Uma carta para refletir.
Ao termos de reeditar nosso livreto “O Adventismo do Sétimo Dia”, julgamos de sumo interesse incluir integralmente, como capítulo definitivo, estas páginas do Pe. Ernesto Bravo, Diretor do Secretariado Nacional de Fé e Ecumenismo em sua pátria sul-americana – Equador. Esta carta foi escrita a um católico de seu país, sintetizando e refutando de forma delicada, mas nítida e contundente, os pontos fundamentais da doutrina adventista.
Não duvidamos de que nossos irmãos católicos, diante destas páginas cheias de profundidade bíblica, admirarão uma vez mais a beleza e a solidez de nossa fé, e se sentirão animados a uma vida cada dia mais verdadeiramente cristã, em total consonância com os ensinamentos de Cristo e de sua Igreja.
Caro amigo:
Vou responder à sua última carta. A extensão de minha resposta lhe mostrará bem o tempo e o grande interesse que empreguei em satisfazer cuidadosamente suas perguntas e dúvidas.
Em minha carta, de modo geral, tratarei dos seguintes pontos:
1. A existência da Igreja de Cristo, somente a partir de Cristo.
2. Os mandamentos e a Lei diante do cristão.
3. A abolição do sábado.
Em sua carta o senhor se limita a me referir as objeções e dúvidas que lhe apresentou um amigo seu que frequenta sua casa, “adventista do sétimo dia”, naturalmente. Não creio que tal contato seja muito proveitoso, falando francamente; mas, já que o senhor o tem e talvez já não possa evitá-lo, direi algo sobre eles.
1. Os adventistas e a Igreja de Cristo.
Os adventistas datam apenas do século passado, quando William Miller (1782-1849) começou sua pregação e suas profecias fracassadas que anunciavam o fim do mundo para 1843 e depois para 1844. Seus seguidores, em vez de se lembrarem do texto de Deuteronômio 18, 22:
“Quando o profeta falar em nome do Senhor, e a palavra não se cumprir nem suceder, esta é palavra que o Senhor não falou; com presunção a falou tal profeta: não tenhas medo dele”,
continuaram acreditando em suas doutrinas e, para cúmulo do dano, recorreram a outra profetisa, igualmente equivocada, Ellen G. White (1827-1915). Foi ela quem deu a seus seguidores este nome, tão estranho e tão próprio do Antigo Testamento, de “Adventistas do Sétimo Dia”; enquanto outros grupos de “adventistas” que haviam estado com Miller se separavam por lhes parecer que isso era pouco cristão.
Eles afirmam que a verdadeira Igreja de Jesus Cristo existe desde o princípio do mundo pela guarda dos mandamentos. Ora, eles, com suas doutrinas características, não existem senão desde há um século; logo, não são a verdadeira Igreja de Cristo.
Jesus nosso Senhor, falando como de coisa futura, disse a São Pedro: “Tu és Rocha [= Cefas: Jo 1, 42] e sobre esta Rocha EDIFICAREI a minha Igreja”.
Como podem eles dizer que a Igreja de Cristo existia antes de Cristo? Isso, pelo menos, não diz nenhuma das passagens alegadas por seu amigo: Ap 14, 12; Ap 22, 14; 1 Jo 2, 4. No segundo texto, inclusive, encontro que nas melhores edições se lê:
“Bem-aventurados os que lavam as suas vestes”, em vez da outra leitura: “os que guardam os seus mandamentos” (nota: É característica dos Adventistas do Sétimo Dia sua obsessão pelos mandamentos e pela Lei. Obsessão interessada, para poder levar adiante o sábado. Por isso, são e são chamados legalistas ou sabatistas.).
Assim o traz a edição crítica do original grego preparada pelo sábio protestante Nestle; e a novíssima de K. Aland, Black e Metzger; assim a Vulgata latina; assim Bover; assim Nácar-Colunga; assim AFEBE; assim a Bíblia de Jerusalém; assim a Versão Moderna (protestante). Vejo inclusive que assim o traz a revisão protestante de Reina-Valera de 1960.
Mas, enfim, ainda supondo que aqui lêssemos “Bem-aventurados os que guardam os seus mandamentos” – como traz a velha e antiquada tradução de Cipriano de Valera – e, naturalmente, quanto aos outros dois textos citados, minha resposta é a seguinte.
2. Os mandamentos e o cristão.
É curioso ver como os adventistas, obcecados pela observância de seu sábado – que para eles é nada menos que “o sinal” do povo de Deus – imaginam que, onde quer que apareça na Bíblia a palavra “mandamento”, ela quer dizer o decálogo com sábado e tudo. Ora, isso é verdade? Infelizmente, ou melhor, graças a Deus, não.
Tive a paciência de percorrer todos os casos em que o Novo Testamento emprega esta palavra “mandamento” (em grego: “entolé”) e, para grande surpresa de seu amigo, posso comunicar-lhe os resultados de minhas investigações. A palavra mandamento na Bíblia nem sempre quer dizer “um dos dez do Decálogo”.
Vejamo-lo de perto. Coloquemo-nos por um momento na posição adventista: “quando se fala, na Bíblia, de mandamentos, forçosamente se alude aos Dez do Decálogo”. Então, que fazemos com textos como o seguinte de Ef 2, 14-15, que nos diz que Cristo anulou a Lei dos mandamentos? É claro que a tradução de Cipriano de Valera, tradução velha e já superada, como lhe disse, restringe arbitrariamente o texto a “ritos”; mas nas traduções dos sábios modernos não encontramos tal coisa: Versão Moderna (protestante); versão hispano-americana, também protestante; AFEBE; Nácar-Colunga; Bover; e até a de Reina-Valera na recensão de 1960.
Há também outra passagem que nos diz:
“Assim, fica abolido o mandamento anterior, por sua ineficácia e inutilidade; porque a Lei nada levou à perfeição, mas serviu apenas para nos preparar uma esperança melhor, pela qual nos aproximamos de Deus” (Hb 7, 18-19).
Aqui até o antigo Cipriano de Valera traz também “mandamento”, do mesmo modo que a Versão Moderna.
Este é um texto de capital importância, porque nos mostra o contraste que existe entre o Antigo Testamento com a antiga Lei, por um lado, e o Novo Testamento, por outro. Então fica um dilema: ou ficamos com a velha Lei no Antigo Testamento, ou avançamos para o cristianismo, que ostenta outros valores, e entramos no Novo Testamento. De fato, os Adventistas do Sétimo Dia, nisto, quase não se diferenciam dos judaizantes.
Recordo-me de uma senhora que conseguiu sair dos adventistas rumo à luz do Novo Testamento e que, ao ver este maravilhoso texto que acabo de citar da Carta aos Hebreus, me dizia que mandaria copiá-lo em letras muito grandes para colocá-lo no lugar mais visível de sua casa.
3. A grande novidade do cristianismo.
A verdade é que nós, cristãos, temos nossos mandamentos próprios, e que para nós a Lei Antiga já não é autoridade.
É isto que os adventistas resistem a admitir, cegamente apegados ao Antigo Testamento, como se com Cristo não se tivesse inaugurado já uma nova ordem de coisas: Novo Testamento ou Nova Aliança (Lc 22, 20; 1 Cor 11, 25; 2 Cor 3, 6): “e, ao dizer ‘nova’, declara antiquada a primeira”, como nota a própria Escritura (Hb 8, 13); ensinamento novo (Mc 1, 27), com mandamentos novos (Jo 13, 34; 15, 12-17; 1 Jo 2, 8-11; 3, 23); tudo isto constitui como o vinho novo que já não cabe nos estreitos e antiquados odres do Velho Testamento (Mt 9, 17; Mc 2, 22; Lc 5, 37-38).
Temos nós de “caminhar em novidade de vida” (Rm 6, 4), guiados, já não pela Lei Antiga, “pela velhice da letra”, precisa São Paulo, mas pela “novidade do Espírito” (Rm 7, 6), porque precisamente o Espírito é para nós a Lei e “a lei do Espírito nos libertou da outra lei” (Rm 8, 2) e, “se nos deixamos conduzir pelo Espírito, então já não estamos sob a Lei” (Gl 5, 18).
Este é “o Homem novo, criado segundo Deus em justiça e santidade” de que Paulo nos exorta a nos revestirmos (Ef 4, 24).
Para nós, tudo mudou com o advento de Cristo, e nele somos como “nova criatura” ou “nova criação” (2 Cor 5, 17; Gl 6, 15).
E os cristãos, “depois de terem lançado fora o fermento velho, devem ser uma massa nova” (1 Cor 5, 7).
Resumindo tudo, Paulo, com um grito de triunfo, pode proclamar: “Vede, todas as coisas se fizeram novas!” (2 Cor 5, 17).
Esta é a grande novidade, em todos os planos, trazida pelo cristianismo. Não é muito de lamentar que os irmãos adventistas estejam cegos para ver tudo isso e vivam com os olhos voltados para o passado caduco e abolido da antiga ordem, do Antigo Testamento?
Como o senhor vê, isto é decisivo e de capital importância. Por isso dá pena ver que, enquanto Cristo promete aos seus “um nome novo” (Ap 2, 17), eles tenham se acolhido a um nome velho, do Antigo Testamento, e se chamem “Adventistas do Sétimo Dia”.
4. As razões do sábado.
– Assim, aos pregadores adventistas que querem nos obrigar a observar o sábado, alegando que ele é como o selo da Aliança entre Deus e seu povo (Êxodo 31, 13.16.17; Ez 20, 12.20), podemos responder que nós já não estamos sob a Aliança Antiga, mas sob “a Nova, que é melhor e está fundada sobre outros termos e sobre melhores promessas” (Hb 8, 9).
– Se pretendem que a observância do sábado pertence aos mandamentos, responderemos que nós temos mandamentos próprios, os de Cristo, que formam uma Nova Lei, a Lei do Espírito (Rm 8, 2) ou então a “Lei da Fé” cristã (Rm 3, 27) ou simplesmente a “Lei de Cristo” (Gl 6, 2). Assim, “não estamos sem Lei de Deus, mas sob esta Lei de Cristo” (1 Cor 9, 21).
– Se eles afirmam que o sábado é a lembrança da Criação terminada, para nós cristãos a Ressurreição de Cristo inaugurou uma “nova criação” (2 Cor 5, 17; Gl 6, 15).
E, para terminar, exortá-los-emos a ser fermento novo e não velho fermento, e a não pôr suas energias cristãs – vinho novo – nos velhos odres do judaísmo.
5. Os mandamentos cristãos.
Mas venhamos aos mandamentos do cristão. Cristo Nosso Senhor nos diz claramente:
“Se me amais, guardareis os meus mandamentos” (Jo 14, 15).
“Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor” (Jo 15, 10).
Não fala do Decálogo; diz bem claramente: “meus” mandamentos, isto é, as normas e prescrições especificamente suas. A seguir, ele mesmo concretiza mais:
“Este é o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros como eu vos amei” (Jo 15, 12).
E o melhor comentário para os textos do Apocalipse e para os das cartas de São João é dado pelo próprio autor sagrado quando diz: “Meus amados, se o coração não nos condena, temos confiança diante de Deus, e tudo o que lhe pedimos dele recebemos, porque guardamos os seus mandamentos e fazemos o que é agradável a seus olhos. E este é o seu mandamento: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo e nos amemos uns aos outros, conforme o mandamento que nos deu. E aquele que guarda os seus mandamentos permanece em Deus, e Deus nele” (1 Jo 3, 21-24).
Em resumo, o que se nos pede é fé cristã e caridade cristã.
O senhor me dirá que talvez este enfoque constitua, para o próprio senhor, católico, uma espécie de revolução nos conceitos comumente admitidos, inclusive por muitos católicos. Não tenho dificuldade em reconhecê-lo. Mas o senhor viu como tudo o que lhe disse vai com o respaldo da Escritura.
A verdade é que o católico, pela mão da Igreja, caminha seguro e sabe estas coisas, ainda que talvez não saiba explicá-las nem formulá-las. Por isso não guarda o sábado, e no Decálogo admitiu as modificações cristãs que o diferenciam do judaísmo. Neste sentido, os catecismos e devocionários continuam conservando o esquema dos dez mandamentos; mas, se se olha mais de perto, vê-se como estão agora cheios do novo conteúdo cristão, como corresponde a discípulos de Cristo.
6. A Lei e o cristão.
Seu amigo adventista citou-lhe também – como já se podia esperar – o texto famoso, tão trazido e levado pelos adventistas, e que eles creem definitivo nesta ordem de ideias que estamos examinando. Diz Cristo nosso Senhor:
“Eu não vim destruir a Lei ou os Profetas. Não vim destruir, mas aperfeiçoar” (Mt 5, 17).
Aqui, de novo, a obsessão pelo Decálogo e pelo sábado faz os adventistas crerem que, quando Cristo diz “Lei”, não pode referir-se senão aos Dez das duas velhas tábuas sinaíticas. (E “os Profetas”?)
Façamos aqui também o mesmo que fizemos antes. Adotemos a posição adventista que nos diz que, uma vez que se fala de Lei, tem forçosamente de se referir ao Decálogo. Transcrevamos outros textos bíblicos e vejamos o resultado, um resultado que deve pôr abaixo a posição adventista e abrir-nos os novos horizontes cristãos.
“A Lei e os Profetas terminam em João; desde então anuncia-se a Boa Nova do Reino de Deus” (Lc 16, 16).
“Já não estais sob a Lei, mas sob a graça” (Rm 6, 14).
Não pense o senhor que estes sejam os únicos textos. Tenho recolhida uma boa porção de passagens bíblicas que afirmam que, para o cristão, a Lei do Sinai deixou de ter vigor. É claro que isto pode dar lugar a interpretações falseadas, poderia induzir a tirar consequências tortas e absurdas; mas, para evitar este inconveniente, já lhe transcrevi o texto de São Paulo em que, depois de afirmar que não está sujeito à Lei, explica que nem por isso está sem Lei, pois tem outra Lei, a de Cristo (1 Cor 9, 20-21). E à “Lei de Cristo” se remete também em outras passagens (Gl 6, 2).
Quanto à outra Lei, a de Moisés, ele nos diz:
– “Eu já estou morto para a Lei” (Gl 2, 19).
– E nós estamos, segundo o mesmo São Paulo, “tão livres da Lei como a mulher fica livre uma vez morto o marido” (Rm 7, 1-4).
– Cristo aboliu a Lei dos mandamentos formulados como decretos (Ef 2, 14-15).
– A Lei era “ministério de morte”; Paulo já não é pregador dessa Lei, mas da Lei do Espírito (2 Cor 3, 6-7).
– “A Lei era imperfeita e nada aperfeiçoou, e só serviu para nos introduzir a uma esperança melhor” (Hb 7, 18-19).
– “A Lei continha apenas a sombra dos bens futuros da época messiânica” (Hb 10, 1).
– “Cristo nos resgatou da maldição da Lei” (Gl 3, 13).
– “Deus enviou seu próprio Filho, nascido de mulher, submetido à Lei, para resgatar os que estavam submetidos à Lei” (Gl 4, 4).
– “Bem sabemos que tudo quanto diz a Lei é para aqueles que estão dentro da Lei” (Rm 3, 19).
Mas “vós, irmãos, não estais sob a Lei, mas sob a graça” (Rm 6, 14).
“Guiados pelo Espírito [essa é a Lei própria do cristão, e o Espírito atua na Igreja], já não estais sob a Lei” (Gl 5, 18).
Rogo-lhe que leia e releia cada texto, meditando-o bem, pois o tema é tão sério.
Diante deste acúmulo esmagador de textos, não nos resta outro remédio senão admitir a definitiva abolição da Antiga Lei.
Quanto ao texto evangélico, Mt 5, 17, temos de perceber que Cristo diz que, embora “não tenha vindo destruir”, veio sim “aperfeiçoar”; e, ao aperfeiçoar uma coisa, forçosamente ficam de lado muitos elementos caducos e inúteis. Foi isso que aconteceu com a Lei Antiga.
Não esqueça, nesse mesmo texto, “os Profetas”. Não raramente os adventistas se esquecem oportunamente desse termo, sendo assim que “Lei e Profetas” não quer dizer Decálogo, mas “a Bíblia em seu conjunto”, “toda a ordem do Antigo Testamento”. Veja-o nas seguintes citações, que o senhor deve procurar em sua Bíblia; eu lhe dou apenas o equivalente livre, mas exato:
– At 13, 15: “depois da leitura do Antigo Testamento”.
– Jo 1, 45: “aquele anunciado pelas Escrituras”.
– Mt 7, 12: “todas as Escrituras se resumem na caridade”.
– At 24, 14; Rm 3, 21; Mt 22, 40, dão-nos a mesma equivalência (nota: É sabido como os judeus consideravam sua Bíblia (isto é, o Antigo Testamento) como formada por três coleções: a) a Lei ou Torá; b) os Profetas (ou Nebiim), e c) os outros Escritos ou Hagiógrafos (Ketubim). Reflexo desta divisão tripartida é o texto de Lc 24, 44, ou também o Prólogo do Eclesiástico, que a traz até três vezes. Mas às vezes se contentavam com uma menção bipartida: “a Lei e os Profetas”, para designar todo o Antigo Testamento, como se vê pelos casos que citamos acima no texto. Inclusive às vezes só o primeiro elemento, “a Lei”, podia designar todo o Antigo Testamento, como se vê em Jo 10, 34 e 15, 25.).
Portanto, quando o Senhor fala de “a Lei e os Profetas”, está se referindo a toda a Escritura em seu conjunto, isto é, Jesus designa aqui o conjunto completo do Antigo Testamento.
Ora, os irmãos adventistas sabem de sobra que muitas coisas do Antigo Testamento já estão anuladas. Como, por exemplo, a circuncisão, os sacrifícios sangrentos, a adoração exclusiva no Templo de Jerusalém e tantas outras coisas. Não deverão, pois, urgir muito esse texto; ou, citando-o completo: “Lei e Profetas”, verão que não se deve entendê-lo na forma rigorista que pretendem, mas na forma temperada que o contexto exige. De outro modo, “a Lei e os Profetas”, isto é, o Antigo Testamento completo, obrigariam os cristãos com todas as observâncias do mais rígido judaísmo.
7. O sábado e o cristão.
Sei muito bem que minha posição pode parecer vulnerável a partir de um ponto de vista muito generalizado, que os adventistas costumam não descuidar, antes explorar bastante. Dizem e repetem que o Decálogo contém de fato as normas da Lei natural e que, por este motivo, embora tenha sido dado aos israelitas no Sinai, na realidade estava dirigido à humanidade enquanto tal; portanto, a todo homem.
Que poderíamos responder a tudo isto? O Decálogo se identifica com a Lei natural? Creio que, em conjunto, é verdade. O Decálogo, dito de modo geral, representa a expressão mais clara e precisa das normas de exigência da natureza humana e, nesse sentido, é Lei eterna e indestrutível.
Mas isto é aplicável, de verdade, a todos os mandamentos do Decálogo mosaico? Não.
Observe como, por deficiência, o Decálogo (Ex 20, 1-17; Dt 5, 6-21) não contém uma proibição sobre a mentira, embora, fora do Decálogo, ela estivesse em Lv 19, 11. A Igreja Católica a acrescentou ao oitavo mandamento, porque fazia falta.
Além disso, o sexto mandamento mosaico (ou, segundo a divisão protestante, o sétimo) proíbe tão somente o adultério, e não os outros atos externos de impureza. Também aqui a Igreja completou e aperfeiçoou, como nos ensinou Cristo (Mt 5, 27-30) e os Apóstolos, e isso se pode ver em qualquer catecismo católico.
Por excesso, ao contrário, ou melhor, por razões de ordem circunstancial e transitória, proíbe fazer imagens. Isto não é de Lei natural. Note bem que não digo a idolatria, que esta sim é contra a Lei natural; digo simplesmente fazer representações, seja para adorno, seja para instrução, seja até para o culto – não digo adoração: isto evidentemente não é contra a Lei natural e, no entanto, Deus julgou necessário impor aos israelitas esta proibição pelas circunstâncias especiais em que estavam, cercados de povos idólatras, recém-saídos de outro povo terrivelmente idólatra, eles mesmos povo rude e materialista (nota: Se fosse exigência da lei natural a proibição de fazer imagens, Deus não teria autorizado os israelitas a fazer imagens, como fez com os querubins que adornavam a Arca da Aliança (ordem divina: Ex 26, 18-22; realização: Ex 37, 7), com adornos de várias classes que havia no Templo de Salomão (1 Rs 6, 27; 7, 25; 10, 19-20; cf. Ez 41, 18-20). E até uma imagem de bronze dotada de uma virtude maravilhosa, feita por ordem de Deus (Nm 21, 6-9). Cristo nosso Senhor não teve receio de comparar-se com esta imagem salvadora (Jo 3, 14).).
Coisa igual podemos dizer do sábado. É preciso dedicar algum dia ao culto e à adoração especial de Deus: isto é claro e natural; mas o sábado precisamente?
Também aqui esta é uma prescrição particular dada aos hebreus, precisão da Lei natural, que depois São Paulo se encarrega de nos dizer que já passou e que para nós não tem validade.
Veja os textos, que são bem claros.
Gl 4, 9-11: Para São Paulo, nesta passagem, observar o sábado, uma vez que Cristo veio e uma vez que se aceitou o Evangelho, é como voltar atrás e renegar a fé cristã, é tornar inútil a pregação.
Leia o texto paulino e note bem a enumeração: “dias”: o sábado semanal; “os meses”: a celebração dos novilúnios, ou neomênias, isto é, luas novas, três palavras sinônimas para designar a mesma coisa; “os tempos” ou “estações”, as festas agrícolas que vinham com elas, como Páscoa, Pentecostes e Tabernáculos; “os anos”, finalmente, são os anos sabáticos jubilares.
Cl 2, 16-17: Estas festas judaicas não são senão a sombra do que havia de vir. Ninguém tem direito de nos condenar ou criticar porque não as guardamos. Cristo era a realidade que elas prefiguravam.
Quando já veio esta realidade, que lamentável é continuar apegados às sombras! Observe aqui a ordem inversa da enumeração: “as festas” (anuais), “neomênias” ou “novilúnios” (mensais), “sábados” (semanais). Assim verá, de passagem, quão banal e infundado é querer aplicar esses sábados meramente aos anos sabáticos, como às vezes pretendem os adventistas, para escapar diante de um texto tão claro e que derruba uma das bases fundamentais de sua organização religiosa.
Não há dúvida: segundo São Paulo, o sábado judaico está definitivamente abolido, e tê-lo ressuscitado constitui, nos adventistas, uma regressão ao judaísmo e uma negação do verdadeiro cristianismo.
8. O sabatismo de Hb 4, 9.
Uma vez que São Paulo nos diz claramente que o sábado não está em vigor para o cristão, que falta fazia ocupar-se deste texto? Contudo, veja a imperdoável superficialidade a que chegaram nossos irmãos adventistas, que não deixam de alegar tal passagem, à primeira vista decisiva: “Resta, pois, um repouso sabático para o povo de Deus” (Hb 4, 9). E por isso eles – o “povo adventista”, como se chamam – por observar o sábado creem ser o único “povo de Deus” legítimo.
Com efeito, basta examinar o contexto para perceber o que quer dizer o Autor sagrado. Leia desde Hb 3, 7 até 4, 11 e verá que ali se fala de três repousos ou descansos, como outras tantas oportunidades que Deus pôs ao alcance dos filhos de Israel:
1. O do sábado, ou repouso semanal, como recordação da criação terminada (Hb 4, 4-5). Esta foi como a primeira oportunidade, mas os israelitas a desperdiçaram. Ela já passou definitivamente.
2. O repouso da Terra da promessa, aonde Josué os introduziu (Hb 4, 5-8). Esta foi como a segunda, mas também ficou frustrada; por isso, Davi continua exortando no Salmo (95, 7-11), que dá ocasião ao Autor para o comentário.
3. É o repouso do Reino de Deus no qual somos exortados a entrar (Hb 4, 9-11). É a oportunidade nova que Deus oferece, visto que fracassaram as duas anteriores. É o repouso de entrar na Igreja de Cristo e é também o repouso definitivo do Céu, uma vez acabadas todas as obras desta vida. Mas de modo algum se refere à observância do sábado semanal. É a esperança definitiva do repouso que se nos mostra, não um mandamento que se nos imponha.
Dá pena ver como se abusa de textos isolados da Escritura para provar coisas absurdas, quando, enquadrados em seu contexto, talvez ensinem precisamente o contrário.
9. Resumo final.
Não posso me estender mais. Mesmo assim, a carta já está longa. De todo modo, façamos um breve resumo do exposto.
Vimos que os adventistas procedem de Miller e de Ellen White, e somente desde 1843. Que não pretendam que a esperança da vinda de Cristo os une com todos os que desde Adão a desejaram, porque este não é o único ponto de sua doutrina; há muitos outros que se devem somente a William Miller, à irmã White e a suas visões.
A Igreja de Cristo, com sua doutrina própria, seus mandamentos próprios e sua organização tal como ele quis estabelecê-la, só existe desde Cristo nosso Senhor. Este fato inaugura uma ordem nova de realidades que, aperfeiçoando as antigas, as anula e as torna definitivamente caducas.
Concretamente, a Lei mosaica está anulada, substituída por uma Lei superior, “a Lei de Cristo”, o Legislador da Nova Lei, que repetidamente nos disse: “Ouvistes que foi dito aos antigos; eu, porém, vos digo…” (Mt 5, 21; 5, 33).
O sábado, de modo particular – que de modo algum pertence à Lei natural – foi declarado inútil e passado, porque era apenas sombra destinada a desaparecer ao manifestar-se a luz fulgurante de Cristo.
O sábado foi dado aos hebreus como uma oportunidade de aproximação de Deus. A nós, ao contrário, põe-se diante a Igreja ou Reino de Deus na terra para que mostremos nossa adesão a Deus aderindo a ela: assim alcançaremos o supremo e último repouso.
Restaria explicar por que a Igreja Católica e todas as igrejas cristãs – exceto os adventistas – guardam o domingo. A razão fundamental é porque foi no domingo que Cristo ressuscitou; nós, com efeito, já não somos a sinagoga, que depende de Moisés, mas o Novo Israel que tem como ponto de partida não a libertação do Egito, mas a Redenção de Jesus Cristo, que sai vencedor do sepulcro (nota: É muito belo e significativo o nome que tem o “domingo” nas línguas eslavas, como o russo, em que o chamam “Voskrecienie”, literalmente, “ressurreição”.).
Em vez de comemorar a primeira criação, comemoramos a nova criação inaugurada precisamente com a Ressurreição de Cristo.
O dia de triunfo de Cristo foi recolhido pelos Apóstolos e recebeu o nome de domingo, que, derivado do latim “dies dominicus”, quer dizer o “dia de Cristo” ou dia do Senhor Jesus. Tal como em grego, desde os Apóstolos (cf. Ap 1, 10) até nossos dias, se chama kyriaké hémera, isto é, dia do Kyrios ou Senhor ressuscitado.
O dia domingo (ou “primeiro dia da semana”, como era chamado no princípio, até receber o nome próprio que conservou até agora) é também o dia das reuniões cristãs, o dia da Eucaristia (At 20, 7 e provavelmente também 1 Cor 16, 1-2).
Deveria alongar-me mais para expor-lhe plenamente as razões cristãs do domingo. Mas teria de escrever-lhe outra carta tão longa como esta.
Creio, com isto, ter dado ampla resposta às suas perguntas. Esteja persuadido, meu querido amigo, de que a doutrina da Santa Mãe Igreja Católica, tal como lhe ensinaram e tal como o senhor a professa, é a verdadeira doutrina de Cristo. “Quem vos ouve, a mim ouve” (Lc 10, 16). Com razão ela pode dizer como São Paulo:
“Se alguém vos anunciar outro Evangelho, diferente daquele que recebestes, seja anátema!” (Gl 1, 9).
Todo seu no Senhor,
Autor: Pe. Ernesto Bravo, SJ
Fonte: Apologetica.org