Análise de passagens bíblicas.

A questão de Maria dividiu católicos e protestantes. Um desses pontos de diferença é a virgindade perpétua de Maria. Segundo a Igreja Católica, Maria só teve Jesus, mas os protestantes argumentam com a Bíblia que ela teve mais filhos.

Quando encontro um protestante, seja evangélico, testemunha de Jeová ou adventista, e quero adotar um tom fundamentalista, eles ficam chateados. Sempre inicio a conversa com a pergunta: A Bíblia diz que Maria teve mais filhos ou diz que Jesus teve mais irmãos? Segundo eles, não consigo me colocar nessa perspectiva (e pensar que são eles que interpretam tudo ao pé da letra). Mas objetivamente não é a mesma coisa, pois por exemplo poderiam ser filhos de José e não de Maria. A verdade é que nenhum deles teve mais filhos. Com uma simples análise genealógica e gramatical grega iremos demonstrá-lo.

Vamos primeiro analisar as citações usadas pelos protestantes para dizer que Maria teve mais filhos. É bom dizer antes que em NENHUMA citação se usa a expressão filhos de Maria, que é o que argumentam os protestantes, mas em qualquer caso vamos seguir o seu argumento.

“Ele não é filho do carpinteiro? Sua mãe não se chama Maria? Seus irmãos não são Tiago, José, Simão e Judas? E suas irmãs não vivem todas entre vocês?” (Mt 13, 55-56)

Em nenhum lugar diz filhos de Maria, o que diz é irmãos de Jesus, mas será facilmente demonstrado quem é a mãe desses personagens.

“Ei, sua mãe, seus irmãos e irmãs estão lá fora perguntando sobre você.” (Mc 3, 32)

Quando pergunto aos protestantes por que não acreditam no purgatório, eles me dizem: essa palavra não está na Bíblia. Eu lhes diria que, então, Maria não teve mais filhos, porque a expressão “filhos de Maria” ou “Maria teve mais filhos” também não aparece na Bíblia. Neste caso, recorrem a outras artimanhas para garantir isso.

“Depois disso, Jesus desceu a Cafarnaum e com ele sua mãe, seus irmãos e seus discípulos”. (Jo 2, 12)
“Todos perseveraram na oração e com o mesmo espírito, na companhia de algumas mulheres, Maria, mãe de Jesus, e seus irmãos”. (Atos 1, 14)

Por que não dizer: Maria, a mãe de Jesus, e seus outros filhos? Deixe que cada um responda.

“Mas não vi outro apóstolo, exceto Tiago, irmão do Senhor.” (Gl 1, 18)

Parece que um dos nomes mencionados em Mateus aparece novamente. Então será que ele é outro filho de Maria?

Além dessas citações, mais duas são utilizadas. Na primeira, a expressão até, Faz pensar que o que está sendo narrado aconteceria mais tarde:

“E “Ele não a conheceu até que ela deu à luz um filho a quem José chamou de Jesus.” (Mt 1, 25)

Na segunda, a expressão primogênito faz pensar que desde que foi o primeiro deve ter havido mais filhos.

“E ela deu à luz seu primogênito.” (Lc 2, 7)

Com as citações acima, qualquer cristão pouco versado cometeria o erro de acreditar que Maria teve mais filhos. Agora é a nossa vez de mostrar a verdade.

A cultura judaica é uma cultura patriarcal. Nele prevalece a autoridade paterna, e esta autoridade assume atribuições linguísticas tais que ao se referir a um irmão de sangue é necessário esclarecer: os filhos do meu pai, já que o que dizer irmão Eu só poderia me referir a qualquer grau de parentesco como: tio, sobrinho, primo, etc. Isso ocorre porque na língua hebraica não existe palavra para tio, primo ou qualquer outra palavra. Vejamos algumas referências bíblicas:

“Abrão levou Sarai, sua esposa, e Lot, filho de seu irmão.” (Gn 12, 5)

Aqui fica claro que Abrão é tio de Lot; Porém, mais tarde ele o chamará de irmão:

“Então disse Abrão a Lot: Olha, é melhor que não haja brigas entre nós, nem entre os meus pastores e os teus, visto que somos irmãos.” (Gn 13, 8)

Há um exemplo em Deuteronômio que pode esclarecer a diferença gramatical entre irmãos de sangue.

“Maldito aquele que dorme com sua irmã, filha de seu pai ou de sua mãe.” (Deuteronômio 27, 22)

O autor deve especificar “filho de”, pois dizer apenas “irmãos” não indica nenhum grau específico de consanguinidade.

Outro texto que pode fazer os protestantes entenderem a diferença entre filhos e irmãos da mãe é encontrado no Salmo 69. Uma vez no site de um protestante anticatólico descobri que eles argumentavam contra a virgindade de Maria usando este Salmo que diz:

“Tornei-me um estranho para meus irmãos e um estranho para os filhos de minha mãe.” (Sl 69,8).

Segundo este protestante, este salmo é messiânico pelo que diz no versículo 10: “O zelo pela tua casa me devora”, que os evangelhos mencionam no (João 2, 17). Disto ele deduz que Jesus menciona seus irmãos de sangue. Você realmente precisa ter uma mente muito estreita para pensar isso; desde que olhamos para o versículo seis, diz:

“Você sabe, ó Deus, se eu me extraviei, então meus pecados não serão escondidos de você.” (Sl 69, 6).

Será que chegaremos a pensar que Jesus pecou? Em vez disso, diremos que existem alguns versículos messiânicos, mas outros não. O que realmente importa neste texto é como existe a diferença entre irmãos e filhos da mãe, já que o autor faz a distinção entre os dois.

Esta explicação baseada na gramática e em citações do Antigo Testamento deveria ser suficiente para mostrar que as referências aos irmãos de Jesus não implicam que sejam filhos de Maria; Mas mesmo assim, vamos analisar quem são esses supostos irmãos.

Antes de entrar com os supostos irmãos, analisemos as expressões citadas: até primogênito.

De acordo com o texto de Mateus, depois que Maria deu à luz, parece que ela teve relações com José. A verdade é que o significado em grego e hebraico é diferente do espanhol. Para nós, “até que” indica uma ação que ocorre depois, enquanto para os judeus indica uma ação que não acontece até aquele momento, sem mencionar o que pode acontecer depois. Demonstraremos isso com textos do Antigo Testamento.

“E Micol, filha de Saul, não teve filhos até o dia de sua morte.” (2Sm 6, 23).

Numa perspectiva protestante, deveria dizer que Micol teve filhos depois de morrer; porque, como dizem, até sua morte indica o que será feito no futuro, então: uma mulher morta deu à luz. Se analisarmos cuidadosamente a citação anterior, veremos que na cultura judaica, a expressão “até” refere-se ao que aconteceu até uma determinada data, sem mencionar nada depois. A mesma coisa aconteceu com Maria. Mateus menciona que até o momento do nascimento de Jesus, Maria era virgem; não indica nada que esta condição virginal tenha sido perdida posteriormente.

Agora, vemos em Lucas uma expressão sobre a primogenitura de Cristo. Muitos acreditam que primogênito significa o primeiro de muitos, mas indica apenas o primeiro, independentemente de haver mais.

“Filhos de Moisés: Gérson e Eliezer. Filhos de Eliezer: Reabias, o primogênito. Eliezer não teve mais filhos, mas os filhos de Reabias eram numerosos.” (1Cr 23, 15-17).

Como você pode ver, Eliezer teve seu primogênito, que era seu único filho. Pensar que Maria teve mais filhos porque Jesus é chamado de primogênito é não conhecer as Escrituras, e pensar que nós, católicos, é que supostamente não as conhecemos.

Agora conheceremos os “irmãos” de Jesus:

O primeiro texto que os protestantes usam para defender os filhos de Maria é:

“Ele não é filho do carpinteiro? Sua mãe não se chama Maria? Seus irmãos não são Tiago, José, Simão e Judas? E suas irmãs não vivem todas entre vocês?” (Mt 13, 55-56)

Já dissemos antes que em nenhum lugar está escrito: filhos de Maria.

Vejamos os quatro nomes e memorizá-los: SANTIAGO (versão católica e das Testemunhas de Jeová) ou JACÓ (Versão Rainha Valera), JOSÉ, SIMÃO E JUDAS.

Vamos saber quem é a mãe desses quatro irmãos.

Começando por Mateus, vamos ao momento da cruz:

“Havia também ali muitas mulheres… das quais Maria Madalena, e Maria, mãe de Tiago e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu.”  (Mt 27, 55,56)

Deste texto podemos extrair o seguinte:

  • Não há menção de Maria, a mãe de Jesus.
  • Uma Maria, mãe de José e Tiago, é mencionada
  • A mãe dos filhos de Zebedeu é mencionada: Tiago e João (Mt 10, 3)

A partir disso, vemos que Tiago, o “irmão” de Jesus, não é o mesmo Tiago, irmão de João. Mas será esta mãe Maria? Já em Mateus, esta mulher se apresenta a Jesus, pedindo as primeiras posições para seus filhos.(Mt 20, 20-28). Vemos que ele não chama Jesus de filho, nem apresenta seus filhos como irmãos. Esta Maria não é a Virgem Maria

Então? Será esta Maria mencionada agora a mesma do capítulo treze? O que se pode analisar é que se Maria (de Jesus) é verdadeiramente mãe de Tiago e José, Mateus não a nomeia como mãe de Jesus, mas como mãe dos outros dois, isso é muito suspeito.

Se lermos rapidamente os três evangelhos sinópticos, quando Jesus escolhe os seus doze discípulos, vemos que ele menciona Tiago, filho de Alfeu, seguido de Judas Tadeu.

Se já descartamos que Tiago, irmão de João, seja o mesmo do capítulo treze, temos que provar se este filho de Alfeu é realmente irmão de Jesus.

Vamos passar para Marcos:

Marcos é o único que nos mostra a única parte onde Jesus é chamado: Filho de Maria (Mc 6,3), daí ser muito difícil acreditarmos na expressão protestante: os outros filhos de Maria, já que a Bíblia diz isso de Jesus apenas uma vez, enquanto os protestantes o atacam todos os dias.

“…entre os quais estavam: Maria, mãe de Tiago, o menor, e de José, e Salomé” (Mc 15, 40).

Vemos que Salomé aparece agora, e Tiago e José saem novamente. Neste texto observamos mais uma vez Maria Madalena, Maria, a de Jesus, NÃO APARECE, e uma Maria, mãe de Tiago e José, aparece novamente.

Juan nos dará uma ótima pista para entender este mistério:

“Estavam na cruz de Jesus, sua mãe e a irmã de sua mãe, Maria, esposa de Clopas, e Maria Madalena.” (Jo 19, 25). Vejamos várias coisas: MARIA FINALMENTE APARECE, e outra Maria continua aparecendo, agora como esposa de Clopas.

  • Maria Madalena aparece em todos os evangelhos
  • Somente em João aparece a Virgem Maria
  • Mas vemos que sempre aparece Maria, como a mãe de Tiago e José, ou como a esposa de Clopas. Ela será a mesma?

Analisamos a resposta da seguinte forma:

1.      Tiago aparece como irmão de Jesus, e irmão de Judas, José e Simão

2.      A carta aos Gálatas menciona Tiago, irmão do Senhor (1,18). Já que falamos de Jerusalém, deve ser Tiago Bispo. Este, chamado de menor, como diz Marcos (6,3), ele era ao mesmo tempo um apóstolo de Cristo. Como Jesus só tinha dois chamados Tiago; e sabemos que um é filho de Zebedeu, e morreu por Herodes; este outro deve ser filho de Alfeu.

3.      Lucas (6,16) nos mostra que Tiago, filho de Alfeu, é irmão de Judas Tadeu. E sabemos que este Judas foi o autor da Carta de Judas, que diz:  “Judas, servo de Jesus Cristo e irmão de Tiago” (Jd 1, 1). Vemos que Judas se apresenta como irmão de Tiago. Em Mateus 13 aparecem Judas e Tiago, como irmãos de Jesus. Mas em sua carta, Judas se autoproclama irmão de Tiago, MAS NÃO de Jesus, cujo servo ele se autodenomina.

4.      Do exposto concluímos que o Judas que aparece em Mateus 13 é o autor da carta, e não se autoproclama irmão de Jesus, ao passo que o faz de Tiago, que também aparece como irmão de Jesus, e é aquele que Paulo viu em Jerusalém, autor da Carta de Tiago. O nome de Alfeu, seu pai, é a tradução aramaica de Clopas em grego. Isso mostra que:

  • A Maria que aparece na cruz como mãe de Tiago e José é a mesma que aparece como esposa de Clopas.
  • Clopas é o mesmo que Tadeu, portanto Judas também é irmão de Tiago e José, que aparecem em Mateus. E é corroborado na carta de Judas, onde menciona seu irmão Tiago, mas o mesmo não é dito de Jesus. Além disso, o referido Simão aparece em (Mt 10, 3) (Atos 1:13)
  • Como a mãe desses nomes é irmã da Virgem Maria, eles são parentes de Jesus, mas não irmãos de sangue diretos.
  • Entendendo que entre os judeus não existiam palavras para parentes, não é errado que esses primos de Jesus fossem chamados de irmãos.

Agora, vejamos outros argumentos para não acreditar nos “outros filhos de Maria”:

  • Se Jesus tivesse mais irmãos, deveria ter dado Maria a esses irmãos; mas o que ele faz é entrega Maria a João, filho de Zebedeu. Na cultura judaica, uma mulher não deveria ficar sem marido ou filho e, se isso acontecesse, alguém teria que acolhê-la.
  • Na cultura judaica, um irmão mais novo não poderia aconselhar um irmão mais velho, e Jesus é aconselhado pelos seus irmãos.
  • deixe-o ir para Jerusalém (Jo 7, 3), já que ele é o primeiro
  • Na anunciação, Maria não sabe como conceberá Jesus, porque diz:

“Como será isso, já que não conheço homem?” (Lc 1, 34) Se Maria tivesse pretendido ter relações conjugais com José ou qualquer outro homem mais tarde, esta questão seria absurda. Maria sempre pensou em oferecer sua virgindade a Deus, caso contrário, quando o anjo lhe dissesse que ela daria à luz, ela teria imaginado tê-lo com José; mas a sua resposta demonstra a sua firmeza em permanecer virgem. Vejamos o caso de Sara: quando Deus lhe promete um filho na velhice, ela não pergunta como seria, pois obviamente presumia que o teria com Abraão; enquanto Maria não pensava assim. Pelo contrário, ela perguntou por que o seu ideal era ser virgem por amor ao Reino de Deus. (Mt 19, 12).

Se um irmão protestante tiver sido honesto ao ler este estudo na sua Bíblia, ele deve reconhecer que Maria sempre foi virgem. Esta doutrina foi explicitada em forma de dogma no Concílio de Latrão no ano 649, onde está expresso: “Maria era virgem antes do parto, durante o parto e depois do parto”. O Concílio Vaticano II exprime também:…quando a Mãe de Deus, cheia de alegria, mostra aos pastores e aos magos o seu Filho primogénito, que, longe de diminuir, consagrou a sua integridade virginal. (Lumen gentium, cap. 8, 57)
Autor: Anwar Javier Tapias Lakatt, Colômbia
Fonte: Apologetica.org