“É tão grande a liberalidade da divina beneficência que não só podemos satisfazer a Deus Pai, mediante a graça de Jesus Cristo, com as penitências que voluntariamente empreendemos para satisfazer pelo pecado, ou com as que o sacerdote nos impõe, proporcionadas ao delito, mas também — o que é grandíssima prova do seu amor — com os castigos temporais que Deus nos envia e que sofremos com resignação.”[1]
Sim, eis aqui o Magistério solene da Igreja afirmando que Deus não só pode nos enviar castigos temporais, como de fato o faz. Mas voltaremos a isso mais adiante; comecemos, pois, pelo princípio…
Recentemente publiquei um artigo onde respondia à pergunta: Deus castiga ou não castiga? No qual analisava o erro que foi se infiltrando no povo católico quanto a crer que Deus nunca castiga. Nesse artigo mencionei que até mesmo personalidades ilustres dos meios de comunicação católicos (como Frank Morera, apologeta católico, e Alejandro Bermúdez, diretor da ACIPrensa e apresentador de vários programas da EWTN) haviam cometido o mesmo erro, contradizendo o que o Magistério ordinário e extraordinário da Igreja ensinou ao longo dos séculos. Hoje, graças a alguns leitores da ApologeticaCatolica.org, fiquei sabendo que Alejandro Bermúdez publicou um podcast onde responde a alguns de meus argumentos, e achei necessário publicar também eu uma resposta aos dele.[2]
Antes de começar, creio necessário esclarecer novamente que isso não deve ser tomado como um ataque pessoal à pessoa de Alejandro Bermúdez, nem tampouco à de Frank Morera, pois considero que ambos exercem um honroso ministério dentro da Igreja. Fui eu mesmo um dos que compartilhou em não poucas ocasiões seus vídeos, palestras e conferências, seja em meus blogs, seja na ApologeticaCatolica.org.
Mas precisamente porque valorizo seu trabalho, é que considero necessário corrigi-los quando o que ensinam se afasta da verdade e pode levar à confusão as pessoas que recorrem a eles para se formar. Como estão à frente de prestigiosos e influentes meios de comunicação católicos, um erro da parte deles pode confundir um grande número de católicos.
Segundo os Papas… Deus castiga somente no Antigo Testamento?
Começo com esta pergunta porque, no início de meu artigo, eu começava citando os Papas São João Paulo II e Bento XVI para mostrar como até mesmo os pontífices na época atual, assim como o restante dos Papas ao longo da história, ensinaram que Deus pode castigar se assim o decide, como forma misericordiosa de corrigir o pecador, ou para expiar a ofensa infligida a Deus e restaurar a ordem moral perturbada pelo pecado. Diante dessas citações, Alejandro responde:
“Correto, mas neste texto, tirado completamente fora de contexto, o Papa Bento XVI estava se referindo ao Deus do Antigo Testamento, onde Deus se revela como um Deus castigador. É óbvio que no Antigo Testamento Deus castiga; os exemplos abundam, inclusive ao grande amigo de Deus: Moisés, por ter perdido a paciência em Meribá e ter golpeado duas vezes com o cajado, para que saísse água de uma só vez, por fúria, Deus o castiga e não lhe permite ver a terra prometida. A mulher de Ló que se converte em sal, o próprio dilúvio universal.”
Bem, vemos que, por um lado, Alejandro reconhece de entrada que Deus durante o Antigo Testamento de fato castigava, mas depois afirma que o Deus do Novo Testamento é diferente e que já não o faz mais. O problema é que nesses comentários já há vários erros (uns mais graves que outros) que é importante analisar, e o farei à medida que avance. Começarei pela citação do Papa Bento XVI que Alejandro diz que eu descontextualizei, e o farei citando o texto num contexto mais amplo para afastar qualquer gênero de dúvidas, e o leitor possa julgar por si mesmo se isso é verdade.
Diz assim o Papa Bento XVI (os negritos são meus):
“O que denuncia esta página evangélica interpela nosso modo de pensar e de agir. Não fala só da ‘hora’ de Cristo, do mistério da cruz naquele momento, mas da presença da cruz em todos os tempos. De modo especial, interpela os povos que receberam o anúncio do Evangelho. Se contemplamos a história, somos obrigados a constatar com frequência a frieza e a rebelião de cristãos incoerentes. Como consequência disso, Deus, sem jamais faltar à sua promessa de salvação, teve que recorrer com frequência ao castigo.
Nesse contexto, é espontâneo pensar no primeiro anúncio do Evangelho, do qual surgiram comunidades cristãs inicialmente florescentes, que depois desapareceram e hoje só são recordadas nos livros de história. Não poderia acontecer o mesmo em nossa época?”
Detenhamo-nos por um momento no que sublinhei em negrito. O Papa começa falando de como, ao longo da história, houve frieza e rebelião da parte de cristãos incoerentes, e note que ao falar de cristãos não está se referindo a pessoas que viveram durante o Antigo Testamento, de modo que o que segue não pode de nenhuma forma excluir o Novo Testamento. Diz assim: “Como consequência disso, Deus, sem jamais faltar à sua promessa de salvação, teve que recorrer com frequência ao castigo.”
Destaco em negrito as palavras “como consequência disso” porque revelam que precisamente pelo fato de ter havido cristãos incoerentes é que Deus teve que recorrer com frequência ao castigo, ou o que é o mesmo: Deus teve que recorrer ao castigo como consequência de ter havido cristãos incoerentes. Pergunto agora: Acaso havia cristãos no Antigo Testamento? Ou o Papa está falando em geral de toda a história da humanidade? De fato, se lemos ainda mais atrás vemos que o contexto o confirma, pois diz: “Não fala só da ‘hora’ de Cristo, do mistério da cruz naquele momento, mas da presença da cruz em todos os tempos. De modo especial, interpela os povos que receberam o anúncio do Evangelho.” É desnecessário esclarecer que os povos que receberam o anúncio do Evangelho não foram precisamente os povos do Antigo Testamento. Para coroar, remata: “Não poderia acontecer o mesmo em nossa época?”
Foi Alejandro quem não verificou cuidadosamente o contexto desta citação do Papa Bento XVI, que de nenhuma forma pode ser entendida como referindo-se apenas a castigos divinos ocorridos somente no Antigo Testamento. Digamo-lo sem rodeios: mais claro que a água.
Com minha citação seguinte do Papa João Paulo II, Alejandro argumenta da mesma maneira, dizendo que fala do livro de Tobias, que está no Antigo Testamento, e que portanto deve ser descartada como exemplo de que o Deus do Novo Testamento castiga, passando por alto que João Paulo II cita o mesmo livro para dar a entender que assim como Deus castiga também é compassivo. No entanto, para evitar que nosso bom amigo se entrincheirasse nesse argumento, citemos então o Papa João Paulo II em outra de suas audiências onde não há nenhuma maneira de atribuir-lhe que se refere somente ao Antigo Testamento. Refiro-me à sua audiência de quarta-feira, 29 de setembro de 1999, onde escreve:
“O amor paternal de Deus não exclui o castigo, ainda que este deva ser entendido dentro de uma justiça misericordiosa que restabelece a ordem violada em função do bem do próprio homem (cf. Hb 12,4-11).”
Observe o leitor que o Papa João Paulo II fala de que o Deus que não exclui o castigo é aquele que nos ama com amor paternal. E o faz com uma dupla finalidade: restabelecer a ordem violada em função do bem do próprio homem e aplicar a misericordiosa justiça de Deus.[3]
Segundo a Bíblia, Deus castiga somente no Antigo Testamento?
Outro erro que Alejandro comete em seu podcast é afirmar que somente o Deus do Antigo Testamento castiga e que não há em todo o Novo Testamento nenhum texto onde se veja Deus castigar com outro castigo que não seja a condenação eterna após o julgamento. Diz textualmente Alejandro:
“No Novo estão os 27 livros que incluem os quatro evangelhos, os Atos dos Apóstolos, as cartas de São Paulo, a carta aos Hebreus, a carta de Tiago, Primeira de João, Segunda de João, a carta de Judas, o Apocalipse. Em nenhum deles se fala de castigo fora da pena final.”
No entanto, em meu artigo inicial eu demonstrei que isso não é verdade, e suponho que Alejandro não chegou até essa parte, porque em seu podcast se limitou a comentar somente o primeiro parágrafo de um artigo de várias páginas. Pois bem, lembro novamente que eu mostrei que São Paulo amonesta os que recebiam indignamente a Eucaristia e lhes diz que por isso eram castigados com doenças e até com a morte:
“pois quem come e bebe sem discernir o Corpo come e bebe o seu próprio juízo. É por isso que há entre vós muitos enfermos e doentes, e bom número morreu.” (1 Cor 11,29-30)
Citei também o caso claríssimo de Herodes, que por haver consentido uma blasfêmia, foi ferido pelo anjo de Deus, ficando doente até morrer:
“No dia aprazado, Herodes, revestido de vestes reais e sentado no trono, dirigia-lhes um discurso. O povo aclamava: ‘É a voz de um deus, não de um homem!’ De repente, o anjo do Senhor o feriu, porque não dera a glória a Deus, e expirou, comido pelos vermes.” (At 12,21-23)
E citei ainda o castigo que sofreram Ananias e Safira por terem mentido ao Espírito Santo (At 5,1-10).
Como se pode observar, em nenhum desses casos se implica necessariamente a condenação eterna produto do julgamento, como sustenta Alejandro, pois ali se fala de castigos temporais. Deus, em algum momento determinado, e se sua vontade assim o determinar, pode castigar tal como se viu no Antigo Testamento, depois no Novo Testamento e inclusive nas revelações privadas onde a Virgem nos adverte que o mundo pode ser castigado por nossos pecados.
Sobre as revelações privadas
Também é preciso recordar que na grande maioria das revelações privadas aprovadas pela Igreja, a Virgem Maria e o próprio Jesus advertem sobre a possibilidade de enviar castigos ao mundo se este não se converter. A respeito disso, Alejandro opina que em todas essas revelações privadas isso se faz com caráter “devocional”. Mas o que implica isso? Que a Virgem Maria “mente” piedosa e devocionalmente para mover-nos à conversão? Porque se a Virgem Maria dissesse algo falso com a consciência de que é assim — isto é, se pensasse que não existe a possibilidade de que Deus envie castigos temporais ao mundo e ainda assim o dissesse por qualquer razão — estaria mentindo. Sabemos que o fim não justifica os meios; portanto, uma de duas: ou todas essas revelações privadas são falsas, incluindo as aprovadas pela Igreja, ou são verdadeiras e de fato Deus pode castigar o mundo por seus pecados.
Alejandro acrescenta ainda que as revelações privadas não fazem parte da fé da Igreja, e isso é verdade, mas também é verdade que quando a Igreja aprova uma revelação privada, aprova que nela não há nada contrário à fé, e se ao dizer que Deus castiga se dissesse algo que vai contra a doutrina católica, a Igreja não as aprovaria. Apesar de tudo, Alejandro insiste em que quem diz que Deus castiga não conhece o ensinamento da Igreja, mas não será mais que é ele quem o desconhece nesse ponto? Para abordar essa questão, analisarei agora as citações que ele faz das encíclicas de João Paulo II e Bento XVI.
Citações de Alejandro Bermúdez de Bento XVI e São João Paulo II
Para apoiar seu ponto de vista, Alejandro Bermúdez cita em seu favor a encíclica Dives in misericordia e a exortação apostólica Reconciliatio et paenitentia de João Paulo II, e a encíclica Spe Salvi de Bento XVI. A respeito disso escreve:
“…como diz o Papa João Paulo II, em Dives in misericordia, isto é, em Rico em misericórdia, as passagens nas quais Deus castiga e inclusive coloca à prova não são compreensíveis à luz do Novo Testamento — isso é o que ele diz —, não são compreensíveis.”
Mas isso não é verdade, e não é isso o que diz ali o Papa João Paulo II, como o próprio leitor pode verificar no documento publicado gratuitamente na página oficial do Vaticano. O problema de analisar agora esses argumentos de Alejandro reside em que, ao contrário da forma como eu citei os Papas de maneira textual, ele o faz de maneira parafraseada e coloca em sua boca palavras que não estão ali, de modo que se torna impossível encontrar nesses documentos o que lhes atribui. Convido o leitor a rever esse documento e comprovar o seguinte:
—Ali o Papa não está afirmando que Deus castigue ou não castigue; de fato, a palavra “castigo” não aparece em todo o texto NEM UMA SÓ VEZ. Se se trata de uma interpretação pessoal de Alejandro da encíclica, temos de apontar que assim não se pode provar nada. O correto é citar textualmente o texto e depois argumentar, recorrendo se necessário ao contexto.
O mesmo faz com relação aos outros documentos citados. Em Reconciliatio et paenitentia tampouco aparece a palavra “castigo” nem uma só vez, e em Spe Salvi aparece somente em duas ocasiões e não precisamente para negar de maneira implícita ou explícita que Deus possa castigar. Provavelmente Alejandro interprete mal esses textos porque falam da misericórdia de Deus, precisamente porque em sua errônea concepção da misericórdia esta exclui o castigo, quando na verdade o compreende, como afirma o Papa João Paulo II na citação que mencionamos previamente.
Alejandro posteriormente citou outro documento do Papa São João Paulo II para tentar demonstrar que o Papa dizia que Deus não castiga. Refiro-me ao Ângelus do Domingo, 13 de fevereiro de 2000. Convido os leitores a revisá-lo e verificar que efetivamente ali tampouco aparece sequer a palavra “castigo” NEM UMA SÓ VEZ, nem nega em parte alguma que Deus possa castigar, ao contrário dos documentos aqui apresentados, onde se cita textualmente os Papas afirmando que Deus de fato castiga.
Deus “castigador” no AT versus Deus “todo amor” no NT?
Talvez o erro mais grave de toda a argumentação de Alejandro seja a errônea distinção que faz entre o Deus do Antigo Testamento e o Deus do Novo Testamento. É verdade que no Antigo Testamento Deus não havia se revelado completamente a si mesmo, mas tudo aquilo em que si havia se revelado era autêntico e sem sombra de erro, o que inclui sua atuação como castigador para conseguir a conversão ou como instrumento de sua justiça vindicativa. A esse respeito é oportuno recordar um dos exemplos mais luminosos nos quais o anúncio de um castigo de Deus provoca a conversão de todo um povo, no relato do livro de Jonas. Precisamente por uma má compreensão de algumas figuras do Antigo Testamento, alguns hereges gnósticos da Antiguidade, como Marcião, entenderam que o Deus descrito no Antigo Testamento era um Deus diferente do do Novo. Seu erro o levou a tal extremo que rejeitou a totalidade do Antigo Testamento.
No que se refere ao tema do castigo, já no Antigo Testamento estava clara a noção de que Deus castiga o homem por amor e para corrigi-lo, como recita o salmista: “Com teus castigos por falhas tu corriges o homem, como a traça consomes o que mais ele preza” (Sl 39,12), texto que demonstra que a distinção feita por Alejandro, onde pretende excluir que o castigo possa ter caráter medicinal, é falsa. Os textos patrísticos que citei de todos os primeiros cristãos, onde reiteram que Deus castiga precisamente porque nos ama, também são muito posteriores ao Antigo Testamento, mas mantêm a mesma ideia.
Por que aos maus vai bem e aos bons vai mal?
Para tentar demonstrar que Deus não castiga, Alejandro menciona o fato de que há pecadores que não recebem castigos em vida. Diz Alejandro:
“Se Deus castigasse, por que existem pessoas que cometem tanto mal e tanto dano? Por que existem tantos corruptos nos quais Deus não faz nada e morrem tranquilos em sua cama? Por quê? Deus castiga então somente os bons? Os que podem ser corrigidos? Se assim for, Deus não castiga, corrige.”
Bem, comecemos primeiro por esclarecer dois pontos:
Primeiro: Não dizemos que Deus sempre aplique um castigo temporal aos pecadores em vida. Pode ser que assim seja, se essa for a sua vontade, como foi o caso de Herodes ou o de Ananias e Safira, ou pode ser que lhes reserve o castigo para a outra vida. Mas isso é uma coisa, e outra muito diferente é negar a possibilidade de que Deus possa ou queira castigar.
Mas a essa pergunta tão antiga quanto o mundo, os santos e padres da Igreja a entenderam não negando que Deus castigue, mas afirmando que Deus, em sua sabedoria, elege castigar alguns em vida e outros não, por razões diversas. A esse respeito, por exemplo, explica São João Crisóstomo:
“Porque há homens que só pagam por seus pecados nesta vida, como aqueles de quem fala São Paulo em uma primeira carta aos coríntios (1 Cor 11), que profanam os mistérios cristãos, mas há outros que são castigados no outro mundo, como o rico condenado de quem fala São Lucas (Lc 16). E há outros, enfim, como os judeus, que levam uma vida intolerável neste mundo desde a tomada de Jerusalém, e aos quais estão reservados no outro mundo outros castigos mais severos.” [tradução própria][4]
“Deus castiga certos pecadores, destruindo sua malícia e decretando pena mais leve para eles, separa-os dos outros e corrige os que vivem no mal com a condenação de alguns. Além disso, aqui não castiga outros, com o fim de que, se fizerem penitência, evitem os castigos presentes e a pena eterna; mas se perseverarem em sua malícia, haverão de sofrer maior tormento.” [tradução própria][5]
São Basílio também explica a esse respeito:
“É próprio da divina misericórdia não impor castigos em silêncio, mas publicar primeiro suas ameaças excitando à penitência, como fez com os ninivitas e agora com o lavrador, dizendo ‘Corta-a’, estimulando-o a cuidar dela e excitando a alma estéril a que produza os devidos frutos.” [tradução própria][6]
Segundo: Tampouco dizemos que tudo de mau que nos acontece deva ser entendido como um castigo divino. Recordemos que em todo pecado há uma culpa que faz merecer ao pecador duas penalidades: uma pena ontológica (a consequência direta de sua ação) e uma pena jurídica (a sanção merecida da parte da justiça divina). Quem entende o castigo divino como uma única consequência das ações (alguém fornica e contrai uma doença venérea, ou bebe muito álcool e contrai cirrose) comete o erro de pensar que nossos pecados só nos tornam credores de uma pena ontológica, excluindo a pena jurídica. Os cristãos, ao pecar, contraem muitas culpas, atraem para si muitas penalidades ontológicas e se tornam devedores de não poucas penas jurídicas ou castigos, que nos serão impostos por Deus, pelo confessor, pelo próximo ou por nós mesmos. Nossos pecados também afetam outras pessoas e, enquanto estivermos nesta vida, todos sofreremos além disso as consequências do pecado original. Por isso, a menos que haja uma revelação especial, não é possível saber se determinado mal é produto do castigo (pena jurídica) ou a natural consequência de nossos atos (pena ontológica), dos de outro, ou de simples acidentes.
Mas o fato de que não possamos saber — salvo por uma revelação especial — se determinado mal é um castigo, ou que de nossa perspectiva exterior das coisas nos pareça que determinado pecador não foi castigado, não implica de nenhum modo que Deus não venha a castigar se assim o determinar sua vontade, como atesta a própria Escritura, não só no Antigo Testamento, mas também no Novo.
Conclusões da primeira parte
Voltemos agora ao que ensina o Concílio Dogmático de Trento:
“Ensina ainda o sagrado Concílio que é tão grande a liberalidade da divina beneficência que não só podemos satisfazer a Deus Pai, mediante a graça de Jesus Cristo, com as penitências que voluntariamente empreendemos para satisfazer pelo pecado, ou com as que o sacerdote nos impõe, proporcionadas ao delito, mas também — o que é grandíssima prova do seu amor — com os castigos temporais que Deus nos envia e que sofremos com resignação.”[7]
Mas se Deus não castiga, como pode um Concílio Dogmático afirmar que pode fazê-lo e de fato o faz? Negar que Deus castigue não é, pois, questão de somenos importância, pois implica negar o que se encontra em textos magisteriais de caráter ordinário e extraordinário — como o são os Concílios Ecumênicos e Dogmáticos —, e que foi parte do ensinamento unânime dos padres da Igreja, os quais já foram citados em numerosas ocasiões ao longo destas entregas.
Nesse caso, o argumento de Alejandro é que os Papas João Paulo II e Bento XVI, em algumas encíclicas, negam que Deus castigue, sem que nessas encíclicas apareça o que lhes atribui, enquanto aqui mesmo foram reproduzidas citações textuais e em seu contexto desses Papas, onde explicitamente confirmam o que já o Magistério ordinário e extraordinário tem repetido de maneira insistente.
- Concílio Dogmático de Trento, Cap. IX. Das obras satisfatórias ↩
- O podcast completo de Alejandro Bermúdez pode ser encontrado no portal de Notícias Católico ACIPrensa, e também facilmente por estar publicado no YouTube no canal de ACITV. ↩
- Pode consultar também a seguinte catequese de João Paulo II: Deus castiga e salva, 25-7-2001. ↩
- São João Crisóstomo, Homiliae in Matthaeum, hom. 41,3 ↩
- Crisóstomo, hom. 5 De Lázaro ↩
- São Basílio, conc. 8, quae de Paenitentia inscribitur ↩
- Concílio Dogmático de Trento, Cap. IX. Das obras satisfatórias ↩