Prossigo com o debate entre Alejandro Bermúdez e minha pessoa sobre o tema de se Deus castiga ou não. Esta é a primeira parte de uma análise dos dois programas seguintes de Alejandro sobre este tema, publicados igualmente no portal de notícias católico ACIPrensa, bem como em seu canal do YouTube ACITV, onde responde aos argumentos que apresentei até agora para demonstrar que é um erro teológico afirmar que Deus não castiga com penas temporais.

Mas antes de continuar quero pontuar algumas coisas:

Primeiro: Lamento que a audiência de Alejandro ainda siga sem poder ter acesso em primeira mão a meus argumentos, já que ele os comenta mas não menciona o site onde estão publicados. É um dever de justiça permitir à audiência ouvir a parte contrária, de modo que possa julgar objetivamente os argumentos de ambos. Como ainda lhe restam vários capítulos para publicar, penso que está a tempo de dar-lhes essa oportunidade.

Segundo: Aos leitores que me escreveram refletindo certa preocupação de que este debate de alguma maneira possa escandalizar, dar a impressão de que os católicos estamos desunidos, causar divisão, etc., esclareço: a apologética é o ramo da teologia que explica e defende as verdades da fé. Faria má apologética se, por um equivocado respeito humano e escrúpulos excessivos, eu colocasse em primeiro lugar as aparências e não procurasse combater o erro onde quer que se encontre (combate-se o erro, não a pessoa). Já disse com toda clareza o Papa Francisco: “Confrontando-nos, discutindo e rezando se resolvem os problemas na Igreja.”

Terceiro: Quero agradecer aos leitores que contribuíram com seus conhecimentos, comentando e acrescentando. Alguns foram tão valiosos que os recolhi e me servi deles nesta nova entrega. Mil graças.

Argumentos de Alejandro Bermúdez

Nesta ocasião não vou me deter a comentar os argumentos periféricos de Alejandro, onde repete insistentemente que em meus artigos me limito apenas a citar de maneira abundantíssima a Bíblia, os padres da Igreja, os Papas e o Magistério, como se eu fosse uma biblioteca ambulante de citações que não raciocina nem aplica a “razão teológica”. Para responder a esse argumento pode consultar o capítulo anterior, e julgar por você mesmo e em primeira mão se é verdade que cito de maneira incorreta ou fora de contexto. Dedicar-me-ei, portanto, aos dois argumentos principais pelos quais Alejandro sustenta que Deus não castiga.

Objeção 1: Deus é amor, portanto, Deus não castiga

Para sustentar seu ponto, Alejandro pede que se leia o Catecismo da Igreja Católica a partir do número 212 até o 217, onde se descreve como é Deus, e ali se diz que Deus é rico de amor e fidelidade, benevolente, bondoso, misericordioso, etc., e nos diz que, se usamos a razão teológica, isso de alguma maneira demonstra que Deus não castiga.

Se há de resumir seu argumento graficamente, ficaria assim:

Peço desculpas se parece que simplifico demais o argumento de Alejandro, mas a verdade é que basicamente é esse, e realmente não era necessário mandar ler o Catecismo para demonstrar que Deus é misericordioso, como se alguém negasse isso.

Ora, a estas alturas do debate não deveria existir nenhuma dificuldade para entender que, se dissemos que Deus é amor, também dissemos que precisamente por amar é que castiga, que é exatamente o que diz a Bíblia: “porque o Senhor corrige a quem ama, e açoita todo filho que recebe.” (Hb 12,6). Para fundamentar isso, além da Bíblia, venho citando padres da Igreja, o Magistério e os Papas que dizem expressamente que o castigo é um ato de amor. Portanto, não me deterei a repetir o que já disse em entregas anteriores, mas aproveito para deixar algumas interrogações no ar.

Se de fato o fato de que Deus é amor implicar de alguma maneira que Deus não castiga, por que nenhum santo, padre da Igreja, Papa em 2000 anos chegou a essa conclusão? Acaso ninguém fez uso da “razão teológica” a ponto de não ter ficado expresso que Deus não castiga em nem um único texto magisterial? Por que em compensação é possível encontrar de maneira abundantíssima a afirmação contrária, a tal ponto que a queixa de Alejandro é que eu cito em demasia?

Até mesmo a própria Enciclopédia Católica, que é um dos sites pertencentes ao Grupo ACI, do qual Alejandro é diretor, lhe contradiz de maneira diáfana ao sustentar exatamente o contrário do que ele afirma:

“O segundo efeito do pecado está em transmitir a dor do sofrimento padecido (reatus paenae). O pecado (reatus culpae) é a causa desta obrigação (reatus paenae). O sofrimento pode ser infligido nesta vida por meio de castigos medicinais, calamidades, doenças, males temporais, que visam afastar-nos do pecado, ou pode ser infligido na vida por vir pela justiça de Deus como castigo vindicativo. Os castigos na vida futura são proporcionais ao pecado cometido, e é obrigação padecer esse castigo por pecados não arrependidos, que é o que significa o ‘reatus poenae’ dos teólogos.” [tradução própria][1]

Sim, em seu próprio site, a própria Enciclopédia Católica não diz nada diferente, por exemplo, do Concílio Dogmático de Trento citado em capítulos anteriores, onde se afirma que Deus enviava castigos temporais. Pretender que os autores da Enciclopédia Católica, junto com os padres de Trento, não utilizavam a “razão” teológica é pedir demais.

Objeção 2: O castigo é mau, Deus é bom, Deus não quer o mau

A respeito disso, Alejandro mergulha no mistério do mal, e como o fato de que Deus castiga tem de ser entendido à luz desse mistério. Assim, parte do princípio de que Deus não é o autor, nem o agente, nem a causa direta do mal, e como tal isso contradiz, em sua opinião, o fato de que Deus castigue.

Se há de resumir novamente de maneira gráfica esse argumento, seria assim:

Mas este também não é um tema que não tenha sido extensamente estudado pela teologia e pela filosofia, e elas não chegaram nem de perto às conclusões a que chega Alejandro. Mas antes de abordar o tema devemos fazer duas distinções quando falamos do mal. Podemos falar do mal físico — como por exemplo a dor, a doença, a morte — e do mal moral, que é o pecado, que é essencialmente uma negação de Deus.

No que se refere ao mal moral, há que se dizer que, como é uma negação de Deus, esse sim Deus não o pode querer nem per se nem per accidens, isto é: nem como fim nem como meio. Mas no que se refere ao mal físico, embora Deus não o pretenda per se — isto é, por afeição ao mal ou como fim —, pode pretendê-lo per accidens, isto é, pode permiti-lo como meio para conseguir um fim superior de ordem física (como a conservação de uma vida superior) ou de ordem moral (como castigo ou purificação moral).

Portanto, ainda que Deus não possa ser causa direta do mal (o mal não tem causa direta mas indireta, já que é a ausência do bem), pode pretender o mal físico como meio para alcançar um fim superior. Uma explicação completa disso a dá o Cardeal Zeferino González em sua obra Filosofia Elemental.[2][3]

Para exemplificá-lo, utilizemos novamente o castigo de Zacarias. Havíamos recordado que quando o anjo Gabriel se aparece a Zacarias para anunciar-lhe que sua anciana esposa ficaria grávida de João Batista, ele duvida de suas palavras e Deus o castiga deixando-o mudo até o nascimento de seu filho (Lc 1,19-20). Analisemos agora este acontecimento de outra perspectiva: Zacarias cometeu uma falta e é castigado com um mal físico. Alguém dirá acertadamente: isso é um mal para Zacarias, e é verdade, mas quer dizer que Deus, ao ordenar que lhe fosse tirada sua voz, fez algo “mau”? Não; Deus finalmente lhe fez um bem, já que ao privá-lo de sua voz realizará um ato de justiça vindicativa que o ajudará a expiar sua falta, e ao mesmo tempo um ato de justiça corretiva, pois esse mal físico será um meio para que ele obtenha um bem maior, ao movê-lo ao arrependimento de seu pecado e fazê-lo crescer espiritualmente. Alguém poderá objetar que isso implica crer que Deus agiu mal, ao que há que responder que Deus, como soberano universal, não age mal quando dispõe dos dons que Ele mesmo concedeu gratuitamente e que não tem obrigação de manter.

Outro problema com esse argumento de Alejandro é que também se contradiz com o que ele mesmo vinha defendendo, já que havia reconhecido que no Antigo Testamento Deus sim castigava, e citou inúmeros exemplos. Mas se, sob a forma de pensar de Alejandro, o castigo é mau, quer dizer então que no Antigo Testamento Deus era causa direta do mal? Alejandro certamente alegará que Deus havia escolhido se revelar assim dado que o povo não podia nem tinha capacidade de compreender a Deus, mas isso não explica de maneira satisfatória como esse fato pode justificar que Deus aja contra o que é sua natureza.

  1. Enciclopédia Católica – Pecado
  2. Santo Tomás, Suma Teológica – Parte Ia – Questão 49
  3. Assim o explica a obra do cardeal Zeferino González, em sua obra Filosofia Elementar: 1ª Por mais que Deus não intenda o mal físico per se ou como fim, atendendo a que não se deleita no mal de suas criaturas como mal, e longe de aborrecer, ama tudo o que criou, é indubitável que pode escolhê-lo ou querê-lo, como meio proporcionado para realizar algum fim bom. A razão é que, neste caso, a volição do mal físico por parte de Deus tem por termo e como fim o bem que pressupõe a existência do mal físico como meio, ou falando com mais propriedade, como condição hipotética da existência do bem intentado por Deus; e digo hipotética, porque a existência e realização de determinados bens, como resultante de tais ou quais males físicos, está em relação com o grau de perfeição relativa que Deus quis comunicar a este mundo, e que poderia ser superior em outro dos possíveis. 2ª Quanto ao mal moral, Deus não o intende ou quer, nem como meio, nem como fim; porque, além de repugnar à santidade infinita de Deus, o mal moral envolve a subversão da ordem necessária que toda criatura, e mais que todas, a criatura inteligente e livre, diz a Deus como último fim da criação. Mas isso não impede que Deus permita a sua existência; porque esta permissão não envolve uma aprovação do mesmo, e por outra parte, nenhuma obrigação tem Deus de impedir a sua existência. Mais ainda: dada a existência de seres inteligentes e livres, pode dizer-se conveniente e como natural a permissão do mal moral por parte de Deus. Porque a verdade é que a Deus, como governador supremo e universal do mundo, cabe-lhe permitir que cada ser obre em conformidade às condições próprias de sua natureza. A vontade humana é, por sua natureza, defectível, flexível em ordem ao bem e ao mal, e livre e responsável em seus atos. Logo a Deus, como provedor universal do mundo e especial do homem, só lhe cabe dar a este os meios e auxílios necessários para obrar o bem moral, mas não matar nem anular a sua liberdade, impondo-lhe a necessidade física de obrar bem. Isto sem contar que a realização do mal moral serve também: a) para manifestar que o homem, quando obra o bem, o faz livremente, e é merecedor do prêmio; b) para revelar a paciência e longanimidade do próprio Deus; c) para manifestar a sua misericórdia perdoando e a sua justiça castigando. 3ª Conclua-se do que até aqui foi dito: 1º que nem a existência do mal físico, nem a do mal moral, envolvem repugnância ou contradição absoluta com a providência e a bondade de Deus; 2º que até podemos indicar razões plausíveis e fins racionais e justos para a sua existência; 3º que Deus, em absoluto, poderia impedir a existência do mal físico e moral, seja com a produção de outro mundo, seja com a diferente disposição deste; 4º que embora possamos indicar alguns fins prováveis da permissão do mal moral, ignoramos a causa final desta permissão por parte de Deus, atendendo a que não sabemos com certeza qual seja o fim principal e os motivos divinos desta permissão, devendo, portanto, dizer com a Escritura: Quis cognovit sensum Domini, aut quis consiliarius ejus fuit? Com maior razão é aplicável esta reflexão à nossa ignorância a respeito dos fins particulares aos quais se subordina a existência do mal físico e moral no ser A ou B. Que a volição do mal físico, no sentido exposto, não se opõe à bondade divina, prova-se além disso porque, na hipótese contrária, Deus não poderia querer e realizar certos bens e perfeições de uma ordem superior. A pouco que se reflita, reconhecer-se-á, sem dúvida, que a ausência absoluta e completa do mal físico levaria consigo a ausência da paciência, da fortaleza, da magnanimidade, da constância, e para dizê-lo de uma vez, dos traços mais belos e sublimes da virtude em todas as suas múltiplas manifestações. Mais ainda: a ausência de todo mal físico levaria consigo a morte ou a atonia absoluta da sociedade humana, com suas artes, ciências e indústria, que vêm a ser a luta perseverante da humanidade contra o mal físico. [tradução própria]