Miguel: Olá, José, há um tema do qual me gostaria de conversar com você, para ver se me esclarece.
José: Com prazer.
Miguel: Há alguns dias, fui ao funeral de um amigo católico, e vi seus familiares rezando o que chamam de “o rosário”, repetindo uma e outra vez as mesmas orações. A verdade é que me chamou muito a atenção, porque precisamente na Bíblia diz: “E, ao orar, não useis de muitas palavras, como os gentios, que julgam que pelo muito falar serão ouvidos. Não sejais, pois, como eles; porque vosso Pai sabe do que tendes necessidade, antes que lho peçais.” (Mateus 6,7-8). Não estavam fazendo precisamente o que Jesus desaconselha aqui? Multiplicar palavras na oração pensando que por isso serão ouvidos?
José: Ok, mas para entender exatamente qual é o seu questionamento pergunto: você acredita que o problema era que era uma oração “pré-fabricada” ou somente porque repetiam as mesmas orações?
Miguel: Creio que um pouco das duas; para orar não preciso repetir orações de memória, basta dizer ao Senhor aquilo que me vem do coração. Também não sinto necessário repetir a mesma coisa uma e outra vez, porque como diz Jesus, Ele já sabe do que preciso.
José: Nós, pelo contrário, acreditamos que o que Jesus critica ali não é precisamente nem uma nem outra; deixe-me explicar.
Miguel: Pode falar.
José: Em primeiro lugar, acreditamos que Jesus não está questionando as orações pré-fabricadas pelo fato de serem, valha a redundância, “pré-fabricadas”. Lembre-se de que os Salmos são precisamente belas coleções de orações desse tipo que Jesus (Marcos 14,26; Mateus 26,30) e a Igreja primitiva utilizavam (Atos 16,25; 1 Coríntios 4,15; 14,26; Colossenses 3,16; Hebreus 2,12). São Paulo também as recomendava: “Recitai entre vós salmos, hinos e cânticos espirituais; cantai e salmodiai com todo o coração ao Senhor” (Efésios 5,19). Com isso não quero dizer que os católicos somente oremos dessa forma; é claro que também oramos de maneira espontânea, mas não acreditamos que uma forma exclua a outra, mas que a complementa. Nas orações pré-fabricadas encontramos uma ferramenta valiosa para pedir auxílio ou louvar a Deus (Salmo 145), na hora de pedir perdão (Salmo 51), na hora de pedir sua proteção (Salmo 23, Salmo 91), etc. O próprio Jesus nos ensinou uma oração que é repetida milhares de vezes pelos cristãos: O Pai Nosso. E há constância histórica de que assim foi desde muito cedo, já que na Didaquê, um dos escritos cristãos primitivos mais antigos datado aproximadamente nos anos 65-80 d.C., atesta-se que era ensinado aos cateqúmenos.
Em segundo lugar, tampouco acreditamos que o problema seja a repetição em si mesma. Lembre-se de que o próprio Jesus orou repetindo as mesmas palavras quando estava no jardim de Getsêmani:
“Voltou novamente e os encontrou dormindo, pois seus olhos estavam pesados. Deixou-os e foi orar pela terceira vez, REPETINDO AS MESMAS PALAVRAS.” (Mateus 26,43-44)
Ora, o fato de Jesus repetir as mesmas palavras várias vezes ao orar, torna a sua oração vã? Os próprios anjos no céu repetem dia e noite as mesmas palavras de louvor a Deus, e não vamos acusá-los de orar em vão: “Uns serafins mantinham-se erguidos acima dele; cada um tinha seis asas: com um par cobriam o rosto, com outro par cobriam os pés, e com o outro par voavam, e gritavam uns para os outros: «Santo, santo, santo é o Senhor dos Exércitos; a terra inteira está cheia da sua glória.».” (Isaías 6,2-3) “Os quatro Viventes têm cada um seis asas, estão cobertos de olhos em toda a volta e por dentro, e repetem sem descanso dia e noite: «Santo, Santo, Santo, Senhor, Deus Todo-Poderoso, aquele que era, que é e que há de vir»” (Apocalipse 4,8). No mesmo capítulo de Daniel 3,51-90 vemos o famoso Cântico dos três jovens, que está cheio de repetições; da mesma forma o Salmo 136 tem 26 versículos e em cada um há uma oração que diz: “Porque é eterna a sua misericórdia”. O próprio Salmo 150 que tem somente 6 versículos tem “Louvai ao Senhor” ou “Louvai-o” repetindo-se 11 vezes.
Miguel: Mas se não se refere a orações pré-fabricadas e repetições, ao que acredita que se refere?
José: A isso vamos, espera.
Comecemos por examinar atentamente o texto. Note que Jesus primeiro diz “E quando orardes, não useis de muitas palavras, COMO OS GENTIOS, que imaginam que por seu PALAVREADO serão ouvidos”. Seja o que for que Jesus esteja questionando, já ficam claras duas coisas:
PRIMEIRO: Sabemos que com “o palavreado” não se refere à “repetição” em si mesma, nem que uma oração seja “pré-fabricada”, pois ambas as coisas são distintas e vimos que Jesus e os apóstolos também oravam dessa maneira. Tampouco questiona que a oração seja longa, pois o próprio Jesus em Getsêmani deu exemplo de oração longa, ao permanecer “uma hora” em oração (Mateus 26,39.42.44), assim como ao durar, às vezes, a noite inteira orando.
SEGUNDO: este “palavreado” que questiona era habitual nas orações que faziam os gentios, por isso pode nos ajudar a entender o que quis dizer se nos detivermos a examinar a forma como oravam.
Miguel: Parece-me bem.
José: Os gentios e pagãos viam a oração como uma espécie de fórmulas mágicas que, ao repeti-las mecanicamente, alcançavam seus objetivos. Os sacerdotes de Baal, por exemplo, aparecem no Antigo Testamento demonstrando práticas intermináveis e patológicas na oração (1 Reis 18,26). Do mesmo modo, aparecem listas de epítetos nos hinos babilônicos e fórmulas de encantamento nos papiros mágicos da época helenística. Os deuses romanos tinham seus carmina, nos quais não se omitia nenhum detalhe e nos quais se incluíam todos os títulos e requisitos preventivos para que o pedido não falhasse. Era uma espécie de “magia” ou uma “mecanização” da piedade.
Deduz-se que o que faz Jesus é realçar o componente da verdadeira oração cristã, que exige como condição indispensável a sinceridade e simplicidade, enquanto censura o modo de orar dos gentios, que pensavam que seriam ouvidos por falar muito, pretendendo recitar umas fórmulas longas ou calculadas, como se elas tivessem uma eficácia mágica diante de Deus.
Quer oremos uma oração pré-fabricada ou uma oração espontânea, o importante é não fazê-lo mecanicamente, mas com o coração. Quem ora dessa maneira, mas não o faz com sinceridade, torna-se digno da reprensão que Jesus fez aos fariseus: “Este povo me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim.” (Mateus 15,8)
Miguel: Sua explicação me parece razoável, mas o Rosário não é precisamente uma oração mecânica na qual os católicos esperam obter resultados simplesmente por repetir uma fórmula preestabelecida?
José: Nós não vemos o Rosário como uma “fórmula mágica” que nos dará resultados apenas por recitá-la mecanicamente. A finalidade do Rosário é nos dar um tempo para meditar na vida de Jesus, e de fato é assim, porque alguém que ao longo de uma semana rezou o Rosário todos os dias, ao terminar meditou sobre toda a vida do Senhor. É simplesmente uma oração maravilhosa na qual cada dia da semana é dedicado à reflexão dos mistérios divinos. Estes são os mistérios nos quais meditamos enquanto rezamos o Rosário:
MISTÉRIOS GOZOSOS (segunda-feira e sábado)
1. A Encarnação do Filho de Deus.
2. A Visitação de Nossa Senhora a Santa Isabel.
3. O Nascimento do Filho de Deus.
4. A Purificação da Virgem Santíssima.
5. A Perda do Menino Jesus e seu encontro no templo.
MISTÉRIOS DOLOROSOS (terça-feira e sexta-feira)
1. A Oração de Nosso Senhor no Horto.
2. A Flagelação do Senhor.
3. A Coroação de Espinhos.
4. O Caminho do Monte Calvário.
5. A Crucificação e Morte de Nosso Senhor.
MISTÉRIOS GLORIOSOS (quarta-feira e domingo)
1. A Ressurreição do Senhor.
2. A Ascensão do Senhor.
3. A Vinda do Espírito Santo.
4. A Assunção de Nossa Senhora aos Céus.
5. A Coroação da Santíssima Virgem.
MISTÉRIOS LUMINOSOS (quinta-feira)
1. O Batismo de Jesus no Jordão.
2. A Autorrevelação de Jesus nas bodas de Caná.
3. O anúncio do Reino de Deus convidando à conversão.
4. A Transfiguração.
5. A instituição da Eucaristia.
Como poderia ser vã e inútil uma oração baseada inteiramente na Escritura, cuja finalidade é meditar sobre a vida de Nosso Senhor Jesus Cristo?