Imutabilidade das verdades de fé

“O céu e a terra passarão, mas minhas palavras não passarão.” (Mateus 24,35; Marcos 13,31; Lucas 21,33)

Um elemento essencial que distingue a doutrina cristã das demais religiões que existiram e que existem na atualidade é sua vigência permanente ao longo das distintas etapas da história.

Jesus Cristo ordenou a seus apóstolos “fazer discípulos de todas as nações… ensinando-os a guardar tudo o que eu vos ordenei” (Mateus 28,19-20), por isso a missão de seus seguidores é e sempre será manter a integridade e pureza de seus ensinamentos.

Se, como professa o Credo, Jesus Cristo é verdadeiramente Filho único de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos; se ao mesmo tempo quis fundar uma Igreja capaz de levar sua mensagem a todas as nações, com a qual prometeu permanecer todos os dias até o fim do mundo (Mateus 28,20), e sobre a qual as forças do mal não poderiam prevalecer (Mateus 16,18), sua doutrina não poderá ser corrompida ou adulterada, pois isso significaria que teria falhado em seu propósito. Deveria, pelo contrário, poder ser reconhecida e admirada, da mesma forma que se coloca uma lamparina sobre a mesa para que possa iluminar a todos (Mateus 5,15).

Todos os cristãos concordamos que Cristo fundou uma Igreja para ser sal da terra e luz das nações, desde sua primeira vinda até seu retorno (Romanos 1,5; Mateus 24,14; Romanos 16,26; 1 Coríntios 15,24-25). Por outro lado, se sua doutrina ou ensinamento é objetivamente verdadeiro, deveria sê-lo sempre, independentemente de que a humanidade em algum momento da história esteja em condições de reconhecê-lo. Exemplos temos nos dez mandamentos ou nas bem-aventuranças, as quais ao passar dos séculos têm mantido seu esplendor e vigência.

Desenvolvimento da doutrina cristã

No entanto, se estudamos a história da Igreja Católica e o desenvolvimento de sua doutrina ao longo de todos os séculos, é impossível não perceber que ela parece ter ido crescendo ou aumentando numa escala grandíssima. Para observar esse crescimento, inclusive em sua parte estritamente dogmática, basta comparar as elaboradas fórmulas dos Concílios Ecumênicos e o Magistério eclesiástico com os primeiros enunciados que encontramos na Sagrada Escritura.

Evidencia-se também a influência que tiveram nas definições dogmáticas as diversas civilizações e filosofias que tiveram contato com a cristandade. Entre elas podemos mencionar a filosofia grega na Era Patrística e a filosofia escolástica na Idade Média e Moderna.

Como explicar esse crescimento?

Das diferentes explicações que têm sido dadas a esse crescimento, abordarei brevemente apenas três das mais importantes.

O protestantismo tem aderido tradicionalmente à hipótese de que esse crescimento procede de uma corrupção da mensagem cristã na qual tradições criadas pelo homem foram sendo acrescentadas sobre a Palavra de Deus, da mesma maneira que nos tempos de Jesus o haviam feito as doutrinas dos fariseus (Mateus 15,1-9; Marcos 7,1-13; Colossenses 2,8). Segundo essa opinião, essa corrupção começou a infectar o cristianismo quando o Império Romano o adotou como religião oficial em razão da conversão do imperador Constantino. Fruto dessa evolução transformista de doutrina surge a Igreja Católica como a conhecemos hoje e que personifica a “Grande Prostituta de Babilônia” (Apocalipse 17), a qual seria para eles uma Igreja apóstata e traidora da mensagem cristã.

Como resultado de ter aderido a essa hipótese, o protestantismo, numa tentativa de voltar à pureza original da fé cristã, rejeitou todo desenvolvimento de doutrina não contido na Bíblia (Sola Scriptura).. As definições dos Concílios podem ser aceitas apenas se estiverem de acordo com a Escritura, ou na prática, se estiverem de acordo com a interpretação pessoal ou julgamento privado de cada crente. Daí que algumas denominações protestantes acentuem doutrinas definidas pela Igreja Católica, como a Trindade e a Encarnação, pois a seu ver estão contidas implicitamente na Escritura. Outras, no entanto, rejeitam também essas doutrinas, apegando-se ao mais estrito fundamentalismo bíblico.

O modernismo adotou uma solução bem distinta. Desde essa perspectiva, o dogma não conserva sempre o mesmo sentido, o conteúdo dogmático não está sujeito à invariabilidade dos dados objetivamente revelados por Deus, mas à contingência de fatores psicológicos e religiosos das pessoas. Desse ponto de vista, os dogmas são tão contingentes e mutáveis quanto as condições subjetivas que o homem admite, razão pela qual podem mudar de conteúdo e substância, fazendo com que as fórmulas dogmáticas possam ter ao longo da história sentidos distintos e até opostos[1].

Do ponto de vista católico, ambas as soluções sempre foram inadmissíveis:

A protestante porque nega a indefectibilidade da Igreja. Cristo teria falhado em fundar uma Igreja que mantivesse e transmitisse a pureza de sua mensagem, deixando a humanidade na escuridão por mais de um milênio. Se fosse esse o caso, as forças do mal teriam prevalecido sobre a Igreja, pelo menos em relação às vidas de todos aqueles que viveram durante mais de dez séculos de história cristã.

A modernista porque é essencialmente relativista. O relativismo é o conceito que sustenta que os pontos de vista não têm verdade nem validade universal, mas apenas uma validade subjetiva e relativa aos diferentes marcos de referência. No âmbito moral, o relativismo sustenta que não há bem ou mal absolutos, mas dependentes das circunstâncias concretas. Na prática, algo que é mau hoje poderia vir a ser bom e admirável no futuro, ou até na mesma época, dependendo do “cristal” com que se olhe.

As teses modernistas foram condenadas pelo Papa Pio X na encíclica Pascendi dominici gregis, em 8 de setembro de 1907, assim como também pelo Juramento Antimodernista[2], prescrito pelo mesmo pontífice. A perspectiva católica admite um desenvolvimento da doutrina cristã como um crescimento em profundidade e clareza do entendimento das verdades da divina revelação. Dessa perspectiva, as verdades substanciais ou essenciais no núcleo de cada doutrina (como parte do único depósito, dado por Cristo aos apóstolos) permanecem imutáveis, sendo a Igreja Católica quem preserva o depósito e é sua guardiã.

Esse crescimento é o resultado das reflexões piedosas da Igreja, do estudo teológico e, muitas vezes, da investigação (frequentemente ocasionada pelos combates contra a heresia), da experiência prática e da sabedoria coletiva dos bispos da Igreja e do Papa, especialmente quando acompanhados de um Concílio Ecumênico.

Esse conceito foi amplamente desenvolvido por John Henry Newman em seu ensaio sobre o desenvolvimento da doutrina cristã e está muito bem analisado na obra do sacerdote Francisco Marín Sola O.P. intitulada La Evolución homogénea del Dogma católico, publicada pela B.A.C.

Nesta obra preferi utilizar o termo desenvolvimento em lugar de evolução, pois concordo que reflete melhor a ideia de que o dogma não evolui de maneira transformista (mudando de sentido), mas homogênea (mantendo sempre seu sentido original) explicitando cada vez mais o que sempre fez parte do depósito da fé.

Ao longo do estudo dos textos cristãos primitivos, haverá oportunidade suficiente para que o próprio leitor julgue se o crescimento de doutrina ao qual fazemos referência procede de um desenvolvimento homogêneo ou de uma evolução transformista, como opinam protestantes e modernistas.

  1. Francisco Marín Sola O.P., La evolución homogénea del dogma católico, BAC, Madrid MCMLII, p. 5
  2. Ao final desta obra, no Apêndice, reproduziu-se na íntegra o Juramento Antimodernista.