Reflexões sobre o ofício de Maria nos evangelhos. Sexto capítulo do livro A Bíblia e as Testemunhas de Jeová

a) Maria é mãe

“Conceberás em teu ventre e darás à luz um filho, e lhe porás o nome de Jesus” (Lc 1,31).
A Virgem de Nazaré, desposada com José, cujo nome era Maria, aparece pela primeira vez na história da salvação no momento em que começa a ser mãe. De sua história anterior a Bíblia nada nos diz, embora algumas notícias nos tenham chegado pela tradição e pelos evangelhos apócrifos. Tudo o que é anterior desaparece diante do fato extraordinário de que Maria, a bendita entre as mulheres, foi escolhida para levar em seu seio o Filho do Altíssimo (Lc 1,32).

Os “gnósticos” dos primeiros séculos consideravam o corpo de Cristo como caído do céu, plasmado diretamente pelas mãos de Deus. Os “docetas” falavam da humanidade de Cristo como mera aparência. Mas não é esse o ensinamento dos Evangelhos. São Paulo fala de Jesus como “nascido de mulher” (Gl 4,4), nascido da estirpe de Davi (Rm 1,3). O anjo disse a Maria que ela conceberá em seu próprio ventre, que dará à luz um filho (Lc 1,31). A maternidade de Maria, no que lhe diz respeito, em nada se diferencia da maternidade de qualquer outra mulher. Diferencia-se — como veremos depois — pela ausência de princípio masculino.

 

b) Maria é Mãe de Deus

Ninguém pode pensar que Deus (o eterno, o incriado, o criador de tudo o que existe) tenha uma mãe de quem tenha recebido a vida e a existência. Não podemos imaginar Deus em dependência de outro ser.

Mas Jesus, o filho de Maria, que dela recebeu a vida humana, é ao mesmo tempo o Filho de Deus, igual em tudo ao Pai. O Filho de Deus é realmente filho de Maria. O filho de Maria é realmente Filho de Deus. Esse é o mistério da Encarnação de um Deus que quis fazer-se homem.

Jesus, o filho de Maria, é uma Pessoa única e indivisível que assumiu para si a natureza humana. Suas ações, as humanas e as divinas, respondem a um mesmo “Eu”. Com a mesma verdade pode dizer: “Eu sou o Filho eterno de Deus, que existo antes que Abraão existisse” ou “Eu sou o filho de Maria, nascido em Belém”.

Isabel ficou cheia do Espírito Santo e exclamou em alta voz: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre! Donde me vem que a mãe do meu Senhor venha a mim? Pois, logo que a voz da tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança saltou de alegria no meu ventre. Bem-aventurada aquela que acreditou, porque se cumprirá o que lhe foi dito da parte do Senhor. Maria disse: A minha alma engrandece o Senhor”. (Lc 1,41-46).

Poderíamos notar neste texto:

-Isabel proclama esta bênção “cheia do Espírito Santo”. Poderíamos interpretá-lo dizendo que as palavras de Isabel são um verdadeiro ato de fé.

-Isabel, cheia do Espírito Santo, une numa só bênção Maria e o filho que ela traz no ventre.

-A saudação de Maria é portadora de alegria e de salvação para Isabel e para o filho que ela está gerando.

-Maria acreditou na palavra do Senhor, isto é, na palavra que Gabriel, enviado por Deus, lhe dirigiu (Lc 1,26).

-Repete-se três vezes a palavra “Senhor”.

O Senhor que falou a Maria é Deus. O Senhor cuja grandeza Maria proclama é Deus. Por esta mesma razão, “a mãe do meu Senhor” pode traduzir-se: “a mãe do meu Deus”.

A Tradução do Novo Mundo [ou “Bíblia das Testemunhas”] diz:

“Isabel ficou cheia de espírito santo e clamou em alta voz, dizendo: Bendita és tu entre as mulheres, e bendito é o fruto do teu ventre. Então, por que tenho este privilégio de vir a mim a mãe do meu senhor? Pois, vê! assim que o som da tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança no meu ventre saltou com grande alegria. Feliz também é aquela que acreditou, porque terão cumprimento completo as coisas que lhe foram faladas da parte de Jeová. E Maria disse: Minha alma engrandece a Jeová…”

No texto grego, a palavra “Senhor” nas três vezes é Kyrios. Não é correto que uma mesma palavra, num mesmo contexto, seja traduzida de modo distinto.

c) Maria é mãe virgem

Max Thurian, teólogo protestante da comunidade de Taizé, mais tarde sacerdote católico, em sua obra “Maria, mãe do Senhor e figura da Igreja”, escreve estas palavras:

As claras precisões de São Mateus (1,18-25) e de São Lucas (1,27.34-35), e a versão aparentemente mais coerente de São João (1,13), obrigam a fé cristã autêntica a confessar a virgindade de Maria antes do nascimento de Cristo. A negação desta virgindade procede frequentemente de motivos não teológicos, e os teólogos protestantes que às vezes puseram em dúvida a virgindade de Maria na concepção de Jesus dificilmente podem invocar a tradicional fidelidade da Reforma à Sagrada Escritura. Pois, infiéis ao texto sagrado neste ponto, como podem censurar os teólogos de outras Igrejas por sua infidelidade em outros pontos?

Isaías (7,14) havia anunciado:

“Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, e lhe porá o nome de Emanuel (que significa Deus-conosco)”.
Não sabemos até que ponto o profeta é consciente do alcance destas palavras, nem o que seus ouvintes puderam entender. Sabemos que no judaísmo não se encontra a ideia de um nascimento virginal do Messias. Tampouco Maria tinha projetos nesse sentido, como se deduz do fato de estar desposada com José e da própria pergunta que dirige ao anjo na anunciação: “como será isso, se não conheço homem?”. Precisamente por isso brilham com maior esplendor as palavras de Isaías, cujo cumprimento Mateus faz notar (1,22-23): “Tudo isto aconteceu para que se cumprisse o que o Senhor dissera pelo profeta”.
O reconhecimento da maternidade virginal de Maria, por parte da Igreja cristã, não se baseia, entretanto, nas palavras veladas de uma profecia, mas nas palavras inequívocas do mensageiro celeste enviado à virgem: “O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo te cobrirá com sua sombra” (Lc 1,35). Isto fica confirmado na mensagem paralela transmitida por Mateus: “José, filho de Davi, não temas receber Maria, tua mulher, pois o que nela foi concebido vem do Espírito Santo” (Mt 1,20).

Pouco antes o mesmo Mateus havia dito (1,18): “O nascimento de Jesus Cristo foi assim: Maria, sua mãe, estava desposada com José e, antes de viverem juntos, achou-se grávida por obra do Espírito Santo”.

Só a postura intransigente de judeus, de ebionitas ou de Cerinto; só o afã destruidor da teologia liberal; só a obsessão pansexualista de nossos dias podia pôr em dúvida ou negar abertamente a clareza destes testemunhos sobre a concepção virginal de Jesus. Diante de todos eles, a fé inabalável da Igreja, ao longo de vinte séculos, manteve e ensinou a concepção virginal de Jesus no seio de Maria; portanto, a maternidade virginal de Maria.

Por que José — sendo justo — quer abandoná-la? Não porque duvide de sua fidelidade nos esponsais, mas porque, conhecendo por confidências de Maria a consagração com que Deus a distinguiu, quer respeitar essa eleição divina.
Maria permaneceu virgem depois do nascimento de Jesus.

O Evangelho, que com tanta clareza fala da concepção virginal de Jesus, não é tão explícito quando se trata da virgindade de Maria depois do nascimento de Cristo: de sua virgindade perpétua. E isso não nos deve estranhar, pois Cristo é realmente o protagonista do Evangelho, de modo que Maria fica relegada a segundo plano.

Afirmado explicitamente o nascimento virginal de Jesus, o Evangelho não se interessa tão diretamente pelo que mais tarde tenha acontecido com Maria.

Podemos, contudo, afirmar que a fé constante da Igreja cristã afirma a virgindade perpétua de Maria. Muito frequentemente encontramos na Liturgia esta expressão: “sempre Virgem Maria”. Podemos, além disso, afirmar que as razões que se costumam aduzir para negar a virgindade permanente de Maria não têm verdadeira consistência.

Os textos que costumam ser aduzidos são estes:
-Mt 1,25: “José não a conheceu até que ela deu à luz seu filho”

Esta seria uma tradução literal do grego. Devemos levar em conta:

a) “Conhecer” é expressão frequente na Bíblia para fazer referência às relações sexuais.

b) A partícula grega “até que” (= heos) indica que até então não a havia conhecido; nada diz do que mais tarde pudesse ocorrer. Pode servir-nos de exemplo: Gn 8: “Noé soltou um corvo para ver se as águas haviam baixado; o corvo não voltou até que as águas secaram sobre a terra”. Não quer dizer que depois voltou; simplesmente que não lhe serviu de mensageiro, e por isso teve de soltar uma pomba. 2Sm 6,23: “Micol, filha de Saul, não teve filho até o dia de sua morte”. A expressão equivale a dizer que não teve mais filhos.

Segundo isto, seria uma tradução correta:

“Sem que ele tivesse tido relação com ela, deu à luz um filho”.

A Tradução do Novo Mundo diz: “Mas não teve coito com ela até que ela deu à luz um filho”.

-Lc 2,7: “Chegou-lhe o tempo do parto e deu à luz seu filho primogênito”.

Argumenta-se: se era o filho primogênito (o primeiro), quer dizer que mais tarde teve outros.

A expressão “filho primogênito” significa que é o primeiro que nasce. Nada diz sobre se mais tarde nascem outros ou não.

Podemos confirmá-lo com estas reflexões:

O filho primogênito devia ser oferecido ao Senhor aos quarenta dias de nascido, como estava prescrito na Lei de Moisés (Lc 2,22-24). É evidente que, aos quarenta dias do parto, a mãe não pode saber se vai ter mais filhos ou não; sabe apenas que antes deste não nasceu outro, por isso é o primogênito.

Tanto na legislação mosaica como em qualquer outra legislação, os “direitos de primogenitura” valem tanto para o filho único como para o primeiro entre muitos irmãos.

d) Os irmãos de Jesus

O Novo Testamento fala muitas vezes dos irmãos de Jesus, citando concretamente quatro nomes: Tiago, José, Simão e Judas. Os textos são estes:
Mt 12,46; 13,55
Mc 3,31; 6,3
Lc 8,19
Jo 2,12; 7,3-5
Atos 1,14
1Cor 9,5.

Diante destes textos podemos fazer as seguintes reflexões:

-a estes “irmãos de Jesus” nunca se lhes chama “filhos de Maria”,

-de alguns deles nos é dito quem era sua mãe: “Ao pé da cruz estavam, junto à mãe de Jesus, Maria Madalena e Maria, mãe de Tiago e de José” (Mt 27,56; Mc 15,40). João chama esta Maria de “Maria de Cléofas” (Jo 19,25). Desde os primeiros séculos (já João Crisóstomo) identifica-se Cléofas com Alfeu. Mateus (10,3) diz que Tiago era filho de Alfeu. Seus pais, portanto, não são nem José nem Maria, a mãe de Jesus. Judas era irmão de Tiago (Lc 6,16; Jd 1). Segundo estes dados, Tiago, José e Judas (três dos chamados “irmãos de Jesus”) são filhos de Alfeu e de Maria de Cléofas.

-Se algum deles fosse filho de Maria, por que Jesus, no momento da morte, pede a João que se encarregue de sua mãe?

-A palavra “irmão”, tanto na linguagem da Bíblia como em nossa linguagem familiar, tem significados muito diversos:

os nascidos dos mesmos pais,

os que pertencem a uma mesma religião,

os que são de um mesmo país,

todos os homens…

Vejamos alguns exemplos da Bíblia:

-Abraão era tio carnal de Ló, nascido de um irmão (Gn 11,27; 12,5). No entanto, chama-o irmão (Gn 14,16).

-Betuel é pai de Labão e de Rebeca (Gn 28,2). Labão é pai de Raquel (Gn 29,10) e Rebeca, mãe de Jacó (28,5). Portanto, Jacó é sobrinho carnal de Labão e primo-irmão de Raquel. Não obstante, lemos: Labão, irmão de Rebeca (= irmão carnal) (28,5). Jacó, irmão de Labão (= sobrinho) (29,11-12.15).

Não há, pois, nenhuma razão séria que nos obrigue a abandonar a fé tradicional da Igreja sobre a virgindade perpétua de Maria.

e) Concebida sem pecado e assunta ao céu

Dizem as Testemunhas de Jeová:

A própria Bíblia diz: “Ora, por um só homem (Adão) o pecado entrou no mundo, e pelo pecado a morte, e assim a morte se propagou a toda a humanidade, porque todos pecaram” (Rm 5,12). Isto inclui Maria? A Bíblia informa que, em conformidade com a exigência da Lei de Moisés, quarenta dias depois do nascimento de Jesus, Maria ofereceu no templo de Jerusalém uma oferta pelo pecado para a purificação da impureza. Ela também havia herdado de Adão o pecado e a imperfeição (Lc 2,22-24; Lv 12,1-8).

A própria Bíblia diz: “A carne e o sangue não podem herdar o Reino dos céus; nem a corrupção herda a incorrupção” (1Cor 15,50). Jesus disse que “Deus é espírito”. Quando Jesus ressuscitou, voltou a ser espírito, agora “um espírito que dá vida”. Os anjos são espíritos (Jo 4,24; 1Cor 15,45; Hb 1,13-14). Onde se encontra a base bíblica para dizer que alguém alcançaria a vida celestial num corpo que requer o ambiente físico da Terra para se sustentar?

Quando falamos da Imaculada Conceição de Maria, sem pecado original, e de sua gloriosa Assunção em corpo e alma aos céus, falamos de dois privilégios que Deus concedeu a Maria. Isto é, conhecemos a lei universal do pecado que afeta todos os homens pelo simples fato de pertencerem à raça humana; e sabemos que todos os homens ressuscitarão no fim dos tempos (1Cor 15,12-28; 1Ts 4,15-18). Essa é a lei universal que afeta todos os homens. Contudo, cremos que Deus concedeu a Maria o privilégio de excetuá-la da lei geral: foi concebida sem pecado e foi assunta ao céu imediatamente depois da morte.

Também sabemos que a lei geral exige a participação de um homem para a geração de uma nova vida. E Maria foi exceptuada desta lei geral, concebendo Jesus de modo virginal.

A Igreja católica considera que se trata de dois privilégios excepcionais de Deus em favor de Maria. As expressões que se costumam usar são: “por singular privilégio de Deus”, “em previsão dos méritos de Cristo”.

Pergunta-se: “que base bíblica tem?”. No fundo subjaz a ideia de que só a Bíblia é fonte de revelação.

No capítulo 1 (“Aproximação à Bíblia”), procurávamos mostrar — seguindo o Concílio Vaticano II — que a Bíblia deve ser entendida no contexto da tradição viva da Igreja. Se pretendêssemos ficar somente com a Bíblia como norma de fé, chegaríamos ao absurdo de ter de renunciar à própria Bíblia, pois em nenhuma de suas páginas se nos diz quais são os livros inspirados por Deus. Da tradição viva da Igreja recebemos esse tesouro que é a Sagrada Escritura.

O privilégio da Imaculada Conceição encontra-se na tradição viva da Igreja. E está em perfeita consonância com o nome excepcional que Maria recebe da boca do anjo: “a cheia de graça” (Lc 1,28). Cheia de graça porque Deus derramou nela de maneira sobreabundante todo o seu amor, a ponto de nunca nela se encontrar a menor sombra de pecado, nem sequer no momento de sua concepção. Por essa plenitude de graça, sua parenta Isabel pode dizer-lhe: “bendita és tu entre todas as mulheres”. E, unindo numa mesma bênção a mãe e o filho, acrescenta: “e bendito o fruto do teu ventre” (Lc 1,42).
A vitória de Maria sobre o pecado — como privilégio e antecipação dos méritos de Cristo — torna-a também vencedora sobre as consequências do pecado, especialmente sobre a morte, mediante a ressurreição e Assunção aos céus. Tampouco este privilégio se encontra explicitamente ensinado nas páginas da Bíblia; mas não entra em contradição, antes está em perfeita consonância com o que no Evangelho se diz acerca de Maria. E essa foi, desde os primeiros tempos, a tradição viva da Igreja.