O presente artigo pretende esclarecer algumas das dúvidas que frequentemente têm surgido a partir da utilização do “Evangelho de Tomé” em produções cinematográficas recentes.

Fatos reais?

Na trama de certo filme de 1999 aparece a descoberta de um evangelho anterior aos aceitos na Bíblia e escrito em aramaico ocidental — a língua de Jesus —, e a Igreja Católica é a vilã que tenta ocultar essa descoberta para proteger-se do desmoronamento.

O tema de certas verdades e documentos ocultados pela Igreja Católica não é nenhuma novidade, e tem representado um rico filão de fantasia amplamente explorado na literatura e no cinema recentes.

A história do evangelho aramaico é fantasiosa, o que é perfeitamente válido dentro dos limites de uma certa licença poética; mas a posição contra os supostos representantes da Igreja Católica ao final do filme é justificada com uma deturpação a propósito do que se conhece como o “Evangelho de Tomé”.

Pretendendo fundamentar o filme em fatos reais, conclui-se com um enunciado escrito que reza mais ou menos:

Em 1945 foi descoberto em Nag Hammadi, Egito, “As palavras secretas de Jesus”,
conhecido como o Evangelho de Tomé.
O Vaticano imediatamente considerou o escrito herético.

 

Tal escrito existe na realidade, e contém as palavras atribuídas a Jesus que se repetem no filme como parte do imaginário evangelho aramaico:

“Parte um madeiro e ali estou eu; levanta uma pedra e ali me encontrarás” NHC2 46,26-28.

Nota sobre
a interpretação
deste texto

 

Pode-se ver o texto original copta correspondente.

Mas a Igreja Católica jamais viu esse escrito como uma ameaça; ao contrário, estudiosos do mundo inteiro, católicos ou não, dedicaram-se à tarefa de abordar essa fascinante descoberta.

Pelo conteúdo, foi rapidamente identificado como pertencente a um movimento que teve seu auge durante os séculos II-III d.C., chamado gnosticismo.

Esse movimento, localizado geograficamente sobretudo no Egito, era uma mistura de correntes filosóficas de origem grega e judaica, com um forte sabor mistérico, cheio de supostas revelações secretas, e muito seletivo.

Em determinado momento, os gnósticos assumiram como seu protagonista o Jesus dos cristãos.

Ou seja, um movimento não cristão apropriou-se do Jesus do Cristianismo e o tornou gnóstico.

Em sentido estrito, o gnosticismo não chega sequer a ser heresia, pois não surgiu dentro da Igreja.

Mas os cristãos dos séculos II-III, com expoentes como Orígenes e Atanásio de Alexandria, tiveram de defender-se desse movimento que distorcia a figura de Jesus, apresentando-o como “o principal gnóstico”.

São abundantes os escritos que se conservam dessa época, onde já se vê como o cristianismo luta duramente nos próprios momentos de seu nascimento.

O fato de se ter descoberto recentemente o “Evangelho de Tomé” significou, para a Igreja Católica e para os pesquisadores do mundo inteiro, uma fabulosa oportunidade de confirmar o que já se conhecia e de dispor de mais elementos de juízo para estudar aquela época.

Em que consistiu a descoberta de Nag Hammadi?

Em 1945, alguns camponeses descobriram em Nag Hammadi, Egito, uns códices de papiro que depois foram datados por volta do séc. IV d.C.

códices de ToméFotografia de códices de Nag Hammadi
Copiada de http://home.fireplug.net/~rshand/reflections/messiah/testament.html

O conteúdo mais assombroso encontrava-se no segundo dos doze códices descobertos: nos fólios 33 a 52 — vinte páginas ao todo — encontrava-se um texto em língua copta (antigo egípcio), em perfeitas condições, com as seguintes palavras finais:

Fotografia retocada do original

fotografia do evangelho de Tomé

Em caracteres digitais

fotografia do evangelho de Tomé 2

Pronúncia

EUANGUÉLION
KATÁ TOMAS

Significado

EVANGELHO
SEGUNDO TOMÉ

Quem lê português, com um pouco de esforço, pode identificar algumas das letras.

Remeto a uma fotografia do fólio 52 do 2º códice (final de Tomé):

 

fotografia do fólio 52 do 2º códice (final de Tomé)

fotografia do fólio 52 do 2º códice (final de Tomé).

 

Nota de 9 de março de 2000:

Recomendo o folheto: NAG HAMMADI / Evangelho segundo Tomé: textos gnósticos da origem do cristianismo, KUNTZMANN – DUBOIS, na coleção “Documentos em torno da Bíblia”, n. 16, Ed. Verbo Divino.

Onde se encontra atualmente o Evangelho de Tomé?

Encontra-se no Museu Copta do Cairo Antigo, no Egito.

É e sempre foi propriedade do povo e do governo egípcios, não do Vaticano nem de nenhum grupo religioso.

Embora, para ser preciso, o que se encontra ali são:

os 12 códices de papiro em língua copta saídica descobertos em Nag Hammadi em 1945, o segundo dos quais contém, nos fólios 33 a 52, uma coleção íntegra de ditos introduzidos com a frase “Jesus disse” ou “Ele disse”, e que conclui dizendo “Evangelho segundo Tomé”.

Um gráfico do conteúdo dos códices mais importantes pode ser consultado com meu amigo Michael Grondin, e aqui uma tradução íntegra ao castelhano. Outra mais, em castelhano, encontra-se em http://www.metalog.org/files/tomas.html.

Digo “para ser preciso” porque, como se responde em outras seções,

  • não é um evangelho (ver formação dos evangelhos)
  • não é um original, mas cópia de cópias anteriores que já circulavam, do mesmo modo que acontece com os fragmentos que conservamos dos verdadeiros evangelhos.

 

O que é um evangelho?

Entendem-se sobretudo duas coisas por este termo:

a) Etimologicamente significa “Boa Notícia”, e refere-se concretamente ao anúncio que se faz de que Jesus morreu e ressuscitou pela salvação de todos. Exemplo deste significado encontramos na voz de São Paulo: 1Cor 15,1-4 e Rm 1,1-6.

b) Como gênero literário (escrito de um certo tipo), refere-se aos escritos que se desenvolveram em algumas comunidades cristãs primitivas com a finalidade de anunciar de maneira sistemática a Boa-Nova de Jesus, explicando-a sobretudo através da narração dos fatos e palavras d’Ele.

Quantos evangelhos existem?

São quatro, e aparecem na seguinte ordem na Bíblia:

1.- Evangelho segundo São Mateus
2.- Evangelho segundo São Marcos
3.- Evangelho segundo São Lucas
4.- Evangelho segundo São João

Existem evangelhos fora dos quatro que se encontram na Bíblia?

Em sentido estrito, não.

Existem, em compensação, muitos escritos dos primeiros séculos do cristianismo (e outros de séculos bem posteriores) que chamam a si mesmos evangelhos. Esses “evangelhos”, junto com tantos outros escritos, foram classificados na história da Igreja como livros apócrifos.

Como se formaram os evangelhos?

Esta é uma das questões mais apaixonantes na hora de fazer um esforço para compreender a Bíblia e, para o nosso caso, o porquê de Tomé não estar incluído nela.

Alguém poderia responder:

“Assim como toda a Bíblia, quem os escreveu foi Deus”.

Ou então:

“Escreveu-os cada um de seus respectivos autores, como o próprio nome diz: Mateus, Marcos, Lucas e João”.

Alguém poderia aprofundar respondendo:

“Escreveu-os cada um dos quatro evangelistas, porém inspirados por Deus”.

E alguém mais poderia levar a questão a maior detalhe:

“A inspiração por parte de Deus aos autores humanos não consiste em um ditado, nem em revelações à maneira de sonhos, êxtases ou situações que indiquem que o evangelista escrevia palavra por palavra o que Deus lhe indicava. A inspiração consiste em que Deus, sem que os autores humanos se dessem conta, mas imersos numa comunidade de fé, ia armando e tecendo o conjunto de todas as Escrituras Sagradas, acompanhando os crentes em sua história”.

Verdadeiríssimo.

No entanto, a questão é muito mais profunda, e merece um detido estudo sobre o único aspecto ao qual temos acesso: o humano, já que o divino estará sempre fora de nossa compreensão.

Comecemos pela origem do cristianismo.

1) Em que criam os primeiros seguidores daquele carpinteiro da Galileia?

Nos evangelhos?

Não, porque ainda não existiam. O primeiro evangelho escrito apareceu algumas décadas depois de já haver cristãos.

Criam então na Bíblia?

Até certo ponto, sim. As Escrituras então existentes, que hoje nós, cristãos, chamamos de “Antigo Testamento” e que são a primeira parte do que hoje chamamos Bíblia, serviam para ser lidas em público.

Mas é preciso observar que as pessoas comuns não liam a Bíblia, por duas razões simples:

a) Quase ninguém sabia ler.

b) Os escritos (códices, papiros, pergaminhos) eram muito custosos por serem copiados à mão e, portanto, estavam reservados ao uso público, pois somente um fundo comum podia arcar com tais gastos. As Bíblias impressas como as conhecemos agora existem de Gutenberg (1400-1468) para cá.

Criam nos dez mandamentos, no perdão, no amor ao próximo?

Em tudo isso, sim, claro. Mas nenhum código moral, por bom e aceito que seja, é a essência do cristianismo, nem basta vivê-lo.

Em que criam, então, os primeiros cristãos?

Em JESUS CRISTO como Deus feito homem, morto e ressuscitado para que todos alcancemos a salvação que não merecíamos.

Nem os mandamentos, nem a Igreja, nem escrito algum, nem costume algum são mais importantes que a fé neste Jesus Ressuscitado.

2) Depois que Jesus já não esteve fisicamente presente na Terra, como podiam os cristãos saber que estavam seguindo o verdadeiro Jesus e seus ensinamentos?

Resposta: a Igreja.

Igreja vem do grego “Ekklesía”, que significa Assembleia.

Refere-se, pois, à comunidade dos crentes, encabeçada pelos apóstolos, que ia vivendo sua fé a partir das recordações e ensinamentos sobre esse Jesus que muitos dos novos membros já não conheceram pessoalmente.

Quem quer que leia o livro dos Atos dos Apóstolos perceberá o quão zelosíssimos foram os primeiros cristãos, não só em anunciar a Boa-Nova de Jesus, mas em conservar aquilo em que criam livre de distorções e de interpretações desviadas, as quais abundaram desde o princípio.

São inumeráveis os exemplos de tal luta pela preservação da fé, que se reflete já desde o nascimento da Igreja. Podem-se examinar as seguintes passagens:

Sobre “outros” evangelhos (no sentido de doutrinas distintas):
– 2Cor 11,4
– Gl 1,6-7

Sobre obrigações desnecessárias:

– Atos 15,1ss

Assim, pois, é a Igreja, com Pedro e os apóstolos à frente, quem cuida zelosamente de transmitir e fazer crescer, fielmente e sem distorções, a fé em Jesus Cristo.

3) De que maneira as comunidades cristãs transmitiram a fé em Jesus de geração em geração?

Aqui está a parte mais interessante de tudo.

A principal maneira de anunciar Jesus a alguém que não o conhece, ou de aprofundá-lo diante de quem já teve um primeiro contato, é por transmissão oral.

Isto é, através de palavras faladas, pronunciadas com língua, lábios, faringe, dentes e palato.

Compreender essa situação é mais difícil do que parece para nós, porque estamos muito acostumados a ter acesso a jornais, livros, revistas e todo tipo de publicações.

Nada disso naquela época.

Facilmente temos à mão papel e lápis para escrever qualquer coisa e, nos últimos anos, até o impresso se tornou não essencial com a Informática e a correspondência eletrônica.

Parece-nos tão natural que todo mundo deva saber ler.

Mas não era assim naquela época.

Só escreviam aqueles que o faziam como ofício (daí a palavra “escriba”).

E só se escreviam coisas que valessem a pena o investimento de curtir pele de animal, fabricar tinta e contratar alguém que soubesse escrever.

Não surpreende que os escritos mais abundantes e antigos sejam contratos de compra e venda e recibos de dinheiro.

Pois bem, voltando às comunidades cristãs: conforme estas cresciam com novos membros provenientes de todas as partes e com todo tipo de costumes e crenças, mais necessário se tornava não confiar na memória e na transmissão oral.

Já não bastava que alguém que tivesse conhecido pessoalmente algum dos que tiveram contato físico com Jesus contasse o que lhe haviam contado. Isso tinha seu limite.

E como cada comunidade foi formando sua bagagem de recordações das palavras e dos feitos de Jesus de acordo com a sua própria realidade, nem em todas as Igrejas se conservavam e transmitiam exatamente as mesmas coisas, embora no essencial tivessem de coincidir.

E em algum momento determinado, alguém da comunidade sistematiza sabiamente a Boa Notícia sobre Jesus que já vinha sendo transmitida desde anos antes, pondo-a por escrito.

E assim, esse escrito, cujo conteúdo já se transmitia oralmente e estava bem vivo na memória da comunidade, passava a ser um patrimônio sagrado que servia para transmitir mais fielmente a Boa-Nova: nasciam assim os Evangelhos.

As distintas origens geográficas explicam as diferenças entre os quatro evangelhos: em Roma viveram-se fortes perseguições e por isso a comunidade transmitia com força as palavras alentadoras de Jesus: “Se alguém me quer seguir, tome a sua cruz e siga-me” (Mc 8,34; 10,21).

O evangelho segundo São Marcos, que reflete a vida da comunidade de Roma, abunda por isso no alento diante do sofrimento.

O Evangelho segundo São Lucas, em contrapartida, dirigido a não judeus, tem uma linguagem mais acessível e mais agradável de ler, além de selecionar, entre as palavras de Jesus, aquelas que falam do “verdadeiro tesouro no céu” (Lc 18,22; 12,15; 12,33), pois entre os membros das comunidades onde surgiu este evangelho havia muitos ricos.

4) Resumo.

Os evangelhos surgem nas comunidades cristãs ao se pôr por escrito o que já vinha sendo transmitido desde anos antes: a Boa Notícia de Jesus Ressuscitado.

Com esta explicação fica clara a seguinte tabela de prioridades de fé:

Com efeito, primeiro é Jesus, depois os que o seguem, e em seguida a Palavra humano-divina que alimenta esse seguimento.

Por que o evangelho de Tomé não está incluído na Bíblia?

Porque, à diferença dos evangelhos canônicos (os que de fato são considerados inspirados por Deus), não surgiu de uma comunidade cristã.

O mais provável é que tenha circulado como um escrito gnóstico, pois tem um estilo que se assemelha muito, no arcano, no esotérico e no repleto de frases mistéricas, a esse movimento.

E ainda que tivesse surgido numa comunidade cristã, o que determinou que alguns livros fossem aceitos como canônicos e outros não foi o consenso entre as Igrejas (entenda-se por “Igrejas” as distintas comunidades cristãs pertencentes à única Igreja de Jesus Cristo).

O testemunho mais antigo de um cânon de livros sagrados é o que se conhece como “Fragmento Muratoriano”, que data do séc. II e inclui uma lista dos escritos que circulam como inspirados na Igreja.

Por outro lado, há especialistas que afirmam que o copta saídico, a língua em que se encontram os códices de Nag Hammadi, nunca foi falado entre as pessoas comuns.

Como o gnosticismo era mais para elitista, praticamente inventaram seu próprio idioma: uma mistura de egípcio com palavras e caracteres gregos.

O assunto não é tão simples, pois não se sabe se o que conservamos atualmente responde a um original copta, ou se é antes tradução de um original grego, como parecem mostrá-lo alguns fragmentos descobertos em 1896-1905 em outro povoado egípcio chamado Oxirrinco.

De qualquer modo, quem quer que leia os 114 “ditos de Jesus” contidos nesta obra, agrupados sem uma aparente ordem lógica, e alguns dos quais idênticos aos dos evangelhos canônicos, perceberá o grande abismo que há entre o “Evangelho de Tomé” e os quatro que por dois mil anos têm sido utilizados na Igreja.

O que a descoberta de Nag Hammadi trouxe aos estudos bíblicos?

(Sugiro ao leitor comum saltar a leitura desta seção)

Sobretudo, confirmou uma hipótese que já existia:

Que circulavam, como um gênero literário próprio, coleções de ditos de Jesus.

Esta hipótese serviu, desde 1838, de base para explicar a origem de muitas passagens evangélicas que se encontram em Mateus e em Lucas, mas não em Marcos. A essa coleção hipotética de ditos de Jesus que serviu de fonte para Mateus e Lucas deu-se o nome de “Q” (em alemão “Quelle”, fonte).

Assim, esta obra encontrada no códice II de Nag Hammadi, conhecida como o Evangelho de Tomé, é paralela em estilo a “Q”, mas não aos evangelhos canônicos.

Sobre este artigo.

O autor deste ensaio, sacerdote católico da diocese de Tijuana, teve seu primeiro contato com o “Evangelho de Tomé” em 1986, devido a um trabalho de consulta sobre palavras de Jesus fora dos evangelhos.

Agradeço a assessoria de alguns especialistas: Mons. Isidro Puente, que se tornou notório em sua defesa de tese doutoral sobre uma tradução sua de um texto copta ao latim lá pelos anos 1970; Pe. Florentino Durazo, especialista em Patrística; e o Sr. Michael Grondin, entusiasta erudito dos códices de Nag Hammadi, que teve a amabilidade de facilitar-me sua versão do texto copta, em formato editável, do “evangelho de Tomé”, íntegro.

O Sr. Grondin mantém um estupendo espaço de referência para os estudiosos do 2º códice de Nag Hammadi em http://gospel-thomas.net/ .

O aprofundamento acadêmico levou este humilde servidor a amar mais a Palavra de Deus, contando entre suas maiores fortunas o poder lê-la nas línguas originais.

Vejo neste assunto uma oportunidade de difundir questões que, para a maioria das pessoas, são bastante áridas, mas que podem ajudar a entender melhor a Bíblia e a Igreja.

©1999-2005 Juan García Ruvalcaba. Encorajo quem o julgar útil a reproduzir total ou parcialmente e por qualquer meio o presente material. Apelo somente à mais elementar ética, para que quem o fizer

a) cite esta fonte (http://www.giscala.com/tomas/).
b) não lucre.

c) se possível, notifique-me em email

 

Ad Maiorem Dei Gloriam

 

Juan García Ruvalcaba

 

Notas.

1)

Os caracteres que aparecem nesta foto, tirada de um filme, não são do aramaico do tempo de Jesus. Correspondem ao hebraico do tempo de Ezequias, que reinou em Jerusalém de 727 a 698 a.C.

Coloquei perto de cada letra sua transliteração correspondente. Se é que significa realmente algo, a única coisa coerente que encontrei é a palavra “yashud” (que devasta), a qual se encontra também no Salmo 91,6.

tom_ezeq

 

 

 

 

 

 

 

2) NHC2 46,26-28:

Leia-se “Nag Hammadi, Códice 2, fólio 46, linhas 26 a 28”.

Embora a coleção esteja dividida em 114 “ditos de Jesus”, e por isso mesmo rapidamente se tenha utilizado esta numeração em “ditos” (ou logia) para localizar um determinado texto, isso é considerado menos científico.

Se nos ativermos a esta maneira mais simples de citar, diríamos EvTom 77 (Evangelho de Tomé, dito 77).

3) Onipresença divina e panteísmo

A onipresença divina, isto é, o fato de que Deus está em todas as partes, é um postulado cristão. Também faz parte da tradição espiritual cristã uma certa forma de contato com o Criador através de Suas criaturas.

Um discurso à parte, quanto à percepção humana, é a não incompatibilidade entre o conceito de onipresença e a necessidade de lugares visíveis de culto.

Distinto de onipresença divina, e contrário à fé cristã, é o “panteísmo”; isto é, a afirmação de que tudo é Deus, já que lhe tira Seu caráter transcendente, pessoal, superior e, sobretudo, distinto de Sua criação.

Voltar a “parte um madeiro…”

4) Naquele tempo, cursando o I ano de Teologia como seminarista, foi o logion (dito) 82 o objeto de minha atenção, por ocasião de um trabalho escrito que devia entregar para a disciplina de introdução teológica:
“Quem está perto de mim, está perto do fogo;
quem está longe de mim,
está longe do Reino”. (EvTom 82).

Um biblista alemão chamado Joachim Jeremias, em seu livro Palavras desconhecidas de Jesus (Ed. Sígueme), p. 72ss., considera que este logion, atestado também por vários autores cristãos dos sécs. II-IV, remonta verdadeiramente a Jesus Cristo, ainda que não esteja consignado nos evangelhos.

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Nota de 20 de junho de 2001.

Aqui havia uma nota de 8 de fevereiro de 2000 e seguiam-se vários comentários que complementavam o artigo. Hoje, 20 de junho de 2001, depurei o artigo, sobretudo eliminando quase tudo o que pudesse parecer polêmico. Deixei somente três comentários de leitores.

“…temos tido atividade em paróquias e grupos da Igreja, mas sinceramente desconhecíamos a existência do ‘evangelho’ mencionado no filme”.

Gabriela Tabernero

 

Um dos recursos mais inteligentes da produção foi lançar mão de um documento valioso, porém desconhecido inclusive para pessoas de cultura mediana. De fato, os sacerdotes católicos que viram este filme, na maioria dos casos, lembram-se, sim, de que existe um evangelho apócrifo de Tomé; mas, sendo um tema mais para secundário no ciclo de estudos teológicos, seria necessário um interesse especial para estar familiarizado, não digo já com este escrito, mas com os apócrifos em geral.

Baixei da internet os evangelhos de Tomé, já que gostei muito do filme e de sua trama; já me disponho a lê-los. Seu comentário me pareceu muito coerente, mas ouvirei o outro lado do sino sobre isto e lhe contarei num próximo e-mail minhas conclusões, já que nisto há muito que dizer e opinar segundo os pontos de vista de quem os lê.

Carlos Alberto Arias

Espero suas conclusões.

Embora dois sinos opostos me pareçam insuficientes para se formar uma conclusão pessoal. Seriam necessários bastantes campanários, e abundantes horas de generoso estudo com uma mente realmente crítica, sem sacrificar o intelecto ao pobre recurso de encontrar a própria opinião numa média democrática das opiniões dos demais.

“…Mas, diga-me: cabe a possibilidade de que em algum momento algum apóstolo fora dos 4 possa ter mantido algo semelhante a um diário de sua vida com Jesus e o tenha escrito, e que com o tempo se tenha perdido?”

Jorge Rojas

A possibilidade de que se tenha escrito algo mais próximo de Jesus do que os evangelhos com que contamos existe, embora seja pequena.

De fato, um biblista italiano (não me lembro do seu nome) afirmou, há uns cinco anos, que, contrariamente ao que se pensa, não é o evangelho de Marcos o mais antigo, e sim o de João.

Sua hipótese é que o evangelista João escreveu quase diretamente os acontecimentos da vida de Jesus, e não vários anos depois. Ele expõe várias razões que seria longo mencionar (nomes exatos de lugares com descrição de detalhes, menção da hora que era etc.), embora não tenha tido muita aceitação no mundo erudito.

Por outro lado, desde há muito vem-se cogitando a ideia de que é provável que tenha existido o que se chama um “protoevangelho aramaico de Mateus”, que se perdeu e que serviu de base para o atual Mateus grego. Esta hipótese está baseada numa menção que faz um tal Papias.

E é um fato quase certo, como menciono mais acima, que deve ter existido um escrito que continha ditos de Jesus (semelhante em estilo ao “Evangelho de Tomé”) e que serviu de fonte para os evangelhos de Mateus e Lucas. Tal escrito, conhecido como “Q”, é uma mera hipótese, que não se encontra em parte alguma, mas cujos vestígios detectamos em Lc e Mt.

Mas, voltando à sua pergunta, sobre se é possível que algum apóstolo fora dos quatro tenha escrito algo parecido com uma biografia ou um diário de atividades de Jesus, só posso dizer-lhe que nos movemos no mundo dos possíveis. Não há elementos nem para afirmá-lo nem para negá-lo.

Embora as razões que o tornam pouco provável sejam:

1.- A arte de escrever estava reservada a uns poucos, e nenhum dos discípulos de Jesus parece ter sido um escriba: os principais eram pescadores. As formas escritas dos evangelhos vieram à luz seguramente contratando-se alguém apropriado. E, por sinal, as comunidades eram pobres; por isso os manuscritos mais antigos são de papiro, material mais barato que o pergaminho, e geralmente com letra muito ruim, o que indica que os escribas contratados não eram lá dos mais profissionais.

2.- Não há nenhum testemunho que indique que alguém escrevesse algo de maneira imediata.

No entanto, há algo muito interessante.

Cada vez mais se afirma entre os estudiosos a ideia de que Jesus falava de tal maneira — como um orador excepcional — que suas frases curtas e intensas estavam desenhadas para ser memorizadas e repetidas rapidamente, o que facilitou sua posterior colocação por escrito.

 

Nota de 26 de fevereiro de 2000.

Fim do discurso; tudo foi ouvido
Eclesiastes 12,13

Hoje, sábado, 26 de fevereiro de 2000, tendo-se inesperadamente completado mil visitas a esta página (para algo caseiro, não está mal) e restando muito que comentar sobre a grande quantidade de tópicos que podem brotar da curiosidade dos leitores, declaro-me cansado e repito com o livro do Eclesiastes, ao final de sua exaustiva reflexão:

Multiplicar os livros não tem fim,
e o excesso de estudo é uma fadiga para a carne.
Fim do discurso! Tudo foi ouvido!
Teme a Deus e observa os seus mandamentos,
porque é este o dever de todo homem.

 

Eclesiastes 12,12b-13b

Este espaço permanecerá aqui de maneira indefinida.

Eu, por ora, reoriento as energias que vinham sendo investidas nisto para os serviços que começava a descuidar, pois os pobres já clamam ao céu exigindo justiça.

Encomendo-me às suas orações.

Deus abençoe a todos.

Fonte: www.giscala.com