Miguel: Olá, José, continuamos nossa conversa sobre o papado?
Marlene: Sim, agora é Miguel quem tem vários pontos interessantes para acrescentar.
José: Com muito prazer.
Miguel: Nossa conversa anterior foi muito interessante e, para ser honesto, em algumas coisas concordo com você.
José: Sério?
Miguel: Sim, sim acredito que Jesus em Mateus 16,18 se referiu a Pedro como a pedra sobre a qual se edifica a Igreja. Em particular, as distinções que se costumam fazer para dar a entender que Jesus se referia a outra pedra distinta de Pedro me parecem forçadas; mas daí a entender que Pedro foi o que vocês entendem como “Papa” há uma distância enorme.
Explico-me: é verdade que Pedro teve uma liderança marcante entre os apóstolos e, portanto, recebe como seu representante as chaves em nome de todos, mas não tinha nenhum ministério especial distinto ao dos apóstolos. De fato, quando o apóstolo Paulo enumera os ministérios da Igreja nunca enumera o papado: “Ele mesmo «deu» a uns ser apóstolos; a outros, profetas; a outros, evangelizadores; a outros, pastores e mestres, para o reto ordenamento dos santos em ordem às funções do ministério, para edificação do Corpo de Cristo” (Efésios 4,11-12). Se o ofício do papado realmente existiu nesse tempo, por que São Paulo não o menciona? Por que não diz que deu a alguns, além de ser apóstolos e profetas, ser “Papas”?
Além disso, se lermos as próprias cartas escritas de seu punho e letra, ele nunca se identifica como “Papa” nem chefe da Igreja; ao contrário, diz ser mais um dos anciãos da congregação: “Aos presbíteros que há entre vós exorto eu, também presbítero como eles, testemunha dos sofrimentos de Cristo e participante da glória que está para se manifestar.” (1 Pedro 5,1). Quem pode imaginar hoje alguém nomeando os ministros na Igreja Católica ou escrevendo as ordens dos funcionários do Vaticano sem mencionar o Papa? No entanto, a Bíblia contém toda essa informação relativa a ofícios menores e a pessoas sem mencionar em algum momento o Papa. A verdade é que somente encontro uma explicação: não houve Papa na Igreja primitiva.
José: O que acontece é que você se equivoca ao pensar que o Papa exerce um ministério distinto ao dos demais bispos. Não, o Papa é tão bispo quanto todos os demais; daí que seja precisamente “o bispo de Roma”. A diferença entre o Papa e os bispos não está nas competências de suas ordenações, mas na potêstade de sua jurisdição. Para entendê-lo melhor, analisemos este texto do evangelho:
“Depois de comerem, disse Jesus a Simão Pedro: «Simão, filho de João, amas-me mais do que estes?» Respondeu-lhe: «Sim, Senhor, tu sabes que te amo.» Disse-lhe Jesus: «Apascenta os meus cordeiros.» Voltou a perguntar-lhe pela segunda vez: «Simão, filho de João, amas-me?» Respondeu-lhe: «Sim, Senhor, tu sabes que te amo.» Disse-lhe Jesus: «Apascenta as minhas ovelhas.» Disse-lhe pela terceira vez: «Simão, filho de João, amas-me?» Entristeceu-se Pedro por lhe perguntar pela terceira vez: «Amas-me?» e disse-lhe: «Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que te amo.» Disse-lhe Jesus: «Apascenta as minhas ovelhas.” (João 21,15-17)
Nessa ocasião, Jesus estava com todos os seus apóstolos e, no entanto, é a Pedro que pergunta três vezes: “amas-me mais do que estes?” e cada vez que Pedro lhe responde, Jesus lhe confia solenemente pastorear o seu rebanho. Há dois elementos ali que vale a pena destacar: em primeiro lugar, que embora Jesus ali se dirija somente a Pedro, todos os apóstolos compartilham o mesmo ofício, que é pastorear a Igreja. No entanto, aqui somente Pedro recebe um mandado singular, não somente deve pastorear “as ovelhas”, mas também “os cordeiros”. O que representam aqui os cordeiros senão os demais apóstolos, dos quais acabou de perguntar se o amava mais do que eles? A função de Pedro ali é a mesma que a do restante dos apóstolos, mas sua jurisdição como pastor se estende e os inclui também a eles.
Marlene: José, mas há também outras razões pelas quais Jesus pôde dirigir-se nessa ocasião somente a Pedro. Lembre-se de que ele o havia negado três vezes, por isso é mais natural entender que ali lhe estava dando a oportunidade de retificar sua traição, confirmando também três vezes o seu amor.
José: Certamente poderia ser também essa uma das razões, mas isso não explicaria por que lhe confia pastorear também seus irmãos (cordeiros) na fé.
Vejamos outro texto onde se confirma a mesma ideia. Em outra ocasião Jesus diz a Pedro: “«Simão, Simão! Eis que Satanás vos reclamou para vos peneirar como o trigo; mas eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça. E tu, quando te converteres, confirma os teus irmãos.»” (Lucas 22,31-32). Observe como ali, estando Jesus com o restante dos apóstolos novamente, comenta que Satanás solicitou permissão para tentar a todos os apóstolos; no entanto, Jesus enfatiza que orou especialmente por Pedro para que sua fé não desaleça, e a razão ele mesmo a dá imediatamente depois: Pedro terá a função de confirmar seus irmãos (o restante dos apóstolos) na fé: “E tu, quando tiveres voltado, confirma os teus irmãos”.
Permita-me utilizar a analogia de um time de basquete. Todos os times são compostos por um conjunto de jogadores, mas um deles exerce um papel especial: o de capitão. O capitão não é mais jogador do que os demais; no entanto, tem o dever de coordenar o time e zelar para que se mantenha coeso e organizado. Da mesma forma, o Papa é tão bispo quanto os demais, mas com o poder de jurisdição para manter a unidade universal e a ortodoxia dentro da Igreja Cristã. E embora essa função possa ter sido exercida com um estilo diferente ao longo da história, sempre esteve presente[1].
Visto dessa maneira, entende-se melhor por que é Pedro, como mordomo, quem recebe a revelação de que os gentios podem entrar na Igreja (Atos 10,28), o primeiro a pregar no Pentecostes (Atos 2,14), quem toma a iniciativa sobre a necessidade de completar o grupo dos doze (Atos 1,15-22), é quem faz a primeira cura milagrosa após a ressurreição (Atos 3,6-7). É além disso quem em todas as listas dos apóstolos é mencionado em primeiro lugar, enquanto Judas figura por último (Mateus 10,2-4; Marcos 3,16-19; Lucas 6,13-16; Atos 1,13), e não deixa de ser notável que o evangelho de Mateus, quando começa a enumerá-los, diga explicitamente “primeiro Simão” (Mateus 10,2), o que, se entendido somente em relação à ordem de menção, seria redundante, mas se entendido à luz dos outros textos que vimos, de Pedro como o apóstolo que ocupa o primado entre os demais discípulos, faz muito sentido.
Miguel: Mas se é assim, e Pedro foi encarregado de manter a ortodoxia doutrinal da Igreja, como explica que foi o apóstolo Paulo quem o corrigiu em sua doutrina? Leiamos por um momento o que diz o Novo Testamento:
“Mas, quando Cefas veio a Antioquia, resisti-lhe cara a cara, porque era censurável. Pois, antes de chegarem alguns da parte de Tiago, comia com os gentios; mas, depois que chegaram, retraiu-se e separou-se, por receio dos circuncisos. E os demais judeus também dissimularam com ele, de modo que até Barnabé se deixou arrastar pela hipocrisia deles. Mas, quando vi que não procediam corretamente conforme a verdade do Evangelho, disse a Cefas em presença de todos: «Se tu, sendo judeu, vives como gentio e não como judeu, como podes obrigar os gentios a judaizar?»” (Gálatas 2,11-14)
A propósito, você pode imaginar alguma ocasião que se tenha tornado pública e conhecida em que um subordinado do Papa (um cardeal, por exemplo) o tenha repreendido em público, e (como se já não bastasse) em questões de doutrina, como foi o caso de Paulo, que repreendeu Pedro por estar judaizando?
José: Em primeiro lugar tenho que esclarecer que o erro de Pedro era de caráter disciplinar, não doutrinal. Tanto Pedro como Paulo concordavam que as observâncias dos judeus deveriam ser abolidas. O próprio São Pedro havia se oposto a que os gentios convertidos em Antioquia fossem circuncidados, como desejavam os judeus (Atos 15,10) e como São Paulo reconhece, ele não judaizava, mas “vivia como gentio”.
E encontrar na história pessoas repreendendo o Papa não é tão estranho como se pode pensar. São Irenéu, bispo de Lyon, repreendeu em uma carta o papa Vítor, desaprovando sua resolução de excomulgar os Bispos da Ásia Menor por ocasião da controvérsia pascal, e conseguiu com suas palavras que o referido papa desistisse de seus propósitos. São Bernardo, um humilde monge, escreveu uma carta advertindo dos perigos a que estava exposto o papa Eugênio III. Santa Catarina de Siena, uma monja, repreendeu o papa Gregório XI, por meio de uma carta, devido à decisão papal de permanecer em Avinhão e instou o Pontífice a que regressasse a Roma, fazendo-lhe ver quão prejudicial era para os interesses da Igreja sua permanência ali[2].
Marlene: José, mas o que vejo é que o seu agir hipocritamente por temor aos judeus negava com seus atos e mandatos a verdade do Evangelho, pois (literalmente) obrigava os gentios a fazerem o mesmo (como se lê no versículo 14), coisa que Paulo jamais fez em ordem à justificação do pecador diante de Deus Pai.
José: Perceba que quando você mesma usa o verbo “agir” e não “pregar” ou “ensinar” reconhece implicitamente que o erro de São Pedro era sua conduta, não seu ensinamento. Leiamos o seguinte texto onde Jesus distingue entre a conduta e a doutrina como coisas separadas:
“Então Jesus disse à multidão e aos seus discípulos: «Na cátedra de Moisés se sentaram os escribas e os fariseus. Portanto, tudo o que vos disserem, fazei e observai; mas não ajais conforme as suas obras, porque dizem e não fazem.»” (Mateus 23,2-3).
Ali Jesus não acusa os fariseus de ensinar mal por agir mal; no entanto, você faz o contrário: assume que Pedro ensinava mal porque em determinado momento agiu mal. Nós na Igreja Católica não sustentamos que os Papas não pecam, nem que não tenham momentos de fraqueza nem cometam erros. De fato, do dogma da infalibilidade Papal nem sequer se entende que o Papa seja infalível em tudo o que faça ou ensine, mas somente quando ensina ex cathedra, ou seja, em matéria de fé e moral no seu ofício de pastor universal de toda a Igreja, define uma verdade de fé[3]. E o evento completo, se prova algo, não era que Pedro ensinava incorretamente — o que não ocorreu —, mas como sua conduta, com base no primado que ocupava entre os apóstolos, podia arrastar praticamente a todos com ele, inclusive ao próprio Barnabé, colaborador próximo dos apóstolos. Daí que fosse tão necessária a intervenção de São Paulo ao ponto de ter que resistêr-lhe “face a face”.
O que recomendo é que analisem toda a evidência em conjunto e reflitam objetivamente e sem preconceitos sobre tudo o que ensina o Novo Testamento. Se Pedro não tinha um primado entre os demais apóstolos, por que Jesus lhe muda o nome e o escolhe precisamente como o portador das chaves, utilizando uma figura tão conhecida pelo povo judeu? Por que em Mateus 16,19 não conjuga no plural e diz “a vós darei as chaves…”, mas “a ti te darei as chaves…”. Por que é a ele precisamente que confia apacentar os cordeiros e ovelhas do rebanho e confirmar seus irmãos na fé? Por que foi ele precisamente quem recebeu a revelação de que os gentios entrassem na Igreja? Por que sempre encaçeba a lista dos apóstolos? Por que todas as Igrejas dos primeiros séculos reconheceram que o bispo de Roma era o sucessor do apóstolo Pedro e que a Igreja de Roma tinha a primazia sobre as demais Igrejas?
Notas
- Se bem que a essência do papado sempre foi a mesma, seu estilo foi mudando ao longo da história, à medida que a Igreja enfrentava distintos obstáculos e desafios. Pode consultar meu livro Compendio de Apologética Católica, onde este tema é tratado mais profundamente. ↩
- O código de direito canônico reconhece a cada fiel o direito, e por vezes o considera um dever, de manifestar aos pastores aquilo que pertence ao bem da Igreja. A esse respeito, afirma o Cânon 212: « § 1. Os fiéis, conscientes da própria responsabilidade, são obrigados a aderir, com obediência cristã, àquilo que os sagrados Pastores, como representantes de Cristo, declaram como mestres da fé ou estabelecem como dirigentes da Igreja. § 2. Os fiéis têm a liberdade de manifestar as suas necessidades, principalmente espirituais, e os seus desejos aos Pastores da Igreja. § 3. De acordo com a ciência, competência e prestígio de que gozam, têm o direito e por vezes mesmo O DEVER de manifestar aos sagrados Pastores o seu parecer sobre aquilo que respeita ao bem da Igreja e de o tornar conhecido aos demais fiéis, salvaguardando sempre a integridade da fé e dos costumes e a reverência para com os Pastores, atendendo à utilidade comum e à dignidade das pessoas. » ↩
- As condições para que um ensinamento se considere ex cathedra e infalível estão mencionadas no decreto do Vaticano I: « 1. O Pontífice deve ensinar em seu caráter público e oficial de pastor e doutor de todos os cristãos, não privadamente como teólogo, pregador ou conferencista, nem tampouco como príncipe temporal, nem sequer como mero ordinário da diocese de Roma. Deve ficar claro que fala como cabeça espiritual da Igreja universal. 2. É, portanto, somente infalível quando ensina doutrina de fé ou moral nesse caráter. » ↩