Se perguntar a um calvinista, presbiteriano, batista, puritano ou a qualquer cristão evangélico de tendência reformada se Deus quer que todos os homens sejam salvos, por mais surpreendente que pareça, ele não poderá responder afirmativamente.
A razão é que, para eles, a vontade de Deus é que somente os escolhidos sejam salvos e que o resto seja condenado. Esse erro parte da falsa premissa de que, se Deus é soberano e quisesse que todos fossem salvos, inevitavelmente todos o seriam; caso contrário, isso significaria atribuir a Deus atributos de impotência, por não poder cumprir a sua vontade.
A expiação limitada
No entanto, se Deus é amor (1 João 4,16), não se entende como pode não querer a salvação de todos os homens. Contudo, para os calvinistas, isso é um mistério que o homem não pode compreender, pois é um decreto “inescrutável”, “inefável” e “insondável” (o que não é senão uma forma elegante de dizer que não o sabem).
Sob essa forma de ver as coisas, Cristo não morre por todos os homens, mas somente pelos escolhidos, e a isto chamam “expiação limitada”, “determinada” ou “eficaz”. Sobre os predestinados, Ele derrama a sua graça, e abandona o resto à sua maldade. Sobre este grande mistério, afirmam que nem mesmo as crianças escapam; assim, apesar de parecer surpreendente, de dois bebês recém-nascidos que morram, um pode ir para o céu e o outro para o inferno. Assim o declara a Confissão de Westminster, que é uma das mais importantes no seio do calvinismo:
“Crianças escolhidas que morrem na infância são regeneradas e salvas por Cristo através do Espírito, que age quando, onde e como quiser. Na mesma condição estão todas as pessoas escolhidas que são incapazes de serem chamadas externamente pelo ministério da palavra…
Os outros não escolhidos, embora sejam chamados pelo ministério da palavra e tenham algumas das operações comuns do Espírito, nunca vêm verdadeiramente a Cristo e, portanto, não podem ser salvos.
Muito menos podem os homens que não professam a religião cristã ser salvos de outra forma, mesmo que sejam diligentes em ajustar suas vidas à luz da natureza e à lei da religião que professam; e afirmar e sustentar que eles podem fazê-lo é muito prejudicial e detestável.”[1]
A Escritura, no entanto, tem inúmeros textos que se opõem a essa interpretação:
“Isto é bom e agradável diante de Deus, nosso Salvador, o qual deseja que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade. Porque há um só Deus e há um só mediador entre Deus e os homens: Jesus Cristo, homem que se entregou como resgate por todos. Tal é o fato, atestado em seu tempo; e deste fato — digo a verdade, não minto — fui constituído pregador, apóstolo e doutor dos gentios, na fé e na verdade.” (1 Timóteo 2,3-7)
“Ele é a expiação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo.” (1 João 2,2)
“O Senhor não retarda o cumprimento de sua promessa, como alguns pensam, mas usa da paciência para convosco. Não quer que alguém pereça; ao contrário, quer que todos se arrependam.” (2 Pedro 3,9)
“O amor de Cristo nos constrange, considerando que, se um só morreu por todos, logo todos morreram. Sim, ele morreu por todos, a fim de que os que vivem já não vivam para si, mas para aquele que por eles morreu e ressurgiu.” (2 Coríntios 5,14-15)
“Com efeito, de tal modo Deus amou o mundo, que lhe deu seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna.” (João 3,16)
“Mas aquele que fora colocado por pouco tempo abaixo dos anjos, Jesus, nós o vemos, por sua Paixão e morte, coroado de glória e de honra. Assim, pela graça de Deus, a sua morte aproveita a todos os homens.” (Hebreus 2,9)
“Terei eu prazer com a morte do malvado? — oráculo do Senhor Javé —. Não desejo eu, antes, que ele mude de proceder e viva?” (Ezequiel 18,23)
“Não sinto prazer com a morte de quem quer que seja — oráculo do Senhor Javé! Convertei-vos e vivereis!” (Ezequiel 18,32)
“Dize-lhes isto: por minha vida — oráculo do Senhor Javé —, não me comprazo com a morte do pecador, mas antes com a sua conversão, de modo que tenha a vida. Convertei-vos! Afastai-vos do mau caminho que seguis; por que haveis de perecer, ó casa de Israel?” (Ezequiel 33,11)
A graça “irresistível”
Agora, uma das razões pelas quais o calvinismo adotou essa posição aberrante deve-se à sua crença de que a graça é “irresistível” e de que o homem é um receptor “passivo” da graça. Esta doutrina, que estabelece que Deus pode vencer toda a resistência, apesar do livre-arbítrio do homem, é conhecida como “graça irresistível”. Assim, o homem que se converte e tem fé é porque Deus lhe infundiu a sua graça e ele não teve liberdade de lhe resistir; aquele que não o faz é porque Deus o abandonou à sua maldade.
Um dos textos bíblicos favoritos dos calvinistas para apoiar a doutrina da graça irresistível é este:
“Nele é que fomos escolhidos, predestinados segundo o desígnio daquele que tudo realiza por um ato deliberado de sua vontade.” (Efésios 1,11)
A partir deste texto, estabelecem esta série de raciocínios:
1) Deus realiza tudo de acordo com a decisão da Sua vontade.
2) Há pessoas que não são salvas.
3) Portanto, é a vontade de Deus que estas pessoas não sejam salvas.
4) Se a vontade de Deus não se cumprisse, seria o mesmo que afirmar que Deus não é soberano nem onipotente.
Dessas quatro premissas, a primeira e a segunda são verdadeiras, mas a terceira e a quarta são falsas. É verdade que Deus realiza tudo de acordo com a Sua vontade, mas também é verdade que a Sua vontade deu ao homem a liberdade de escolha.
Um exemplo disso temos no seguinte texto: “… é a vontade de Deus: a vossa santificação; que eviteis a impureza” (1 Tessalonicenses 4,3). É evidente que há cristãos que caem em pecados de impureza, apesar de não ser a vontade de Deus, e não por isso devemos entender que Deus não é onipotente. Deus permite que façamos uso e abuso da nossa liberdade para que O amemos livremente, sem diminuir a Sua onipotência.
Outro texto utilizado pelos calvinistas é este:
“Ora, esta é a vontade daquele que me enviou: que eu não deixe perecer nenhum daqueles que me deu, mas que os ressuscite no último dia.” (João 6,39)
Mas não se deduz deste texto que cada um possa perder-se a si mesmo, como se deduz de outras passagens da Bíblia:
“Já não estou no mundo, mas eles estão ainda no mundo; eu, porém, vou para junto de ti. Pai santo, guarda-os em teu nome, que me encarregaste de fazer conhecer, a fim de que sejam um como nós. Enquanto eu estava com eles, eu os guardava em teu nome, que me incumbiste de fazer conhecido. Conservei os que me deste, e nenhum deles se perdeu, exceto o filho da perdição, para que se cumprisse a Escritura.” (João 17,11-12)
Nesse texto, Jesus fala daqueles que o Pai Lhe deu e, em seguida, esclarece que nenhum se perdeu, EXCETO Judas, que é a exceção, pois perde-se por sua própria escolha.
Um texto semelhante é este: “Pois estou persuadido de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem o presente, nem o futuro, nem as potestades, nem as alturas, nem os abismos, nem outra qualquer criatura nos poderá apartar do amor que Deus nos testemunha em Cristo Jesus, nosso Senhor…” (Romanos 8,38-39). Seria um erro interpretar estes textos da maneira como os calvinistas fazem, partindo do princípio de que nós próprios, fazendo uso da nossa vontade, não nos podemos afastar do amor de Deus.
Outro texto utilizado é este: “Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o atrair; e eu hei de ressuscitá-lo no último dia” (João 6,44). Costuma-se objetar que a palavra que o texto grego emprega para “atrair” é helkuō, que significa “arrastar com força irresistível”, e colocam como exemplo outro texto onde se utiliza a mesma palavra: “Agarraram Paulo e arrastaram-no para fora do templo, cujas portas se fecharam imediatamente” (Atos 21,30) e “Não são, porventura, os ricos os que vos oprimem e vos arrastam aos tribunais?” (Tiago 2,6).
A verdade é que helkuō significa sim arrastar, atrair, mas não implica “com força irresistível”. Um exemplo encontra-se em João 21,6, onde se utiliza a mesma palavra:
“Disse-lhes ele: ‘Lançai a rede ao lado direito da barca e achareis’. Lançaram-na, e já não podiam arrastá-la por causa da grande quantidade de peixes.” (João 21,6)
Aqui utiliza-se a mesma palavra e vê-se que não implica necessariamente que algo seja arrastado com uma força “irresistível”, já que os discípulos tentavam “arrastar” (helkuō) a rede e não conseguiam. Assim, o fato de se tentar “arrastar” ou “atrair” (helkuō) algo não implica necessariamente que se vá mover.
João 21,6 pode ser utilizado para provar que quem será salvo primeiro tem de ser atraído, mas não para provar que todos os que são atraídos serão salvos.
Certamente, o homem não pode, por si mesmo, querer e perseverar no bem sem a ajuda da graça (o contrário seria pelagianismo), mas também é certo que ele é livre para deixar-se mover por ela ou rejeitá-la.
Que o homem pode, ou colaborar com a graça (deixando-se mover), ou resistir-lhe, é algo claramente revelado nas Escrituras. Estêvão, por exemplo, repreende os judeus por “resistir ao Espírito Santo”:
“Homens de dura cerviz, e de corações e ouvidos incircuncisos! Vós sempre resistis ao Espírito Santo. Como procederam os vossos pais, assim procedeis vós também!” (Atos 7,51)
“Por isso, como diz o Espírito Santo: Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais os vossos corações, como por ocasião da revolta, como no dia da tentação no deserto, quando vossos pais me puseram à prova e viram o meu poder por quarenta anos. Eu me indignei contra aquela geração, porque andavam sempre extraviados em seu coração e não compreendiam absolutamente nada dos meus desígnios.” (Hebreus 3,7-10)
“Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas aqueles que te são enviados! Quantas vezes eu quis reunir teus filhos, como a galinha reúne seus pintinhos debaixo de suas asas… e tu não quiseste!” (Mateus 23,37)
“Desde o dia em que os fiz sair do Egito até hoje, adverti com instância vossos pais, falando-lhes assim: ouvi minha voz! Não ouviram, porém, e nenhuma atenção prestaram, seguindo, obstinadamente, os pendores maus de seus corações. Assim, contra eles executei todas as ameaças contidas no pacto que lhes havia ordenado, mas que não observavam.” (Jeremias 11,7-8)
Perante textos como estes, aqueles que pregam a doutrina da graça irresistível admitem que esta pode ser parcialmente ou temporariamente resistida, mas nunca de forma definitiva. Isto significa que a pessoa, por mais endurecido que esteja o coração, acabará por ser abrandada e finalmente convertida. Expõem-no da seguinte maneira:
“Que Deus, em um determinado momento, conceda a alguns o dom da fé e a outros não, decorre de Seu eterno decreto. Todas as suas obras são conhecidas por Ele desde o princípio do mundo (Atos 15,18) e Ele faz todas as coisas de acordo com o plano de sua vontade (Efésios 1,11).
De acordo com esse decreto, Deus amolece, por pura graça, o coração dos predestinados, por mais obstinados que sejam, e os inclina a crer; enquanto aqueles que, de acordo com Seu justo julgamento, não são eleitos, Ele os abandona à sua maldade e obstinação. E é aqui que, estando os homens em condição semelhante de perdição, é revelada essa profunda, misericordiosa e justa distinção de pessoas, ou decreto de eleição e reprovação revelado na Palavra de Deus. O que, embora os homens perversos, impuros e inconstantes torçam para sua perdição, também dá um incrível consolo às almas santas e temerosas de Deus.”[2]
No entanto, existem numerosos textos bíblicos que mostram que a graça pode ser resistida de forma definitiva:
“Melhor fora não terem conhecido o caminho da justiça do que, depois de tê-lo conhecido, tornarem atrás, abandonando a Lei santa que lhes foi ensinada. Aconteceu-lhes o que diz com razão o provérbio: O cão voltou ao seu vômito; e: A porca lavada volta a revolver-se no lamaçal.” (2 Pedro 2,21-22)
O texto acima não fala de alguém que não foi “lavado”, mas de alguém lavado que voltou a sujar-se, rejeitando e resistindo à graça.
A mesma ideia mantém-se no capítulo 15 do Evangelho de São João, na metáfora da videira, onde Cristo é a videira e nós somos os ramos. Os ramos que se separam dela deixam de produzir fruto e acabam por ser cortados.
“Eu sou a videira; vós, os ramos. Quem permanecer em mim e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer. Se alguém não permanecer em mim será lançado fora, como o ramo. Ele secará e hão de ajuntá-lo e lançá-lo ao fogo, e será queimado.” (João 15,5-6)
A lição desta metáfora para os cristãos que já estão unidos a Cristo é muito clara: é preciso permanecermos unidos a Ele, ou seremos cortados. Mas, se a graça fosse irresistível, como poderia um ramo que estava unido à videira separar-se e deixar de produzir fruto?
Estes e outros textos permitem perceber que a graça pode ser resistida, não apenas antes da justificação, mas também depois, a ponto de cair do estado de graça e, posteriormente, ser condenado:
“Considera, pois, a bondade e a severidade de Deus: severidade para com aqueles que caíram, bondade para contigo, suposto que permaneças fiel a essa bondade; do contrário, também tu serás cortada.” (Romanos 11,22)
“Por isso, é necessário prestarmos a maior atenção à mensagem que temos recebido, para não acontecer que nos desviemos do caminho reto. A palavra anunciada por intermédio dos anjos era a tal ponto válida, que toda transgressão ou desobediência recebeu o justo castigo. Como, então, escaparemos nós se agora desprezarmos a mensagem da salvação, tão sublime, anunciada primeiramente pelo Senhor e depois confirmada pelos que a ouviram.” (Hebreus 2,1-3)
Aqueles que creem que a graça é irresistível também creem que Deus derrama a Sua graça somente sobre os eleitos. Eles são “atraídos”, ao passo que os outros (os não escolhidos) não o são e não recebem a graça de Deus.
Mas isso também é falso: a Escritura não diz que somente alguns são chamados e que não podem resistir a esse chamado, mas sim que “muitos são os chamados, mas poucos os escolhidos” (Mateus 22,14). O Apóstolo João testifica que, da plenitude de Cristo, “todos nós recebemos graça sobre graça” (João 1,16).
Cristo ensinou que, depois da Sua ressurreição, atrairia todos para si: “E quando eu for levantado da terra, atrairei todos os homens a mim” (João 12,32). Então, de onde concluir que existem pessoas que não recebem as graças suficientes para se salvarem?
A parábola dos talentos contém a mesma lição: não há ninguém a quem Deus não dê “talentos”. A alguns ele dá um, a outros dois e a outros talvez mais, mas ninguém pode dizer que não recebeu nada de Deus.
Colaboração entre a graça e o livre-arbítrio
Certamente, a graça pode ser resistida e, por isso, o Apóstolo exorta-nos a cooperar com ela, e não a ser simples receptores passivos:
“Na qualidade de colaboradores seus, exortamo-vos a que não recebais a graça de Deus em vão.” (2 Coríntios 6,1)
Assim, o homem que se condena não o faz por ter sido predestinado por algum decreto inescrutável, mas sim por sua própria escolha:
“Tomo hoje por testemunhas o céu e a terra contra vós: ponho diante de ti a vida e a morte, a bênção e a maldição. Escolhe, pois, a vida, para que vivas com a tua posteridade.” (Deuteronômio 30,19)
Se Deus realmente não desse a oportunidade de salvação a todos os homens, estaria mentindo ao colocar diante deles a vida e a morte (ao mesmo tempo que os abandona, sabendo que não se poderão salvar). Mas isso é exatamente a consequência do ensinamento calvinista que afirma que aqueles que não são predestinados não podem, de fato, escolher a vida, pois Deus os predestinou desde a eternidade para a condenação e não lhes dá uma oportunidade real de salvação.
Apesar de tudo isto, estes textos não abalam o calvinismo, que os interpreta como se Deus fosse um mendigo ineficaz, carente de poder. Um exemplo disso encontra-se no artigo de Gise J. Van Baren sobre a graça irresistível:
“A ideia de que a morte de Cristo indubitavelmente salvará aqueles por quem Cristo morreu não é uma ideia popular nos dias de hoje. Cristo é apresentado como um mendigo. Ele promete; Ele implora; Ele ameaça. Mas Ele parece não ter poder para realizar aquilo que Ele aparentemente deseja muito fazer. Uma pessoa deveria estar inclinada a perguntar: ‘Quem é esse Cristo que está assim tão obrigado a implorar a cooperação do pecador? …É esse o Jesus que morreu no Calvário, que implora assim?’ Mas esse Jesus é fraco; Ele é ineficaz e Ele carece de poder. Ele está completamente dependente da vontade do pecador para permitir que Ele entre no coração.”
Estes textos falam-nos de um Deus que decidiu respeitar a liberdade humana, um dom irrevogável que Ele próprio concedeu, e do qual o próprio Cristo é testemunha:
“Eis que estou à porta e bato: se alguém ouvir a minha voz e me abrir a porta, entrarei em sua casa e cearemos, eu com ele e ele comigo.” (Apocalipse 3,20)
Ler nestes textos que Deus entra no coração à força é francamente absurdo. Assim, enquanto a Escritura nos recorda repetidamente que “Deus deseja que todos os homens se salvem” (1 Timóteo 2,4), os calvinistas acabaram por acreditar exatamente no contrário.