Um conflito inexistente, segundo as Escrituras. Outros conflitos do mesmo tipo.
Conflitos à primeira vista
Muitos dos irmãos cristãos não católicos creem que há sérios “conflitos” entre as doutrinas bíblicas e a doutrina católica. Para a grande maioria isso é algo evidente e que não admite sequer discussão: o ensinamento católico é claramente antibíblico e baseado em tradições humanas. Por isso, que um cristão católico tente explicar que na realidade não há contradição é, para muitos desses nossos irmãos, “querer tapar o sol com uma peneira”.
O presente artigo pretende, com a ajuda de Deus, mostrar que tais “conflitos” são aparentes, não reais. Nas Escrituras muitas vezes nos deparamos, católicos e não católicos, com passagens difíceis, as quais tratamos de entender à luz de toda a Escritura, do contexto, etc. Não podendo falar de todos os pontos doutrinais, tomaremos um, muito importante, que nos servirá para esclarecer tantos outros, e que é uma passagem frequentemente apontada aos católicos como antibíblica. Refiro-me à passagem de 1Tm 2,5 (porque há um só Deus, e também um só mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem também): acaso essa passagem não exclui claríssimamente a doutrina católica da mediação de Maria e dos Santos em favor dos crentes? Com um pouco de paciência veremos que a resposta, segundo as Escrituras, é “não”.
Neste artigo entendo por “fundamentalista” um crente em Cristo que diz basear sua fé SOMENTE na Bíblia (embora a esse respeito já o diga bem o ditado popular: “do dito ao feito vai um longo trecho”), querendo com isso significar que tal irmão não dará ouvidos à Igreja, nem à pregação oral dos primeiros discípulos de Jesus (que depois em parte ficará escrita), nem a nada no mundo: SÓ o que está ESCRITO, nada mais, já que essa é a Palavra de Deus, e não existe nenhuma outra.[1]
O tema que enfrentamos é interessantíssimo e muito útil, não só para o versículo concreto de 1Tm 2,5, mas para entender melhor a mensagem evangélica em sua perspectiva real, evitando assim a superficialidade de visão, os critérios carnais, as discussões vãs. Sem essa visão “em profundidade”, passaremos a vida citando versículos uns contra os outros, cada um interpretando a seu modo cada palavra de Jesus ou de Paulo ou de João, etc.: uma questão que nunca acaba. A ideia que me move a escrever estas linhas é só uma: incentivar a reflexão. Quem é capaz de pensar sem preconceitos dispõe-se à verdade, ainda que na prática –e sem ele saber– seja um de seus piores inimigos[2].
Dado que a ignorância do autêntico ensinamento da Igreja é talvez o motivo principal pelo qual muitos optam pelo fundamentalismo cristão, proponho-me também ilustrar, tanto ao católico como ao não católico, qual é verdadeiramente o ensinamento que professamos sobre a única mediação de Cristo, as mediações dos Santos e algumas outras doutrinas afins, sempre de modo simples e breve[3].
Dois mil anos não são em vão
Mais de um pensa que o evangelho se corrompeu substancialmente na época imediatamente pós-apostólica, passando pela longa noite da salvação-pelas-obras católica, até que veio tal grupo de gente e renovou o evangelismo puro, sem tradições humanas[4].
As coisas, porém, não são tão simples. Não é o momento aqui de fazer uma história da Igreja ou da teologia, mas seja-me lícito recordar que todas as dificuldades que existem nas Escrituras e todas as possíveis interpretações já foram tratadas durante séculos, por milhares de crentes, com as mais díspares interpretações, é claro. Mas é importante saber que não somos cogumelos que aparecem depois da chuva, mas que fazemos parte de um corpo, temos antepassados na fé, gente à qual também iluminou o Espírito Santo. Sobre cada palavra do Evangelho há milhares de homilias, controvérsias, reflexões… E há milhares e milhares de vidas vividas na fé e em resposta às palavras das Escrituras, até derramar o próprio sangue. Não nos julguemos os únicos, nem os primeiros, nem os melhores!
Dentre milhares de coisas que podemos aprender de cristãos que viveram antes de nós, e que dedicaram suas vidas ao conhecimento e à interpretação das Escrituras, servem-nos neste artigo dois conceitos básicos, a saber, a noção de “analogia” e a de “participação”: estas duas palavras nos levarão pela mão para entender tantíssimas aparentes “contradições” nas Escrituras, em concreto o nosso tema do “único mediador”.[5]
Segundo o dicionário da Real Academia Espanhola (1992), analogia é a “relação de semelhança entre coisas distintas”. Para o substantivo participação, o dicionário remete ao verbo “participar”, e participar define-se como “tomar parte em uma coisa; receber uma parte de algo; compartilhar, ter as mesmas opiniões e ideias, etc., que outra pessoa. Usa-se muito com a preposição de”.
Estes conceitos, em sua simplicidade, são de fundamental importância para o nosso tema. A realidade destas noções irá se vendo com mais clareza na aplicação que fizermos a diversas passagens “conflitivas”.
Procederemos assim: enunciaremos uma passagem ou várias passagens bíblicas onde se veem “contradições”, e depois veremos como, aplicando as noções acima indicadas, a aparente contradição desaparece. Um truque para fazer coincidir a Bíblia com o ensinamento católico? Dirá o leitor por si mesmo.
Jesus, único fundamento
A Escritura ensina que
a. Cristo é o único fundamento e ninguém pode pôr nenhum outro (1Cor 3,11). Mas também ensina que
b. Os apóstolos são fundamento (Ef 2,20). Em ambos os textos usa-se a mesma palavra (gr. zemelion) e referindo-se ao fundamento dos cristãos em ambos os casos.
Como isto parece contradizer-se, um de meus amigos evangélicos dizia que em Ef 2,20 havia que ler assim: “o fundamento que puseram os apóstolos”… etc., isto é, “fundamento” seria aqui “Jesus”, não os apóstolos, e desse modo não haveria oposição. Esta solução, do ponto de vista gramatical, não é viável (falta um “também” que dê pé à proposta do comentador mencionado: o texto diz “sendo Cristo a pedra angular”, e não “sendo Cristo também a pedra angular”), e sobretudo rompe com a imagem que Paulo está usando. Com efeito, no texto em questão Cristo vem apresentado como “pedra angular” (gr. akrogoniaios). Pedra angular é a pedra que termina uma construção, que se coloca no final da mesma para travar e assegurar o resto do edifício; não se trata de uma pedra que se coloca no fundamento da construção. Lendo Ef 2,20 com a interpretação querida pelo citado cristão evangélico, ficaríamos com uma imagem totalmente disforme: o texto ficaria assim: “fostes edificados sobre o fundamento posto pelos apóstolos e pelos profetas, isto é, sobre Cristo, sendo Cristo também a pedra angular”. Mas a ideia de Paulo é falar de que cada um é parte de um edifício, no qual Cristo ocupa o lugar central, e não todos os lugares! Pelo contrário, a imagem tem sentido se se atribui aos apóstolos e profetas o ser “fundamento” e a Cristo o ser “pedra angular”, como, por outra parte, o trazem todas as traduções[6]. Esta ideia dos apóstolos como fundamento confirma-se também em Apocalipse 21,14.
De onde vem esta interpretação, digamos, “forçada” que meu amigo evangélico quer impor? Do desejo de solucionar um “conflito”, mas sem usar os meios adequados para fazê-lo. Explico-me: para ele, as duas passagens “se opõem”: como pode Cristo ser o único fundamento e ao mesmo tempo sê-lo também os apóstolos? E explica o problema mudando o texto por meio de uma tradução que desvirtua e inutiliza a imagem. Isso não é boa exegese. Ele justifica esta tradução porque diz que a Palavra de Deus não pode opor-se a si mesma, e se a Palavra de Deus ensina que Jesus é o único fundamento, não pode ser que a Palavra de Deus diga agora que os apóstolos são fundamento…
Qual é a solução? Realmente Efésios 2,20 se oporia a 1Cor 3,11 se tomarmos os apóstolos como fundamento? A resposta, segundo a doutrina católica, é não. Cristo é o fundamento, os apóstolos e profetas PARTICIPAM desse ofício de Jesus de ser fundamento. Não são fundamentos “paralelos” a Jesus, mas que “em Jesus” são também eles fundamento. A expressão grega “en Xristó”, “em Cristo”, aparece nos escritos de Paulo umas oitenta vezes. Que significa “em Cristo”? Tratar-se-á de uma banalidade, um jargão de Paulo sem sentido?
Para finalizar este ponto, recordemos que o Novo Testamento chama “fundamento” (em sentido espiritual como nos dois textos estudados) também ao “arrependimento de obras mortas” (Hb 6,1), às “boas obras” (1Tm 6,18-19) e à “pregação evangélica” (Rm 5,20). Notável em particular 1Tm 3,15, onde se chama a Igreja “coluna e sustentáculo da verdade”.[7]
Jesus, único pastor
A Escritura ensina que
a. Jesus é o grande pastor de nossas almas (Hb 13,17.20; 1Pd 2,25; Jo 10,11.14.16). Em 1Pd 5,4 chama-se-lhe “pastor principal”, ou “pastor dos pastores” (gr. arjipoimenos). Não creio que seja descabido afirmar que os cristãos têm UM só pastor, que é Jesus. Mas a Escritura ensina também que
b. Há outros homens que também são pastores (Ef 4,11)
Então, quem é o pastor? Jesus ou algum outro? Quando Paulo fala dos “pastores” em Ef 4,11 (gr. poimenas), está prejudicando Jesus como único pastor? Quando em Atos 20,28 Paulo exorta os presbíteros da Igreja a apascentar o rebanho, esqueceu-se acaso de que Jesus é o Pastor? Ou esqueceu-se o próprio Jesus quando disse a Pedro “apascenta as minhas ovelhas” (Jo 21,15-17)?
Não, não se haviam esquecido nem Jesus, nem Pedro, nem Paulo, nem João, mas sabiam perfeitamente que o ofício de ser “pastor de nossas almas” Jesus o queria compartilhar, “participar” aos demais. Como quis que “participemos” em seus sofrimentos (1Pd 4,13). Jesus é “O pastor”, os demais são “pastores por participação”. Notemos que sem este conceito de participação, em todas estas passagens haveria uma “contradição” insuperável, como nas passagens que veremos.
Jesus, único mestre
A Escritura ensina que
a. Jesus é o único mestre, e a ninguém mais se deve dar esse título (Mt 23,8.10; Jo 13,13). Mas também ensina que
b. Paulo chamava a si mesmo, com toda a verdade, “mestre” (1Tm 2,7; 2Tm 1,11) e na Igreja houve sempre muitos “mestres” designados pelo próprio Espírito Santo (Ef 4,11).
Mas então, como pode Jesus dizer que não se deve chamar ninguém mestre, e depois Paulo chamar-se com toda a liberdade “mestre”, como se Jesus não houvesse dito nada? E os primeiros cristãos que chamavam alguns homens de “mestres”? Que tinha acontecido com a proibição de Jesus? Será que a “corrupção da mensagem evangélica com os dogmas humanos da Igreja Católica” já havia irrompido nas comunidades cristãs…?
Jesus, único bispo
A Escritura ensina que
a. Jesus é O bispo (gr. episcopos) de nossas almas (1Pd 2,25). Mas também ensina que
b. Deus estabeleceu alguns como bispos dos crentes (Atos 20,28; Fl 1,1).
Com o que falamos até aqui, creio que não é necessário abundar em palavras. Os “bispos” o são por analogia, isto é, participando do “episcopado” de Jesus, que é o bispo de modo absoluto e de onde provém todo episcopado. Que alguém seja “bispo” não quer dizer que esteja roubando o posto de Jesus: se é bispo, o é EM o único bispo de nossas almas, que é Jesus. Não há conflito, há participação de um ofício.
Deus, único Pai
A Escritura ensina que
a. Não se pode chamar ninguém no mundo de “pai”, senão só a Deus (Mt 23,9). Mas também ensina que
b. Paulo apresenta-se como pai (1Cor 4,15), e chama Abraão “pai de todos nós” (segundo o contexto refere-se a judeus e gregos, isto é, paternidade espiritual, exatamente o que havia “proibido” Jesus em Mt 23).
Entendemos as palavras de Jesus como referidas aos “pais” espirituais, já que se tomarmos o sentido literal teríamos que não podemos chamar “papai” aos nossos pais, etc. Deixamos isso de lado.
Mas ainda no plano espiritual, uma vez mais nos encontramos com um falso “conflito”, tantas vezes mencionado contra os católicos. O conhecido estribilho soa mais ou menos assim: “Mt 23,9 proíbe chamar ‘pai’ qualquer pessoa no mundo, e os católicos chamam seus sacerdotes de ‘padres’. Mais claro impossível: eis aí, uma vez mais, a doutrina antibíblica dos católicos”.
No entanto, os apóstolos não pensavam assim. Muitos cristãos fundamentalistas veem a árvore mas ignoram a floresta.[8] Porque para os apóstolos não havia oposição excludente entre Deus-Pai e o apóstolo-pai. Tampouco há qualquer oposição para a Igreja. A Igreja Católica é livre, e isto nem todos entendem. Mas seguirá gozando dessa liberdade que vem do Espírito. Já acontecia a Paulo:
No entanto, nem sequer Tito, que estava comigo, sendo grego, foi obrigado a circuncidar-se, apesar dos falsos irmãos que se infiltraram secretamente para espiar a nossa liberdade que temos em Cristo Jesus, a fim de nos reduzir à escravidão. Nem por um momento cedemos em submissão a eles, para que a verdade do evangelho permanecesse em vosso favor (Gl 2,3-5)
Nem por um momento! diz Paulo. Paulo tinha uma mente grande, universal, aberta, não era nenhum beato nem queria figurar como o perfeito cumpridor de novas leis. Para ele Cristo era tudo, sua vida, sua pregação, seus pensamentos, seus sentimentos… Não iria também ele chamar-se “pai” dos que havia “dado à luz com dores de parto”? (Gl 4,19). Cristo, que o havia chamado a completar o que faltava à sua paixão em benefício de sua Igreja (Cl 1,24), recriminaria Paulo quando se apresentava abertamente como “pai” dos que o ouviam? Ofender-se-ia Deus-Pai ante este magnífico exemplo de paternidade espiritual, imagem –ainda que opaca, sem dúvida– da paternidade de Deus? Não participava Paulo da paternidade divina “gerando” (gr. gennao, que significa “tornar-se pai por haver gerado”) novos filhos para o evangelho? (1Cor 4,15)
Resumindo, Paulo apresenta-se como “pai” de seus ouvintes. Particularmente pode-se recordar aqui 1Cor 4,15:
Pois ainda que tenhais mil pedagogos em Cristo, contudo não tendes muitos pais, porque em Cristo Jesus eu vos gerei por meio do evangelho.
Em Rm 4,16, Paulo chama Abraão “pai de todos nós”, referindo-se aos judeus que creram e aos gentios que creram (ver o contexto). De modo que se trata de uma paternidade espiritual, como a que se diz na Santa Missa: “nosso pai Abraão”. Pois bem, tratava-se precisamente desta paternidade em Mt 23,9, quando Jesus disse “não chameis ninguém no mundo de pai”. Não entendeu Paulo a mensagem de Jesus?
Uma explicação nas próprias Escrituras encontramos em outro texto do apóstolo: em Ef 3,14-15, Paulo proclama: “dobro os meus joelhos diante do Pai, de quem toma nome toda paternidade (gr. patria) nos céus e na terra”. O substantivo grego “patria”, traduzido às vezes como “família”, vem da raiz “patros”, isto é, “pai”. Não é isto o que na realidade queria dizer Jesus em Mateus, e não que evitássemos “nomear” alguém com a palavra “pai”? Se Paulo fala de uma “paternidade” que provém de Deus, estará mal reconhecer essa paternidade nas pessoas chamando-as de “pai”, como fazem os católicos? Ou acaso devemos reconhecer que “toda paternidade vem de Deus”, mas depois… não podemos nomeá-la!? Isto seria muito próximo do fariseísmo. Não será talvez que o que Jesus estava ensinando era a descobrir que, se existe a paternidade no mundo, ela provém exclusivamente de Deus?
Deus é Pai, e “em Deus” Paulo é pai. E se o é, não há razão para abster-se, levado por neolegalismo veterotestamentário, de chamá-lo “pai”. Chama-se-lhe “pai” por analogia com Deus-Pai, por participação em seu gerar filhos. Em 1Ts 2,11 Paulo diz que se comportou com os tessalonicenses “como um pai com seus filhos”: está roubando dissimuladamente a glória a Deus, único Pai?[9]
O grande conhecedor das Escrituras e da história da Igreja Tomáš Špidlík explica a nossa participação na paternidade divina desta maneira[10]:
“O caráter paterno de Deus é tão perfeito que encerra um valor absoluto, como todas as suas qualidades divinas. Por isto Jesus nos adverte: ‘Não chameis ninguém no mundo de pai, porque só um é o vosso pai, o que está no céu’ (Mt 23,9). Por outro lado, contudo, os valores absolutos de Deus nos foram comunicados com o dom do Espírito, motivo pelo qual fomos convidados a ‘ser perfeitos como é perfeito o nosso Pai celestial’ (Mt 5,48). A paternidade divina reflete-se, de alguma maneira, na imagem, e particularmente nos santos, destinados a ter discípulos-filhos, e em geral na ‘maternidade’ da Igreja. […] A vida do Espírito inicia com o batismo; portanto o sacerdote que batiza é ‘pai’, como também o que reconcilia com Deus e nutre a vida com a eucaristia; pais são também os bispos aos quais se confia a vida da Igreja, que custodiam a reta doutrina nos concílios ecumênicos e que ordenam sacerdotes.”
Por estas razões os católicos chamamos nossos sacerdotes, que nos geraram para Deus no batismo e nos expuseram a fé (Hb 13,7) e nos alimentam com o “pão da vida” na eucaristia, de “pais”. Concordo que para isso se requer muita liberdade.
Deus, único Juiz
A Escritura ensina que
a. Deus é o único Juiz (Sl 50,6; 75,7; Hb 12,23). Mas também ensina que
b. Os cristãos serão juízes (Mt 19,28; Lc 22,30; 1Cor 6,2-3).
Isto é, Deus é o único que pode julgar, e isso aparece claro em toda a Escritura, mas por decisão sua quis participar esse poder aos crentes. Quem julgará o mundo, Deus ou os crentes? É uma falsa dicotomia: Deus julgará e também julgarão os crentes.
Deus, único Santo
A Escritura ensina que
a. Deus é o único Santo (Ap 15,4, gr.: hosios). Mas também ensina que
b. O bispo deve ser santo (Tt 1,8, gr.: hosios).
Obviamente a santidade que se espera no bispo não é uma santidade paralela à de Deus, mas trata-se de uma participação na única santidade de Deus, e ninguém pensa que se esteja atribuindo a um homem uma qualidade que é exclusiva de Deus. Mas a questão é que Apocalipse 15,4 diz que só Deus é santo. De modo que aqui temos outro exemplo de como algo é atribuído a Deus exclusivamente, e depois se atribui ou espera de um ser humano também.
Deus, único Deus
A Escritura ensina que
a. Há um só Deus (desde a primeira página até a última). Mas também ensina que
b. “Sois todos deuses” (Jo 10,34, onde Jesus cita o salmo 82,6 –texto massorético: “elohim atem”; LXX: “zeoi este”; também usado analogicamente em Êxodo 7,1)
Jesus usa esta passagem do salmo em seu sentido mais primigênio, fazendo ver aos que o acusavam de “fazer-se Deus” que as Escrituras ensinavam (e não podiam errar) que nós “somos deuses”.
O que há que ressaltar aqui é a liberdade de Jesus (e antes dele do salmista) para atribuir aos homens a natureza divina, ao menos num certo sentido. Como pode ser? Uma vez mais… por participação! Mas trata-se só de uma citação isolada e sem importância, que devemos tomar de modo exclusivamente figurativo? De nenhum modo. É antes uma primeira pedra do edifício teológico que viria depois. Depois quando? Não certamente com os Concílios e dogmas da Igreja, mas com a pregação dos apóstolos. 2Pd 1,4: “nos foram dadas preciosas e grandíssimas promessas, para que por elas sejais feitos participantes da natureza divina”.
Participação! Da natureza divina! Vê-se aqui que o de “participação” é, em verdade, um conceito bíblico, e muito importante. Que mais nos resta por participar de Deus? Se fomos feitos participantes da natureza divina (como um ser humano gera outro ser humano, de sua mesma natureza), surpreender-nos-emos de que Deus, em Jesus, nos tenha feito participantes de todo o resto?
Outros aspectos bíblicos de participação
Não queremos alongar desnecessariamente o artigo, que por outra parte já tratou a substância do problema. Mencionamos aqui alguns outros aspectos (há mais) nos quais se vê o desejo de Jesus de compartilhar conosco tudo, sua pessoa, seu ofício, sua vida, seus ideais, e que ao fazê-lo, não só não se rebaixa ou se empobrece Ele, mas mostra seu poder, sua força, sua sabedoria, seus planos de misericórdia.
· Jesus é a luz do mundo (Jo 8,12), mas também o são seus discípulos (Mt 5,14).
· Deus é o único bom (Lc 18,19), mas também as pessoas são boas (1Pd 2,18; 4,10, etc.).
· Deus é o único sábio (Rm 16,27), mas também os homens (Rm 16,19; Mt 23,24, etc.).
· Jesus é, claramente, nosso único sacerdote (toda a carta aos Hebreus), mas também o somos nós (Ap 1,6; 5,10; 20,6).
· Para os cristãos existe um único sacrifício, o de Jesus (Hb 10,12), mas também nós devemos oferecer “sacrifícios” (Fl 2,17; Rm 12,1; Hb 13,15).
· A paixão de Cristo é suficiente para a nossa salvação (todo o Novo Testamento), mas Paulo diz: “completo na minha carne o que falta à paixão de Cristo em favor de seu corpo, que é a Igreja” (Cl 1,24)[11].
· Só Deus perdoa os pecados (toda a Escritura), mas também os apóstolos (Jo 20,23).
· Deus é o único justo, e não há nenhum justo entre os homens, nem um só (Rm 3,10). Mas 1Timóteo 1,9 e 2Pedro 2,7-8 falam dos justos, em geral e em particular (Lot). Só se aplicarmos o conceito de “analogia” poderemos explicar esta aparente contradição: Deus é o único Justo, mas analogicamente e por participação o são também os que creem Nele, etc.
É claro que muitos leitores não católicos apressar-se-ão a explicar cada um destes aparentes conflitos. Muito bem! Também nós dizemos que não há um conflito real nestas “contradições”. A questão é: farão o mesmo esforço por explicar o suposto conflito “único mediador” – “mediação dos crentes”? Estarão dispostos a ver que na realidade não há oposição, assim como estão dispostos a não ver oposição em outras passagens bíblicas que, à primeira vista, resultam “evidentemente” contraditórias?[12]
A todas estas manifestações e ofícios de Jesus, que ele quis compartilhar conosco, poderíamos aplicar a expressão de Yves Simoens, comentando o caráter esponsalício de Jesus: “Cristo é, sim, o único esposo, mas não num esplêndido isolamento”[13] (destaque meu). Com efeito, Cristo é a única luz do mundo, o único sacerdote, o único mediador… “mas não num esplêndido isolamento”. Poderia tê-lo sido, é claro, mas seus planos foram outros: quis fazer-nos participantes de sua vida e de sua missão.
Passemos agora a ver em concreto o tema que motivou o presente trabalho, a saber, 1Tm 2,5, tendo já assinalado as chaves para uma justa interpretação. Isto é, não poderemos ser nós, “em Cristo”, mediadores entre Deus e os homens, assim como somos também em Cristo “deuses”, “pais”, “justos”, “mestres”, “luz do mundo”, “bispos”, “fundamento”, etc. etc. etc.? Mais ainda, não só devemos perguntar-nos se “podemos” chamar-nos e ser “mediadores”, mas antes se acaso não “devemos” sê-lo… Tudo depende do plano de Deus, de sua vontade, e não do que nos parece a nós.
Cristo, único mediador entre Deus e os homens
Antes de tudo, o que é ser “mediador”? Uma vez mais, recorremos ao dicionário da Real Academia Espanhola; “mediar” é, segundo essa fonte, “interceder ou rogar por alguém. Interpor-se entre dois ou mais que brigam ou contendem, procurando reconciliá-los e uni-los em amizade. Existir ou estar uma coisa no meio de outras”. O termo mesmo não produz grande dificuldade, e entende-se em geral de imediato: “mediador” é quem está entre duas ou mais pessoas, oferecendo sua pessoa para fazer como que de ponte entre elas, sobretudo se estas estão em conflito.
A palavra que se usa em 1Tm 2,5 é “mesités”, que fora do nosso texto aparece, no Novo Testamento grego, em Gl 3,19.20; Hb 8,6; 9,15; 12,24. Nas passagens de Hebreus o termo aparece sempre junto a “aliança”: Jesus é o “mediador da nova aliança”, em contraposição a Moisés e aos anjos, mediadores da antiga aliança.
É interessante a presença de “homem” na formulação de Paulo: o único mediador entre Deus e os homens é “o homem Cristo Jesus”: é precisamente como homem que Jesus é capaz de interceder por nós. Esta observação de Paulo foi entendida por alguns como querendo excluir a Igreja do ofício de mediador; em outras palavras: “Cristo é a cabeça do corpo, que é a Igreja” (Cl 1,18), mas seu ofício de mediador pertence só a ele como homem, não como cabeça do corpo. Que dizer desta leitura?
Na minha opinião nos encontramos com uma exegese do texto que deixa bastantes dúvidas. Devemos perguntar-nos: era essa a ideia de Paulo? Quando escreveu em sua carta que o único mediador é “o homem Cristo Jesus”, pretendia com isso excluir a Igreja desse ofício? Consultando vários comentadores, tanto protestantes como católicos, todos coincidem no mesmo: o que Paulo quer sublinhar com o uso do termo “homem” é que Jesus é verdadeiro homem, contra o que sustentavam os hereges docetas[14], a saber, que Jesus tinha uma aparência humana mas não era verdadeiramente homem. Paulo está sublinhando que é Jesus, verdadeiro homem e não só aparentemente, o mediador entre Deus e os homens. Não há nenhum motivo, nem no texto nem no contexto, para interpretá-lo em contraposição à Igreja, salvo o motivo “fundamentalista”, a saber, querer excluir a doutrina da participação da Igreja no ofício mediador de Jesus. Vejamos alguns comentadores.
B. Witherington III explica assim a presença do termo “homem” em 1Tm 2,5[15]:
O que quer dizer Paulo quando afirma que a graça vem a nós –assim como a ressurreição e a reconciliação– por meio de um homem? O pecado era um problema humano que podia resolver-se em favor da humanidade só mediante um ser humano. Alguns podem pensar que a eficácia da salvação da humanidade se devesse a Jesus como ser divino; ao contrário, Paulo aqui quer acentuar o oposto: se Jesus não fosse homem verdadeiro, a humanidade não teria recebido a graça, a ressurreição, ou –como o fazem notar Colossenses e Efésios– a reconciliação. De fato o evento extraordinário é precisamente que o homem Jesus morreu e ressuscitou: Deus, prescindindo do mistério da encarnação, não está sujeito à morte. (…) Resumindo, para que a salvação chegasse aos homens e os resgatasse, devia ser mediada por um que compartilhasse a humanidade.
O Vocabulário de Teologia Bíblica de Xavier Léon-Dufour[16], entre outras muitas considerações, faz o seguinte comentário, sob o termo “mediador”:
O fato de Cristo ser o único mediador não significa que tenha terminado o papel dos homens na história da salvação. A mediação de Jesus reveste aqui embaixo sinais sensíveis: são os homens, aos quais Jesus confia uma função para com sua Igreja; inclusive na vida eterna Jesus Cristo associa, de certa maneira, à sua mediação os membros de seu corpo que entraram na glória. (…) Os que desempenham (as funções dos apóstolos durante a história da Igreja, n.d.r.) não são, propriamente falando, intermediários humanos com uma missão idêntica à que tiveram os mediadores do AT; não acrescentam uma nova mediação à do único mediador: não são senão os meios concretos utilizados por este para chegar aos homens. (…) Evidentemente, esta função cessa uma vez que os membros do Corpo de Cristo se reuniram com sua cabeça em sua glória. Mas então, com respeito aos membros da Igreja que ainda lutam na terra, os cristãos vencedores exercem ainda uma função de outra índole. Associados à realeza de Cristo (Ap 2,26s; 3,21; cf. 12,5; 19,15), que é um aspecto de sua função mediadora, apresentam a Deus as orações dos santos daqui embaixo (5,8; 11,18), que são um dos fatores do fim da história.
Comentando o papel dos “sacerdotes” no livro do Apocalipse, os comentadores tampouco duvidam de chamar os cristãos “mediadores”, já que o ofício sacerdotal, explicitamente atribuído aos crentes em Jesus (ver Apocalipse 1,6; 5,10 e 20,6), não é outra coisa que um ofício de mediação entre Deus e os homens. Citamos alguns exemplos (destaque sempre meu):
Os cristãos compartilham a autoridade do rei dos reis, constituindo-se em mediadores sacerdotais no mundo da humanidade.[17]
O grego “hieréis” –sacerdotes– aparece em oposição a “basiléian” –reino– e sublinha o papel mediador dos crentes em sua consagração ao serviço de Deus.[18]
… os membros do novo Israel, em virtude de sua incorporação pelo batismo a Cristo, Sacerdote e Rei (cf. Ex 19,6; Is 61,6; 1Pd 2,9) convertem-se também eles em mediadores da Nova Aliança.[19]
Como se vê, não é que estamos inventando uma interpretação para justificar tradições humanas: muita gente, conhecedora do texto bíblico e de vida cristã, afirma que as Escrituras ensinam que os cristãos são mediadores, por participar do ofício sacerdotal, profético e real de Jesus Cristo.
O ofício próprio do mediador
Se podemos atribuir a um mediador um ofício que lhe seja próprio, que o defina como mediador, penso que todos estarão de acordo em que este seja a intercessão em favor de alguém. Recordemos que o dicionário nos dava, para o verbo “mediar”, a definição “interceder ou rogar por alguém”.
Nas Escrituras, Cristo aparece como nosso grande intercessor (grego para “interceder”: entunjano), como também o Espírito Santo. Com respeito a Jesus, Rm 8,34 é um texto particularmente forte:
Quem é o que condena? Cristo Jesus é o que morreu, sim, mais ainda, o que ressuscitou, o que além disso está à direita de Deus, o que também intercede (entunjanei) por nós.
Não menos forte e belo Hb 7,25:
Por isso Ele (Jesus) também é poderoso para salvar para sempre os que por meio Dele se aproximam de Deus, pois vive perpetuamente para interceder (entunjanein) por eles.
De modo que é claro que Jesus “intercede” por nós, ofício que é próprio do mediador, e o faz neste mesmo momento, enquanto escrevo estas palavras ou enquanto o amável leitor as lê. Ora, segundo as Escrituras, é só Jesus que intercede por nós?
Deixando de lado o ofício do Espírito Santo, apresentado, como vimos, como intercessor, encontramos na Palavra de Deus que também os homens são intercessores diante de Deus em favor de seus irmãos[20]. Vejamos algumas passagens, sabendo que há muitas outras com um conteúdo similar.
Paulo não hesita em expressar sua oração por seus irmãos hebreus, e pelos crentes:
Irmãos, o desejo do meu coração e a minha oração a Deus por eles (os hebreus) é para a sua salvação (Rm 10,1)
…enquanto que também eles (os demais crentes), mediante a oração em vosso favor, demonstram seu anelo por vós devido à sobreabundante graça de Deus em vós (2Cor 9,14)
…com toda oração e súplica orai em todo tempo no Espírito, e assim, vigiai com toda perseverança e súplica por todos os santos (Ef 6,18)
Portanto, confessai os vossos pecados uns aos outros, e orai uns pelos outros para que sejais curados. A oração eficaz do justo pode muito (Tg 5,16)
Ora, o que é orar em favor de alguém, senão interceder por ele?
Paulo manda orar uns pelos outros:
Rogo-vos, irmãos, por nosso Senhor Jesus Cristo e pelo amor do Espírito, que vos esforceis juntamente comigo em vossas orações a Deus por mim (Rm 15,30)
E no contexto do nosso versículo (1Tm 2,5) encontramos este mandamento de Paulo:
Exorto, pois, antes de tudo que se façam rogativas, orações, intercessões (gr. enteuxeis, de entjuno, interceder) e ações de graças por todos os homens (1Tm 2,1)
Notemos nesta passagem que Paulo usa a mesma palavra (substantivada: “enteuxeis”, “intercessões”) que se usa em Hebreus para dizer que Jesus está sempre vivo para “interceder” (“entunjanein”) por nós. Pensemos um momento: se Jesus está intercedendo por mim neste momento, para que então as “intercessões” que Paulo pede? Não são detalhes acidentais e de pouca importância, como se pode ver.
Poderíamos pensar também no conceito paulino de “embaixadores de Cristo” de 2Cor 5,20? O que é um embaixador, senão um mediador entre o “rei” e os demais? Tem Jesus necessidade de embaixadores-mediadores entre ele e nós? Muitos cristãos não católicos martelam sobre este ponto, a saber, que eles vão diretamente a Cristo, ao passo que nós o faríamos “por mediação de” outros (Maria, os Santos). Mas então, para que “embaixadores de Cristo”? Não poderia Jesus comunicar-se diretamente a nós, ou então usar de seus anjos? Para além de como cada um o explique, há uma verdade profunda, e é a que estamos tratando de deixar clara: a única mediação de Jesus não deve entender-se no sentido em que o fazem muitos cristãos não católicos, a saber, negando a possibilidade e inclusive a necessidade de que todos intercedam e medeiem uns pelos outros diante de nosso Pai celestial.
Deixando Paulo, temos um texto muito belo da Igreja que intercede por Pedro na prisão, como o lemos no capítulo 12 dos Atos dos Apóstolos:
Pedro era custodiado na prisão, mas a igreja fazia oração fervorosa a Deus por ele (Atos 12,5)
Não era suficiente a intercessão de Jesus por Pedro? Por que oravam por ele também os cristãos? Sabemos a resposta: a intercessão de Jesus não exclui outras intercessões, mas, ao contrário, as supõe, pois Ele quis fazer-nos participantes de sua obra salvadora, isto é, de seu ofício de mediador.
No livro do Apocalipse notamos a presença de orações dos santos, apresentadas a Deus por outros intermediários, os anjos:
Veio outro anjo e pôs-se diante do altar com um incensário de ouro, e deu-se-lhe muito incenso para que o acrescentasse às orações de todos os santos sobre o altar de ouro que estava diante do trono. E da mão do anjo subiu diante de Deus a fumaça do incenso com as orações dos santos (Ap 8,3-4)
Qual é o papel das orações dos santos? Trata-se de uma superficialidade, ou são necessárias?
Haveria tantas passagens para comentar, mas detemo-nos aqui. Chegados a este ponto, o crente não católico deve fazer a reflexão: como pode ser que Jesus, sempre vivo para interceder por nós, aceite outros intercessores, sejam eles homens ou anjos? Acaso não é suficiente a intercessão de Jesus? De que servem as orações de Paulo ou dos santos ou de qualquer crente em favor de seus irmãos? O que acrescenta a oração do justo à oração de Jesus em favor nosso? Acaso não é totalmente inútil, e inclusive blasfemo, interceder por um irmão diante de Deus, sendo que Jesus está sempre vivo para interceder por nós? (Hb 7,25).
Mas então… o que significa na realidade a unicidade de Cristo como mediador?
A esta altura mais de um pode perguntar: mas então, em que consiste a sentença paulina que declara Cristo ÚNICO mediador entre Deus e os homens? Acaso este discurso “católico” não faz senão anular a Palavra de Deus? Porque se a Palavra diz que Jesus é o único mediador, por que não aceitá-lo como está escrito claramente e basta?
A resposta à segunda parte da pergunta está em tudo o que dissemos até agora: a unicidade de Cristo, como vimos, não exclui a nossa participação em sua obra salvadora. E isto o vimos na própria Palavra de Deus.
Para que ninguém tenha a menor dúvida, fique muito claro ao leitor que com efeito Jesus É O ÚNICO MEDIADOR, e não há nenhum outro nome debaixo do céu pelo qual os homens possam ser salvos (Atos 4,12).
A que se refere pois 1Tm 2,5? O que queria deixar bem claro Paulo?
O contexto explica o significado verdadeiro da expressão: exclui outros caminhos, outros sacrifícios salvíficos, outros sistemas de salvação que não sejam Ele.
Cito aqui uns parágrafos do documento da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé Dominus Iesus, que fala todo ele precisamente deste tema! Rogo ao leitor que leia estas linhas com atenção: dir-me-á depois se não afirma a Igreja Católica a exclusividade da mediação de Cristo, e em que sentido o afirma (o que vai em negrito é sempre destaque meu):
É também frequente a tese que nega a unicidade e a universalidade salvífica do mistério de Jesus Cristo. Esta posição não tem nenhum fundamento bíblico. Com efeito, deve ser firmemente crida, como dado perene da fé da Igreja, a proclamação de Jesus Cristo, Filho de Deus, Senhor e único salvador, que no seu evento de encarnação, morte e ressurreição levou a cumprimento a história da salvação, que tem nele a sua plenitude e o seu centro.
Os testemunhos neotestamentários certificam-no com clareza: «O Pai enviou o seu Filho como salvador do mundo» (1Jo 4,14); «Eis o cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo» (Jo 1,29). Em seu discurso diante do sinédrio, Pedro, para justificar a cura do paralítico de nascença realizada no nome de Jesus (cf. Atos 3,1-8), proclama: «Porque não há debaixo do céu outro nome dado aos homens pelo qual devamos ser salvos» (Atos 4,12). O mesmo apóstolo acrescenta ainda que «Jesus Cristo é o Senhor de todos»; «está constituído por Deus juiz dos vivos e dos mortos»; pelo que «todo o que crê nele alcança, por seu nome, o perdão dos pecados» (Atos 10,36.42.43).
Paulo, dirigindo-se à comunidade de Corinto, escreve: «Pois ainda que se lhes dê o nome de deuses, quer no céu quer na terra, de forma que há multidão de deuses e de senhores, para nós não há mais que um só Deus, o Pai, do qual procedem todas as coisas e para o qual somos; e um só Senhor, Jesus Cristo, por quem são todas as coisas e pelo qual somos nós» (1Cor 8,5-6).
Também o apóstolo João afirma: «Porque Deus amou de tal modo o mundo que deu o seu Filho único, para que todo o que crê nele não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus não enviou o seu Filho ao mundo para julgar o mundo, mas para que o mundo se salve por ele» (Jo 3,16-17). No Novo Testamento, a vontade salvífica universal de Deus está estreitamente conectada com a única mediação de Cristo: «[Deus] quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento pleno da verdade. Porque há um só Deus, e também um só mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem também, que se entregou a si mesmo como resgate por todos» (1Tm 2,4-6).
Baseados nesta consciência do dom da salvação, único e universal, oferecido pelo Pai por meio de Jesus Cristo no Espírito Santo (cf. Ef 1,3-14), os primeiros cristãos dirigiram-se a Israel mostrando que o cumprimento da salvação ia além da Lei, e afrontaram depois o mundo pagão de então, que aspirava à salvação através de uma pluralidade de deuses salvadores. Este patrimônio da fé foi proposto uma vez mais pelo Magistério da Igreja: «Crê a Igreja que Cristo, morto e ressuscitado por todos (cf. 2Cor 5,15), dá ao homem sua luz e sua força pelo Espírito Santo a fim de que possa responder à sua máxima vocação e que não foi dado debaixo do céu à humanidade outro nome no qual seja possível salvar-se (cf. Atos 4,12). Igualmente crê que a chave, o centro e o fim de toda a história humana se encontra em seu Senhor e Mestre».
Deve ser, portanto, firmemente crido como verdade de fé católica que a vontade salvífica universal de Deus Uno e Trino é oferecida e cumprida uma vez para sempre no mistério da encarnação, morte e ressurreição do Filho de Deus.[21]
Esta é doutrina da Igreja Católica. É claro que aqui se afirma, sem sombra de dúvida, que Jesus é o único mediador entre Deus e os homens, e que não há nenhum outro. E quem não creia isto simplesmente não é católico. Esse é o sentido, segundo a Igreja, das palavras de Paulo. Ou para torná-lo ainda mais claro: o que Paulo está dizendo é que nem o Gnosticismo, nem Confúcio, nem Buda, nem Maomé, nem a New Age, nem o Dr. Moon, nem a meditação transcendental, nem o nirvana, nem a ginástica Yoga, nem o espiritismo, nem a ideologia comunista, nem a nazista, nem o liberalismo, nem nenhuma outra criatura do passado, do presente ou do futuro, jamais pode ter-se como mediador entre Deus e os homens, senão só Jesus Cristo, e NELE toda a Igreja, que é inseparavelmente seu corpo, e que é de Cristo “sua plenitude” (Ef 1,23). Repetimo-lo uma vez mais: as mediações dos cristãos uns pelos outros são feitas em Cristo, e portanto não é isto o que Paulo quer excluir; ao contrário, ele mesmo as pede (como vimos mais acima).
A mediação dos santos
Quando os católicos invocam a intercessão de Maria ou dos santos, fazem o mesmo que faz um cristão quando pede a outro que ore por ele. Na realidade, quando os irmãos evangélicos “oram” por alguém, estão fazendo de mediadores entre Deus (a quem dirigem a oração) e a pessoa (em favor da qual oram). Estou enganado? Se não estão exercendo o ofício de mediação (mediar é “interceder” por alguém), que estão fazendo?
A mediação que exerce um cristão quando ora por outro (seja entre os vivos, seja da parte de quem “está com Cristo”, os santos, em favor nosso) é uma mediação EM CRISTO, não à margem dele nem paralela à mesma. Este ofício de mediadores não anula a única mediação de Jesus, pois a nossa é uma mediação participada da ÚNICA mediação de Cristo, ao modo como a lua irradia uma luz que não é sua, mas do sol. Toda a primeira parte deste artigo foi dedicada a demonstrar precisamente como nas Escrituras há muitas qualidades atribuídas exclusivamente a Deus que depois se atribuem também aos crentes.
Com respeito à mediação dos santos (cristãos que já estão com Cristo), o Catecismo da Igreja Católica (956) ensina:
Pelo fato de os do céu estarem mais intimamente unidos com Cristo, consolidam mais firmemente toda a Igreja na santidade… não deixam de interceder por nós junto do Pai. Apresentam, por meio do único Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, os méritos que adquiriram na terra… A sua solicitude fraterna ajuda, pois, muito a nossa fraqueza.
Por incrível que pareça, tantos cristãos pensam que um crente, enquanto estava vivo, podia orar ao Pai por outro irmão, mas uma vez que morre e está com o Senhor (cf. Fl 1,23; 2Cor 5,8)… já não pode orar mais! Deus, que é um Deus de vivos, não de mortos, e para o qual todos vivem, não permitirá que o amor continue a interceder pela pessoa amada? É sequer pensável algo semelhante? Acaso a morte nos pode separar de Cristo?
Uma palavra em particular para a mediação de Maria, a Mãe de Jesus, que aos pés da cruz recebeu de seu Filho o encargo de ser mãe de todos os crentes[22]. Diz o Catecismo da Igreja Católica, número 970:
A missão maternal de Maria para com os homens de nenhuma maneira diminui ou faz sombra à única mediação de Cristo, mas manifesta a sua eficácia. Com efeito, todo o influxo da Santíssima Virgem na salvação dos homens… brota da sobreabundância dos méritos de Cristo, apoia-se na sua mediação, depende totalmente dela e dela tira toda a sua eficácia”. “Nenhuma criatura pode ser posta jamais no mesmo plano com o Verbo encarnado e Redentor. Mas, assim como no sacerdócio de Cristo participam de diversas maneiras tanto os ministros como o povo crente, e assim como a única bondade de Deus se difunde realmente nas criaturas de distintas maneiras, assim também a única mediação do Redentor não exclui, mas suscita nas criaturas uma colaboração diversa que participa da única fonte.
A mediação angélica
E que pensar da ação dos anjos? Se Jesus é o único mediador ao modo como o entendem tantos irmãos não católicos, que lugar ocupam os anjos, que “estão a serviço dos que serão salvos”? (Hb 1,14) Não é uma “mediação” a dos anjos? No Apocalipse aparecem oferecendo a Deus as orações dos santos… A participação deles na obra da salvação tira exclusividade à única mediação de Cristo? Devemos rejeitar a ajuda dos anjos em nome da única mediação de Cristo? Cristo quer servir-se dos anjos para nos favorecer em nossa salvação; vamos dizer nós que não necessitamos deles, porque vamos diretamente a Deus?
Apocalipse 8,3-4 apresenta as orações dos santos levadas a Deus mediante os anjos. A pergunta que nos fazemos é: tem Cristo, o Cordeiro degolado, necessidade de outros mediadores entre Deus e os homens? Incomoda-se Jesus com os anjos que lhe apresentam as orações a Deus? Claro que não, porque se os anjos podem ser de algum modo mediadores, isso é possível só graças à mediação de Jesus; a mediação angélica, com efeito, seria absolutamente ineficaz sem a salvação que nos conseguiu Cristo e só Cristo. Mas em Cristo a obra dos anjos é eficaz para conosco, como é eficaz a oração do justo (carta de Tiago), e certamente que se está falando de uma mediação de salvação: eles estão postos a serviço “dos que se salvam”.
Conclusão
A solução de fundo com respeito a este assunto está na indissolúvel união entre o crente e Cristo, que a Igreja Católica compreendeu, viveu e desenvolveu durante sua já longa história, e que uma mentalidade fundamentalista não pode compreender. Quando Jesus se aproxima de “sua hora” e fala com o coração na mão, ouvem-se palavras como estas, uma e outra vez: “Eu em vós, vós em mim” (ver João 13–17). “Já não sou eu, é Cristo que vive em mim”, dirá Paulo. Que Cristo vive em Paulo? O Cristo Filho, o Cristo fundamento, o Cristo mediador, o Cristo sacerdote, o Cristo pastor, o Cristo mestre, etc. EM CRISTO e POR CRISTO Paulo e o crente são também fundamento, filhos, mediadores, sacerdotes, pastores, mestres, pais, luz, etc.
Para Paulo isto era algo que havia experimentado desde seu primeiro contato com o Senhor, quando no caminho a Damasco “e ao cair por terra, ouviu uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues?; e ele disse: Quem és, Senhor? E Ele respondeu: Eu sou Jesus a quem tu persegues” (Atos 9,4-5). Paulo perseguia Jesus? Mas se Jesus estava morto, e Paulo não cria na ressurreição! Por que diz Jesus “ME” persegues? Por que não diz: “persegues a Igreja” ou “persegues meus discípulos”? Não será talvez porque Cristo já não é mais separável de seu Corpo, a Igreja?
Como a videira e os ramos: “quem permanece em mim e eu nele, esse dá muito fruto”, “e fará obras maiores” que as de Jesus (João 15,2). Obras maiores que as de Jesus?
E que dizer do “quem vos ouve, a mim me ouve, quem vos rejeita, a mim me rejeita”? (Lc 10,16) Damo-nos conta do peso desta “interdependência” entre Jesus e seus apóstolos? Não superficializamos sua interpretação?
Na minha opinião, o problema principal de uma interpretação pequena e “conflitiva” da Escritura, como sucede com o fundamentalismo cristão, não é algo de pouca monta. Quem tenha esta visão do evangelho fecha-se à possibilidade de viver em plenitude o dom de Cristo. É importante aceitar a mensagem evangélica em toda a sua plenitude, e não ficar a uma certa distância. Se Jesus quer fazer-nos um com ele, não podemos contentar-nos com nenhuma outra coisa, senão com ser um com ele. Errando no entender as Escrituras e o poder de Deus, erramos “gravemente” (Mc 12,27). Não são minúcias, discussões sem importância: negar-se a receber a mensagem de Cristo tal como o Pai a pensou faz que o crente se autoexclua da comunicação que Deus quer fazer-lhe de si mesmo. Não basta “não estar longe do Reino de Deus” (Mc 12,34), mas há que “entrar” (Mt 23,13). Segundo o quarto evangelho, o crer não é nunca uma mera profissão de fé, um “aceitar” Jesus como salvador uma vez para sempre e estar assim “salvo irreversivelmente”, mas trata-se de um “viver a filiação divina” até as últimas consequências, totalmente, vivendo em comunhão inseparável com Jesus, até dar a vida se for necessário. Jesus e o crente, poder-se-ia dizer, são “uma só coisa” (ver por exemplo João 14,20; 15,4-9)[23]. E não somente com Jesus, mas que, formando com ele um só corpo, somos também “membros uns dos outros” (Rm 12,4-5).
Espero que o leitor católico tenha encontrado bom material para aprofundar sua fé. Com respeito ao leitor não católico, não sei se este artigo o convencerá do que cremos, mas ao menos lhe dará material para pensar. Ainda que não compartilhe nossa doutrina, terá que reconhecer que os textos bíblicos que citamos estão aí, e falam de que Deus quis fazer-nos participantes de seu ofício de mediador.
Resta tão somente esperar que o Espírito Santo continue o trabalho, pois em verdade é Ele o verdadeiro mestre interior.
Autor: Pe. Juan Carlos Sack
Fonte: Apologetica.org
Notas
- A grande questão será sempre esta: Quem interpretará corretamente o que está na Bíblia? Muitos apressam-se a dizer: “o Espírito Santo”… Soa belo, mas na realidade isso dá pé às tantas crenças distintas e em grande medida contrapostas das denominações fundamentalistas, não por culpa do Espírito Santo, mas de quem se creem os verdadeiros intérpretes das Escrituras. Enquanto escrevo estas linhas, alguma “igreja” cristã não católica está se dividindo, lamentavelmente, e sem dúvida tanto uns como outros o fazem porque “o Espírito Santo lhes pôs no coração” tal coisa ou tal outra. Já o dizia Lutero, bastante desanimado alguns anos depois de suas famosas “95 teses”: “Há quase tantas seitas e crenças como cabeças; este não admite o Batismo; aquele rejeita o Sacramento do altar; um terceiro diz que há um mundo intermédio entre o presente e o dia do juízo; não falta quem ensine que Jesus Cristo não é Deus. Não há ninguém, contudo, por mais bufão que seja, que não afirme que ele está inspirado pelo Espírito Santo, e que não considere como profecias seus sonhos e desvarios” Por que sucede isto, se a Palavra de Deus é UMA? Ninguém duvida que a Bíblia seja “infalível” e que seja a Palavra de Deus, mas… é infalível também a interpretação que dela dará cada cristão, baste que creia que vem do Espírito Santo? De todo modo, isso é tema de outros artigos, já presentes em Apologetica.org. ↩
- São muitos os católicos que provêm de comunidades cristãs fundamentalistas, e não poucos os que consideravam a Igreja Católica a personificação do Anticristo. Mas o que a estes caracterizava particularmente era que não haviam perdido a capacidade de pensar nem a disposição a seguir a verdade custe o que custar, o que ao fim de contas significou a diferença. Oxalá que o amável leitor pertença a este grupo; se é assim, creio que lhe interessará este artigo. ↩
- Penso em concreto em DS, por exemplo, que afirma que conhece o catolicismo, já que viveu nele “durante 32 anos”. Mas segundo suas palavras “a ideia de Deus que me haviam transmitido era a daquele velhinho bom de barba branca que está sentado no Trono do Céu, que nos quer e nos espera. Nunca me ensinaram Sua Majestade, Sua Soberania, Sua Autoridade Suprema sobre o bem e o mal…” Julgará o leitor se DS conhece o catolicismo. Se no catolicismo ensinam que Deus não é Soberano ou não tem autoridade sobre o mal, não só DS, mas todo o mundo teria que sair correndo de semelhante Igreja. Supondo que seja verdadeiro o que este irmão diz, sem dúvida nenhuma haverá que recriminar seus catequistas e sacerdotes (e em primeiro lugar seus pais) por lhe haverem transmitido uma mensagem NÃO católica. De todo modo, o fato de a Igreja passar por momentos de crise em determinados lugares e períodos não a desqualifica como igreja verdadeira. Recordemos o que aconteceu com o povo de Israel: praticamente TODA a sua vida foi infiel a Javé, com idolatrias, homicídios, injustiças, adultérios… e um longo etc.; deixou por isso de ser o povo eleito? Não. Deixam de ter valor os ensinamentos do Antigo Testamento? Não. Assim também com a Igreja. E atenção: os católicos temos 2000 anos de existência, e trata-se de mil milhões de pessoas na data de hoje: devemos esperar que todos e sempre sejam um são Paulo? Oxalá! Neste sentido as denominações fundamentalistas não têm uma longa história, nem uma igreja visível que se possa “recriminar” por nada, nem pastores visíveis que se façam responsáveis pelos fatos. Deste modo podem passar por “justos”, sempre e em todo lugar; de fato, uma das armas que se esgrimem contra a Igreja Católica são os “pecados” históricos dos católicos, fazendo ouvidos moucos aos já repetidos pedidos de perdão por parte do Papa João Paulo II, e sobretudo escudando-se numa realidade que, finalmente, lhes é contrária: eles não são recrimináveis precisamente porque não existiam em muitos dos séculos da história da Igreja. A Igreja Católica nunca proclamou que era impecável, de modo que os católicos não nos assustamos com a presença do joio no campo do Senhor. Lc 18,10-14 é também parte da mensagem evangélica. ↩
- Há pouco um TJ me recriminava: “Diga-me o senhor quando a Igreja Católica se dedicou a pregar o evangelho… e quando sofreu perseguição” Nem é preciso dizer que não podemos perder tempo respondendo semelhantes mensagens. Por respeito aos milhões de católicos missionários e mártires. ↩
- Apressamo-nos a dizer que tanto a analogia como a participação, na realidade, são elementos da vida e da linguagem cotidianas, que simplesmente foram estudados e aprofundados por grandes pensadores, para proveito de todos. Não estamos falando de nenhuma invenção filosófica estranha: quem não aceite a ideia de analogia ou de participação não poderia sequer falar com o seu vizinho. Ficará mais claro ao avançar a explicação. ↩
- Alguém dirá que estou levando água para o meu moinho, fazendo uma interpretação “católica” e “forçada” do texto. Para provar que isto não é assim, transcrevo o comentário de Andrew T. Lincoln, protestante, em sua obra sobre a carta aos Efésios, publicada na prestigiosa coleção “Word Biblical Commentary”, apenas como amostra de que não estou me movendo por critério pessoal e cego. Assim escreve este autor: (em síntese, para quem não leia o inglês, diz exatamente o mesmo que eu disse acima, a saber, que aqui os apóstolos não põem o fundamento, mas eles mesmos são o fundamento): “The apostles and prophets are no longer seen as those who lay the foundation of Christ or who build upon it but as the foundation itself. Some have taken the genitive as a subjective genitive, “the foundation laid by the apostles and prophets” (e.g., Meyer, 142; neb; gnb), but such an interpretation, which is sometimes motivated by the desire to harmonize Eph 2:20 with 1 Cor 3:11, introduces total confusion into the writer’s use of metaphor, because it makes Christ both the foundation and the keystone. With the vast majority of commentators we should take the genitive as appositional, i.e., the foundation which the apostles and prophets constitute” (destaque meu). Como Lincoln afirma, a grande maioria de comentadores (de todos os credos) interpreta esta passagem como o fazemos nós. ↩
- Uma curiosidade: em todas as versões inglesas, a palavra “hedráioma” –que aqui traduzimos com “sustentáculo”– é traduzida com “foundation”, isto é, a mesma palavra que usam essas mesmas bíblias –protestantes e católicas– para 1Cor 3,11; em outras palavras, para todo o mundo anglófono, seja católico ou protestante, Cristo é “foundation” –1Cor 3,11– e a Igreja é “foundation” –1Tm 3,15. ↩
- Em filosofia, esse modo de ver as coisas chama-se determinatio ad unum; um bom exemplo é o próprio Lutero. Ele pensava que a carta de Tiago era “de palha”, e que o Apocalipse não revelava nada, e que Hebreus não leva a Cristo…, porque havia descoberto fortemente a verdade da salvação pela fé (a árvore), mas esquecendo o resto das Escrituras (a floresta), de tal modo que o que não coadunava com sua visão das coisas declarava “doutrina de palha”, “lixo papista”, etc. etc. etc. Agora muitos cristãos o justificam e o consideram como um herói, desculpando-lhe todos os seus erros (como as publicações de Chick, ou En la Calle Recta, etc.), mas não creio que isso seja ser amigos da verdade. Se o monge alemão houvesse conservado sua visão católica, teria podido ser um grande reformador, verdadeiro, sem necessidade de descartar livros inteiros do Novo Testamento. Por graça de Deus, o Concílio de Trento declarou dogmaticamente que tanto Hebreus como Apocalipse, como todas as cartas de João, como Tiago, eram Palavra de Deus tanto como o resto, e não “de palha”, como pensava o “reformador”. ↩
- Assim o entendia um evangélico, que ante meu questionamento me respondeu: “E bem, Paulo não é Deus, pôde ter-se enganado, lá ele; eu sigo as palavras de Jesus e não chamo ninguém de ‘pai’”. Que leva um cristão a pensar assim? ↩
- Lo starets Ignazio, Lipa Edizioni, Roma (2000), pp. 8-10. ↩
- Esta expressão de Paulo traz problemas a mais de um cristão, talvez porque receberam um evangelho distinto do de Paulo, e esta expressão, entre muitas outras, não coaduna nesse “evangelho”. Dizia-me um ex-cristão fundamentalista que ao menos em sua congregação jamais haviam pregado sobre esta e sobre outras passagens, por encontrá-las faltas de sentido. No caso desta última citação de Paulo, que pode faltar à paixão de Jesus? Falta a minha participação nos sofrimentos do Senhor, em benefício da Igreja. ↩
- Pensemos por exemplo na aparente oposição “salvação pela fé, sem as obras” de Paulo e a “salvação não só pela fé, mas também pelas obras” de Tiago; diante desta “contradição” Lutero declarou Tiago “carta de palha”. Outros preferem não aprofundar o tema, ou explicá-lo com tanto rebuscamento que finalmente se nega o que Tiago está dizendo. Uma vez alguém me disse: “o de Tiago é uma citação, ao passo que o de Paulo são muitas”… Cai de maduro que esta não é uma solução. Seguindo a Igreja Católica optamos por manter tudo o que está na Bíblia, e especialmente o que implica mais dificuldade, pois Deus é infinitamente maior do que podemos entender Dele, e os mistérios (e aparentes contradições) da revelação há que conservá-los, a menos que queiramos fazer-nos um Deus à nossa medida, como o fizeram os Mórmons, Testemunhas de Jeová, Moon, etc. ↩
- Em seu magnífico comentário ao evangelho de São João: “Selon Jean”, agora traduzido ao italiano. ↩
- Toda a carta de Paulo aos Colossenses, segundo a maioria dos comentadores, seria uma advertência contra a primitiva heresia dos docetas, que já se havia estendido nas comunidades apostólicas, vivendo ainda os apóstolos, como o demonstram também as cartas de João. ↩
- Em Dizionario di Paolo e delle sue Lettere, Milano (2000), 376. ↩
- Barcelona (1980), 518-523. ↩
- W. Harrington, Revelation, em Sacra Pagina, Collegeville (1993), 48. ↩
- R. Mounce, The Book of Revelation, em The New International Commentary of the New Testament, Grand Rapids (1998), 50. Numa nota da página 371, este autor protestante comenta: “Uma das palavras latinas para sacerdote é pontifex, isto é, ‘construtor de pontes’. O papel do sacerdote é estabelecer uma ponte entre Deus e a humanidade”. ↩
- M. Ford, Revelation, em The Anchor Bible, Garden City (1975), 378. ↩
- Esclareçamos que a oração que se faz a Deus e aquela que se faz a um santo são duas coisas radical e absolutamente diversas: quando se pede a intercessão de um santo, trata-se do mesmo caso de quem pede a um irmão aqui na terra “orar por ele”. Mas não podemos aqui tratar todos os aspectos do assunto. Remetemos aos ensinamentos do Catecismo da Igreja Católica a respeito da oração (isto é, a quarta parte das quatro em que está dividido o catecismo). ↩
- Números 13 e 14 da declaração. Pode-se baixar todo o texto deste belíssimo documento cristológico em www.apologetica.org/dominus_iesus.htm. ↩
- E para que deu a João outra mãe, se João já tinha uma? Teria registrado esse belo diálogo o autor, se se tratasse de uma eventualidade passageira e não teria relação com os cristãos de todos os tempos? ↩
- Veja-se o capítulo 12 da Primeira aos Coríntios, para uma compreensão mais profunda da unidade do corpo de Cristo, cabeça e membros. ↩