tentar evitar bobagens e erros, o historiador Franco Cardini, profundo conhecedor dos acontecimentos medievais, escreveu um artigo no «Avvenire» de hoje com o título «Cruzadas, não guerras de religião».
O professor Cardini explica que a interpretação das Cruzadas como antecedentes das guerras de religião e das guerras ideológicas foi sustentada nos ambientes iluministas. Trata-se de uma polêmica amplamente mal compreendida e pretextuosa.
Segundo o professor Cardini, «as Cruzadas nunca foram “guerras de religião”, nunca buscaram a conversão forçada ou a supressão dos infiéis. Os excessos e violências realizados no curso das expedições — que existiram e não devem ser esquecidos — devem ser avaliados no quadro da fenomenologia normal, embora dolorosa, dos fatos militares, e sempre tendo presente que alguma razão teológica os justificou. A Cruzada corresponde a um movimento de peregrinação armada que se afirmou lentamente e se desenvolveu ao longo do tempo — entre os séculos XI e XIII — e que deve ser entendido inserindo-o no contexto do longo encontro entre a Cristandade e o Islã, que produziu resultados culturais e econômicos positivos. Como se explica, caso contrário, o dado das frequentes amizades e até alianças militares entre cristãos e muçulmanos na história das Cruzadas?».
Para confirmar suas teses, o professor Cardini recorda a contribuição de São Bernardo de Claraval (1090-1153), que, contra a cavalaria laica — como a do século XII, formada por gente ávida, violenta e amoral —, propôs a constituição de «uma nova cavalaria» a serviço dos pobres e dos peregrinos. A proposta de São Bernardo era revolucionária: uma nova cavalaria feita de monges que renunciasse a toda forma de riqueza e de poder pessoal e que, mesmo na guerra, aprendesse que o inimigo pode até ser morto, quando não houver outra opção, mas que não se deve odiá-lo. Daí o ensinamento de não odiar nem sequer na batalha.
A Cruzada entendida como «guerra santa» contra os muçulmanos também seria, segundo Cardini, um exagero. «Na realidade — sublinha o professor —, o que interessava nas expedições a serviço dos irmãos em Cristo, ameaçados pelos muçulmanos, era a recuperação da paz no Ocidente e a colocação em marcha da ideia de socorro aos correligionários distantes. A Cruzada significava reconciliar-se com o adversário antes de partir, renunciar à disputa e à vingança, aceitar a ideia do martírio, pôr a si mesmo e os próprios bens à disposição da comunidade dos crentes, projetar-se numa experiência à luz da qual, por certo número de meses e talvez de anos, o seguimento de Cristo e a memória do Cristo vivo na terra que fora o teatro de sua existência terrena seriam colocados no ápice da própria experiência».