Magistério da Igreja
O batismo.
Os arianos correm o perigo de perder a plenitude do sacramento do batismo. Com efeito, a iniciação é conferida em nome do Pai e do Filho; mas eles não exprimem o verdadeiro Pai, pois negam aquele que procede dele e lhe é semelhante em substância; e negam também o verdadeiro Filho, pois mencionam outro, criado do nada, que eles inventaram. O rito que administram há de ser totalmente vazio e estéril e, embora mantenha a aparência, é na realidade inútil do ponto de vista religioso. Porque eles não batizam realmente no Pai e no Filho, mas no Criador e na criatura, no Fazedor e em sua obra. Mas, sendo a criatura algo distinto do Filho, o batismo que pretendem administrar é diferente do batismo verdadeiro, ainda que professem nomear o Pai e o Filho de acordo com a Escritura. Não basta, para conferir o batismo, dizer: “Ó Senhor!”, mas é preciso ter ao mesmo tempo a reta fé. E esta foi a razão pela qual nosso Salvador não mandou simplesmente batizar, mas disse primeiro: “Ensinai”, e só depois: “Batizai em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”. Porque da instrução nasce a reta fé e, uma vez dada a fé, pode realizar-se a iniciação do batismo… (22).
A celebração pascal da Eucaristia.
Irmãos, depois que o inimigo que mantinha o universo tiranizado foi destruído, já não celebramos uma festa temporal, mas eterna e celestial; já não anunciamos aquele fato por figuras, mas o vivemos realmente. Antes, os judeus celebravam esta festa comendo a carne de um cordeiro sem mancha e untando com seu sangue os batentes de suas portas para afugentar o exterminador. Mas agora comemos a Palavra do Pai e assinalamos os lábios do nosso coração com o sangue do Novo Testamento, reconhecendo a graça que o Salvador nos concedeu ao dizer: “Eu vos dei poder de pisar serpentes e escorpiões e sobre todo o poder do inimigo” (Lc 10,19)… Além disso, meus caríssimos, é sabido que nós, que celebramos esta festa, não devemos trazer vestes sujas sobre nossas consciências, mas adornar-nos com vestes absolutamente limpas para este dia de nosso Senhor Jesus, a fim de podermos realmente estar na festa com ele. Vestimo-nos assim quando amamos a virtude e aborrecemos o vício; quando guardamos a castidade e evitamos a luxúria; quando preferimos a justiça à iniquidade; quando nos contentamos com as coisas necessárias e nos dedicamos antes a fortalecer nossa alma; quando não nos esquecemos dos pobres, mas estamos determinados a que nossas portas estejam abertas para qualquer um; quando nos esforçamos por humilhar nosso ânimo e detestar a soberba… (23).
A Eucaristia, alimento espiritual.
No Evangelho de João observei o seguinte. Quando fala de que seu corpo será comido, e vê que por causa disso muitos se escandalizam, o Senhor diz: “Isto vos escandaliza? Que seria se vísseis o Filho do Homem subindo para onde estava antes? O Espírito é que vivifica: a carne para nada aproveita. As palavras que eu vos falei são espírito e vida” (Jo 6,62-64). Nesta ocasião diz acerca de si mesmo ambas as coisas: que é espírito e que é carne; e distingue o espírito daquilo que é segundo a carne, para que, crendo não só no visível, mas também no invisível que havia nele, aprendam que o que ele diz não é carnal, mas espiritual. Para alimentar quantos homens seria suficiente o seu corpo? Mas ele tinha de ser alimento para todo este mundo. Por isso lhes menciona a ascensão ao céu do Filho do Homem, a fim de tirá-los de sua mentalidade corporal e fazê-los aprender daí em diante que a carne que ele chama comida vem do alto, do céu, e que o alimento que lhes dará é espiritual. Diz-lhes: “O que vos falei é espírito e vida” (Jo 6,64), que é o mesmo que dizer: o que aparece e o que é entregue para a salvação do mundo é a carne que eu tenho, mas esta mesma carne com seu sangue eu vos darei como alimento de uma maneira espiritual. Ou seja, é de uma maneira espiritual que esta carne é dada a cada um, e assim se torna para cada um penhor da ressurreição da vida eterna… (24).
O mistério da Eucaristia.
Verás os ministros levando pão e um cálice de vinho e colocando-os sobre a mesa; e enquanto não se fizeram as invocações e súplicas, não há senão simples pão e bebida. Mas, quando se acabam aquelas extraordinárias e maravilhosas orações, então o pão se converte no corpo e o cálice no sangue de nosso Senhor Jesus Cristo… Consideremos o momento culminante destes mistérios: este pão e este cálice, enquanto não se fizeram as orações e súplicas, são simples pão e bebida; mas assim que foram proferidas aquelas extraordinárias preces e aquelas santas súplicas, o próprio Verbo desce até o pão e o cálice, que se convertem em seu corpo (25).
A prática da penitência.
Da mesma maneira que um homem, ao ser batizado por um sacerdote, é iluminado com a graça do Espírito Santo, assim também aquele que faz confissão arrependido recebe, mediante o sacerdote, o perdão pela graça de Cristo (26).
Os que blasfemaram contra o Espírito Santo ou contra a divindade de Cristo dizendo: “Por Beelzebu, príncipe dos demônios, expulsa os demônios” (Lc 11,15) não alcançam perdão nem neste mundo nem no futuro. Mas é preciso notar que Cristo não disse que aquele que tivesse blasfemado e se arrependesse não haveria de alcançar perdão, mas sim aquele que estivesse em blasfêmia, isto é, permanecesse na blasfêmia. Porque a penitência condigna apaga todos os pecados… A blasfêmia contra o Espírito é a falta de fé (apistia), e não há outra maneira de perdoá-la senão a volta à fé: o pecado de ateísmo e de falta de fé não alcançará perdão nem neste mundo nem no futuro (27).
Fonte: Biblioteca Patrística
NOTAS
(22) Contra Ar. II, 42-43. (voltar)
(23) ATANÁSIO, Epistula festalis, IV, 3. (voltar)
(24) Ad Serap. IV, 19. (voltar)
(25)) Fragm. de um sermão aos batizados. (voltar)
(26) Fragm. contra Novat. (voltar)
(27) Fragm. in Mt. (voltar)