Em seu podcast seguinte Alejandro não o dedica a argumentar sobre o tema em questão, mas a fazer uma introdução na qual analisa o método que eu utilizei ao longo de minhas intervenções. Pois bem, nesta ocasião vou a dedicar eu este, para precisamente fundamentar o método apologético que venho utilizando.

Citações versus Razão teológica

Não é por acaso que Alejandro começa por aqui, já que um dos pontos fortes de minha argumentação é precisamente que eu posso fundamentá-la com uma centena e certamente muitos mais textos da Bíblia, da Igreja primitiva, dos santos e padres da Igreja, do Magistério, dos Papas, de manuais de teologia, de livros de espiritualidade e até mesmo das revelações privadas aprovadas pela Igreja, enquanto Alejandro não pôde encontrar nem um único texto magisterial que afirme o que sustenta — ou seja, que Deus não castiga. E como não pôde encontrá-lo, desacredita essa metodologia de forma a eliminar uma de minhas cartas mais fortes, recorrendo a alguns argumentos falaciosos que para alguns leitores sem experiência em debates podem passar despercebidos. Pois bem, vamos lá:

É importante argumentar com base na Bíblia e no Magistério da Igreja

Argumentar citando a Bíblia e o Magistério da Igreja não é um método incorreto. Pode-se verificar isso ao investigar a forma como debateram os santos e padres da Igreja ao longo da história cristã. Alguns citaram tão profusamente a Sagrada Escritura que se diz que, se tivéssemos perdido a Bíblia inteira, somente com as citações presentes em seus escritos poderíamos recuperá-la. Além disso, é importante citar o Magistério, que é o intérprete autêntico da Revelação. Lamentavelmente — e isso há que se reconhecer —, grande parte do povo católico carece dos conhecimentos bíblicos para argumentar dessa maneira, e quando se depara com um protestante com bom conhecimento bíblico que cita a Bíblia de maneira fluente, sente-se apavorado, sendo até natural que crie certa antipatia por quem argumenta dessa forma.

O problema dos protestantes não é que argumentem utilizando a Bíblia, mas que o façam rejeitando a Sagrada Tradição e além disso o Magistério, que é quem tem a última palavra na reta interpretação da Revelação. É verdade que por isso os protestantes acabam por fazer um mau uso das citações bíblicas, mas também é verdade que o mau uso delas não desqualifica por si mesmo o seu bom uso. Associar um com o outro não é senão cair no erro conhecido como a falácia da falsa analogia. Nesse tipo de falácia apoia-se uma conclusão sobre a base de uma semelhança aparentemente evidente, deixando de lado diferenças importantes, ocultando-se o fato de que essa comparação é incorreta do ponto de vista lógico.

A esse respeito, quando ao dialogar com um amigo protestante ele argumenta com a Bíblia, eu não rejeito seus textos com a desculpa de que ele está citando, mas recorro à mesma Bíblia que ele já aceita como Palavra de Deus para lhe mostrar como esse texto, interpretado em seu contexto e em harmonia com a totalidade da Revelação, deve ser interpretado de outra maneira.

É importante também a razão teológica

E é aqui onde Alejandro tem razão, e é importante também raciocinar teologicamente, mas sem cair no erro da dialética dos contrários, onde se enfrentam extremos aparentemente contrapostos para optar por um, rejeitando o outro. Não é o et-et, mas o aut-aut. Não se trata, pois, de só citar sem raciocinar, mas tampouco de raciocinar prescindindo de citar adequadamente quando necessário.

E se se revisarem detalhadamente minhas intervenções, poderá verificar que não é verdade que eu me tenha limitado a citar textos sem refletir e raciocinar sobre eles, e por isso reitero que estou disposto com todo o prazer a continuar fazendo isso à medida que avance ao longo destes capítulos. Darei um exemplo que ainda deve estar fresco na mente das pessoas que acompanharam este debate: se se recordam bem de minha primeira intervenção, eu comecei citando a Bento XVI em um texto onde ele afirmou com palavras textuais que, devido ao fato de que no mundo houve cristãos incoerentes, Deus teve que recorrer com frequência ao castigo. Alejandro respondeu apontando que essa e outras citações estavam fora de contexto porque ali o Papa se referia ao Deus do Antigo Testamento, que segundo sua própria opinião havia se revelado como “castigador”. A isso eu me pus a raciocinar sobre o texto e lhe demonstrei que era seu raciocínio teológico que estava equivocado, porque era óbvio que o Papa não se referia ali a pessoas do Antigo Testamento, já que estava falando de “cristãos” e dos “povos que tinham recebido o anúncio do evangelho”. Pergunto: quem aplicou aqui a razão teológica àqueles textos do Papa?

Muitos mais exemplos o leitor poderá encontrar se rever as intervenções.

Como não se deve citar

Mas o que de fato é um método incorreto de citar — e o digo com todo respeito e fraternalmente — é o que utiliza Alejandro, tanto em suas primeiras intervenções como nas seguintes, onde parafraseando atribui e coloca na boca dos Papas palavras textuais que nunca disseram.

Darei somente dois exemplos e deixarei ao leitor a tarefa de encontrar mais, porque é basicamente o método que Alejandro utiliza. Em seu segundo podcast Alejandro sustentou:

“…como diz o Papa João Paulo II, em Dives in misericordia, isto é, em Rico em misericórdia, as passagens nas quais Deus castiga e inclusive coloca à prova não são compreensíveis à luz do Novo Testamento — isso é o que ele diz —, não são compreensíveis.”

Um leitor que não tenha lido o documento — e certamente será o caso da maioria, já que é bastante longo e excede as cinquenta páginas — não perceberá que realmente isso ali não é o que o Papa “diz”, mas sim a “interpretação” pessoal de Alejandro. Em seu momento lhe indiquei que não só isso não é o que diz ali o Papa, mas que em todo o documento nem sequer aparece a palavra “castigo” nem uma só vez, nem para afirmar positivamente que Deus castigue, nem para negá-lo. Com isso não quero dizer que me negue de plano a aceitar que a ideia possa estar implícita em alguma parte, mas sim que exijo que primeiramente se cite textualmente e depois disso se proceda a interpretar e raciocinar, e não como fez, a citar depois de ter “raciocinado”, deixando-nos com citações parafraseadas e adulteradas.

Um acontecimento similar ocorreu não em seu podcast, mas na própria página do Facebook de Alejandro, onde publicou um Ângelus do Papa João Paulo II onde supostamente se dizia que Deus não castigava. Como este era um documento mais curto, muitos de seus leitores se animaram a lê-lo e expressaram sua perplexidade ao não encontrar em parte alguma o que Alejandro lhe atribuía. Depois disso começaram a pedir-lhe que lhes explicasse em que parte João Paulo II dizia isso. Entre alguns desses comentários se lia:

Julio: “Em que parte da mensagem está? Não encontro em parte alguma.”

Claudia: “Julio, tenho o mesmo estupor que você. Onde diz tal coisa? Fazem dizer ao Santo Padre coisas que não disse. É terrível.”

Raúl: “Alejandro, desculpe, em que parte diz que Deus não castiga?”

Sulding: “…E neste Ângelus eu não vejo que se faça referência ao castigo.”

A isso Alejandro respondeu a um deles: “Se não vê, então não tem do que duvidar. Fique com a posição de Arráiz. Quem não vê não vai entender.”

Pergunto eu: a isso se chama aplicar a “razão teológica”? E se rever o histórico das respostas que deu no Twitter a objeções similares, verá que basicamente respondeu da mesma maneira. Por isso reitero a Alejandro: com todo o prazer estou disposto a ir texto por texto, documento por documento e analisar o contexto de cada um. Mas o que não posso aceitar como argumento válido é que afirme gratuitamente que o Papa disse algo em um documento e não pretenda demonstrá-lo utilizando a mesma razão teológica que ele reconhece como tão necessária, e que depois, quando eu de fato cito textualmente os Papas afirmando o que ele nega, diga que o problema é que eu cito sem aplicar a razão teológica.

O que não é razão teológica

E aqui chegamos a outro ponto muito importante, pois ainda que seja importante raciocinar teologicamente, isso não quer dizer que todo raciocínio teológico seja acertado. No caso dos raciocínios de Alejandro, s컞 precisamente isso, pois toda a sua argumentação continua caindo no erro da dialética dos contrários, ao ver como excludentes a misericórdia divina e sua justiça. Daí que certamente em suas próprias entregas citará textos como a Dives in misericordia ou o Catecismo da Igreja Católica, que põem em relevo o amor de Deus, e tentará dar a entender que como por natureza Deus é pura misericórdia, isso de alguma maneira demonstra que não castiga; e isso, embora já tenha sido explicado não poucas vezes, porque a misericórdia de Deus não exclui sua justiça nem vice-versa. Como dizia o Papa Bento XVI em seu livro Luz do Mundo, isso faz parte da particular obscuridade do pensamento que perdeu a consciência de que o castigo pode ser um ato de amor.

Por que também é importante clarificar o que se entende por castigo

Alejandro também se queixa de que recorri ao dicionário da Real Academia Espanhola para clarificar o significado da palavra “castigo” e o entendeu como uma maneira de cercá-lo e não lhe permitir capacidade de manobra. A razão de tê-lo feito é que, como seres humanos que somos, não nos comunicamos por meio de línguas arcanas nem do pensamento puro, mas nos ativemos à linguagem humana e temos de clarificar o significado das palavras. Se eu digo que “Deus castiga” ou ele diz que “Deus não castiga”, o primeiro passo é esclarecer o que cada um entende por isso.

O problema é que até o momento Alejandro não o explicou; a única coisa que disse de maneira muito geral é que entende que o castigo cria uma justiça comutativa e assume que por isso Deus não pode castigar. Parte assim de um pressuposto falso, porque ainda que o castigo seja a imposição de uma pena a quem cometeu uma falta, não se segue necessariamente que essa pena tenha de ser “comutativa”.

A justiça comutativa, que regula a reta ordem entre um indivíduo e outro indivíduo, não se pode aplicar em sentido estrito a Deus, porque entre Criador e criatura não pode haver igualdade de relações. A criatura, em razão de sua absoluta dependência do Criador, não pode obrigá-lo por si mesma, mediante uma prestação sua, a que Deus lhe corresponda com outra. Mas no caso de Deus não se fala de que, ao castigar, aplique uma justiça comutativa, mas uma justiça distributiva, já que Ele, ao proceder como juiz equitativo, deve recompensar o bem (justiça remunerativa) e castigar o mal (justiça vindicativa).

Pongamos mais exemplos tirados do Novo Testamento para compreender melhor como entender o castigo temporal como um ato de justiça corretiva e vindicativa. Quando o anjo Gabriel se aparece a Zacarias para anunciar-lhe que sua anciana esposa ficaria grávida de João Batista, ele duvida de suas palavras e lhe responde: “Como saberei isso? Pois sou velho e minha mulher é de idade avançada.” (Lc 1,18), ao que o anjo lhe responde: “Sou Gabriel, que assisto diante de Deus; fui enviado a falar contigo e a trazer-te esta boa nova. Mas, como não acreditaste nas minhas palavras, que se realizarão a seu tempo, ficarás mudo, sem poder falar, até ao dia em que estas coisas se realizem.” (Lc 1,19-20).

Analisemos este acontecimento e apliquemos o raciocínio teológico como exige Alejandro: Zacarias comete uma falta (duvida do mensageiro de Deus) e por meio do anjo Deus lhe impõe uma pena temporal (ficará mudo por um tempo). Este episódio do evangelho exemplifica bem como o castigo temporal não é necessariamente a consequência natural de uma ação cometida (como seria a pena ontológica de um bêbado que sofre cirrose por beber álcool em excesso). Também exemplifica bem como pode ter caráter corretivo e vindicativo ao mesmo tempo. Observe-se que efetivamente se trata de um castigo, porque se impõe uma pena a uma falta. É também uma correção? Sim; ninguém negou que o castigo temporal tenha caráter medicinal; o que negamos é que toda correção seja um castigo. E isso a Bíblia o diz com toda clareza e usa a palavra castigo da mesma forma que temos vindo fazendo: “quando somos julgados pelo Senhor, somos corrigidos, para não sermos condenados com o mundo” (1 Cor 11,32); “porque o Senhor corrige a quem ama, e açoita todo filho que recebe.” (Hb 12,6). É claro que para explicar isso a solução não é mudar o significado da palavra castigo, teimando em negar que Deus castigue.

Alejandro, diante desses textos e de outros bem explícitos onde se diz que Deus castiga, alega que neles o que se pode provar é que há “alguma relação” entre Deus e o castigo, nada mais. Convido a rever todos os textos apresentados e verificar especificamente que relação há precisamente entre Deus e o castigo, enquanto nos preparamos para aprofundar mais isso no próximo capítulo.