Estudo bíblico sobre a figura e o ofício de Pedro no Novo Testamento

Tu és “Pedro”

Segundo os planos de Deus, o nome de uma pessoa é muito importante, especialmente o nome de Deus (ver Dt 5, 11; Ex 3, 14 “Eu Sou”; Is 43, 1; e Ap 3, 5).

A Bíblia nos mostra algo significativo: cada vez que Deus muda o nome de uma pessoa, não é por acaso, mas por uma razão. O nome corresponde à sua nova IDENTIDADE, FUNÇÃO E/OU MINISTÉRIO.

No AT vemos exemplos dessa ideia de que o nome corresponde à nova identidade da pessoa; assim Deus nos preparou para que entendêssemos o que seu Filho Jesus iria fazer.

No caso de Abrão, Deus mudou seu nome para o de ABRAÃO (Gn 17, 5). O nome Abraão significa “pai das nações”. É verdade que Abraão é pai das nações? Sim, porque Deus lhe prometeu que o seria: eu te constituí pai de uma multidão de povos (Gn 17, 5). Assim vemos que seu novo nome corresponde ao seu novo ministério e identidade.

No mesmo Gênesis também vemos que Sarai recebeu o nome de SARA, que significa “princesa”. Novamente a mudança de nome corresponde à nova identidade dentro da realeza. Sara seria mãe de reis (Gn 17, 16).

A Jacó, Deus mudou seu nome para ISRAEL porque lutou com Deus e com os homens e venceu (Gn 32, 28).

Lemos em Isaías 62,4 que todo o povo de Deus recebeu um nome novo: Nunca mais te chamarão Desamparada, nem tua terra se dirá mais Desolada; mas serás chamada Hefzi-bá, e tua terra, Beulá; porque o amor do Senhor estará em ti, e tua terra será o teu Deus.(1) Aqui se trata de uma nova relação com Deus que lhe daria uma nova identidade. Essa mudança de nome também afetaria sua posição no mundo político. (Outro exemplo temos em 2 R 23, 34.)

Como podemos ver, o nome novo reflete a identidade da pessoa. O mesmo acontece no NT. Em Mt 1, 21 o anjo diz a Maria: E darás à luz um filho, e chamarás seu nome JESUS (2), porque ele salvará o seu povo. O nome dado pelo anjo corresponde à sua identidade e ministério: Jesus salva

Outro exemplo é: E chamarás seu nome Emanuel, que traduzido é: Deus conosco (Mt 1, 23). É claro que Jesus é Deus-conosco.

Vemos que, no plano de Deus, quando ele muda o nome de uma pessoa, este corresponde ao seu ministério e identidade. Jesus segue a maneira de seu Pai.

Na Bíblia (Reina-Valera), em Jn 1, 42 Jesus disse a Simão: Tu és Simão, filho de Jonas; tu serás chamado Cefas (que quer dizer, Pedro), nota-se que Cefas e Pedro significam o mesmo. Agora, irmão, olha o rodapé da página da tua Bíblia que corresponde aos números que acompanham “Pedro” e “Cefas”, no texto, diz: “1, 2 Da palavra pedra em aramaico e em grego, respectivamente”. Então Jesus mudou o nome de Simão para Pedro, e Pedro quer dizer pedra em grego. Agora, examinemos Mt 16, 13-19 para entender a vontade de Jesus Cristo. Primeiro vemos que Pedro responde à pergunta de Jesus sobre sua identidade. Quem dizem os homens que é o Filho do Homem? É uma pergunta de identidade, e Pedro a responde. Tu és o Cristo. Depois Jesus, usando as mesmas palavras “TU ÉS”, também trata da identidade de Simão: E eu também te digo que tu és Pedro (Mt 16, 18). Jesus mudou o nome de Simão para Pedro, e lembremos o que acontece quando Deus muda o nome da pessoa: corresponde à sua nova identidade. Vimos em Jn 1, 42 (na nota de rodapé) que “Pedro” quer dizer PEDRA. Por que, então, mudou seu nome para Pedro? É que corresponde à sua nova identidade de ser “pedra”. Se não é assim, por que mudar seu nome? Ao me responder, um pastor batista me disse que Jesus deu outro nome a Pedro porque mudou sua vida; mas Jesus não mudou os nomes dos demais Apóstolos, e eles também mudaram de vida, já que lhes disse que seriam pescadores de homens (Mc 1, 17). (Além disso, “Pedra” não é um nome, é uma coisa.) Jesus mudou seu nome porque Pedro seria a Pedra/Rocha sobre a qual Jesus edificaria sua Igreja. Indica-se aqui, claramente, a correspondência entre nome e função da pessoa.

É notável que em Jn 1, 42, quando Jesus chama Simão, o faz olhando-o. A palavra em português não capta o que diz o grego. Jesus fixa seus olhos em Pedro. João utiliza a palavra INTUITUS, não ASPEXIT nem VIDIT. Isto é, olhar profundamente com um olhar penetrante. Jesus estava dizendo algo sumamente sério, e seu olhar penetrava a alma de Pedro.

Há cristãos que não aceitam que Pedro é a rocha. No livro de William Soto Santiago lemos que a rocha é “a revelação de Quem é a Palavra encarnada” que Pedro confessou.(3)

Mas então lhes perguntamos: por que Jesus mudou seu nome? Essas pessoas argumentam que o grego apresenta duas palavras diferentes: Tu és Pedro (Petros), e sobre esta rocha (petra) edificarei minha Igreja. Dizem que petros é uma pedra pequena, distinta de petra, que é uma rocha. Portanto, Pedro não pode ser a pedra da Igreja. Jesus é a pedra, como diz em 1 P 2, 4.

Mas esse argumento é errôneo. Todos os especialistas da Bíblia dizem que Jesus falou em aramaico, não em grego, e nesse idioma não existe tal distinção. Jesus teria dito em aramaico: “Tu és Kefa/Cefas e sobre este Kefa/Cefas edificarei minha Igreja”. O primeiro Padre Apostólico que fala deste evangelho é o bispo Papias, e ele testemunha que o evangelho foi escrito em aramaico.(4)

Quando Mateus foi traduzido para o grego, não quiseram traduzir CEFAS por um nome feminino. Em vez de dizer PETRA (“pedra” em português), masculinizaram o nome: PETROS (Pedro). Em francês, a mesma palavra feminina “pierre” (pedra) é usada para o nome “Pierre” (Pedro)(5)

Um Comentário bíblico evangélico diz: “Pedro (pétros) [sic] é o substantivo grego que significa ‘pedra’. O equivalente em aramaico é ‘cefas’…. Alguns opinam que o jogo de palavras é significativo. Tu és Pedro (pétros), que significa uma pedra pequena, e sobre esta rocha (pétra) edificarei minha igreja. Pétros é masculino e se usa quando se refere a um homem. Em contrapartida, pétra é feminino e se refere a uma rocha grande. Contudo, devemos lembrar que Jesus ensinava em aramaico, e nesse idioma não há tal diferença entre os termos para pedra e rocha”(6).

No grego do NT existem duas opções para a palavra pedra: PETRA e LITHOS, como em português: “pedra” e “rocha”. Recorrendo ao grego original da Reina-Valera apresentado no livro de C.P. Denyer, vemos que às vezes PETRA, que a Reina-Valera traduz como “Rocha” em Mt 16, 18, é utilizada também para uma rocha pequena, como em 1 P 2, 8 e Ro 9, 32-33. Nesses textos, PETRA é uma pedrinha que pode fazer alguém tropeçar.

Continuando com o argumento de que a Bíblia utiliza as duas palavras para rochas grandes e pequenas, vemos que Jesus é chamado LITHOS (1 P 2, 4), mas que essa mesma palavra também é usada para falar de uma pedra pequena, como a que iam atirar na mulher adúltera (Jn 8,7) ou em Jesus (Jn 8, 59). Em 1 Pedro 2, 8 e 1 Co 10, 4 encontramos as duas palavras, PETRA e LITHOS, para Jesus. Então, quando se fala de Pedro, a Rocha não tem nada a ver com o fato de ela ser grande ou pequena.

Vimos a questão do grego e do aramaico. É interessante notar que o grego emprega, para sobre esta pedra, o adjetivo demonstrativo, caso dativo TAUTEE com o artigo dativo TEE, para mostrar a força implicada na qualidade demonstrativa. Do grego, essa frase pode ser traduzida ESTA MESMA. Assim, Mt 16, 18 diz: Tu és Pedro e sobre ESTA MESMA PEDRA edificarei minha igreja (ver 2 Co 9, 4; Mr 14, 30; Hch 27, 23). Jesus não diz “sobre esta pedra” ou “sobre uma pedra”, mas, com o uso de TAUTEE, é claro que Jesus está falando da mesma pedra que acaba de mencionar: “sobre esta mesma pedra”.

O argumento de que, sendo Jesus a pedra em 1 P 2, 4, por isso ele se refere a si mesmo quando disse “e sobre esta rocha edificarei” é errôneo, porque em 1 P 2, 5 todos somos chamados pedras (embora não “PETROS” ou “PETRA”, mas “LITHOS ”, porque só Pedro é chamado assim). Em outro momento Jesus deu a Pedro outro título. Jesus, que é o Bom Pastor que cuida das ovelhas (Jn 10, 11), nomeia Pedro Pastor depois de sua ressurreição (Jn 21, 15-17). Deus é Rei de Israel, mas também o é Davi de maneira subordinada.

Quando olhamos o contexto de Mt 16, 18 (vv. 17 a 19), vemos que Jesus diz três coisas, e todas estão dirigidas a Pedro. A primeira começa com Bem-aventurado és, a segunda: Tu és Pedro/Rocha, e a terceira com E eu te darei as chaves do Reino dos céus. A primeira e a terceira são honras que Jesus outorga a Pedro. Nesse contexto, a segunda frase, situada entre estas duas, será uma honra também: Tu és a rocha. Não tem sentido que Jesus lhe diga “Tu és uma pequena pedrinha insignificante, contudo aqui estão as chaves do Reino”(7). Além disso, a segunda parte de cada uma dessas frases tem a ver com a primeira metade, explica-a: Pedro é bem-aventurado (v. 17). Por quê? Porque o Pai lhe revelou que Jesus era o Messias. A terceira frase: te darei as chaves do Reino é seguida da explicação: o que ligares… e o que desligares na terra está nos céus. Então, a segunda frase tem de seguir o mesmo padrão: sobre esta rocha edificarei minha igreja explica por que Jesus chama Pedro de a Rocha.

Muitos famosos especialistas bíblicos protestantes, como W. F. Albright, Oscar Cullman, Herman Ridderbos e C. S. Mann, escreveram que Pedro é a Rocha em Mt 16, 19, e que dizer o contrário, segundo eles, somente “demonstra preconceitos”. Gunter Bornkamm escreveu: “Na interpretação das palavras sobre Pedro e a Igreja, a teologia romano-católica e a protestante aproximaram-se uma da outra há já bastante tempo. A ‘rocha’ não é Cristo, como já pensava Lutero; a rocha não é a fé de Pedro nem o ofício da pregação, como o entenderam os reformados, mas o próprio Pedro como diretor da Igreja”.

Alguns dirão que Deus é chamado “Rocha” ou “Pedra” e, portanto, um homem não pode sê-lo. Mas Deus chamou Abraão de a pedra em Isaías: Ouvi-me, vós que seguis a justiça, vós que buscais o Senhor. Olhai para a pedra de onde fostes cortados, e para a cavidade da pedreira de onde fostes arrancados. Olhai para Abraão, vosso pai (51, 1-2).

Se, depois de negá-lo, Jesus tivesse chamado Pedro de “lodo” e lhe tivesse dito: “tu és lodo e sobre este lodo não construirei minha Igreja”, nenhum irmão questionaria então que Jesus estaria se referindo a Simão-Pedro.

Se Jesus estivesse se referindo à confissão de Pedro como a rocha, e não ao próprio Apóstolo, por que não chamou de rocha a confissão de Natanael, que de imediato confessou: tu és o Filho de Deus; tu és o Rei de Israel (Jn 1,49), somente porque Jesus o havia visto debaixo de uma figueira?

Jesus não disse “sobre mim edificarei minha igreja”, nem disse “sobre a confissão de Pedro edificarei minha Igreja”. Temos de ser honestos com a Bíblia e não acrescentar palavras. Por que Paulo continuou chamando Pedro de CEFAS (ver 1 Co 15, 5, entre outros) se não o era? Se Mateus queria que entendêssemos que Jesus era a Rocha, por que não o esclareceu? Porque o que está claro é que era Pedro.

À pergunta: por que mudou seu nome para “Pedro”, se não corresponde à sua identidade? É claro que Jesus é a Pedra invisível e que Pedro é a Rocha visível sobre a qual Jesus edificou sua Igreja. Jesus não mudou seu nome por acaso, o que nos levaria à confusão. Pedro é a Rocha, e a Igreja de Jesus Cristo vai se edificando sobre ele.

Os textos seguintes demonstram o plano de Deus, que consiste em edificar esta Igreja. E ela será visível, porque é a família de Deus (Ef 3, 14), e as famílias não são invisíveis.

E esta Igreja ensinará até aos anjos (Ef 3, 10), e durará por todas as gerações (3, 21):

Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo o próprio Jesus Cristo a principal pedra angular (Ef 2, 20). Aqui os Apóstolos formam o fundamento, enquanto Jesus é a Pedra angular na qual se mantém unida toda a estrutura.

E a muralha da cidade tinha doze fundamentos, e sobre eles os doze nomes dos doze apóstolos do Cordeiro (Ap 21, 14).

Então as igrejas tinham paz por toda a Judeia, Galileia e Samaria; e eram edificadas (Hch 9, 31).

Vós sois lavoura de Deus, edifício de Deus (1 Co 3, 9).

Vós também sois juntamente edificados para morada de Deus no Espírito (Ef 2, 22).

Assim como Deus, ao chamar Abraão de rocha, o fez fundamento de seu povo Israel (lembra que mudou seu nome), assim Jesus, ao mudar seu nome, confiaria a Pedro o fundamento do Novo Israel, a Igreja. Pedro é pai do Novo Israel como Abraão é pai do Antigo (Gn 17, 5. Ver o mesmo Is 51, 1-2). (Lembramos que o nome de Jacó foi mudado para Israel.) Também Jesus cumpre a profecia de Am 9, 11 de “construir a casa”.

Há uma coisa em Mateus 16,18 que é muito importante. Jesus fala de uma igreja: edificarei minha igreja. É singular. É a única Igreja que existia naquele tempo. Jesus não disse “edificarei minhas igrejas”: “Tiago reúne os batistas, Pedro os católicos, Mateus edifica os nazarenos e João os mórmons…”. Há muitíssimas igrejas hoje em dia. Qual é a edificada sobre Pedro? Já sabemos.

O poder das chaves

“As chaves servem para abrir portas. No dia de Pentecostes foi Pedro quem abriu a porta do Evangelho ao povo judeu”.(8)

“Como intérprete douto no reino dos céus, Pedro abriu o tesouro de coisas novas e de coisas velhas. Gálatas 2:11-15; 1 Pedro 1:1; 5:1, que pôs diante dos judeus em Pentecostes (Atos 2) e dos gentios na casa de Cornélio (Atos 10)”.(9)

Continuando com Mateus 16, consideremos agora o versículo 19: E eu te darei as chaves do Reino dos céus. Vemos que Jesus deu as chaves somente a Pedro, não aos demais Apóstolos(10). Quais são as “chaves do Reino”? Os irmãos dizem que se trata do poder de abrir missões: E, tendo chegado e reunido a igreja, relataram quão grandes coisas Deus havia feito com eles, e como tinha aberto a porta da fé aos gentios (Hch 14, 27; ver 1 Co 16, 9; 2 Co 2, 12; Col 4, 3). Mas essas citações dizem que foi Deus quem abriu a porta. Além disso, Jesus deu as chaves a um só apóstolo, não aos outros. Isto é, o poder que Pedro tem não é compartilhado com outros, ainda que a Bíblia fale de que Deus abre portas.

Outros irmãos dizem que as chaves se referem a Pedro, que abriria a pregação no dia de Pentecostes. (Ver, por exemplo, Compêndio Manual da Bíblia por Henry Halley.) Lembramos que as chaves são “do Reino”. Não pode ser que Pedro “abriu o Reino” quando pregou no dia de Pentecostes, porque é Jesus quem o abriu: Jesus veio pregando o evangelho do reino de Deus, dizendo: O tempo se cumpriu, e o reino de Deus está próximo (Mr 1, 14-15). (Lc 17, 21). Nem dirão: Ei-lo aqui, ou ei-lo ali; porque eis que o reino de Deus está no meio de vós.

Atos 2 não menciona nada sobre abrir portas. É preciso ser honesto com a Bíblia. Paulo fala de abrir portas, mas não menciona as chaves que Jesus deu somente a Pedro. O que são as “chaves”? Em Mt 16, 19, Jesus cumpre uma profecia bíblica: E porei a chave da casa de Davi sobre seu ombro; e abrirá, e ninguém fechará; e fechará, e ninguém abrirá. E o fincarei como prego em lugar firme; e será por assento de honra para a casa de seu Pai (Is 22, 22-23). É o único lugar no AT onde as chaves são simbólicas (ver Jue 3, 25), então tem de ser que Mt 16, 19 se refere a este.

A Igreja é agora a Nova Casa do Novo Rei Davi (Hch 15, 16)(11). O Rei Jesus tem as chaves (Ap 3, 7) e agora, como qualquer rei, as confia ao cuidado de seu mordomo Pedro.(12)

O que está fazendo Jesus? Além de cumprir a profecia de Isaías, Jesus usa um exemplo da realidade de seu tempo. Cada rei (Davi, Salomão, Herodes, César) tinha um palácio, e o rei escolhia um mordomo (ver, por exemplo, Is 36, 22; Gn 41, 40) a quem encarregava de abrir e fechar a porta do palácio (isto é, todos os gabinetes dos ministros), administrar todos os assuntos do reino, selar ou não todos os documentos importantes e cuidar do tesouro do rei (Is 22, 15) (Ancient Israel, Roland de Vaux, 1961, p. 30). Ver o papel do porteiro em Mr 13, 32-34. “Aquele que guarda as chaves tem a autoridade, dentro da casa, de ser o administrador e aquele que ensina” (The New Interpreter’s Bible, 1995, p. 346).

Jesus é o Rei e é ele quem dá esse encargo a Pedro. Pedro tem a autoridade de abrir e de fechar; portanto, ele é instrumento de acesso ao rei e se encarrega do tesouro que Jesus quer nos dar (mencionado em Mt 6, 20). Em Jn 10, 2-3 lemos: Mas aquele que entra pela porta é o Pastor das ovelhas. A este o porteiro abre… São dois personagens: o Pastor e o porteiro. O Porteiro terá as chaves, é claro. Em resumo, Jesus tem as chaves (Ap 3, 7) e as dá a Pedro para edificar sua Igreja. E esta pertence a Jesus Cristo, não a Pedro: edificarei minha Igreja. O erudito bíblico protestante F. F. Bruce (talvez o mais importante dos teólogos evangélicos) afirmou em seu livro Las dichas difíciles de Jesús que Pedro é feito mordomo da casa que Jesus Cristo iria construir — isto de um homem contra o papado!

O poder de ligar e desligar em Mt 16, 19 referia-se a assuntos legais religiosos do povo de Deus. Trata-se de doutrina (ensinamentos) e do poder de tomar decisões, de declarar o que é permitido e o que é proibido. O famoso erudito bíblico protestante W. F. Albright (“decano dos especialistas bíblicos norte-americanos”) escreve em seu comentário sobre Mateus que “a autoridade de Pedro de ‘ligar’ e ‘desligar’ será levar a cabo decisões tomadas no Céu. Suas atividades de ensinar e disciplinar serão guiadas pelo espírito para cumprir a vontade do Céu” (Mateus in Anchor Bible, p. 198).

No AT, quando Deus estabeleceu a Aliança com o povo de Israel, Ele garantiu uma autoridade viva e contínua com o sacerdócio de Moisés (2 Cr 19, 11; Mal 2, 7). A autoridade não terminou quando o AT foi escrito, mas continuou para salvaguardar e autenticar sua interpretação.

As religiões não católicas não têm as chaves nem o poder de ligar e desligar. Então, como pode cada fundador de uma igreja protestante ter sua interpretação da Bíblia? Nenhuma profecia da Escritura é de interpretação privada (2 P 1, 20). Sobre alguns aspectos, diz Pedro, nem todos podem entender as cartas de Paulo: ...em quase todas as suas epístolas, falando nelas destas coisas; entre as quais há algumas difíceis de entender, as quais os indoutos e inconstantes deturpam, como também as demais Escrituras, para sua própria perdição (2 P 3, 15-16 e capítulo 3).

Pedro mostrou sua autoridade quando fez com que nomeassem outro Apóstolo (Hch 1, 15-22) e quando julgou Ananias e Safira (Hch 5, 1-11). Vemos neste texto que mentir a Pedro era mentir ao Espírito Santo (v. 3)! Ele está protegido da confusão na fé causada pelo erro e pelos ensinamentos falsos: eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; e tu, quando estiveres de volta, confirma os teus irmãos (Lc 22, 32).

Notamos que Jesus diz “Satanás vos reclamou para vos peneirar”, é plural: o diabo quer destruir todos os apóstolos. No entanto, Jesus reza por Pedro: “eu roguei por ti” (singular).

Notamos também que Jesus disse isto depois de falar do papel dos Apóstolos no reino. Comentando estes versículos, João Crisóstomo diz que “Deus permitiu que Pedro caísse porque quis fazê-lo o governante do mundo. Pedro recordaria sua queda e assim teria compaixão para com outros que caem”.

Você pensa que este desejo de Jesus de que Pedro não caísse em erro já não pertence a seus sucessores?

O NT oferece muitas listas dos Apóstolos. Somente Mt 10, 2; Mr 3, 16; Lc 6, 14 e Hch 1, 13 nomeiam todos. As três primeiras especificam o papel de Simão como “Rocha”, acrescentando o nome “Pedro”. Pedro aparece primeiro nesses catálogos oficiais; Mateus 10, 2 começa dizendo primeiro Simão. E, como alguns eruditos disseram, é redundante dizer “primeiro Simão ” no início da lista se só quer dizer que Simão começa a lista, em vez de sublinhar o fato de sua primazia (ver St. Peter and the Popes. Michael Winter, Conn: Greenwood Press, 1979).

Alguns irmãos tentariam usar o argumento, dizendo que Pedro não teve autoridade acima dos demais porque em sua carta fala de si mesmo como ancião também, igual aos demais (1 P 5,1). Mas esse argumento ignora o que vimos (em Mt 16, 18-19; Lc 22, 32; Jn 21, 15-17, etc.). O fato é que Pedro é humilde; esta carta é parte de seu ensinamento. Assim como o Presidente de um país é também concidadão sem que isto lhe tire sua autoridade, o Papa é presbítero como qualquer outro, mas ao mesmo tempo tem a autoridade de Pedro.

Cuidar de minhas ovelhas

Jesus advertiu seus seguidores para que não esperassem um tempo fácil; assim como o trataram a Ele, fariam o mesmo com sua Igreja (Mt 10, 25). Ele sabia que sua “casa” seria atacada; seria necessário construí-la sobre a rocha (Mt 7, 24).

A profecia de Miqueias (7, 14) de que Deus iria apascentar seu rebanho está cumprida em João 21, 15. Três vezes Jesus manda Pedro “cuidar, apascentar, pastorear suas ovelhas”. A palavra grega POIMANE (“pastoreia”) significa governar, reger, ser superintendente. (Ver a nota de rodapé número 1 de Mt 2, 6 regerá, é a mesma palavra. Também Cf. Ap 2, 27 e 19, 15). O erudito protestante Joaquim Jeremias admite a autoridade universal conferida a Pedro, distinta da palavra “pastor” para bispos locais(13)

Deus sempre escolheu pessoas (Noé, Moisés, os profetas, etc.) para seu propósito. Mas as religiões se rebelam contra o plano de Jesus quando recusam ser cuidadas pelo sucessor de Pedro. É como se um pai de família nomeasse seu filho mais velho para cuidar dos demais filhos — isto não necessariamente por ser perfeito — e os outros filhos não quisessem obedecer-lhe.

A única Igreja que pode traçar uma linha cronológica do presente até Jesus é a Católica, como mostram a lista dos papas e as obras dos Padres Apostólicos. Qualquer pessoa honesta pode verificá-lo(14).

Depois de sua Ressurreição, Jesus Cristo ordenou a Pedro que apascentasse todos os seus cordeiros e ovelhas (Jn 21, 15-17). Irmão, você é uma ovelha de Jesus? Se você se considera assim, então Jesus Cristo pediu a Pedro que cuidasse de você!

Notamos outra vez o contexto: Pedro toma a liderança: Vou pescar. Eles lhe disseram: Nós também vamos contigo (Jn 21,3). Sabemos o que aconteceu. Ao seguir o conselho de Jesus, a rede se encheu, encheu-se tanto que todos os discípulos tiveram de arrastá-la. No entanto, quando Jesus pediu um peixe, diz a Bíblia que Pedro arrastou a rede para a terra (Jn 21, 11). Será apenas coincidência que Pedro, sem a ajuda de nenhum outro, pôde dominar a rede quando os demais não podiam? Não. Tampouco é coincidência que a Bíblia diz que a rede, cheia de grandes peixes.. e, ainda sendo tantos, a rede não se rompeu quando Pedro a manejou. Ele é o Pastor. Age sob as ordens de Jesus: Trazei dos peixes.

Outra coisa a notar é que, imediatamente depois de pedir a Pedro que pastoreie suas ovelhas, Jesus fala da forma pela qual Pedro iria morrer. Por quê? Porque recordamos as palavras de Jesus: o pastor dá a vida pelas ovelhas (Jn 10, 11).

Depois de adverti-los de estarem vigilantes e preparados para toda exigência, Pedro perguntou: Senhor, dizes esta parábola a nós, ou também a todos? E disse o Senhor: Quem é O MORDOMO fiel e prudente, a quem seu senhor porá sobre sua casa, para que a tempo lhes dê a sua ração? (Lc 12, 42). Vemos que Jesus respondeu a Pedro com uma pergunta: “Quem é o servo?”. Em Jn 21, 15-17 conhecemos a identidade deste servo. Aqui está o servo fiel que está posto sobre a casa para alimentá-la com o alimento da palavra de Deus, sendo que nem só de pão viverá o homem (Mt 4, 4). O alimento de Jesus era fazer a vontade de seu Pai. Então o alimento é a palavra de Deus (o ensinamento) e sua vontade, que em parte são as leis que nos deu. Queremos obedecer ao Pai como Jesus.

Pedro, depois de Jesus, é mencionado 196 vezes no NT. Paulo e João, em segundo lugar, são mencionados apenas 46 vezes. Somente Jesus é nomeado mais. Quando os Apóstolos são nomeados, o nome de Pedro é mencionado primeiro, ainda que não tenha sido o primeiro Apóstolo chamado por Jesus. Pedro demonstrou sua autoridade sobre toda a Igreja quando visitou as igrejas da Judeia, Galileia e Samaria: —PANTON em grego (é “todo o mundo”)— fazendo uma visita pastoral (Hch 9, 31-32), enquanto Paulo visitou somente as cidades onde havia pregado (Hch 15, 36).

Infalibilidade

“Em 1870 foi proclamado o dogma da infalibilidade papal; contudo, isto não foi senão a proclamação de uma crença que havia sido quase universalmente sustentada por todos os católicos fiéis por centenas de anos”(15).

Os irmãos procuram que os fiéis pensem que a infalibilidade do Papa significa que ele não pode errar em nada, nem pecar; portanto, este dogma parece ser uma tolice. Mas a Infalibilidade não é o mesmo que a impecabilidade: o papa pode pecar, pode errar.

A infalibilidade consiste em que, quando sob uma certa condição chamada EX CATHEDRA (ver abaixo), o Papa não pode errar nas áreas de ensino do dogma e da moral. Um dogma é um decreto, uma prescrição legal ou disciplinar como as ordenações em Hch 16, 4; isto é, nunca diria algo falso ou imoral(16)

Não dizemos que um papa em particular, com ou sem um concílio, será santo, bem instruído, sempre prudente, supersábio, etc. Embora sejam qualidades excelentes, não são essenciais. O importante é que o Magistério da Igreja (sua autoridade de ensinar) é garantido por Cristo para ser protegido do erro; isto é o que conta. Eu não confio no Papa, mas em Jesus Cristo, que o nomeou.

Jesus reconheceu a autoridade da “cátedra de Moisés” para ensinar, a cargo dos escribas e fariseus (Mt 23, 2-3): Tudo o que vos disserem que guardeis, guardai-o e fazei-o (ainda que eles não praticassem o que diziam). Essa cátedra (assento) não era somente uma metáfora para falar do poder. Verdadeiramente havia um assento de pedra diante da sinagoga onde o líder com a autoridade (geralmente um escriba) fazia juízos sobre assuntos doutrinais e legais. Como diz a Mishná Abote (comentário judaico), os judeus entendiam que a revelação que Moisés recebeu de Deus foi transmitida por sucessão ininterrupta desde Josué, passando pelos anciãos, profetas e o Sinédrio (Hch 15, 21).

Visto que Jesus reconheceu a autoridade do magistério dos fariseus para interpretar as Sagradas Escrituras quando falavam “desde a cátedra”, reconhecemos o magistério da Igreja que fala, não mais com a autoridade de Moisés, mas com a do próprio Jesus. Quem vos recebe, a mim me recebe (Mt 10, 40). Quem vos ouve, a mim me ouve (Lc 10, 16). E tudo o que ligares na terra será ligado nos céus(Mt 16, 19). Por meio deste dom de Deus, assegura-se que a fé recebida de Jesus será mantida.

Obedecei a vossos pastores (Heb 13, 17).

Como vimos, em Mateus 24 lemos do servo que o Mestre pôs encarregado do lar: Quem é, pois, o servo fiel e prudente, a quem seu senhor pôs sobre sua casa, para que lhes dê o alimento a tempo? Bem-aventurado aquele servo a quem, quando seu senhor vier, encontrar fazendo assim. Em verdade vos digo que sobre todos os seus bens o porá. Mas, se aquele mau servo disser em seu coração: Meu senhor demora a vir; e começar a espancar seus conservos, e ainda a comer e a beber com os beberrões, virá o senhor daquele servo em dia em que ele não espera, e na hora em que não sabe, e o castigará duramente, e porá sua parte com os hipócritas; ali haverá choro e ranger de dentes (Mt 24, 45-51). Primeiro vemos que Jesus fala do servo a quem ele “põe sobre sua casa” (que representa a Igreja). Este servo pode agir bem ou mal, e, se for desobediente e “espancar seus conservos” (abusar de sua autoridade), será castigado. Mas não é por ser mau servo que Jesus lhe tira o poder, nem nos dá permissão de sair da casa em rebeldia. Ele mesmo castigará aquelas más autoridades da Igreja.

Não é por acaso que Jesus tenha escolhido Judas, que o traiu; assim a traição de Judas nos preparava para compreender os bispos e Papas que agiriam da mesma forma ao longo da história. No capítulo anterior ao 24, Jesus disse a seus Apóstolos que escutassem os ensinamentos dos fariseus, porque tinham a autoridade da cátedra de Moisés, mas sem imitar suas ações (Mt 23, 1).

Este dogma da Infalibilidade se funda em que Cristo promete estar conosco até o fim do mundo. Nunca nos abandonará, como já vimos. Pedro recebeu a inspiração de Deus de que Jesus era o Cristo, o Filho do Deus vivo: Respondeu-lhe Jesus: Bem-aventurado és, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne nem o sangue que te revelou isto, mas meu Pai que está nos céus (Mt 16, 17). Ele tomou decisões importantes na Igreja Primitiva, como substituir Judas (Hch 1, 15-26. Ver 15, 7-12) e permitir a entrada de Cornélio e dos outros gentios na Igreja (Hch 10 é o fundo de Hch 15). Esta foi sua segunda decisão infalível. Então, ouvidas estas coisas (que disse Pedro), calaram-se e glorificaram a Deus, dizendo: De maneira que também aos gentios concedeu Deus o arrependimento para a vida! (Hch 11, 18). Pedro havia falado, ele que tem as chaves — ou melhor, Deus falou outra vez por ele. Assim, quando convocaram o Concílio de Jerusalém para tomar uma decisão, Pedro já a havia tomado em Hch 10 e 11. Tiago somente a repetiu: Por isso, eu julgo(17) que não se perturbem os gentios.

Sem este dom que Deus lhe confere, como poderíamos assegurar que nossa interpretação da Bíblia é verdadeira? Vemos o problema com tantas divisões entre os protestantes, cada qual dizendo que sua interpretação é a correta. Jesus prometeu nos enviar o Espírito Santo para nos conduzir à plenitude da verdade (Jn 14, 16 e 26; 16, 13). Como chegaria esta verdade senão através de sua Igreja?

Sobre a infalibilidade do Papa, outro autor nos lembra que temos de diferenciar os tipos de proclamações papais: “Os cristãos devem aprender a distinguir os documentos nos quais a Igreja compromete sua infalibilidade (as definições dogmáticas) dos demais documentos… Entre estes últimos, ainda é preciso distinguir entre os escritos do Papa e os correspondentes aos diversos organismos do Vaticano… Nem é preciso dizer que estes textos não têm todos a mesma ‘autoridade’” (Pierre Descouvement, Guía de las Dificultades de la Fe Católica, Edit. Desclée de Bouwer, España, 1992, pp. 247-248).

Quanto aos documentos do Papa, distinguem-se: as Constituições, as Epístolas, as Epístolas encíclicas com destinatário concreto e sem conteúdo dogmático, Epístolas Apostólicas, Cartas decretais, Cartas Encíclicas, Cartas apostólicas, Epístolas das Conferências Episcopais e quirógrafos, cartas de opinião pessoal.

Os protestantes indiretamente admitem que Deus pode dar o dom da infalibilidade a homens. Fê-lo com os autores da Bíblia, já que creem, como nós, que a Bíblia é infalível. Fez Pedro infalível quando escreveu sua Primeira e Segunda Carta. Então, se Deus lhe deu o dom da infalibilidade quando ensinou por escrito, por que não quando ensinou verbalmente? E se isto aconteceu com ele, por que não com seu sucessor, sabendo que, sem isso, haveria divisões na interpretação da Bíblia? Como assegurar que a interpretação da Bíblia é também infalível? (Ver capítulo 3).

O Papa nunca revela algo novo, mas guarda e expõe fielmente a revelação transmitida pelos Apóstolos. Ele apenas define uma verdade, e o faz em união com toda a Igreja. Por isso, a infalibilidade do Papa está vinculada à infalibilidade da Igreja.

Os autores do NT — Mateus, Marcos, João, etc. — eram homens falíveis. Se o Espírito Santo pôde utilizá-los para escrever a Bíblia infalível, por que não pôde garantir a interpretação dela através dos séculos pelas autoridades da Igreja?(18)

Jesus deu uma interpretação infalível do AT (chegou a acrescentar nova revelação); depois outorgou este dom à sua Igreja, que continuaria sua obra.

Não seria nada de novo na história do povo de Deus. No AT, o sumo sacerdote tinha um carisma semelhante. Em Ex 28, 30 vemos que ele levava em seu peito o peitoral do juízo Urim e Tumim. Lemos o que diz uma revista anticatólica: “O Urim e Thummin (sic) faziam parte da indumentária do Sumo Sacerdote… era conhecido como Luz e Perfeição. URIM.- Tipo da luz do Espírito Santo. THUMMIN.- A perfeição da Palavra nos corações. Dizia-se que, quando o Sumo Sacerdote queria conhecer a vontade de Deus para o povo, fazia uso do Urim e Thummin, mostrando ao Sacerdote a vontade e os desejos de Deus” (La Buena Semilla, revista evangélica, No. 3 junho-julho, 1996, p. 14).

Então, este “peitoral de juízo” com o Urim e Tumim (que significam “luz e verdade” em hebraico) servia para saber a vontade de Deus e resolver desacordos entre o povo de Israel. Por exemplo, Moisés ordenou a Josué que buscasse o sumo sacerdote Eleazar, que, com seu Urim e Tumim, pôde saber quando e por onde os israelitas deveriam passar (Nm 27, 21). Em 1 S 14, 41 Saul fez com que o sacerdote utilizasse o Urim e Tumim para resolver o conflito sobre quem tinha a culpa. Ver também outros momentos em Esd 2, 63 e Neh 7, 65.

Quando Deus operava por meio deste carisma, os resultados eram infalíveis, e não tinha nada a ver se o sacerdote era um santo ou um malvado. No NT lemos: Então Caifás, um deles, sumo sacerdote naquele ano, lhes disse: Vós nada sabeis; nem considerais que nos convém que um só homem morra pelo povo, e não que toda a nação pereça. E isto ele não disse por si mesmo, mas, como era o sumo sacerdote naquele ano, profetizou que Jesus havia de morrer pela nação (Jn 11, 49-52). Caifás, ainda que não tenha crido no Messias e, pior ainda, o tenha condenado à morte, profetizou corretamente por meio de seu ofício de sumo sacerdote do povo de Deus! Vamos pensar menos do Apóstolo Pedro?

Alguns irmãos citam Gá 2, 11-14, onde Paulo repreendeu Pedro, como prova de que Pedro não tinha a proteção divina do erro. Mas isto é prova de que Paulo via Pedro como chefe da Igreja; por isso teve de enfrentá-lo. Por ser o líder, podia fazer muito dano ao rebanho. Além disso, Pedro não havia falado infalivelmente (ex cathedra). Portanto, não havia definido nada sobre doutrina; o problema era de sua conduta. Paulo lhe chamou a atenção como um súdito pode fazer com seu superior. Pedro deixou-se levar pela opinião de alguns judeus que queriam obrigar à circuncisão. Curiosamente, em outra ocasião Paulo fez o mesmo. Agiu levando em conta a possível surpresa e escândalo dos demais: Quis Paulo que este [Timóteo] fosse com ele; e, tomando-o, circuncidou-o por causa dos judeus que havia naqueles lugares (Hch 16, 3). Eu, Paulo, vos digo que, se vos circuncidardes, de nada vos aproveitará Cristo (Gá 5, 2).

Além disso, não esquecemos que Paulo, apesar de ter tido uma visão de Jesus e de ser levado ao terceiro céu, na mesma carta (1 Ti 1, 18) diz que foi falar com a Igreja para receber a aprovação:

A admissão de seu erro por parte de Pedro não diminuiu sua autoridade, mas antes foi aumentada por sua demonstração de humildade. É sinal de um bom líder.

No AT lemos algo muito significativo quanto ao pensamento de Deus sobre a autoridade que Ele constitui: Naqueles dias, Maria e Aarão criticaram Moisés porque havia tomado por esposa uma mulher estrangeira. Diziam: “Acaso o Senhor falou somente a Moisés? Acaso não falou também a nós?”….

O Senhor lhes disse: “Escutem minhas palavras. Quando há um profeta entre vocês, eu me comunico com ele por meio de visões e de sonhos. Mas com Moisés, meu servo, é muito diferente: ele é o servo mais fiel de minha casa; eu falo com ele face a face, abertamente e sem segredos, e ele contempla face a face o Senhor. Por que, pois, vocês se atreveram a criticar meu servo, Moisés?”. E a ira do Senhor se acendeu contra eles. Quando ele se foi e a nuvem se retirou de cima da tenda, Maria estava leprosa…” (Nm 12, 1-2, 6-10).

O que vemos aqui?

1) Moisés fez algo errado ao se casar com alguém de fora do povo de Deus.

2) O profeta e a irmã de Moisés o criticam. Mas a crítica mais séria é contra Moisés como porta-voz de Deus: “Acaso o Senhor falou somente a Moisés? Acaso não falou também a nós?”. Era questionar o papel de Moisés como mediador e porta-voz. Era questionar sua AUTORIDADE. E, ao fazer isto, era questionar o próprio Deus. (Naturalmente Deus fala a todos, mas não com a mesma autoridade.)

3) O castigo foi que Deus lhe deu a lepra.

4) É claro que Paulo criticou Pedro (sua maneira de agir, mas não sua autoridade de porta-voz).

Cada dia, em milhares de Missas pelo mundo, rezamos pelo Papa na oração eucarística, como Jesus orou por Pedro em Lc 22, 32.(19) Se estas orações não servem para ajudá-lo, que dizer de nossa oração intercessora? Que possibilidade de ajuda temos nós quando pedimos a outros que orem por nossas necessidades, se a oração pelo outro não serve?

Alguns irmãos dirão que o Papa não é o vigário de Cristo, mas sim o Espírito Santo. E é verdade que o Espírito Santo é vigário de Cristo (Jn 15, 26 e 16, 13-15), mas isso não exclui Pedro. A palavra vigário significa “aquele que tem o poder e a faculdade de um superior e o representa”. Somos embaixadores em nome de Cristo (2 Co 5,20). Jesus disse: Quem vos ouve, a mim me ouve; e quem vos rejeita, a mim me rejeita; e quem me rejeita, rejeita aquele que me enviou (Lc 10, 16). Quem recebe aquele que eu enviar, a mim me recebe; e quem me recebe, recebe aquele que me enviou (Jn 13, 20). É muito interessante notar que receber ou rejeitar o vigário de Cristo é receber ou rejeitar o Pai Celestial. Recebestes-me como a um anjo de Deus, como a Cristo Jesus diz Paulo (Gá 4, 14).

Podemos resumir este tema em alguns pontos:

1) Jesus prometeu a assistência divina para sua Igreja (Mt 28, 19-20; Jn 14, 26).

2) Por isso a Igreja é coluna e sustentáculo da verdade (1 Ti 3, 15).

3) A Igreja pelo menos remonta ao Papa Lino (substituiu Pedro). Ele está mencionado em 2 Ti 4, 21, e ninguém duvida de Paulo.

4) Por que a Igreja associou sua autoridade a Pedro, que traiu Jesus, e não a Paulo? PORQUE JESUS O HAVIA NOMEADO.

Os irmãos sabem que o contexto de um texto bíblico é importante para sua interpretação correta. É assim com Mt 16. Em Mt 17, 24-27 Jesus pede a Pedro que pague o imposto do templo. Em 16, 19 Jesus lhe confiou as chaves do Reino. Jesus lhe dá este poder. Quando os demais apóstolos querem algo, vão àquele que tem as chaves do tesouro.

Igualmente, em Mt 14, 22ss, Jesus dá a Pedro um poder sobrenatural de fazer o que nenhum homem havia feito: caminhar sobre a água. E, quando começa a afundar, estendeu-lhe a mão. Nesse momento sua fé começava a faltar. Mas, na realidade, Pedro não conta com sua fé nem com suas obras para se manter, e sim com a mão do Senhor que o levantou. Assim, Jesus disse que iria orar para que sua fé não faltasse (Lc 22, 32). É Jesus estendendo-lhe a mão. Este é o contexto de Mt 16.

O famoso teólogo francês Garrigou-Lagrange concluiu que a palavra grega PROTOS em Mateus 10, 2 sem dúvida demonstra a primazia de Pedro. Em seu contexto quer dizer “principal primeiro” (Evangile selon Saint Mattieu, p. 195).

Se você espera encontrar uma Igreja perfeita, nunca alcançará

esta meta. Não existe tal Igreja. E, se fosse perfeita, deixaria de sê-lo no momento em que você entrasse nela. Se você estivesse no primeiro século, qual congregação teria escolhido? A de Corinto? A de Laodiceia? A dos Gálatas? Todas tinham seus problemas. O desafio é amar (às vezes tolerar) a Igreja que Cristo fundou, ainda com todas as imperfeições que tem. Seria interessante perguntar a muitos protestantes que grau de infalibilidade dão a seu pastor em sua interpretação da Bíblia.

E não me diga que “aceitou Jesus como seu salvador e Senhor” se não quer aceitar sua vontade. Jesus disse: Nem todo o que me diz Senhor, Senhor (aleluia, glória a Deus, ou palavras semelhantes) entrará no reino, mas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus (Mt 7, 21). E sua vontade é que ele deu a autoridade a Pedro e à Igreja; Jesus quer que sejamos cuidados por Pedro.

O que disse a Igreja primitiva a respeito da Infalibilidade?

Desde os tempos primitivos, o Bispo de Roma era como o árbitro final da fé cristã. Até o cisma grego do século IX não havia oposição massiva contra o Papa. Os primeiros oito Concílios Ecumênicos, que tiveram lugar no oriente, sempre receberam a aprovação do Papa antes de serem convocados, e o seu consentimento antes de serem proclamados como obrigatórios para a Igreja universal.

O Terceiro Concílio de Constantinopla (680) declarou que “a Igreja Apostólica de Pedro jamais se desviou da Verdade”, e o Quarto Concílio de Constantinopla (869) ensinou que “a religião sempre foi preservada de mácula na Sé Apostólica”. Em 451, quando leram a carta dogmática do Papa Leão ao seu representante, o bispo Flaviano, os bispos de Calcedônia (perto de Constantinopla) responderam unanimemente: “Pedro falou pela boca de Leão”. O Concílio de Éfeso (431) chamou o Papa Celestino “guardião da fé, que ensina a doutrina verdadeira porque é o sucessor do Bem-aventurado Apóstolo Pedro, cabeça da fé e Chefe dos Apóstolos”.

No fim das contas, se aceitas o cânon (a lista) do N.T. decidido pelos Concílios de Hipona e Cartago, por que não aceitas o primado da Igreja de Roma, proclamado no Concílio de Niceia em 325 d.C.? 70 ANOS ANTES DE CARTAGO!

Mais sobre o primado de Pedro

Como vimos, Deus mudou o nome de Abrão para Abraão, que significa “pai das nações”, porque ele seria o pai do povo de Israel: eu te fiz pai de uma multidão de nações (Gn 17, 5). Por esta mesma razão, o AT chama Abraão de rocha, ou seja, o fundamento do povo de Deus: Ouvi-me, vós que buscais a justiça, vós que procurais o Senhor. Olhai para a rocha de que fostes talhados, e para a cavidade da pedreira de que fostes extraídos. Olhai para Abraão, vosso pai (Is 51, 1-2).

Jesus Cristo fez o mesmo com Simão. Ele mudou o seu nome e o chamou de rocha para que fosse o fundamento do novo povo de Israel: a Igreja. Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja (Mt 16, 18).. Neste livro limito-me a tratar alguns aspectos importantes de Mt 16, 18-19(20)

Começamos com o versículo 13 deste capítulo. A primeira coisa que notamos é o lugar onde Jesus decidiu entregar a Pedro esta autoridade especial: em Cesareia de Filipe. Esta cidade encontra-se ao pé do monte Hermon e era anteriormente chamada Pânias (ou Banyas), por sua relação com o deus pagão da natureza “Pã”. Por esta razão, havia muitos santuários e peregrinações ali. Um dos reis (tetrarca) Herodianos — Herodes Filipe — ergueu um santuário em honra do imperador (o César): Mandou erguer em sua honra um templo belíssimo, de pedra branca (Antiguidades dos Judeus, Flávio Josefo, Livro XV 10,3; BI II 10,7). Apenas começara o culto ao César como ser divino (deus). Então mudou o nome da cidade em sua honra. Cesareia de Filipe, que significa “cidade em honra ao César, feita por Filipe”.

Em Cesareia de Filipe há uma grande formação de rocha de uns 70 metros de altura e quase 200 de largura. Chamava-se A Petra de Cesareia de Filipe. Sobre ela estava o santuário a Pã.

Aqui Jesus pergunta: Quem dizem os homens que é o Filho do Homem? Enquanto neste lugar parece ser o César quem é senhor e mestre, mas e vós, que dizeis?, pergunta Jesus aos seus apóstolos.

Simão-Pedro respondeu: Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo. Simão está dizendo: És o “Christos”, o Messias, o Ungido.

Os israelitas tinham três pessoas que eram ungidas com óleo, algo físico que representava o invisível Espírito Santo. O PROFETA, ungido para anunciar a verdade. Ele transmitia a palavra de Deus. O ungido para SACERDOTE, ungido para transmitir a graça (vida divina de Deus) e o perdão (o pecado é morte, o perdão é reconciliar-se com o Deus da vida). O REI, ungido para assegurar uma administração justa.

Surgiu a tradição judaica de que um dia viria o Messias que uniria as três funções: Sacerdote, Profeta e Rei numa só pessoa. Veio Jesus e proclamou ser o Caminho (rei), a Verdade (profeta) e a Vida (sacerdote). Pedro reconheceu estas três coisas em Jesus Cristo ao chamá-lo Messias. Jesus lhe respondeu: Bem-aventurado és, Simão, filho de Jonas(v. 17).

Há um paralelo entre o que Pedro diz a Jesus: Tu és Cristo, filho de Deus, e Jesus lhe diz: Tu és Simão filho de Jonas. (Ou como o pôs Mateus: Tu és CRISTOS… e tu és PETROS). Quando se fala desta maneira, mencionando algo da genealogia, faz parte da linguagem formal da corte, isto é, é linguagem real. Igualmente Jesus viu em Pedro os três traços: profeta, rei e sacerdote(21).

Jesus afirma que Pedro é profeta que revela a verdade ao proclamar que Jesus é o Messias, e que esta capacidade não vem de Pedro: não foi a carne nem o sangue que te revelou isto, mas meu Pai que está nos céus. Pedro não era o mais inteligente, nem o mais amado. Jesus reconheceu que, por esta revelação, o Pai Celestial havia escolhido Pedro. Assim Pedro participa do papel profético de Jesus, de proclamar a verdade e resolver a controvérsia cristológica: Quem dizem os homens? … Alguns dizem que és….

No v. 18 Jesus diz a Pedro que também tem a autoridade e o papel de ser sacerdote: tu és Rocha e sobre esta rocha edificarei a minha igreja; e as portas do Hades não prevalecerão. Como?

Em textos poéticos do AT, há exemplos de que na tradição judaica existia a ideia de uma pedra, rocha e/ou uma eira (debulhadora) que formava algo importante na história: o EBEN SHETIEL: a pedra fundamental. Era vista como a coisa mais antiga do mundo, a primeira coisa criada por Deus. E por isso a mais sagrada.

Este lugar é onde José parou sete dias para lamentar-se quando transportavam os restos de seu pai para serem enterrados: a eira de Atad (Gn 50, 10). Os filisteus a roubaram

(1 S 23, 1). As pragas terminam quando Davi compra uma eira/debulhadora (2 S 24, 15-25 e 1 Cr 21). Davi edificou um altar sobre uma eira.

Quando Davi devolveu a Arca capturada pelos filisteus, Deus teve que sustentar a Arca que estremeceu ao passar sobre a eira (2 S 6, 6). Isto é, a eira teve algum significado.

No Gênesis lemos que a terra estava coberta pela água: a terra estava informe (Gn 1, 2) porque a água não tem forma, é caótica. Pelo Espírito, Deus começou a separar as águas; a primeira coisa que “saiu” da água (subiu dela) foi “um solo seco”, o elemento árido (Gn 1, 9) visto como um cume alto (e, então, próximo de Deus e muito sagrado): o Monte Sião. É onde Deus fez o Éden.

Os salmos falam da pedra pela qual brilha a luz sagrada: a SEHKINÁ. “Enquanto lugar de culto, a rocha é também lugar da revelação divina (Jue 6, 20.21 e 13, 19).” (Diccionario Teológico del Nuevo Testamento, Coenen, Beyreuther e Bietenhard, Sígueme, Espanha, 1994.)

Na cosmologia judaica, o lugar do Seol (grego: HADES) está debaixo da terra. Este lugar subterrâneo é escuro, de decomposição e de caos, onde há sempre a ameaça de que a água cobrirá a terra de novo e a lançará no caos (Sal 18, 16). A seguir há uma representação do mundo como o entendiam os judeus:

Os judeus não eram um povo marinheiro como os gentios (filisteus). Para eles o mar representava o mal (lembra-te das tempestades do mar com os Apóstolos). Os judeus identificavam-se com a terra (prometida) de Israel. Deus mantinha a fonte das águas caóticas do Seol com uma pedra. As portas do Seol eram como as fauces de um monstro que engole as coisas terrenas.

Desta terra de fundação mencionada acima, Deus cria Adão (ADAM significa “terra” em hebraico). Adão levantou um altar e fez uma aliança com Deus (Os 6, 7). Também é onde Jacó ergueu um altar depois de lutar com o anjo (e receber um novo nome: Israel) (Gn 28, 18). Simão-Pedro recebeu um novo nome para corresponder com a Igreja (como novo Israel).

A rocha saiu das águas e formou um monte. O monte Moriá onde Salomão construiu o templo (2 Cr 3, 1). A Arca da aliança está posta sobre ela: Acontecerá no fim dos tempos que o monte da casa do Senhor será firmado como cabeça dos montes, e se elevará sobre as colinas (Is 2, 2). De Sião te abençoe o Senhor(Sal 134, 3).

Também, segundo a tradição judaica, foi desde esta pedra do Éden que Deus diz: “faça-se a luz”. E por trás da pedra retirou-se a escuridão. Vinde, subamos ao monte do Senhor, à casa do Deus de Jacó; ele nos ensinará os seus caminhos, e andaremos pelas suas veredas. Porque de Sião sairá a lei, e de Jerusalém a palavra do Senhor (Is 2, 3). O Senhor rugirá de Sião, e dará a sua voz [verdade, luz] de Jerusalém(Am 1, 2). Assim diz o Senhor: Eu restaurei Sião, e habitarei no meio de Jerusalém; e Jerusalém se chamará Cidade da Verdade, e o monte do Senhor dos exércitos, Monte de Santidade(Zac 8, 3).

O simbolismo da rocha não foi somente um jogo de palavras com o nome de Pedro, mas provém da tradição do AT e ainda anterior a esta. Em Is 28, 16 lemos: Eis que eu pus em Sião como fundamento uma pedra, pedra provada, angular, preciosa, de sólido alicerce (Is 28, 16). “Vou pôr em Sião uma pedra escolhida e muito valiosa, que será a pedra principal e servirá de fundamento” (Dios Habla Hoy).

A crença desse tempo era que se ergueu a capital e o templo principal sobre a Pedra Fundamental do universo inteiro. Ao criar o mundo, a primeira coisa que Deus fez foi colocar uma pedra firme, uma pedra que cobre e tapa as águas caóticas subterrâneas. Esta vem a ser o centro sobre o qual o resto do universo é criado. A capital e/ou o templo foi construído sobre esta Rocha Fundamental. Isaías, ao falar do Monte Sião, o Monte sobre o qual o Templo de Jerusalém foi construído, utiliza a mesma imagem da pedra, Centro da Terra, o fundamento seguro sobre o qual Javé levantou a estrutura inteira do seu povo.

De maneira semelhante, “Jesus utiliza este simbolismo para falar do fundamento seguro sobre o qual a comunidade da Igreja está construída”(22). Jesus pergunta aos Apóstolos “Quem sou eu?”, e não encontra mais que escuridão: “és João Batista, Elias, Jeremias…” Até que sai a luz (verdade) por Pedro, a Rocha. Jesus reconhece que Simão é a pedra pela qual a luz sai. Ele, então, será a pedra sobre a qual edificaria a sua Igreja. Ele será a eira que teria a função de sacerdote por sua relação com o altar, a oferenda (Adão, Jacó, Davi) e o templo.

E esta rocha manterá a porta do Seol/Hades, com o caos, fechada. Pedro é profeta que guarda a verdade e sacerdote que protege a vida divina que Jesus entregou à Igreja pelos Sacramentos, para que o “caos do pecado” não nos destrua.

No v. 19 Pedro é feito Rei, ou pelo menos partilha a realeza com Jesus por ser o seu mordomo, por ter o poder das chaves do Reino. Somente ele tem as chaves para atar e desatar. É outra maneira de dizer abrir e fechar. Os demais terão este poder, mas somente ele tem as chaves, como o primeiro-ministro. Ele está prefigurado em Eliaquim de Is 22, 20ss, como já vimos. Em Is 22, Sebna (o mordomo mau) é substituído por Eliaquim. Deus o revestirá com as vestes de autoridade (Is 22, 21) para governar, e será como um pai (Patriarca). E sobre o seu ombro porei a chave da Casa (família e reino) de Davi. Há estabilidade no seu ofício: fixá-lo-ei como prego em lugar firme. Terá seu assento de honra, um trono como símbolo de autoridade (Is 22, 23).

O versículo 24 é importante porque mostra que este ofício foi transmitido por sucessão dinástica ao primogênito (ou a outro, caso caísse em pecado): Dele penderá toda a glória da casa de seu pai, os filhos e os netos... Esta dinastia que prefigura a sucessão apostólica não será perfeita (v. 25) porque é apenas um “tipo” da Nova Aliança.

Jesus é o filho de Davi e faz de Pedro o seu primeiro-ministro. Sobre a Petra estava um santuário dedicado ao senhor-deus, o imperador. Agora sobre Petros (Pedro), Jesus construiria o verdadeiro santuário ao verdadeiro Mestre e Senhor: ao Ungido, rei dos judeus. Com ele se inicia a dinastia espiritual do novo Israel: a Igreja de Jesus Cristo.

O que disse a igreja primitiva?

A seguir veremos que os primeiros cristãos tinham as mesmas crenças que a Igreja Católica. Todos os fiéis viveram poucos anos depois dos Apóstolos. Alguns foram ordenados pelos Apóstolos. O catecismo mais antigo é a Didaqué, escrita por volta do ano 70 d.C. Dividimos os escritos segundo a doutrina.

Mencionamos Inácio de Antioquia e Policarpo de Esmirna (ver tema 2), ambos discípulos de João, o Apóstolo, e Clemente de Roma, convertido pelo Apóstolo Pedro. Agora apresentamos outros Padres Apostólicos e outros cristãos.

O Pastor de Hermas ano 160 d.C.

Justino Mártir escreveu em 150-155 d.C. a Apologia. Há algumas citações do seu livro Diálogo com Trifão.

Ireneu era discípulo de Policarpo.

Mencionam-se alguns outros Padres Apostólicos com data (entre parênteses) no mais tardar por volta de Constantino, e a obra onde se pode encontrar o texto. Não se pode mencionar nem sequer a metade de todos os Padres, menos ainda citá-los.

Um excelente livro que apresenta as citações dos Padres Apostólicos por tema, por exemplo Sacramentos, Obras e Igreja) é La Predicación del Evangelio en los Padres de la Iglesia, por Miguel Peinado P., Edit. B.A.C. 1992.

1) A Igreja foi chamada “católica” pela primeira vez na Epístola aos Esmirniotas, Inácio de Antioquia

2) Conservar as tradições e Pedro em Roma.

Policarpo (#17)

Inácio (Carta aos Filipenses 7,1): os apóstolos “evangelizaram-nos”. Os bispos, presbíteros e diáconos foram constituídos segundo o sentir de Jesus Cristo por seu Santo Espírito.

Inácio (Carta aos Esmirniotas): “onde está Jesus Cristo, ali está a Igreja católica. Sem o bispo não é lícito batizar.”

Clemente (Carta aos Coríntios 5,1, p. 76) Paulo e Pedro foram perseguidos até a morte em Roma.

Clemente (p. 113): Os Apóstolos, seguindo a vontade de Deus, iam pregar, batizar e estabelecer aqueles que eram “primícias deles, depois de aprová-los pelo Espírito, como bispos (vigilantes).. Os Apóstolos confiaram a obra de Cristo a seus seguidores.”

Clemente (p. 114): “Os Apóstolos, por inspiração de Nosso Senhor Jesus Cristo, tiveram perfeita previsão do porvir. Estabeleceram nEle os supracitados e juntamente lhes impuseram o mandato de que, quando eles morressem, outros homens aprovados lhes sucedessem no ministério.”

3) Pedro morreu em Roma.

Clemente (Epístola aos Coríntios 5:1): Pedro foi perseguido até a morte em Roma. Os arqueólogos encontraram seus restos. Nunca houve outra cidade que reivindicasse ter seus ossos.

Inácio: Epístola aos Romanos, 4:3.

Ireneu (180): Contra as heresias, 3, 3:2 e 3:1.

Gaio (198): na Disputação com Proclo, numa obra de Eusébio (História da Igreja, 2, 25:5).

Dionísio de Corinto (166): na Epístola a Sóter de Roma, numa obra de Eusébio História da Igreja, 2, 25:8).

Tertuliano (207): Contra Marcião, 4, 5:1.

Clemente de Alexandria (190): mencionado em Eusébio (História, 6, 14:1).

Pedro de Alexandria (306): em Penitência, Cânon 9.

Os irmãos não duvidam de que Paulo morreu em Roma. E Paulo menciona Lino (2 Ti 4, 21). Então a Sucessão Apostólica remonta pelo menos até Lino. Por que a Igreja de Roma associou sua autoridade a Pedro, que traiu Jesus, e não a Paulo? Deve ser porque Pedro a teve.

Nenhuma igreja nem povo reivindica os ossos de Pedro exceto a Igreja de Roma. Irmão, crês que teriam construído a Basílica de Pedro sobre um túmulo que não existiu? Por que Constantino derrubaria o panteão sagrado para erguer o templo? Este lugar era supersagrado para os romanos. Deve ter havido algo mais sagrado para os cristãos.

4) O Primado de Pedro, a rocha

Tertuliano (213): em Sobre a Monogamia, 8:4.

Clemente de Alexandria (190): em Quem é o Homem Rico que se Salva?, 21:3-5.

Orígenes (244): Homilias sobre o livro do Êxodo, 5:4., In Rom 5: 10.

Cipriano (250): Epístola aos que Deixaram de Assistir, 33 (27):1. Epístola a Florêncio Pupiano, 66:(69):8.

Efrém (338): Homilias, 4:1.

Cirilo de Jerusalém (350): Leituras Catequéticas, Catequese, 2:19.

Agostinho: Serm 46, 13, Pedro, a rocha.

É importante notar que Hilário de Poitiers, em seu Tratado Sal 131, 4, diz que a confissão de Pedro é também a Rocha. Mas isso era para combater o arianismo, que diminuía Cristo. João Paulo II ensina que, sendo a Confissão de Pedro também a Rocha — que a Rocha é Cristo e a fé nEle da parte de Pedro —, voltamos então ao mesmo: a Rocha-Cristo ora por Pedro, que confirmará os demais apóstolos (Lc 22, 32) e lhe pede que apascente as suas ovelhas (Jn 21, 15).

“São João Crisóstomo (Hom Mt 54, 2) ressalta a magnitude do poder outorgado por Cristo a Pedro ao confiar-lhe as chaves” (“Jerarquía, Infalibilidad y Comunión Inter Eclesial”, Enrique Dóriga, Herder, 1972, p. 124).

Notas:

  1. Hefzi-bá significa “O meu deleite está nela” e Beula, “Desposada”.
  2. Jesus significa SALVADOR.
  3. Página três de A Igreja Pedra Angular. “A rocha é a revelação que Pedro recebeu”. O autor protestante do livro chamadoO Apóstolo Pedro por W. H. Griffith Thomas (Edit. CLIE, 1984) diz que “grandes eruditos protestantes (como o doutor Hort)” admitem que Petra e Petros são o mesmo Apóstolo Pedro (p. 31). No entanto, o autor termina com a ideia de que a rocha é a confissão de Pedro.
  4. “O único testemunho literário antigo diz que Mateus escreveu em aramaico” Comentario Bíblico San Jerónimo, Tomo III, (Espanha: Ediciones Cristiandad, p. 171.) Ver edição nova de 1990, pp. 630-631. Além disso, “pedrinha” em aramaico é EVNA.
  5. Nota que a tradução, La Versión Popular (da mesma editora que imprime a Reina-Valera), traduz: “Tu és Pedro e sobre esta Pedra edificarei a minha Igreja”. Na Concordância Breve no final da Bíblia publicada pelas Sociedades Bíblicas notamos que “Pedra” e “Rocha” chegam a significar o mesmo (p. 199).

O comentário bíblico protestante The Interpreter´s One-Volume Commentary on the Bible diz que há evidência de formas semíticas (aramaico) por trás do texto grego em Mateus. Também admite que Pedro é a Rocha.

No dicionário bíblico protestante lemos: “Não existe entre ambos os vocábulos nenhuma diferença de conteúdo: assim como petros pode designar a rocha, petra pode designar também a pedra… Em Mt 16,18 Pedro é chamado por Jesus de <Pedra>… tanto o aramaico Kefas como o grego petros podem designar a pedra, rocha, e portanto, em Mt 16,18, petra pode traduzir-se por <Pedra>, <Rocha>” ( Diccionario Teológico del Nuevo Testamento Vol. IV, por Coenen et. al. 1971, 1994 pp. 116-117. Ver artigo “Roca” por W. Mundel).

Rafael Aguirre, em “La Figura de Pedro en el evangelio de Mateo”, em Pedro en la Iglesia Primitiva, diz que Jesus deu o nome “pedra” a Simão pela tradição veterotestamentária da “pedra preciosa” (p. 49). Ver Lm 4,1-2; Cnt 5,14; Is 28,16; Ex 28,17-21; Ap 21,20. Pedro é a pedra sobre a qual edificará a sua igreja. Ele veio a ser a Rocha por “seu lugar destacado entre os discípulos… pela posição de Pedro na Igreja primitiva.”.

  1. Em Comentario Bíblico Mundo Hispano, Tomo 14, Mateo, por vários autores, 1993, pela mesma editora Casa Bautista de Publicaciones, 1993, pp. 222-223. Embora, no fim das contas, cheguem a dizer que a rocha não é Pedro, mas sua confissão (p. 223).
  2. Além disso, em aramaico simón quer dizer “grão de areia”. Então, se PETROS significa pedrinha, Jesus estaria dizendo a Pedro: “Simão, és um grão de areia, mas eu te chamo pedra insignificante”. Não teria sentido mudar o seu nome.
  3. Catolicismo ROMANO pelo teólogo evangélico Rev. Dr. Hugo P. Jeter, (Editorial CLIE, Espanha 1994. p. 51). Além de estar cheio de apresentações errôneas do ensino católico, por ser um livro impresso em 1994 que pretende oferecer “entendimento da Igreja Católica Atual” (como diz o subtítulo), este apresenta práticas antigas como: “Para receber os elementos da Missa, o participante se dirige à frente e se ajoelha diante do altar” (p. 37). Esta prática mudou com o Concílio Vaticano II em 1965.
  4. O evangélico Sr. Raúl Caballero Yoccou no livro Sobre Esta Roca Edificaré Mi Iglesia, (Edit. Unlit, USA, 1991,1993, p. 19). Gálatas 2, 11-15 e 1 Pedro 1:1; 5:1 não têm nada a ver com as chaves; além disso, o NT nunca fala de que Pedro abre portas, é Deus quem as abre (Hch 14,27; 2 Co 12 e Col 4,3) diretamente e/ou por Paulo (1 Co 16,). No entanto, somente Pedro recebeu as chaves de Jesus Cristo. Não Paulo.
  5. No livrinho La Biblia Católica tiene la Respuesta pelo teólogo evangélico Dr. Oswald Smith (publicado por Cruzada Mexicana en Cada Hogar) lemos: “Estas chaves e Poder representam a autoridade que deu a TODOS OS CRENTES em Mateus 18:18-19. De qualquer maneira, aqui se fala de um reino e não das chaves da Igreja” (p. 3). Mas Jesus não deu as chaves a todos, mas somente a Pedro: “a ti”, e não “a vós”. Este folheto está cheio de erros.
  6. Ver Concordância no final da Reina Valera, p. 248.
  7. Algumas pessoas tentam usar o argumento de que Is 22, 22 se refere a Jesus porque o profeta anunciou o Senhor. É verdade que Isaías profetizou Jesus. Mas o capítulo 22, 22-23 não fala de Jesus Cristo. O rei Ezequias, o descendente real do trono de Davi, faz Eliaquim mordomo do palácio. A profecia sobre as chaves trata de Eliaquim, não do rei que as entrega. Jesus, em Apocalipse 3, 7, tem a chave de Davi, mas ele não é mordomo. Como os reis do AT, Jesus, descendente do trono de Davi, dá as chaves a Pedro, seu mordomo (The Collegeville Bible Commentary). Ou pensas que Jesus é o mordomo e que há outro messias, descendente de Davi, maior que ele? Em resumo, as chaves são símbolo de autoridade.
  8. Theological Dictionary of the New Testament, Eerdmans, USA, 1993, p. 498, citado emPeter and the Orthodox: a reprise, Ray Ryland, Catholic Answers, Oct 1996, pp. 26, assim como Crisóstomo.
  9. Tenho à mão 16 citações dos Padres Apostólicos que afirmam que Pedro esteve (e morreu) em Roma. A arqueologia confirmou este fato. Teríamos que admitir que alguns (pouquíssimos) Padres Apostólicos pensaram que a rocha de Mt 16, 18 eratambéma confissão de Pedro no v. 16, sem excluir que o fosse Pedro.
  10. ¿Por qué Soy Evangélico?, por C. William Fisher (em inglês intitulado “Por que sou nazareno?”) (USA: Casa Nazarena de Publicaciones. 1961), p. 52.
  11. Não se trata de comparar o Papa com o Apóstolo Pedro em coisas superficiais como sua maneira de vestir, viver, etc., mas de considerar nele o mais profundo, como Pastor Supremo da Igreja Universal.
  12. A Palavra de Pedro continua sendo lei na Igreja. No grego KRINO, melhor traduzido “opino”, como em Hch 13, 46; 15, 19; 16, 15 e 26, 8, entre outros (Ibid., p. 28). Nota que, enquanto as pequenas decisões que Tiago tomou quanto a não comer sangue ou carne oferecida aos ídolos, a decisão
  13. O autor do livro Análisis del ROMANISMO, J.A. Phillips (USA: Casa Bautista de Publicaciones), trata deste tema, mas se contradiz. Enquanto diz que o Papa não pode proclamar um dogma infalível porque “não há linguagem humana capaz de possuir a flexibilidade suficiente para expressar e transmitir de maneira absoluta e precisa as fórmulas de verdades que não podem provar-se por meio da investigação e corroborar-se na escola da experiência. Os vocábulos, já escritos ou falados, são coisas maravilhosas. Não obstante, as palavras são meramente símbolos” (p. 95). Por outro lado, falando da Bíblia, diz: “Existem duas diferenças entre a doutrina da infalibilidade da Bíblia sustentada pelos protestantes…. O Espírito Santo é indispensável para poder compreender a Escritura” (pp. 97-98). Não está a Bíblia do Sr. Phillips escrita “numa linguagem humana”? Como é “sustentada como infalível pelos protestantes”, como ele afirma, se, segundo ele, “não há linguagem humana capaz de possuir a flexibilidade suficiente para expressar e transmitir de maneira absoluta…”?
  14. É interessante notar que, durante a perseguição de Herodes, Tiago foi preso e assassinado sem que houvesse muito alvoroço entre os cristãos, mas quando isto aconteceu com Pedro: a igreja orava sem cessar a Deus por ele(Hch 12, 5). Pedro era o grande líder da Igreja.
  15. Algo do seguinte vem de notas de uma conferência dada por Catholic Answers, P.O. Box 17181, San Diego, Ca. 92177. Uma parte das fontes judaicas das seguintes são extrabíblicas, que fazem parte da tradição oral da interpretação. Para mais sobre esta tradição, ler Evangelio y tradición de Israel, Matthieu Collin & Pierre Lenhardt, EVD, Espanha, 1991.
  16. Outro paralelo é o vínculo entre o céu e a terra: “Tu és Cristo, filho de Deus” (céu) e “Tu és pedra” (terra). “Meu Pai Celestial” (céu) e “forças do Seol” (debaixo da terra). “Atar/desatar no céu” e “o que atas/desatas na terra”.
  17. De Turning Point at Ceasarea Philippi, Donald Senior, Credence Cassettes, 1986.