Há algum tempo, reunido com minha esposa em nosso encontro mensal de Casais com Cristo, ouvimos de um de nossos companheiros de grupo a frase “Deus não castiga”. Meses antes, um leitor me perguntava se era verdade que Deus não castigava, porque havia ouvido isso do conhecido apologeta católico Frank Morera em uma pregação. Até mesmo não é difícil encontrar sites católicos que sustentam o mesmo. Em um programa de Alejandro Bermúdez, diretor da ACIPrensa, cuja labor a serviço da Igreja é inquestionável, ele comete o mesmo erro ao afirmar que “Deus nunca castiga”. A ideia se difundiu tanto entre o povo católico que muitos ficaram perplexos quando o Papa Bento XVI afirmou que o mundo poderia ser castigado por seu afastamento de Deus em sua homilia durante a inauguração da XII Assembleia Ordinária do Sínodo dos Bispos, em 5 de outubro de 2008. O Papa, no entanto, não dizia nada de novo, pois a noção de que Deus pode castigar é constante no Magistério de seus predecessores e no Magistério da Igreja Universal de todos os tempos. O Papa João Paulo II, em sua audiência geral de 13 de agosto de 2003, fala de que efetivamente Deus castiga, tal como apresenta o livro de Tobias: “Deus castiga e tem compaixão”[1][2]
É por isso, e com todo o respeito que merecem meus amigos católicos, inclusive Frank Morera e Alejandro Bermúdez, cuja labor apologética a serviço da Igreja é inestimável, que é importante esclarecê-lo, já que este é um erro proveniente da ideologia progressista que levou muitos a graves erros e inclusive a negar a existência do inferno, que é dogma de fé, ou até mesmo a negar a necessidade do sacrifício expiatório de Cristo na cruz.
Clarificando a terminologia
Diz o adágio escolástico: “De definitionibus non est disputandum” (“as definições não se discutem”), porque as questões terminológicas são de segunda ordem em relação às questões de fundo ou de conteúdo, e porque cada um tem o direito de escolher sua própria terminologia, dentro de certos limites. No entanto, é importante que, ao se fazer uso de determinada terminologia, se explique com clareza o que se quer dizer com ela, evitando assim equívocos e mal-entendidos.
No caso da palavra “castigo” temos de distinguir o que realmente significa a palavra, e a forma como a entendem muitas pessoas. Frank Morera, por exemplo, a entende da seguinte maneira:
“Deus não castiga; quem conhece o coração de Deus sabe que Deus não castiga. Deus é pai, e um pai bom… um pai bom não castiga, um pai bom corrige”… “É impossível que Deus castigue, pois o castigo vem do ódio, e em Deus não há lugar para o ódio; em contrapartida, a correção vem do amor. Deus, que é nosso Pai, só anseia a nossa edificação, por isso nos corrige.”
Comecemos por esclarecer isso: não é verdade que o castigo esteja vinculado ao ódio, nem no que se refere ao seu significado, nem na Escritura, nem no ensinamento tradicional da Igreja. Vejamos.
O significado de “castigo” segundo o Dicionário
O Dicionário da Real Academia Espanhola [N.T.: citamos a seguir o dicionário espanhol porque o debate original se deu nesse idioma; em português, o Dicionário Houaiss e o Dicionário Priberam definem “castigo” de forma equivalente: pena, punição, correção imposta por falta cometida] define castigo como:
Castigo.
(De castigar).
1. m. Pena que se impõe a quem cometeu um delito ou falta.
2. m. Emenda, correção de uma obra ou de um escrito.
3. m. Chile. Ação e efeito de castigar (aminorar gastos).
4. m. ant. Repreensão, aviso, conselho, admoestação ou correção.
5. m. ant. Exemplo, advertência, ensinamento.
ser de ~ algo.
1. loc. verb. Ser penoso ou árduo.
Castigar.
(Do lat. castigāre).
1. tr. Executar algum castigo em um culpado.
2. tr. Mortificar e afligir.
3. tr. Estimular com o látego ou com as esporas uma montaria para que acelere a marcha.
4. tr. Escarmentar (corrigir com rigor quem errou).
5. tr. Corrigir ou emendar uma obra ou um escrito.
6. tr. Reduzir gastos.
7. tr. Namoriscar por puro passatempo ou ostentação.
8. tr. ant. Advertir, prevenir, ensinar.
9. prnl. ant. Emendar-se, corrigir-se, abster-se.
Observe-se que, além de que não se vincula o castigo ao ódio, em alguns contextos o castigo é sinônimo de correção, ainda que Frank Morera contraponha ambos os conceitos como excludentes ao afirmar que Deus não castiga, mas corrige. Entendido à sua maneira, certamente Deus não castigaria, porque Deus é amor e nEle não há ódio, mas esse não é o significado da palavra castigo. O erro que cometem outras pessoas é ainda mais grave, porque já não se baseia em uma má compreensão do termo, mas na negação frontal da justiça divina, encontrando-a incompatível com sua misericórdia.
O Castigo divino na Escritura
Tanto no Antigo Testamento como no Novo Testamento encontramos a noção do castigo divino, mas nesse caso é preciso distinguir entre o castigo temporal, cujo caráter é medicinal e busca a correção do pecador para que se converta e se salve, e o castigo eterno, que faz parte da justiça divina como retribuição à rejeição definitiva do amor de Deus.
O Castigo eterno
Que existe um castigo eterno aplicado por Deus é algo que não se pode pôr em dúvida sem negar praticamente toda a Bíblia e o Magistério da Igreja. Jesus Cristo o afirma claramente a respeito dos que se condenam: “E estes irão para o castigo eterno, e os justos para a vida eterna.” (Mt 25,46). Alguém dirá que não é Deus quem castiga, mas a própria pessoa que se castiga a si mesma, porém isso é verdade apenas em parte. A pessoa efetivamente escolhe seu destino eterno com base em suas próprias decisões e “provoca” o castigo, mas é Deus quem administra a justiça:
“Com tua dureza e teu coração impenitente, acumulas contra ti mesmo uma cólera para o dia da cólera e da revelação do justo julgamento de Deus, que retribuirá a cada um segundo as suas obras: vida eterna para os que, com perseverança nas boas obras, buscam glória, honra e incorruptibilidade; mas ira e furor para os que, por espírito de contenda, são rebeldes à verdade e submetidos à injustiça.” (Rm 2,5-8)
“Pois todos nós devemos comparecer diante do tribunal de Cristo, para que cada um receba o que merece, segundo o que fez durante a vida no corpo, seja o bem seja o mal.” (2 Cor 5,10); “Pois conhecemos aquele que disse: A mim a vingança, eu retribuirei. E ainda: O Senhor julgará o seu povo.” (Hb 10,30); “em chama de fogo, para dar retribuição aos que não conhecem a Deus e aos que não obedecem ao Evangelho de nosso Senhor Jesus.” (2 Ts 1,8)
O Castigo temporal ou medicinal
Na Bíblia, frequentemente o castigo temporal aparece como meio medicinal para purificar o pecador ou convidá-lo à conversão. A própria Igreja, em sua disciplina da excomunhão, castigava com caráter misericordioso e medicinal, excluindo da comunhão eclesial aqueles cujas faltas o exigiam, para que se convertessem. Um exemplo vemos na primeira epístola aos Coríntios, onde São Paulo castiga com a excomunhão um dos membros da Igreja que vivia em adultério: “Ouve-se falar de imoralidade entre vós, e de tal espécie que não existe nem entre os pagãos: alguém tem a mulher de seu pai… Pois eu, ausente em corpo mas presente em espírito, já julguei, como se estivesse presente, aquele que assim procedeu. Em nome do Senhor Jesus, quando estiverdes reunidos, e com meu espírito, com o poder de nosso Senhor Jesus, esse tal seja entregue a Satanás para destruição da carne, a fim de que o espírito seja salvo no dia do Senhor.” (1 Cor 5,1-5), mas em sua carta seguinte São Paulo explica que o castigo visava à conversão e convida a perdoá-lo: “Basta para esse tal a punição que a maioria lhe infligiu. Ao contrário, deveis antes perdoá-lo e confortá-lo, a fim de que não seja tomado por uma tristeza excessiva.” (2 Cor 2,6-7). Outro exemplo encontramos no Catecismo da Igreja Católica, onde se distingue entre o castigo dos condenados e o castigo temporal que recebem as almas do purgatório: “A Igreja chama de Purgatório essa purificação final dos eleitos, absolutamente diferente do castigo dos condenados.” (CIC 1031)
No Antigo Testamento abundam os exemplos de castigos da parte de Deus, que têm tanto caráter medicinal como a finalidade de administrar a justa retribuição de Deus pelo pecado. Entre eles podemos mencionar a destruição de Sodoma e Gomorra, o Dilúvio, a ameaça da destruição de Nínive, as pragas do Egito, o castigo de Davi por seu adultério e assassinato de Urias o Hitita, etc.
O Novo Testamento não é exceção. São Paulo, por exemplo, fala de como aqueles que recebiam indignamente a Eucaristia eram castigados com doenças e até com a morte:
“pois quem come e bebe sem discernir o Corpo come e bebe o seu próprio juízo. É por isso que há entre vós muitos enfermos e doentes, e bom número morreu.” (1 Cor 11,29-30)
Menciona-se também o castigo de Herodes por não ter reconhecido a glória de Deus, ficando doente até morrer:
“No dia aprazado, Herodes, revestido de vestes reais e sentado no trono, dirigia-lhes um discurso. O povo aclamava: ‘É a voz de um deus, não de um homem!’ De repente, o anjo do Senhor o feriu, porque não dera a glória a Deus, e expirou, comido pelos vermes.” (At 12,21-23)
Há também o castigo de Ananias e Safira por terem mentido ao Espírito Santo:
“Certo homem chamado Ananias, de acordo com sua mulher Safira, vendeu uma propriedade e ficou com uma parte do preço, com o conhecimento de sua mulher; a outra parte trouxe e depositou aos pés dos apóstolos. Pedro lhe disse: ‘Ananias, por que Satanás encheu o teu coração, a ponto de mentires ao Espírito Santo e ficares com parte do preço do campo? Enquanto não o tinhas vendido, não era teu? E depois de vendido, não estava em teu poder? Como te ocorreu este pensamento? Não mentiste aos homens, mas a Deus.’ Ao ouvir estas palavras, Ananias caiu e expirou. E um grande temor se apoderou de todos os que o ouviram. Os moços se levantaram, amortalharam-no e, carregando-o, foram enterrá-lo. Umas três horas depois entrou sua mulher, sem saber o que s컞ra. Pedro lhe perguntou: ‘Dize-me: foi por tanto que vendestes o campo?’ Ela respondeu: ‘Sim, por tanto.’ Pedro lhe disse: ‘Por que vos combinastes para tentar o Espírito do Senhor? Olha: os pés dos que enterraram teu marido estão à porta; eles te levarão também.’ Ela imediatamente caiu aos pés dele e expirou. Os moços entraram e a encontraram morta; levaram-na e a enterraram junto ao marido.” (At 5,1-10)
E assim como estes, há mais casos, como o emudecimento de Zacarias por sua incredulidade ao anunciar-lhe o nascimento de João Batista (Lc 1,20), etc.
É tão absurdo negar o castigo de Deus, que implica contradizer os próprios mandamentos divinos, pois neles Deus menciona claramente a possibilidade de castigar quem os desobedece:
“Não pronunciarás o nome do Senhor teu Deus em vão, porque o Senhor não deixará sem castigo aquele que pronunciar em vão o seu nome.” (Ex 20,7)
Por isso insisto, antes de continuar, que deve ficar claro que o castigo temporal não exclui, mas compreende a correção, como fica claro na Escritura:
“Com teus castigos por falhas tu corriges o homem, como a traça consomes o que mais ele preza. Decerto todo homem não é senão sopro.” (Sl 39,12)
“Como usa de misericórdia, assim também castiga; julga o homem segundo as suas obras.” (Sir 47,13)
“A vara e a repreensão dão a sabedoria, mas o filho abandonado a si mesmo é a vergonha de sua mãe.” (Pr 29,15)
“pois o Senhor corrige a quem ama, como um pai ao filho que lhe é caro.” (Pr 3,12)
“quando somos julgados pelo Senhor, somos corrigidos, para não sermos condenados com o mundo.” (1 Cor 11,32)
“Esquecestes a exortação que vos é dirigida como a filhos: Filho meu, não minores o ensinamento do Senhor, nem desanimes quando Ele te repreende,” (Hb 12,5)
“porque o Senhor corrige a quem ama, e açoita todo filho que recebe.” (Hb 12,6)
Além disso, esse castigo que Deus impõe ao pecador não é apenas um meio corretivo ou intimidatório, mas busca também a expiação da ofensa infligida a Deus e a restauração da ordem moral perturbada pelo pecado.[3]
O Castigo na Igreja primitiva
A Igreja primitiva interpretou da mesma forma o castigo eterno como retribuição pelas ações pecaminosas não contritas da parte da justiça divina, e o castigo temporal como uma correção medicinal para convidar o pecador à conversão. São Clemente Romano, que foi ordenado sacerdote pelo próprio São Pedro e foi também bispo de Roma, escreve em sua epístola aos coríntios uma exortação onde o castigo está diretamente vinculado à correção e à disciplina.
Clemente Romano – (ano 107)
“Recebamos a correção e a disciplina, com a qual ninguém, amados, deve sentir-se perturbado. A admoestação que nos fazemos uns aos outros é boa e extremamente útil, pois nos une à vontade de Deus. Porque assim diz a santa Escritura: ‘O Senhor me castigou severamente, mas não me entregou à morte. Porque o Senhor corrige a quem ama, e açoita todo filho que recebe.’ O justo, diz a Escritura, me castigará com misericórdia e me repreenderá; mas o óleo dos pecadores não ungirá a minha cabeça. E ainda: ‘Bem-aventurado o homem a quem Deus corrige; não desprezes o ensinamento do Todo-Poderoso. Pois Ele é quem faz a ferida e a cura; Ele fere e as suas mãos saram. Em seis tribulações te livrar e na sétima o mal não te tocará. Na fome te salvará da morte, e na guerra te livrará do fio da espada. Da açoite da língua te guardará, e não temerás quando vier o mal. Dos injustos e dos ímpios te rirás, e das feras não temerás. Pois as feras estarão em paz contigo. Então saberás que haverá paz em tua tenda, e a habitação de teu tabernáculo não falhará, e saberás que é numerosa a tua descendência, e os teus filhos como a erva do campo. E chegarás ao sepulcro maduro, como um feixe de trigo colhido a seu tempo.’ Vedes, amados, quão grande é a proteção dos que foram disciplinados pelo Senhor; pois sendo Ele um bom pai, nos castiga com o fim de que alcancemos misericórdia por meio do seu justo castigo.” [tradução própria][4]
O Pastor de Hermas – (ano 141 – 155)
O «Pastor de Hermas» é um livro muito apreciado na Igreja primitiva, a tal ponto que alguns dos Santos Padres chegaram a considerá-lo canônico. Graças ao Fragmento de Muratori (um pergaminho do ano 180 que recolhe a lista dos livros inspirados, descoberto e publicado no século XV), sabemos que foi composto por um tal Hermas, irmão do Papa Pio I, na cidade de Roma. Nessa obra que reflete o pensamento cristão mais primitivo, encontramos como também o castigo temporal se relaciona com a correção que busca a conversão.
“Mas tu, Hermas, não guardes mais rancor contra teus filhos, nem permitas que tua irmã faça o que quer, para que possam ser purificados de seus pecados anteriores. Porque eles serão castigados com castigo justo, a menos que tu mesmo lhes guardes rancor.” [tradução própria][5]
“Porque um homem é atormentado por tantos anos quantos dias viveu na autoindulgência. Vês, pois», disse-me ele, «que o tempo da autoindulgência e do engano é muito curto, mas o tempo do castigo e do tormento é longo.” [tradução própria][6]
Epístola de Barnabé – (ano 130)
Este tratado cristão primitivo foi atribuído, desde os primórdios da Igreja, a Barnabé, o colaborador de São Paulo. Nele se adverte que Deus castigará com a condenação os que morrem em pecados graves, como idolatria, adultério, assassínio, roubo, etc.:
“Mas o caminho do ‘Negro’ é tortuoso e cheio de maldição, pois é caminho de morte eterna com castigo, no qual estão as coisas que perdem a alma de quem o segue: idolatria, temeridade, altivez de poder, hipocrisia, duplicidade de coração, adultério, assassínio, roubo, soberba, transgressão, engano, maldade, arrogância, feitiçaria, magia, avareza, falta de temor de Deus.” [tradução própria][7]
Martírio de Policarpo – (ano 156 – 177)
Escrito cristão primitivo que narra o martírio de São Policarpo, discípulo direto do apóstolo São João. Nele se narra como os cristãos preferiam morrer a sofrer o castigo divino:
“E prestando atenção à graça de Cristo, desprezavam as torturas do mundo, comprando ao custo de uma hora o ser libertos de um castigo eterno.” [tradução própria][8]
Conclusões
A noção de que Deus não castiga está fundada, em alguns casos, ou em uma má compreensão do significado da palavra castigo, ou em uma noção superficial e deficiente do amor de Deus. Como explica Santo Tomás, Deus é amor e quer que todos se salvem, mas também é justo e, como tal, quer castigar o que peca. Ambas as coisas não se excluem: “Deus quer com vontade antecedente salvar todo homem; com vontade consequente, e por sua justiça, quer castigar a alguns.” [tradução própria]. Deus pode castigar para nos corrigir, não por ódio, mas precisamente por amor, como o fazemos com nossos filhos, e como exemplifica Santo Agostinho: “Nem é de outra forma como castigamos nossos filhos, isto é, com ira e indignação; mas não os castigaríamos se não os amássemos.” [tradução própria]. É Jesus Cristo quem nos adverte a cada um de nós: “o servo que conheceu a vontade de seu senhor e não se preparou para cumpri-la receberá muitos golpes” (Lc 12,47). Não é isso castigo? Dirão alguns: “correção”. Eu digo que, neste caso, ambas as coisas são o mesmo.[9][10]
Agora, diante de tudo isso, alguém poderia perguntar se as doenças, os desastres naturais ou os acidentes são castigos de Deus. A isso há que responder negativamente. Uma coisa é que Deus castigue, e outra muito diferente é assumir que as doenças, os desastres naturais ou os acidentes sejam castigo de Deus. Uma coisa não implica necessariamente a outra, ainda que Deus possa recorrer a algum desses acontecimentos para castigar em determinada circunstância, se sua vontade assim o determinar. No evangelho, por exemplo, perguntam a Jesus se a cegueira de uma pessoa era castigo pelo pecado dela ou de seus pais, e Jesus responde que de nenhum: “Ao passar, viu um homem cego de nascença. Seus discípulos lhe perguntaram: ‘Rabi, quem pecou, este homem ou seus pais, para que nascesse cego?’ Jesus respondeu: ‘Nem ele nem seus pais pecaram; é para que as obras de Deus se manifestem nele.'” (Jo 9,1-3). Em outro texto, porém, vê-se que a doença que levou Herodes à morte foi um castigo por seu pecado (At 12,21-23). Nesse sentido, a menos que haja uma revelação especial, não é possível ter certeza de se determinada doença é castigo de Deus ou simplesmente um fato de outra natureza; o contrário seria temeridade.
- Dizia o Papa Bento XVI a este respeito: “Se contemplamos a história, somos obrigados a constatar com frequência a frialdade e a rebelião de cristãos incoerentes. Como consequência disso, Deus, sem jamais falhar à sua promessa de salvação, teve de recorrer frequentemente ao castigo.” (Homilia de S.S. Bento XVI, Inauguração da XII Assembleia Ordinária do Sínodo dos Bispos, 5 de outubro de 2008)“Si contemplamos la historia, nos vemos obligados a constatar a menudo la frialdad y la rebelión de cristianos incoherentes. Como consecuencia de esto, Dios, aun sin faltar jamás a su promesa de salvación, ha tenido que recurrir con frecuencia al castigo.”(Homilía de S.S. Benedicto XVI, Inauguración de la XII Asamblea Ordinaria del Sínodo de Obispos, 5 de Octubre del 2008) ↩
- Explica S. João Paulo II: “A própria história de Jerusalém é uma parábola que ensina a todos a escolha que se tem de realizar. Deus castigou a cidade porque não podia permanecer indiferente ao mal realizado por seus filhos. Mas agora, ao ver que muitos se converteram e se transformaram em filhos justos e fiéis, manifestará ainda o seu amor misericordioso (cf. v. 10). Ao longo de todo o cântico do capítulo 13 de Tobias repete-se com frequência esta convicção: o Senhor ‘castiga e tem compaixão… vos castigou pelas vossas iniquidades, mas tem compaixão de todos vós… te castigou pelas obras de teus filhos, mas voltará a ter compaixão do povo justo’ (vv. 2. 5. 10). Deus recorre ao castigo como meio para chamar ao caminho reto os pecadores surdos a outros apelos. No entanto, a última palavra do Deus justo continua sendo a do amor e do perdão; seu desejo profundo é poder abraçar novamente os filhos rebeldes que voltam a ele com coração arrependido.” Audiência geral de S.S. João Paulo II, quarta-feira, 13 de agosto de 2003“La misma historia de Jerusalén es una parábola que enseña a todos la elección que se tiene que realizar. Dios ha castigado la ciudad porque no podía permanecer indiferente ante el mal realizado por sus hijos. Pero ahora, al ver que muchos se han convertido y se han transformado en hijos justos y fieles, manifestará aún su amor misericordioso (cf. v. 10).A lo largo de todo el cántico del capítulo 13 de Tobías se repite a menudo esta convicción: el Señor “castiga y tiene compasión… os ha castigado por vuestras injusticias, mas tiene compasión de todos vosotros… te castigó por las obras de tus hijos, pero volverá a apiadarse del pueblo justo” (vv. 2. 5. 10). Dios recurre al castigo como medio para llamar al recto camino a los pecadores sordos a otras llamadas. Sin embargo, la última palabra del Dios justo sigue siendo la del amor y el perdón; su deseo profundo es poder abrazar de nuevo a los hijos rebeldes que vuelven a él con corazón arrepentido. ”Audiencia general de S.S. Juan Pablo II, miércoles 13 de agosto de 2003 ↩
- O castigo que Deus impõe ao pecador não é apenas um meio corretivo ou intimidatório, como ensinaram B. Stattler (1797) e J. Hermes (1831), mas antes de tudo persegue a expiação da ofensa infligida a Deus e a restauração da ordem moral perturbada pelo pecado: Deuteronômio 32,41: «Afiarei o relâmpago da minha espada e minha mão empunhará o julgamento; retribuirei a meus adversários e aos que me odeiam darei o merecido»; Romanos 12,19: «Escrito está: A mim a vingança; sou eu que retribuo, diz o Senhor». A pena do inferno, por sua duração eterna, só pode ter caráter vindicativo para os condenados (Mt 25,41 e 46). Por outro lado, não se deve exagerar de tal forma o caráter vindicativo dos castigos divinos, como se Deus fosse obrigado pela sua justiça a não perdoar o pecado sem exigir uma satisfação completa, como ensinaram, seguindo o exemplo de Santo Anselmo de Cantuária (1109), H. Tournely (1729) e Fr. X. Dieringer (1876). Como Deus, por ser soberano e senhor universal, não tem de dar conta a nenhum poder superior, tem o direito de ser clemente, e isso significa que é livre para perdoar os pecadores arrependidos sem que eles ofereçam uma satisfação congrua ou sem satisfação alguma. Ludwig Ott, Manual de Teologia Dogmática, Editorial Herder, Barcelona 1966, p. 41 [tradução própria]Ludwig Ott, Manual de Teología Dogmática, Editorial Herder, Barcelona 1966, p. 41 ↩
- Clemente Romano, Epístola aos Coríntios, LVI ↩
- O Pastor de Hermas, Segunda Visão, Sexta Parábola, III ↩
- O Pastor de Hermas, Quinta Visão, Sexta Parábola, IV (64) ↩
- Epístola de Barnabé, XX,1 ↩
- Martírio de Policarpo, III ↩
- Santo Tomás, Suma Teológica, L.1, Q.19, a.7 ↩
- Santo Agostinho, Sermão LXXXII, 2 ↩