Para não cair facilmente nos sofismas fundamentalistas.

Pergunta

Martinho Lutero, o primeiro dos reformadores protestantes, acreditava que a Igreja Católica dava ênfase excessiva à necessidade das boas obras para a salvação. Ele insistia em que era somente pela fé que somos justificados ou salvos. A salvação é um dom imerecido por meio de Jesus Cristo; portanto, dizia Lutero, as boas obras são (em termos de alcançar a salvação) desnecessárias e inúteis.

Resposta

Lutero acreditava que sua posição se sustentava na Escritura, em Romanos 3,28 (“Porque julgamos que o homem é justificado pela fé, sem as observâncias da lei”) e Romanos 4,3 (“Abraão creu em Deus, e isso lhe foi levado em conta de justiça”).

No entanto, embora São Paulo sublinhe corretamente a importância central da fé, nenhuma dessas passagens nega a necessidade das boas obras.

No tempo de Lutero, havia certamente católicos que enfatizavam demais as boas obras (tais como a compra de indulgências ou dos benefícios espirituais, para si mesmo e para os seus entes queridos falecidos), e às vezes essas práticas beiravam a superstição. Contudo, a piedade popular nem sempre foi um reflexo acertado do ensino oficial da Igreja. O Catolicismo insiste em que somente a fé em Jesus Cristo pode salvar-nos; não obstante, esta deve ser uma fé viva, manifestada nas decisões morais e na vida diária da pessoa.

O erro de Lutero foi separar a fé das boas obras e declarar que estas não tinham valor. O ensino católico, por outro lado, embora dê prioridade à fé, vê a fé e as boas obras como dois aspectos que se complementam. Por meio da fé, devemos aceitar o dom imerecido da salvação que nos é oferecido por meio de Jesus Cristo; as boas obras que realizarmos são, por conseguinte, a nossa resposta amorosa e a aceitação deste generoso dom divino.

Passagens da Escritura que sustentam o ponto de vista Católico

Tiago 2,19-22 – “Crês que há um só Deus? Fazes bem. Também os demônios o creem, e tremem. Queres ver, ó homem vão, como a fé sem as obras é estéril? Porventura Abraão, nosso pai, não foi justificado pelas obras, quando ofereceu o seu filho Isaac sobre o altar? Vês como a fé cooperava com as suas obras e pelas obras a sua fé se tornou perfeita?” Comentário: Apenas esta passagem, que insiste em que a fé deve ser acompanhada por boas obras, é suficiente para derrubar a posição de Lutero (o que poderia ser a razão pela qual ele chamava a Carta de Tiago de “epístola de palha”, colocando-a num nível inferior ao restante das Escrituras; devemos ao Concílio de Trento o fato de termos Tiago em nossas bíblias).

Tiago 1,22 – “Ponde em prática a palavra e não vos contenteis em apenas ouvi-la, enganando-vos a vós mesmos.” Comentário: Enganam-se os que pensam que não é necessário agir segundo aquilo em que creem.

Tiago 2,14-17 – “De que aproveitará, meus irmãos, a alguém dizer que tem fé, se não tiver obras? Porventura poderá a fé salvá-lo? … assim também a fé: se não tiver obras, é morta em si mesma.” Comentário: Mais uma vez, Tiago frisa que as boas obras são essenciais.

Mateus 7,19-20 – “Toda árvore que não dá bom fruto corta-se e lança-se ao fogo. Portanto, pelos seus frutos os conhecereis.” Comentário: Para ser genuína, a nossa fé deve produzir “bons frutos” – decisões morais e ações que demonstrem um verdadeiro amor a Deus e ao próximo.

Mateus 7,21 – “Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no Reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus.” Comentário: Conhecer a Jesus não basta; devemos também viver segundo Seus mandamentos e ensinamentos.

Mateus 19,16-21 – (Quando um homem jovem e rico perguntou a Jesus o que precisava fazer para ganhar a vida eterna, Jesus lhe disse que obedecesse aos Mandamentos.) Comentário: As boas obras sim são necessárias para entrar no céu. Jesus não ensinou a doutrina da fé somente.

Mateus 25,31-46 – (Na parábola das ovelhas e dos cabritos, Jesus afirma que seremos julgados por aquilo que fizermos ou deixarmos de fazer pelos outros.) Comentário: Nada nesta passagem sugere que apenas crer em Jesus seja suficiente para alcançar a salvação.

Filipenses 2,12 – “… trabalhai na vossa salvação com temor e tremor.” Comentário: A salvação não está garantida nem sequer para aqueles que aceitaram a Cristo, a quem Paulo escrevia; eles hão de viver esta escolha com os seus atos.

Romanos 2,13 – “Porque diante de Deus não são justos os que ouvem a lei, mas serão tidos por justos os que praticam a lei.” Comentário: A salvação é um processo contínuo; mesmo depois de termos aceitado o dom da salvação de Deus, temos de levar até o fim esta decisão.

1 João 3,18-19 – “Meus filhinhos, não amemos com palavras nem com a língua, mas por atos e em verdade. Nisto conheceremos que somos da verdade…” Comentário: O amor genuíno (que demonstra a nossa aceitação do dom da salvação) deve evidenciar-se com a ação.

Alguns pensamentos conclusivos

Estas passagens e muitas outras (Mateus 6,3-6; Mateus 10,22; João 3,20; João 14,21; João 15,14; Atos 10,34-35; Atos 13,43; Tiago 1,12; Tiago 2,24; Romanos 2,6; Gálatas 5,6; Gálatas 6,7-10; 1 Timóteo 4,16; 1 João 2,4; 1 João 5,2-4) mostram muito claramente que as boas obras são parte essencial de nossa resposta a Deus, contrariamente à afirmação de Lutero de que somos salvos somente pela fé. Com efeito, Lutero deliberadamente acrescentou a palavra “somente” à sua tradução alemã de Romanos 3,28 (ainda que a única vez em que a palavra “somente” acompanha a palavra “fé” no texto grego original seja em Tiago 2,24, que afirma que somos justificados “NÃO somente pela fé.”

De acordo com John Stoddard em Rebuilding a Lost Faith (TAN Books, pp. 136-137), Martinho Lutero disse: “Se o seu papista [católico] faz tanto alarido por causa da palavra ‘sola’, digam-lhe imediatamente: ‘O Dr. Martinho Lutero assim o quer,’ e digam-lhe: ‘Os papistas e os asnos são uma só e a mesma coisa.’ Assim o quero eu e ordeno que assim seja, e a minha vontade é motivo suficiente. Sei muito bem que a palavra ‘sola’ não está nem no texto latino nem no grego, e não era necessário que os papistas mo dissessem. É certo que essas letras não estão contidas nele, letras para as quais esses imbecis ficam olhando, como a vaca olha para uma nova porteira… Ficará assim no meu Novo Testamento e, ainda que isso irrite todos os jumentos do Papa, não conseguirão suprimi-las.”

É quase desnecessário observar que a defesa que Lutero fez de sua posição é tudo menos uma defesa baseada na Escritura. Sola fide (pela fé somente) é, pois, mais um exemplo de uma crença protestante que se baseia meramente numa “tradição humana”; pelo contrário, a posição Católica é uma posição autenticamente escriturística.

Autor: Florida Center

Fonte: Apologetica.org