Jesus se equivocou sobre o momento de sua segunda vinda (Mateus 24)?

Pergunta o leitor:

A Igreja e os devotos vivem esperando há 2000 anos a iminente segunda vinda de Jesus Cristo; para afirmar essa ideia, separam-se algumas frases nas quais Jesus adverte sobre sua próxima vinda para que todos estejamos preparados. No entanto, há textos bíblicos que proclamam palavras de Jesus a partir das quais qualquer um diria que Jesus (isto é, Deus encarnado) se equivocou. Certamente seria preciso “culpar” a urgência apocalíptica de Mateus, o evangelista, que pôs palavras equivocadas, interpretou mal, ou inclusive pode ser que isso seja justamente o que ouviu dizer da boca de Jesus.

Veja então este pequeno discurso apocalíptico “de” Jesus, tomado integralmente sem violar seu contexto: (MATEUS 24,1-34): “E, tendo Jesus saído do templo, ia-se retirando, quando se aproximaram dele os seus discípulos para lhe mostrarem os edifícios do templo. Ele, porém, lhes disse: Vedes tudo isto? Em verdade vos digo que não ficará aqui pedra sobre pedra que não seja derrubada. E, estando ele sentado no monte das Oliveiras, chegaram-se a ele os discípulos em particular, dizendo: Dize-nos: quando acontecerão estas coisas, e qual será o sinal da tua vinda e do fim do mundo? E Jesus, respondendo, disse-lhes:… Em verdade vos digo que não passará esta geração sem que todas estas coisas aconteçam” (transcrevo apenas os vv. 1-4 e 34).

Vê-se claramente esse suposto? “pequeno erro” da segunda Pessoa da Santíssima Trindade (considerando todos os atributos que Deus possui, entre eles a onisciência). Certamente as pessoas ali presentes (entre elas os evangelistas) estavam completamente convencidas de que a geração que o escutava iria presenciar o “fim do mundo”. Por causa do erro?, muitas gerações esperaram em vão a vinda do Salvador, porque a “profecia de Jesus” não se cumpriu. ACASO JESUS SE EQUIVOCOU? O EVANGELISTA SE EQUIVOCOU? ou NINGUÉM SE EQUIVOCOU?

Muito obrigado por responder às minhas perguntas; esperarei sua resposta com ansiedade.

Um grande abraço.

Ariel Bangher

Responde o Pe. Miguel Ángel Fuentes, V.E.

Prezado:

A objeção que o senhor apresenta já foi formulada no século XIX pela chamada escola da “Teoria escatológica”, ou “Tese da escatologia consequente”, de origem protestante liberal. Entre seus mentores devem-se citar os racionalistas W. Baldensperger, J. Weiss, W. Wrede, A. Schweitzer e A. Loisy. Pode ler, se lhe interessar, a argumentação e a refutação dela no clássico livro de Albert Lang, “Teologia fundamental”, Rialp, Madrid 1975, tomo I, p. 70 e seguintes.

Uma excelente análise desses textos, do ponto de vista escriturístico e apologético, pode ser encontrada em L. de Grandmaison, Jesucristo, Editorial Litúrgica Española, Barcelona 1941, pp. 430-461 (trata-se de um dos livros mais importantes que se escreveram sobre a pessoa e o pensamento de Jesus Cristo; foi publicado novamente neste ano 2000).

Se o senhor lê bem os textos, Jesus Cristo responde a duas perguntas: quando ocorrerá a destruição do Templo (que profetiza em Mt 24,2) e sua Segunda Vinda. As duas coisas não acontecem no mesmo momento, mas, segundo o conhecimento profético, uma é “tipo” (typós, figura) da outra (antítipo). Jesus Cristo, portanto, responde misturando, como todos os profetas, ambas as respostas. Por isso, assim como se refere a dois acontecimentos distintos, também há duas respostas distintas, embora unidas.

1) Não passará esta geração: a destruição de Jerusalém e do Templo ocorreu durante a vida da geração à qual Jesus falava. De fato, segundo conta Eusébio de Cesareia, recordando essas palavras de Cristo, os cristãos de Jerusalém, ao ouvirem falar do avanço romano por volta do ano 70, fugiram para os montes e se salvaram (e difundiram a fé cristã); em contrapartida, os judeus confiaram que poderiam resistir e sucumbiram no monstruoso cerco de Jerusalém ou ficaram escravizados depois dele.

2) Parte das palavras desse discurso refere-se ao fim do mundo. Desse, Jesus diz claramente que ninguém sabe nem o dia nem a hora em que ocorrerá, nem sequer os anjos, nem sequer “o Filho” (expressão esta que significa que o Filho não pode tomar a iniciativa de manifestá-lo, como indica o termo “conhecer”, que tem um sentido prático). Para mais detalhes pode ver o detalhado comentário de Manuel de Tuya, “Biblia Comentada”, B.A.C., Madrid, 1974; tomo II, págs. 514-536.

Transcrevo-lhe parte do comentário do teólogo que, na Argentina, mais estudou o tema escatológico: “Cristo juntou a Primeira com a Segunda Profecia — e isto é uma gravíssima dificuldade desta passagem do Evangelho — ou, melhor dizendo, fez da Primeira o typo, emblema da Segunda. Os Apóstolos lhe perguntaram tudo junto; e Ele respondeu tudo junto. ‘Dize-nos quando serão todas essas coisas e que sinais haverá de tua Vinda e da consumação do século…’. ‘Todas estas coisas’ eram para eles a destruição de Jerusalém — à qual Cristo havia aludido olhando para o Templo — e o fim do mundo; pois criam erroneamente que o Templo haveria de durar até o fim do mundo. Teria sido muito cômodo para nós que Cristo respondesse: ‘Estais equivocados; primeiro sucederá a destruição de Jerusalém e, depois de um longo intervalo, o fim do mundo; agora vou dar-vos os sinais do fim de Jerusalém e depois os do fim do mundo.’ Mas Cristo não o fez assim; começou um longo discurso no qual deu conjuntamente os sinais precursores dos dois grandes Sucessos, dos quais um é figura do outro; e terminou seu discurso com estas dificílimas palavras:

‘Palavra de honra vos digo que não passará esta geração

Sem que todas estas coisas se cumpram…

Mas daquele dia e daquela hora ninguém sabe.

Nem sequer os Anjos do Céu. Senão somente o Pai.’

A impiedade contemporânea — seguindo a chamada escola escatológica, fundada por Johann Weiss em 1900 — tira dessas palavras uma objeção contra Cristo, negando em virtude delas que Cristo fosse Deus e nem sequer um Profeta mediano: porque ‘se equivocou’: acreditava que o fim do mundo estava próximo, no espaço de sua geração, ‘a uns 40 anos de distância’. Segundo Johann Weiss e seus discípulos, o fundo e a medula de toda a pregação de Cristo foi essa ideia de que o mundo estava próximo da Catástrofe Final, predita pelo Profeta Daniel; depois da qual viria uma espécie de restauração divina, chamada Reino de Deus; e que Cristo foi um interessante visionário judeu; mas tão Deus, tão Messias e tão Profeta quanto eu e o senhor.

O único argumento que têm para varrer todo o resto do Evangelho — onde com toda evidência Cristo supõe o intervalo entre sua morte e o fim do mundo, tanto na fundação de sua Igreja como em várias parábolas — são essas palavras: ‘não passará esta geração sem que tudo isto se cumpra’, as quais se cumpriram efetivamente com a destruição de Jerusalém.

—Mas não veio o fim do mundo.

—Do fim do mundo, acrescentou Cristo que não sabemos nem saberemos jamais o dia nem a hora.

—Mas por que Cristo não separou os dois acontecimentos, se é que conhecia o futuro, como Deus e como Profeta?

—Por alguma razão que Ele teve, e que é muito boa, ainda que nem o senhor nem eu a saibamos. E justamente talvez por essa mesma razão de que foi profeta: pois assim é o estilo profético.

Qual? Fazer confusão?

—Não; ver num acontecimento próximo, chamado typo, outro acontecimento mais remoto e arcano chamado antitypo; e assim Cristo viu por transparência, na ruína de Jerusalém, o fim do ‘século’; e se não revelou mais do que aqui está, é porque não se pode revelar, ou não nos convém.

A outra dificuldade grave que há neste discurso é que, por um lado, nos é dito que não saberemos jamais ‘o dia nem a hora’ do Grande Desmoronamento, o qual será repentino ‘como o relâmpago’; e, por outro lado, Cristo se mostra muito solícito em dar sinais e signos para marcá-lo, encarregando os seus de andarem de olhos abertos e saberem conhecer os ‘sinais dos tempos’, como conhecem que vem o verão quando a figueira reverdece. Em que ficamos? Se não se pode saber, para que dar sinais?

Não poderemos conhecer nunca com exatidão a data da Parusia, mas poderemos conhecer sua iminência e sua proximidade. E assim os primeiros cristãos, residentes em Jerusalém por volta do ano 70, conheceram que se verificavam os sinais de Cristo e, seguindo sua palavra: ‘Então, os que estiverem na Judeia fujam para os montes; e isso sem se deter um momento’, refugiaram-se na aldeia montanhosa de Pela e salvaram, do horripilante massacre que as tropas de Vespasiano e Tito fizeram de Sião, o núcleo da primeira Igreja…” (Leonardo Castellani, “El Evangelio de Jesucristo”).

Fonte: El Teólogo responde