Este artigo é um apêndice do artigo O Episcopado Monárquico.
Em seus ataques ao episcopado monárquico, os protestantes costumam sustentar que sua origem não é de instituição apostólica, mas produto de uma evolução muito posterior, que começa em meados do século II. É nesse contexto que costumam citar teólogos católicos para dar a impressão de que “a erudição católica contemporânea” está de acordo com eles, e que aqueles que pensam de modo diferente o fazem porque não pertencem aos círculos acadêmicos. Isto, naturalmente, não passa de uma mistura entre a falácia de autoridade e a falácia ad hominem, acompanhada de uma questionável tendência a tomar seletivamente aquela evidência que se crê poder sustentá-los.
Eco dessas opiniões encontrei recentemente em um fórum católico:
“Muitos eruditos católicos reconheceram que o monoepiscopado não existia em Roma antes de 140-150 d.C.”
“Querer ver um primado numa época tão antiga como a da primeira epístola de Clemente é algo que já foi superado pela erudição católica contemporânea. Em outras palavras, somente os católicos que ficaram com a visão pré-científica (isto é, de um século ou mais atrás) da história do cristianismo primitivo insistiriam em ver em Clemente romano um Papa com as mesmas características essenciais dos Papas de hoje ou da época medieval”
“Tal como expressei em minha primeira intervenção, primeiro quero mostrar que aqueles que pretendem ver um primado não apenas de Roma, mas da pessoa de Clemente como uma espécie de bispo dos bispos, na primeira epístola que se conhece por seu nome, é algo que apenas certo setor dentro do catolicismo contemporâneo se atreve a afirmar como verdade inquestionável. Isto ocorre fora dos círculos eruditos. Quase sempre entre os católicos relacionados com a apologética”
“A verdade é que creio que há entre os católicos que conheço um grande desconhecimento daquilo que seus eruditos dizem. Meu primeiro objetivo é mostrar essa informação que costuma passar, muito convenientemente para certos círculos de católicos, despercebida por muitos católicos que gostam de trocar ideias e argumentos sobre sua fé e tradição.”
“Meu propósito é mostrar da maneira mais clara possível algo que costuma faltar nesses intercâmbios de ideias em nosso contexto hispano-católico. Refiro-me à descoberta desse outro grande setor do catolicismo romano que é o da academia e que é tão ignorado e às vezes até denegrido em nosso contexto”
“Reitero: meu primeiro objetivo é demonstrar que há uma brecha intransponível entre a erudição católica contemporânea e as ideias apresentadas por certos setores do catolicismo, usualmente ligados à apologética“
É certo que um número crescente de teólogos católicos abraçou a ideia de que o episcopado monárquico surgiu em meados do século II; entretanto, afirmar que as opiniões divergentes se dão “fora dos círculos eruditos” não pode ser qualificado senão como ato monumental de ignorância — e isto concedendo-lhe o benefício da dúvida de que não esteja deliberadamente tomando citações seletivas para generalizar, o que colocaria seriamente em xeque sua honestidade intelectual.
Mas a pluralidade de opiniões a respeito desse ponto não é precisamente nova. A esse respeito já explicava o historiador Alphonse Van Hove:
“Os escritores católicos concordam em reconhecer a origem apostólica do episcopado, mas estão muito divididos quanto ao significado dos termos que designam a hierarquia nos escritos do Novo Testamento e dos Padres Apostólicos. Pode-se até perguntar se originalmente esses termos tinham um significado claramente definido (Bruders, Die Verfassung der Kirche bis zum Jahre 175, Mogúncia, 1904). Tampouco há maior unanimidade quando se tenta explicar por que algumas igrejas se encontram sem presbíteros, outras sem bispos, outras onde as cabeças da comunidade são chamadas às vezes bispos, às vezes presbíteros. Esse desacordo aumenta quando surge a pergunta sobre a interpretação dos termos que designam outros personagens que exercem certa autoridade fixa nas comunidades cristãs primitivas. Os seguintes fatos devem ser considerados como completamente estabelecidos:
- Até certo ponto, nesse período inicial, as palavras bispo e sacerdote (“episkopos” e “presbyteros”) eram sinônimas. Esses termos podem designar seja simples sacerdotes (A. Michiels, Les origines de l’episcopat. Lovaina, 1900, 218 ss), seja bispos que possuíam os poderes completos de sua ordem. (Batiffol. Etudes d’histoire et de théologie positive, Paris, 1902, 266 ss.: Duchesne, Histoire ancienne de l’église. Paris. 1906, 94.)
- Em cada comunidade, a autoridade pode ter pertencido originalmente ao colégio ou presbíteros-bispos. Isto não significa que o episcopado, no sentido atual do termo, possa ter sido plural, porque em cada igreja o colégio ou presbíteros-bispos não exercia um poder supremo independente; estava sujeito aos Apóstolos ou a seus delegados. Estes últimos eram bispos no sentido atual do termo, mas não possuíam sedes fixas nem tinham um título especial (Batiffol, 270). Como eram essencialmente itinerantes, confiavam o cuidado das funções necessárias fixas relativas à vida diária da comunidade a alguns dos neófitos mais instruídos e mais respeitados.
- Mais cedo ou mais tarde, os missionários tiveram de deixar as jovens comunidades entregues a si mesmas; a partir daí sua direção recaiu completamente nas autoridades locais, que assim receberam a sucessão apostólica.
- Esta autoridade local superior, que era de origem apostólica, foi conferida a um bispo monárquico pelos Apóstolos, tal como se entende o termo hoje. Isto é provado primeiro pelo exemplo de Jerusalém, onde Tiago, que não era um dos doze Apóstolos, ocupava o primeiro lugar, e depois por aquelas comunidades da Ásia Menor das quais fala Inácio, e onde, no início do século II, existiu o episcopado monárquico, pois Inácio não escreve como se a instituição fosse nova.
- É certo que em outras comunidades não se faz menção do episcopado monárquico até meados do século II. Não desejamos rejeitar a opinião dos que creem que em muitos documentos do século II há traços do episcopado monárquico, isto é, de uma autoridade superior à do colégio de presbíteros-bispos. São muito plausíveis as razões alegadas por alguns escritores para explicar por que, por exemplo, na Epístola de São Policarpo não se menciona o bispo. Contudo, a melhor evidência para a existência, nessa data antiga, do episcopado monárquico é o fato de que no fim do século II não se encontra nenhum vestígio de alguma mudança de organização. Tal mudança teria tirado do colégio de presbíteros-bispos sua autoridade soberana, e é quase impossível compreender como esse corpo teria permitido ser privado de sua autoridade em toda parte, sem deixar nos documentos contemporâneos a menor evidência de um protesto contra uma mudança tão importante. Se o episcopado monárquico começou somente em meados do século II, é impossível compreender como, no fim do século II, eram geralmente conhecidas e aceitas as listas episcopais de muitas dioceses importantes que remontavam a sucessão de bispos até tão longe quanto o século I. Tal, por exemplo, foi o caso de Roma.
- Deve-se notar cuidadosamente que esta teoria não contradiz os textos históricos. Segundo esses documentos, havia um colégio de presbíteros ou de bispos que administravam várias igrejas, mas que tinham um presidente que não era outro senão o bispo monárquico. Embora o poder destes últimos existisse desde o princípio, tornou-se cada vez mais conspícuo. O papel desempenhado pelo “presbyterium”, ou corpo de sacerdotes, era muito importante nos primeiros dias da Igreja cristã; contudo, não excluía a existência de um episcopado monárquico (Duchesne, 89-95).”[1]
A seguir forneço algumas opiniões de teólogos e historiadores católicos (18 ao todo) a respeito do episcopado monárquico, considerados em sua maioria verdadeiros “pesos pesados”. Sirva isto para ilustrar que não somos apenas os apologistas que pensamos desse modo, mas também estudiosos de cuja preparação acadêmica não se pode duvidar em nenhum momento.
Daniel Ruiz Bueno
Sacerdote, teólogo e historiador, bem conhecido por suas versões e trabalhos patrísticos e filosóficos, foi proclamado por uma conhecida autoridade “como uma das pessoas mais capacitadas para verter os textos gregos para um castelhano elegante e fluente” (M. F. Galiano, Emerita XVI [1948], pág. 334).
A respeito das cartas de Inácio de Antioquia, faz referência a Ireneu como bispo monárquico da Igreja de Antioquia.
“Quando Eusébio, no início do século IV, o nomeia em sua História da Igreja (III,36), ao lado de Policarpo e Papias, discípulos dos Apóstolos, qualifica-o como “o famoso Inácio, celebrado pela maior parte até o presente, que herdou o segundo lugar depois de Pedro no episcopado de Antioquia”. Exata e literalmente devemos nós repetir”[2]
“A HIERARQUIA TRIPARTIDA.
A heresia pulula pelas Igrejas; o cisma — o espírito de grupelho e facção — ameaça convertê-las em estilhaços; Inácio pôde comprová-lo em seu caminho. Aqui, em Esmirna, confirmam-no a ele os pastores e dirigentes das Igrejas asiáticas. O remédio que ele assinala com energia inigualada contra males tão grandes é apertar-se cada vez mais em torno da hierarquia de bispos, presbíteros e diáconos, peça mestra e essencial da constituição da Igreja; pois sem ela nem o nome de Igreja lhe resta.
Já dissemos algo a esse respeito. Acrescentemos agora, no momento em que Inácio se rodeia de representantes dessa mesma hierarquia tripartida, exercida por pessoas cujos nomes nos são transmitidos em todas as Igrejas da Ásia, que este foi por longo tempo outro dos tropeços da crítica para admitir a autenticidade das cartas de Santo Inácio, pois com elas teria de engolir um episcopado monárquico e uma hierarquia perfeitamente definida no fim do século I, com o que caíam por terra muitas teorias queridas. Mas as teorias são as teorias e os textos são os textos. Ora, os textos das cartas inacianas nos atestam com absoluta diafaneidade e com insistência martelante que cada Igreja — Antioquia, Esmirna, Éfeso, Trales, Filadélfia — tem à sua cabeça um ἐπίσκοπος, “intendente, inspetor”, autoridade suprema na comunidade, a quem se agrega como dependente e subordinado seu um πρεσβυτέριον, colégio de “anciãos” que o assiste como uma espécie de “senado”, e um terceiro corpo de diáconos ou ministros.
Ora, que há de novidade neste fato, tão solidamente atestado por toda a correspondência inaciana? A maior novidade e, sem dúvida, um mérito de Santo Inácio, é a precisão na terminologia, que antes andou vacilante e ambígua por longo tempo e foi parte não pequena para emaranhar e enredar a questão das origens do episcopado.
A primitiva e inegável confusão dos termos intercambiáveis de presbíteros e epíscopos, que alcança documento tão importante nesse sentido como a I Clementis e se prolongará ainda por muito tempo, desaparece de modo absoluto em Santo Inácio. Mas a confusão de termos não implica confusão de funções, e toda a tradição interpreta unanimemente os fatos no sentido que revelam as cartas inacianas. A Igreja de Jerusalém, a de Antioquia, a de Roma, aparecem, desde que há sobre elas uma tradição histórica, governadas por um só bispo assistido por seu presbyterium e diaconato. O caso de Roma é exemplar. A I Clementis é escrita coletivamente de Igreja a Igreja, de Roma a Corinto; seu redator não distingue entre presbíteros e episcopos e, contudo, toda a tradição sabe que a carta da Igreja de Roma à de Corinto é obra de seu bispo Clemente, que deixa lembrança perene nas gerações vindouras.
Mais adiante, por volta de meados do século II, Hermas também parece conhecer apenas o episcopado coletivo; contudo, um documento de primeira ordem, o fragmento Muratoriano, nos diz que o Pastor de Hermas foi escrito nuperrime temporibus nostris sedente cathedra urbis Romae ecclesiae Pio episcopo fratre eius.
Santo Inácio distingue diafanamente os termos, mas não há em suas cartas vestígio de que o regime de episcopado monárquico se tenha imposto por uma espécie de revolução que se devesse acatar, ainda que fosse pelo bem da Igreja. Tampouco se percebe intento apologético de uma instituição discutida, cujas origens divinas, como fez o bispo de Roma aos sediciosos coríntios, fosse necessário recordar a quem as desconhece ou esquece. Trata-se de um fato que se justifica por si mesmo, por fazer parte da consciência cristã; mas um fato é o bispo, como um fato é o colégio de “anciãos” ou presbíteros, um fato os diáconos e um fato a subordinação, tão belamente expressa pelas imagens mais claras, dessas três ordens da hierarquia da Igreja. Este fato ninguém discute, e não se trata de assegurar uma ordem nova e escorá-la apologeticamente; trata-se nada menos que de guardar incólume a fé recebida e pregada, como baluarte para defendê-la de toda heresia, de estreitamento da unidade e união em torno do bispo, presbíteros e diáconos; mas estes — seus poderes, sua situação preeminente e reitora da Igreja —, pelo menos em princípio, ninguém os discute, ainda que depois haja quem, trazendo sempre o nome de bispo na boca, faça tudo às suas costas.
A heresia pôde contribuir para que a Igreja adquirisse, diante do perigo, consciência mais viva de sua constituição íntima e percebesse onde estava sua melhor defesa contra ela; outras vezes o será para precisar os termos que explicam um dogma; outras, para despertá-la de um possível letargo espiritual a que a expõe seu barro humano. Nesses vários sentidos, oportet haereses esse… Quando Santo Inácio insiste tão energicamente na adesão à hierarquia contra as aberrações heréticas, não é isso afirmar que ali reside o que já Clemente Romano havia chamado “a sagrada regra da tradição”, o depósito intacto da fé apostólica?
Mas, se a heresia avivou essa consciência, não se pode dizer de modo algum que a tenha criado, e menos ainda que tenha dado origem a uma instituição que os textos mais explícitos fazem remontar aos primeiros dias da Igreja, os da comunidade de Jerusalém.” [3]
A respeito do Pastor de Hermas e de seu silêncio sobre o episcopado monárquico, comenta:
“Hermas não menciona o episcopado monárquico; mas aos que se apoiam nesse silêncio para negar sua existência na Roma por volta de 140, não há que repetir senão as palavras de Turner: «É ridículo aceitar a data do livro, 140-145, sob a fé do cânon muratoriano, que afirma que Hermas escreveu o Pastor quando seu irmão Pio era bispo de Roma, e querer depois provar por este livro que nessa data não havia bispo em Roma e que Hermas particularmente não sentia necessidade dele»[4]”[5]
Ramón Trevijano
É sacerdote e doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma, licenciado em Sagrada Escritura pelo Pontifício Instituto Bíblico, licenciado em História pela Universidade de Zaragoza e ampliou seus estudos na de Bonn. Ensinou Novo Testamento e Patrologia no Seminário de Córdoba (Argentina), nas Faculdades de Teologia de Buenos Aires, do Norte da Espanha (Burgos e Vitória) e, desde 1978, na Universidade Pontifícia de Salamanca. É professor de Origens do Cristianismo, Cartas apostólicas e Patrologia, e diretor da revista Salmaticensis.
A respeito das epístolas de Santo Inácio de Antioquia, explica:
“A unidade dos cristãos com Cristo traduz-se pela unidade dos cristãos entre si, unidade da Igreja. Os orgulhosos hereges, que negam o dom de Deus, são também os que se separam da comunidade, do bispo e do altar. A Igreja, ao contrário, é unidade de fé e de vida, comunidade de amor da qual Jesus Cristo é Lei. Esta unidade se expressa em um organismo visível, já provido da organização hierárquica necessária para seu funcionamento. As cartas de Inácio são o primeiro testemunho da conjunção e consolidação da tríplice hierarquia: episcopado monárquico, presbiterado e diaconato:
“Segui todos o bispo, como Jesus Cristo ao Pai, e o presbítero como aos apóstolos. Respeitai os diáconos como mandamento de Deus. Que nada se faça sem o bispo daquilo que concerne à Igreja. Considerai legítima somente a Eucaristia presidida pelo bispo ou por quem ele encarrega. Onde aparecer o bispo, ali esteja a multidão congregada. Do mesmo modo que onde estiver Cristo Jesus, ali está a Igreja Católica. Não é lícito nem batizar nem celebrar o ágape prescindindo do bispo. O agradável a Deus é o que aquele aprove, a fim de que tudo o que se faça seja seguro e legítimo [Smyr 8,1-2]…
A partir da concepção da Igreja como uma realidade espiritual com Deus ou Cristo como bispo invisível, Inácio chega à justificação do episcopado monárquico, ao colocar o bispo como cabeça invisível, fazendo as vezes de Deus ou de Cristo. No ápice está o bispo, representante de Deus, cuja autoridade deriva da missão dos apóstolos; mas que é sobretudo imagem do Deus invisível. É um episcopado monárquico que dirige as comunidades. Mas vemos o bispo rodeado de seus presbíteros e diáconos. O bispo preside como representante de Deus ou de Jesus Cristo, os presbíteros formam o senado apostólico, e os diáconos se encarregam dos serviços de Cristo (Magn 6,1; Tral 2,1-3,2)”[6]
José Orlandis
Foi durante muitos anos catedrático de História do Direito da Universidade de Zaragoza. Na Universidade de Navarra foi primeiro Decano da Faculdade de Direito Canônico e primeiro Diretor do Instituto de História da Igreja. Ao longo de mais de meio século, desenvolveu ao mesmo tempo uma constante atividade acadêmica e uma intensa obra de investigação e criação histórica. Escreveu duas centenas de trabalhos e mais de vinte livros relacionados com temas históricos.
Sustenta, sem lugar a dúvidas, que Pedro ocupou o episcopado monárquico da Igreja de Roma e que os bispos seguintes o sucederam em seu ministério.
“Mas se a Igreja romana é a Igreja de Pedro e Paulo — os dois apóstolos mártires —, Pedro foi o único bispo de Roma, e a sé romana é a sé de Pedro e de seus sucessores na cátedra episcopal. Cristo havia conferido a Pedro o Primado sobre a Igreja fundada por Ele: um primado que não devia extinguir-se com sua vida, porque, segundo os desígnios do Fundador, constitui um elemento essencial da estrutura da Igreja, e esta deverá perdurar até o fim dos tempos. Morto Pedro, desapareceram com ele as prerrogativas pessoais inerentes à sua condição de Apóstolo; o poder primacial e o consequente ministério de unidade foram herdados, sem solução de continuidade, pelos bispos de Roma, seus sucessores na cátedra episcopal”[7]
“Muitas igrejas do século I foram fundadas pelos Apóstolos e, enquanto estes viveram, permaneceram sob sua autoridade superior, dirigidas por um colégio de presbíteros que ordenava sua vida litúrgica e disciplinar. Este regime pode ser atestado especialmente nas Igrejas paulinas, fundadas pelo Apóstolo dos Gentios. Mas, à medida que os Apóstolos desapareceram, generalizou-se por toda parte o episcopado monárquico, que já se havia introduzido desde um primeiro momento em outras igrejas particulares. O bispo era o chefe da Igreja, pastor dos fiéis, e, enquanto sucessor dos Apóstolos, possuía a plenitude do sacerdócio e o poder necessário para o governo da comunidade.
A chave da unidade das igrejas dispersas pelo orbe, que as integrava em uma só Igreja universal, foi a instituição do Primado romano. Cristo, Fundador da Igreja — tal como se recordou em outro lugar —, escolheu o Apóstolo Pedro como a rocha firme sobre a qual haveria de assentar-se a Igreja. Mas o Primado conferido por Cristo a Pedro não era, de modo algum, uma instituição efêmera e circunstancial, destinada a extinguir-se com a vida do Apóstolo. Era uma instituição permanente, penhor da perenidade da Igreja e válida até o fim dos tempos. Pedro foi o primeiro bispo de Roma, e seus sucessores na Cátedra romana foram também sucessores na prerrogativa do Primado, que conferiu à Igreja a constituição hierárquica querida para sempre por Jesus Cristo. A Igreja romana foi, portanto — e para todos os tempos —, centro da unidade da Igreja universal.
O exercício do Primado romano esteve logicamente condicionado, ao longo dos séculos, pelas circunstâncias históricas. Em épocas de perseguição ou de difíceis comunicações entre os povos, aquele exercício foi menos fácil e intenso que em outros momentos mais propícios. Mas a história permite documentar, desde a primeira hora, tanto o reconhecimento pelas demais igrejas da preeminência que correspondia à Igreja romana como a consciência que os bispos de Roma tinham de sua primazia sobre a Igreja Universal”[8]
Johannes Quasten
Sacerdote, teólogo e um dos mais eminentes patrólogos contemporâneos. Estudou teologia católica na Universidade Wilhelms da Vestfália, em Münster. Também foi professor de história antiga na Universidade Católica da América e posteriormente Decano da Faculdade de Teologia da Universidade de Washington. Em 1960 recebeu o prêmio da Catholic Theological Association of America por seus trabalhos no âmbito teológico, e João XXIII o nomeou membro da Pontifícia Commissio de sacra Liturgia preparatória do Concílio Vaticano II.
Paulo VI o nomeou em 1964 Consultor Consilii ad exsequendam Constitutionem de sacra Liturgia. Além disso, foi membro de muitas comissões científicas: em 1948, membro do Abt-Herwegen-Instituts für Liturgiewissenschaftliche Forschung (Maria Laach); em 1951, membro da diretiva da Patristic Conference Oxford University; em 1963, membro da Oxford Historical Society. Após sua aposentadoria, foi nomeado em 1970 professor honorário da Faculdade de Teologia católica da Universidade de Friburgo,
No primeiro volume de sua obra Patrologia I (a qual é considerada um modelo em seu gênero), quando fala das epístolas de Inácio de Antioquia, comenta a rejeição que tiveram por parte dos protestantes, por derrubarem suas objeções ao episcopado monárquico.
“A autenticidade das epístolas foi, por muito tempo, posta em xeque pelos protestantes. Segundo sua maneira de ver, seria improvável encontrar, nos tempos de Trajano, o episcopado monárquico e uma hierarquia tão claramente organizada em bispos, presbíteros e diáconos. Suspeitaram que as cartas de Inácio foram falsificadas precisamente com a intenção de criar a organização hierárquica. Mas semelhante impostura é incrível. Depois da brilhante defesa de sua autenticidade feita por J. B. Lightfoot, A. von Harnack, Th. Zahn e F. X. Funk, hoje em dia são geralmente aceitas como genuínas.”[9]
Enrique Moliné
É doutor em Teologia pela Universidade do Laterano (Roma), com uma tese sobre Tertuliano, e licenciado em Ciências Químicas e em Filosofia e Letras pela Universidade de Barcelona. É autor de Els últims dos-cents anys del monestir de Gerri (Garsineu, 1998) e de muitos outros estudos de investigação histórica, alguns de notável extensão, publicados em revistas especializadas ou nas atas de diferentes congressos. Também publicou o livro Los siete sacramentos (Rialp, 1998), assim como diversos folhetos de divulgação sobre temas de teologia e de história da Igreja.
Referindo-se às cartas de Santo Inácio de Antioquia, escreve:
“A hierarquia da Igreja, formada por bispos, presbíteros e diáconos, com suas respectivas funções, aparece com tanta clareza em seus escritos, que esta foi uma das razões principais pelas quais se chegou a negar que as cartas fossem autênticas por parte daqueles que opinavam que teria havido um desenvolvimento mais lento e gradual da organização eclesiástica; mas essa autenticidade está hoje fora de toda dúvida.
O bispo representa Cristo; é o mestre; quem está unido a ele está unido a Cristo; é o sumo sacerdote e aquele que administra os sacramentos, de modo que, sem contar com ele, não se pode administrar nem o batismo nem a Eucaristia, e até o matrimônio convém que se celebre com seu conhecimento.
Na saudação inicial da carta aos romanos, Inácio se excede e trata a Igreja de Roma de forma distinta daquela como trata as demais, com especiais louvores. O tom geral da saudação pode ser tomado como um testemunho do primado de Roma, ainda de maior interesse por provir do bispo da sé de Antioquia: uma sé antiga, que conta São Pedro como seu primeiro bispo, estabelecida em uma das maiores e mais influentes cidades do Império, na qual, além disso, começaram a ser chamados cristãos os seguidores de Cristo. Algumas de suas frases, embora de interpretação difícil, sublinham essa impressão: é a Igreja “posta à cabeça da caridade”, cujo significado mais provável parece ser que é a Igreja que tem a autoridade para dirigir no que se refere ao essencial da mensagem de Cristo”[10]
Ludwig Hertling
Sacerdote da Companhia de Jesus, célebre como historiador da Igreja.
Em sua obra História da Igreja fala sobre o episcopado monárquico, rejeitando as teorias dos “teóricos evolucionistas”:
“O episcopado monárquico.
Alguns críticos modernos empenharam-se em intercalar, entre os apóstolos e as comunidades episcopais posteriores, um período de informes movimentos de massas, levantando assim um problema que se tornou clássico na teologia não católica: como e quando surgiu o «episcopado monárquico»?
A intenção dessa pergunta não poderia ser mais clara: Cristo não fundou Igreja alguma, mas apenas trouxe uma doutrina, algumas ideias. É verdade que, sobre a base de tais ideias, desenvolveu-se aquilo que chamamos Igreja, mas esta se converteu em algo totalmente distinto daquilo que Cristo havia proposto. Acontece, porém, que semelhante teoria só é sustentável à custa de prescindir por completo das fontes, ou de torcê-las até fazê-las dizer algo diferente do que realmente dizem.
Já é difícil, em primeiro lugar, imaginar que uma massa amorfa consiga dar a si mesma uma organização, sem que sobre ela se exerça uma ação exterior, e ainda mais se resulta que semelhante «evolução» conduz simultaneamente e nos mais diversos lugares a resultados idênticos. Mas, sobretudo, carecemos totalmente de notícias sobre a existência de semelhantes comunidades não organizadas. As fontes tampouco permitem descobrir o menor vestígio de grupos regidos por um colégio ou grêmio, sem uma chefia «monárquica», que é justamente a fase de transição postulada pelos teóricos evolucionistas.
Pelo contrário, em toda parte encontramos comunidades dotadas de um vértice hierárquico.Nas cartas de Santo Inácio de Antioquia, dos primeiros anos do século II, em toda comunidade aparece um único bispo, assistido por presbíteros e diáconos. E pouco antes, no fim do século I, temos São Clemente de Roma, que em sua carta aos coríntios adota a tal ponto o tom de um bispo «monárquico» que muitos críticos chegam a atribuir-lhe a instauração desse cargo. Jamais fez tal coisa, pois no Apocalipse, escrito provavelmente por volta do ano 100, encontramos os prepósitos locais de Pérgamo, Tiatira etc. designados com o nome de «anjos das igrejas», e que eram sem dúvida alguma personalidades individuais e não colégios.
Temos, além disso, as listas dos primeiros bispos das igrejas principais, como Roma, Antioquia, Alexandria, todas as quais remontam até os próprios apóstolos. Foram redigidas precisamente, já em meados do século II, para dar garantia de que a sucessão desde os apóstolos não sofrera interrupções. É certo que se formulou a suspeita de que os nomes mais antigos de semelhantes listas não correspondem a chefes hierárquicos, mas a simples «testemunhas da tradição». Mas que significa isso? Os primeiros escritores que delas fazem uso, Santo Ireneu e outros, consideram-nos, em todo caso, como bispos. O próprio fato de que se tenha de recorrer a hipóteses como esta é uma prova conclusiva de quão infundada é a teoria do aparecimento paulatino do episcopado monárquico.
Uma questão distinta, embora de importância secundária, é a de se todos os prepósitos locais, já desde o princípio, isto é, inclusive os nomeados por Paulo e Barnabé em Listra, Derbe etc., possuíram a ordem episcopal, e se em cada uma das comunidades eram eles os únicos a ter recebido esse grau. Os títulos não permitem concluir nada de concreto. Paulo usa como sinônimos os termos presbítero e «epíscopos». Santo Inácio distingue entre eles, mas ainda Santo Ireneu fala às vezes de presbíteros referindo-se a bispos. O mais verossímil é que os apóstolos, quando consagravam novos ministros pela imposição das mãos, lhes conferissem inicialmente a plenitude da ordem sagrada. Só mais tarde se deve ter instaurado a prática de estabelecer graus inferiores no sacramento, isto é, não conferir cada vez a ordem inteira, mas apenas na medida que o ofício conferido o requeria. Assim se explicaria, por exemplo, a notícia, cujos testemunhos podem ser seguidos até o século II, de que São Clemente fora consagrado pelo apóstolo São Pedro, apesar de que, como bispo de Roma, ocupa o terceiro lugar na lista de seus sucessores; como também o costume perpetuado em Alexandria até o fim do século II de que o novo bispo fosse consagrado, não por um bispo vizinho como se fazia em outras partes, mas pelos presbíteros da cidade. Daí se deduz que em Alexandria, onde, ademais, continuavam em vigor muitas outras práticas antigas, ainda no final do século II todos os presbíteros, ou ao menos uma parte deles, haviam recebido a consagração episcopal. Mas nada disso tem a ver com o episcopado monárquico. Ainda hoje existem grandes dioceses nas quais, ao lado do bispo, outros sacerdotes possuem a dignidade episcopal. Na antiguidade, do mesmo modo que hoje, as comunidades tinham sempre uma única cabeça”[11]
Bernardino Llorca
Doutor em Ciências históricas e Professor de História Eclesiástica e Arqueologia Cristã na Universidade Pontifícia de Salamanca.
Em sua obra Manual de Historia Eclesiástica rejeita taxativamente as hipóteses do desenvolvimento tardio do episcopado monárquico:
“É questão de grande transcendência averiguar se o Cristianismo esteve desde o princípio organizado em perfeita hierarquia. Os protestantes e demais críticos liberais o negam decididamente; afirmam, em contrapartida, que a introdução da hierarquia eclesiástica ocorreu depois da Idade Apostólica pelo desenvolvimento dos acontecimentos; pois, no princípio, segundo eles, não havia distinção entre clérigos e leigos, não existia o episcopado monárquico nem muito menos o Primado romano; a direção era exercida pelos Apóstolos e missionários dotados de carismas. Toda essa concepção é falsa e tendenciosa. Pois, prescindindo de que não se concebe que os cristãos, tão amigos da tradição, deixassem introduzir-se no século II uma hierarquia que não havia existido no princípio, possuímos documentos suficientes para provar que a hierarquia cristã existiu desde o princípio, ainda que em uma forma mais primitiva, que foi se desenvolvendo pouco a pouco.
A hierarquia cristã em seus princípios.
No início, a direção da Igreja estava nas mãos dos Apóstolos, ao lado dos quais havia profetas, dotados de carismas, doutores e mestres, que tinham o encargo de ajudar os Apóstolos e completar a instrução dos fiéis. O título de Apóstolos foi recebido, além dos doze, por outros missionários dedicados à pregação. Por outra parte, vemos igualmente o conselho dos bispos, os presbíteros e os diáconos, todos encarregados da direção.
Assim aparece, antes de tudo, em Jerusalém. Quando a comunidade cristã, dirigida pelos doze, aumentou notavelmente, estes se associaram aos sete diáconos, e não muito depois constituíram o conselho dos presbíteros, os quais já tomaram parte no Concílio do ano 50. Mais tarde, depois da dispersão dos Apóstolos, aparece Tiago, o «irmão do Senhor», como autoridade monárquica em Jerusalém, enquanto os presbíteros continuam exercendo suas funções subordinadas. Depois Simeão sucede a Tiago na direção monárquica da Igreja. Portanto, distinguem-se claramente os três graus: episcopado, presbiterado e diaconato.
O mesmo vemos nas Igrejas organizadas pelos Apóstolos, e particularmente por S. Paulo. Já desde sua primeira viagem apostólica, este estabeleceu nas Igrejas por ele fundadas presbíteros para que as governassem. Todas essas comunidades cristãs ficavam sob sua direção; mas, quando aumentaram notavelmente, deixou em seu lugar, como chefes superiores ou bispos, seus fiéis discípulos, Timóteo em Éfeso e Tito em Creta. Nas cartas pastorais do Apóstolo aparece igualmente a instituição dos diáconos. Igualmente consta por diversos documentos que S. João estabeleceu na Ásia Menor diversos bispos de outras tantas Igrejas, como S. Policarpo de Esmirna.
Assim também, nos escritos dos Padres Apostólicos, que recolheram imediatamente a herança dos Apóstolos, aparece claramente a existência da hierarquia eclesiástica. Em meados do século II encontramos multidão de casos de bispos monárquicos à frente de suas respectivas Igrejas: não só em Roma e Antioquia, mas em Alexandria, Esmirna, Éfeso, Corinto, Lyon, Atenas etc., e em nenhuma parte encontramos protesto algum contra a suposta suplantação do colégio presbiteral por uma autoridade monárquica”[12]
Joseph Lortz
Sacerdote e reconhecido historiador da Igreja Católica, autor de numerosos livros.
No Tomo I de sua História da Igreja sustenta que, desde os primeiros tempos, cada igreja tinha um episcopado monárquico, evidência que encontra nas cartas de Santo Inácio e São Policarpo:
“Na Ásia Menor é onde melhor podemos acompanhar a gênese do ministério episcopal. As cartas de Santo Inácio de Antioquia (§ 12) já contêm o dito: «Quem se opõe a ele (ao bispo), opõe-se a Deus»; «onde está o bispo está a comunidade, assim como onde está Cristo está a Igreja católica». Por esta carta e pelas de São Policarpo sabemos que, por volta do fim do século, já se haviam separado os ministérios do bispo e do sacerdote; o primeiro nome foi reservado para o chefe da comunidade: o bispo. Os presbíteros se converteram em seus auxiliares. Vemos já uma ordem hierárquica que culmina no bispo (imagem do pai), acima do presbítero e dos diáconos.
O bispo era quem convocava todos os clérigos e lhes conferia o ministério. Toda a vida da comunidade (batismo, penitência, serviço divino, exclusão e reincorporação, isto é, ensino, ordem da comunidade e vida litúrgico-sacramental) estava sob sua direção (= «cura de almas»). «Os bispos estão postos para todo o rebanho, para governar a Igreja de Deus» (At 20,28).
Desde os primeiros tempos cada comunidade tinha seu bispo. Comunidades cristãs dirigidas unicamente por sacerdotes (o que hoje chamaríamos paróquias) não as conhecemos senão a partir do século III em Roma; só desde então os presbíteros adquirem maior importância. Esta evolução está intimamente relacionada com a luta contra a gnose, contra a qual a Igreja reagiu com uma unidade muito mais clara, fixando com maior exatidão os artigos de fé, selecionando e vigiando mais estreitamente os novos candidatos (desde então começou a ser decisiva a disciplina do arcano)”[13]
Michael Schmaus
Sacerdote e teólogo alemão. Ensinou teologia em diversas universidades católicas e escreveu inúmeros livros. Foi professor de Joseph Ratzinger, hoje Bento XVI. Especializado em teologia dogmática, foi também perito do Concílio Vaticano II.
Rejeita a hipótese de que o episcopado monárquico seja produto de uma evolução na qual algumas personalidades se elevaram sobre o colégio de presbíteros. Sustenta que este está instituído pelos apóstolos e, portanto, é de direito divino.
“A posição do bispo monárquico atestada por Santo Inácio, das comunidades da Ásia Menor, e por Santo Ireneu, de toda a Igreja, não pode ser considerada como resultado de uma evolução na qual algumas personalidades enérgicas se teriam elevado sobre o colégio de presbíteros. Mas remonta, como nos demonstram as epístolas paulinas, a uma disposição do próprio Apóstolo. Muitas vezes desempenham um papel importante as necessidades que implicava a missão do campo que rodeava a cidade. Quando surgiram comunidades em lugares próximos às grandes cidades, surgiram primeiro sob a direção do portador de ofícios da cidade. Contudo, logo necessitaram empregados eclesiásticos que tivessem a seu cargo o serviço litúrgico. Eram enviados pelo colégio de bispos-presbíteros, de entre suas próprias fileiras, com determinados mandatos e poderes limitados a tais lugares. E assim se pode, sem dúvida, dizer que o presbiterado como ofício independente «não nasceu por concentração para cima, mas por diferenciação para baixo em consequência da consolidação das comunidades particulares e de suas necessidades internas» (A. Erhard, Die katholische Kirche, I, 1 (1935), 211). Deve-se atribuir à Igreja autorização e poder — transmitidos a ela por Cristo — para, da plenitude do poder universal que lhe compete, desmembrar como instituições independentes alguns poderes parciais claramente delimitados (presbiterado). A descrição que São Paulo faz na Epístola a Tito e na primeira a Timóteo testemunha seu poder pleno. A divisão em três é, portanto, de direito divino”[14]
Afirma que em algumas comunidades relativamente pequenas (como a de Filipos), no começo, não havia episcopado monárquico[15], diferentemente de outras onde os próprios apóstolos o instituíram. Coloca como exemplo de bispos monárquicos Timóteo e Tito.
“A imposição das mãos do presbítero, feita ao mesmo tempo, tem evidentemente o caráter de assentimento e corroboração. Timóteo era condutor monárquico de uma comunidade. Em torno dele agrupava-se o colégio dos presbíteros. O processo descrito na primeira Epístola a Timóteo foi criador da forma de ordenar para o serviço da comunidade.”[16]
“E assim no fim da época apostólica encontramos o bispo monárquico. Como tais nos são atestados Timóteo em Éfeso e Tito em Creta. Timóteo fora ganho para a fé por São Paulo. O Apóstolo levou-o em sua companhia na segunda viagem missionária. Confiou-lhe importantes tarefas. Em seus últimos anos de vida, depois de sua primeira prisão em Roma, em uma viagem missionária pelo Oriente, isto é, por volta do ano 64, São Paulo o deixou como seu representante em Éfeso. O Apóstolo escreve a seu discípulo: «Roguei-te, ao partir para a Macedônia, que ficasses em Éfeso para que requeresses a alguns que não ensinassem doutrinas estranhas nem se ocupassem de fábulas e genealogias intermináveis, mais propícias a gerar disputas do que à edificação de Deus na fé» (Tim. 1, 3-4). Pouco antes de sua morte, São Paulo sente saudade de Timóteo e lhe roga que vá vê-lo em Roma (II Tim. 4, 11). Mais tarde Timóteo voltaria a Éfeso como bispo. Eusébio (História da Igreja 3, 4, 5) o chama primeiro bispo de Éfeso.
Tito aparece ao lado do apóstolo São Paulo na viagem de Antioquia ao «concílio dos Apóstolos» em Jerusalém. Também o emprega o Apóstolo para difíceis missões de confiança. Mais tarde o deixou em Creta, onde devia atuar como Timóteo em Éfeso (Tit. 1, 5)”[17]
George Hayward Joyce
Filósofo, teólogo e escritor prolífico da Companhia de Jesus, professor do Heythrop College em Oxford. Estudou na Universidade de Oxford e foi ordenado ministro anglicano. Converteu-se ao catolicismo e estudou filosofia em Saint Mary’s Hall de Stonyhurst e teologia em St. Beuno’s. Foi também professor de teologia dogmática. Tiveram muito êxito suas obras Catholic Doctrine of Grace e Christian Marriage.
Sustenta que o episcopado monárquico foi instituído pelos apóstolos, sendo portanto instituição divina. Coloca como exemplos de bispos monárquicos Tiago, Tito e Timóteo, assim como os “anjos” a quem são dirigidas as cartas das sete Igrejas no Apocalipse, entre outros.
“Resta considerar se o assim chamado episcopado “monárquico” foi instituído pelos Apóstolos. Além de estabelecer um colégio de presbíteros-bispos, colocaram eles um homem em posição de supremacia, confiando-lhe o governo da Igreja e dotando-o de autoridade apostólica sobre a comunidade cristã? Mesmo se levarmos em conta apenas a evidência das Escrituras, há base suficiente para responder afirmativamente a esta pergunta. Desde o tempo da dispersão dos Apóstolos, Tiago aparece em uma relação episcopal com a Igreja de Jerusalém (Atos, 12, 17; 15,13; Gal., 2,12). Nas demais comunidades cristãs, a instituição de bispos “monárquicos” foi um desenvolvimento algo posterior. No início, os próprios Apóstolos exerceram, ao que parece, todas as tarefas de vigilância suprema. Estabeleceram o cargo quando o exigiram as crescentes necessidades da Igreja. As Epístolas Pastorais não deixam espaço para duvidar de que Timóteo e Tito foram enviados como bispos a Éfeso e a Creta respectivamente. A Timóteo foram concedidos plenos poderes apostólicos. Não obstante sua juventude, tem autoridade tanto sobre clérigos como sobre leigos. A ele é confiada a tarefa de guardar a pureza da fé da Igreja, de ordenar sacerdotes, de exercer jurisdição. Além disso, a exortação que São Paulo lhe faz para que “conserve o mandamento sem mancha nem culpa, até a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo” mostra que não é uma missão transitória. Um encargo tão expresso inclui em seu alcance não apenas Timóteo, mas também seus sucessores em um cargo que deve durar até a Segunda Vinda. A tradição local o reconheceu indubitavelmente entre os ocupantes da sé episcopal. No Concílio de Calcedônia, a Igreja de Éfeso contava com uma sucessão de vinte e sete bispos começando por Timóteo (Mansi, VII, 293; cf. Eusébio, Hist. Eccl., II, iv,v).
Estas não são as únicas evidências que o Novo Testamento proporciona do episcopado monárquico. No Apocalipse, os “anjos” a quem se dirigem as cartas das sete Igrejas são quase certamente os bispos das respectivas comunidades. Alguns comentaristas, na verdade, sustentaram que eram personificações das próprias comunidades. Mas essa explicação mal pode manter-se. São João, em toda parte, refere-se ao anjo como responsável pela comunidade, precisamente como se referiria a seu governante. Além disso, no simbolismo do capítulo 1, ambos são representados sob imagens diferentes: os anjos são as estrelas na mão direita do Filho do Homem; os sete candelabros são a imagem que representa as comunidades. O próprio termo anjo, deve-se observar, é praticamente sinônimo de apóstolo, e assim é escolhido com acerto para designar o cargo episcopal. De novo, as mensagens a Arquipo (Col., 4, 17; Filem.,2) implicam que tinha uma posição de especial dignidade, superior à de outros presbíteros. Sua menção em uma carta inteiramente referida a um assunto privado, como a de Filemon, é dificilmente explicável, salvo se fosse o chefe oficial da Igreja colossense. Temos, portanto, quatro indicações importantes da existência de um cargo nas Igrejas locais, ocupado por uma única pessoa e trazendo consigo autoridade apostólica. Nenhuma dificuldade pode causar o fato de que até agora nenhum título especial distinga esses sucessores dos Apóstolos dos presbíteros ordinários. Está na natureza das coisas que o cargo existisse antes que lhe fosse atribuído um título. O nome de apóstolo, como vimos, não se limitou aos Doze. São Pedro (I Pedro, 5, 1) e São João (II e III João, 1,1) falam de si mesmos ambos como “presbíteros”. São Paulo fala do Apostolado como uma diakonia. Um caso paralelo na história eclesiástica posterior é fornecido pela palavra Papa. Este título não foi atribuído ao uso exclusivo da Santa Sé até o século XI. Embora ninguém sustente que o pontificado supremo do bispo de Roma não fosse reconhecido até então. Não pode surpreender que uma terminologia precisa, distinguindo os bispos, em sentido próprio, dos presbíteros-bispos, não se encontre no Novo Testamento.
A conclusão alcançada fica além de toda dúvida razoável pelo testemunho da época pós-Apostólica. Este é tão importante em relação à questão do episcopado que é completamente impossível passá-lo por alto. Será suficiente, contudo, referir-se à evidência contida nas epístolas de Santo Inácio, bispo de Antioquia, ele mesmo discípulo dos Apóstolos. Nessas epístolas (aproximadamente do ano 107), uma e outra vez afirma que a supremacia do bispo é de instituição divina e pertence à constituição apostólica da Igreja. Chega tão longe a ponto de afirmar que o bispo está no lugar do próprio Cristo. “Quando obedeceis ao bispo como a Jesus Cristo”, escreve aos cristãos de Trales, “é evidente para mim que não estais vivendo segundo os homens, mas segundo Jesus Cristo… sede obedientes também aos presbíteros como aos Apóstolos de Jesus Cristo” (ad Trall., n.2). Incidentalmente nos diz que se encontram bispos na Igreja, inclusive nos “lugares mais afastados do mundo” (ad. Ephes., n.3). Está fora de questão que alguém que vivia em um período tão pouco distante da Idade Apostólica pudesse proclamar esta doutrina em termos tais como os que emprega, se o episcopado não houvesse sido universalmente reconhecido como de criação divina. Viu-se que Cristo não apenas estabeleceu o episcopado na pessoa dos Doze, mas, ainda mais, criou em São Pedro o cargo de supremo pastor da Igreja. A primitiva história cristã nos diz que, antes de sua morte, fixou sua residência em Roma e ali governou a Igreja como seu bispo. É em Roma que data sua primeira Epístola, falando da cidade sob o nome de Babilônia, designação que São João também lhe dá no Apocalipse (cap. 18). Em Roma, além disso, sofreu martírio em companhia de São Paulo, no ano 67. A lista de seus sucessores na sé é conhecida desde Lino, Anacleto e Clemente, que foram os primeiros a sucedê-lo, até o pontífice reinante. A Igreja sempre viu no ocupante da sé de Roma o sucessor de Pedro no supremo cargo pastoral. (Ver PAPA.)
A evidência até aqui considerada parece demonstrar, além de toda questão, que a organização hierárquica da Igreja era, em seus elementos essenciais, obra dos próprios Apóstolos; e que a esta hierarquia transmitiram a missão a eles confiada de governar o Reino de Deus e de ensinar a doutrina revelada. Estas conclusões estão longe de ser admitidas pelos protestantes e outros críticos.”[18]
Henri de Lubac
Sacerdote e teólogo francês da Companhia de Jesus. Foi considerado um dos teólogos mais influentes do século XX. Também influiu sobremaneira na teologia do Concílio Vaticano II. Ensinou teologia fundamental e história das religiões na Faculdade de Teologia da Universidade de Lyon-Fourviere, participou como perito no Concílio Vaticano II e posteriormente João Paulo II o ordenou cardeal em 1983.
Sustenta também que o episcopado monárquico provém dos apóstolos, e enfatiza que não há evidência histórica alguma que permita supor que sua instituição tenha sido disputada de algum modo:
“A história das primeiras gerações cristãs está cheia de sombras. São escassos os documentos que nos fornecem informação quanto à situação das igrejas no fim do primeiro século e início do segundo; por toda parte se observa a existência de homens exercendo o ofício de bispos com plena consciência de sua origem apostólica, e que combinava a presidência em sua própria igreja com uma preocupação ativa pelas outras igrejas. Ninguém sente necessidade de justificar esta situação com argumento algum. E em nenhuma parte, seja nos períodos mais antigos, seja durante muito tempo depois, há o menor vestígio perceptível de que esse estado fosse contestado de algum modo”[19]
Jesús Álvarez Gómez
É missionário claretiano, doutor em História da Igreja pela Universidade Gregoriana (Roma) e professor de Arqueologia cristã na Faculdade de Teologia «San Dámaso» de Madri. Entre suas numerosas publicações, cabe destacar «Historia de la vida religiosa» e «Historia de la Iglesia, I. Edad Antigua»
Explica a respeito do episcopado monárquico:
“A tríplice hierarquia ministerial: bispos, presbíteros e diáconos
Nas cartas de Santo Inácio de Antioquia aparece já a figura do bispo monárquico à frente das comunidades cristãs como garantia de sua unidade; mas o bispo está rodeado pelo conselho dos presbíteros e diáconos. Esta «tríplice hierarquia»: bispo, presbíteros e diáconos, é a que se estabeleceu desde então de modo permanente na Igreja católica. Mas, visto que Santo Inácio de Antioquia não pretende introduzir nenhuma inovação, haverá que concluir que essa tríplice hierarquia estava admitida alguns decênios antes, ao menos nas comunidades da Síria”[20]
Reconhece Clemente Romano como bispo monárquico de Roma, cuja jurisdição universal já se evidenciava na era pós-apostólica:
“Os primeiros indícios não só de estima, mas também de exercício de certa autoridade da Igreja romana no âmbito da Igreja universal, remontam à era imediatamente pós-apostólica:
— Epístola de Clemente Romano à Igreja de Corinto. É o primeiro caso de um recurso elevado por uma Igreja, nada menos que de fundação paulina, à Igreja de Roma; a intervenção do bispo de Roma foi bem recebida; ainda no fim do século II perdurava em Corinto o costume de ler a carta de Clemente Romano na assembleia litúrgica de domingo, e inclusive transcendeu a Igreja de Corinto, porque Clemente de Alexandria, no fim do mesmo século II, considerava essa carta como uma «escritura santa». E no início do século IV, Eusébio era testemunha de que ainda se lia em muitas igrejas.
— A controvérsia pascal. Esta controvérsia demonstra que, na segunda metade do século II, o bispo de Roma exercia já de modo fidedigno sua autoridade primacial sobre outras igrejas. A questão que se colocava era a seguinte: as Igrejas da Ásia celebravam a Festa da Páscoa no dia 14 de nisã, ainda que não caísse em domingo; daí o apelativo de «quartodecimanos» com que eram conhecidas; em contrapartida, na Igreja romana, por instituição do papa Pio I (141-155), devia-se celebrá-la sempre no Domingo, o domingo seguinte ao 14 de nisã.
Embora possa parecer que esta questão carecia de relevância, era, contudo, algo importante, porque da data em que se celebrasse a Páscoa dependia a ordenação de todo o ciclo litúrgico, e além disso era um sinal bem claro da comunhão entre todas as Igrejas do mundo”[21]
Franco Pierini
Sacerdote e doutor em história da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, especializado em história antiga. Colabora com numerosas revistas, entre elas Famiglia cristiana e Jesús.
Em seu Tomo I do Curso de história da Igreja trata da constituição da Igreja nos séculos I e II. Reproduzirei alguns extratos interessantes, nos quais, embora sustente que algumas igrejas contavam com um colégio de presbíteros como forma de governo, aquelas que contavam com bispos instituídos pelos apóstolos como seus sucessores contavam com um bispo que as governava :
“Mas, acima de tudo, [referindo-se aos apóstolos] sobressai Simão, a quem Jesus dá o sobrenome Cefas, isto é, pedra (daí Pedro), colocando-o como cabeça do grupo apostólico e estabelecendo-o como fundamento da Igreja nascente…
Encontramos outros numerosos apóstolos e evangelistas como Barnabé e Lucas, que trabalham ao lado dos doze e de Paulo, ajudados por sua vez por diáconos e diaconisas, profetas, doutores e distintos tipos de colaboradores, todos os quais vão sendo progressivamente substituídos ao longo dos dois primeiros séculos por presbíteros, bispos e outros chefes das comunidades cristãs.
…
[Referindo-se à vida cotidiana dos cristãos do século II
…
As comunidades são regidas por bispos, especialmente nos lugares onde os apóstolos deixaram sucessores diretos (como é o caso de Jerusalém, Antioquia, Roma, Alexandria ou Corinto]. Em outras comunidades continua vigente um governo de tipo colegial, o presbitério, semelhante ao das comunidades judaicas, mas destinado a ser substituído pelo chamado episcopado monárquico”[22]
August Franzen
Catedrático de História medieval e moderna da Igreja na Universidade Albert Ludwig, de Friburgo de Brisgóvia.
Assim como outros teólogos e historiadores, distingue entre o lento desenvolvimento do primado e sua essência, que não nega. Sustenta que as comunidades eram governadas pelos bispos, os quais, embora provenientes do colégio de presbíteros, exerciam funções de chefia e direção. Afirma, contudo, que em algumas comunidades locais existiam vários bispos-presbíteros que finalmente também optaram pelo modelo do episcopado monárquico.
Não era o caso do bispo de Roma, que segundo as listas episcopais tinha uma posição singular, pois podia, por meio das listas episcopais, demonstrar que sua sucessão apostólica remontava diretamente a Pedro.
“No governo normal da Igreja, os carismas estiveram, portanto, sempre subordinados ao ministério. Com o passar do tempo, a direção das comunidades concentrou-se cada vez mais nas mãos dos bispos e dos diáconos. Os bispos provinham do colégio dos presbíteros, no qual desenvolviam funções diretivas como chefes e inspetores (episkopos). Em algumas comunidades locais encontramos, na primeira hora, vários bispos-presbíteros; mas depois, e não mais tarde que o século II, o episcopado monárquico difundiu-se por toda parte. Nessa tendência para o vértice monárquico que se manifestou cedo nas comunidades particulares, viu-se com razão o nascimento do princípio do primado, que se expressará mais tarde na Igreja universal (Heinrich Schlier, f 1978)”[23]
“Em particular, o bispo desta cidade [Roma] adquiriu uma posição singular, baseada no fato de que, segundo as listas episcopais, podia mostrar que sua sucessão apostólica remontava diretamente a Pedro. Ora, isto significava que o patrimônio da revelação, transmitido por Cristo e pelos apóstolos, era conservado do modo mais seguro e mais puro pelo bispo de Roma, já que a continuidade direta com os apóstolos e com a Igreja primitiva constituía a melhor garantia para a pureza da fé. O bispo romano gozou muito cedo de autoridade para ensinar. Já nos séculos II e III, os hereges costumavam acudir a Roma para justificar-se; assim o fez Marcião em 139, e também Montano e os principais expoentes do gnosticismo.
Também os defensores da reta fé buscaram e encontraram ajuda em Roma, como Atanásio, em 339/340. Esta preeminência da sé romana não impediu que o centro de gravidade do trabalho teológico se mantivesse sempre no Oriente, onde também ocorreram os grandes concílios. Nem sempre a reflexão dos teólogos coincide exatamente com o magistério da Igreja, o único que deve decidir se uma opinião teológica está contida na tradição apostólica e pertence ao patrimônio da fé revelada.
Também em questões de direito e de disciplina, o bispo de Roma gozou desde muito cedo de uma autoridade singular. Um primeiro dado de sua supremacia pode ser constatado já na Primeira carta de Clemente (ca. 96), onde se fala da solução de um conflito surgido na comunidade de Corinto. A intervenção do papa Vítor (189-199) na polêmica relativa à data da Páscoa e as controvérsias do papa Estêvão I (254-257) com Cipriano de Cartago, relativas à questão do batismo administrado pelos hereges, marcaram novas etapas de desenvolvimento da autoridade do sucessor de Pedro. Nada permite afirmar que já nesses acontecimentos se manifeste a reivindicação de um verdadeiro primado de jurisdição.
Mas, dado que este primado, como todas as coisas históricas, teve uma lenta evolução antes de chegar a seu pleno desenvolvimento, não se devem passar por alto as etapas anteriores.”[24]
É um exemplo que permite ilustrar como alguns historiadores que opinam que, embora algumas comunidades locais não contassem com um episcopado monárquico, não só não é esse o caso das principais igrejas da cristandade (Roma incluída), mas também reconhecem a evidência fornecida pelas cartas de Inácio de Antioquia, que rejeitam as teorias evolucionistas que supõem um episcopado monárquico desenvolvido tardiamente em meados do século II. Menciona a esse respeito o caso de Policarpo, Bispo de Esmirna, ordenado pelo próprio Apóstolo São João.
“Todos os seus escritos [referindo-se às cartas de Inácio de Antioquia] abundam em pensamentos edificantes e, do ponto de vista histórico, atestam que, naquele momento, o episcopado monárquico se havia imposto nas regiões onde exerceu seu ministério. Um único bispo está à frente das comunidades, e Inácio exorta com estas palavras: «Segui todos o bispo como Jesus Cristo ao Pai, e o presbitério como aos apóstolos; quanto aos diáconos, reverenciai-os como ao mandamento de Deus. Que ninguém, sem contar com o bispo, faça nada daquilo que concerne à Igreja. Só se deve ter por válida aquela eucaristia que seja celebrada pelo bispo ou por quem dele tenha autorização. Onde quer que apareça o bispo, ali esteja a comunidade, assim como onde quer que esteja Jesus Cristo, ali está a Igreja católica» (Carta aos Esmirniotas 8,1). Inácio desenvolve já uma teologia do episcopado, no qual vê encarnada a unidade da Igreja: Cristo, o bispo e a Igreja são uma só coisa.
Em sua Carta aos Romanos, Inácio atribui inequivocamente à Igreja de Roma uma posição única e não se limita a enaltecer sua atividade caritativa, mas louva — em evidente conexão com a Carta de Clemente, que indubitavelmente devia conhecer — sua firmeza na fé e sua doutrina, de modo que «percebe-se já claramente a autoridade particular e a efetiva preeminência da comunidade romana». (Altaner, Patrologie [Patrologia], 86). A seu irmão, o bispo Policarpo, que o acompanhara em Esmirna, recorda desde Trôade seu dever pastoral e exorta-o a manter-se firme durante a perseguição dos cristãos, como uma bigorna sob os golpes do martelo. De Policarpo, bispo de Esmirna, que em sua juventude ouvira pessoalmente o ensinamento do apóstolo João e que fora nomeado bispo por ele, conserva-se uma Carta aos Filipenses”[25]
Philip Hughes
Historiador e teólogo, escritor de vários livros.
Explica que a constituição da Igreja primitiva, no fim do século I, consistia em tríplice gradação: um bispo, um colégio de presbíteros e os diáconos; antes dessa data, pode ser provável que as igrejas estivessem regidas por um colégio episcopal sob a vigilância dos apóstolos.
“A vida dos primeiros cristãos
Até aqui nos referimos a um aspecto muito particular do cristianismo primitivo, à vida dos pensadores ou “intelectuais” cristãos. E o crente ordinário? Infelizmente, nenhum detalhe de sua história foi conservado para nós. Não possuímos nenhum diário íntimo dos primitivos cristãos, e somos obrigados a reconstruir sua vida religiosa cotidiana com os dados que a literatura nos pode oferecer.
A Igreja, desde sua primeira apresentação no Novo Testamento, está organizada em uma multidão de “igrejas”, uma para cada cidade. Em cada igreja distinguem-se dois grupos: o clero, com as funções de presidir, oferecer o sacrifício, administrar os sacramentos e explicar a doutrina; e o laicato. Esta estrutura se repete em toda parte, com uma uniformidade que exclui a mera casualidade e revela a imitação de um modelo comum.
O clero era eleito pela totalidade de cada igreja local, recebendo os poderes espirituais pelo rito da imposição das mãos de outros que já os haviam recebido por sua vez, juntamente com a faculdade de transmiti-los. Existe uma tríplice gradação entre o clero. Cada igreja era presidida por um só bispo, assistido por sacerdotes na tarefa espiritual, e por diáconos, cuja missão principal era o cuidado dos bens da Igreja, a distribuição de esmolas, a assistência aos pobres, viúvas e órfãos e demais obras de caridade e beneficência que constituíram uma das notas mais características do cristianismo primitivo. “Como se amam uns aos outros” foi uma das primeiras e mais espontâneas confissões que o paganismo tributou àqueles cristãos cuja religião nós herdamos”[26]
Também sustenta que Clemente Romano era bispo monárquico de Roma, cuja primazia jurisdicional já era evidente nos primeiros séculos, e cita como evidências a epístola de Clemente aos coríntios e outros eventos históricos.
“A Igreja romana
Há uma que, desde a época mais antiga, desempenha um papel especial, regulamentando os assuntos das demais e atuando com uma espécie de autoridade superior sobre elas. Esta é a Igreja de Roma, regida segundo tradição unânime por São Pedro, a quem Nosso Senhor dissera: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei minha igreja… A ti darei as chaves do reino dos céus. Tudo o que ligares na terra será ligado no céu, e o que desligares na terra será também desligado no céu. Ignoramos a data exata de fundação da Igreja romana, assim como a da chegada de São Pedro a Roma, mas é tradição universal da primitiva cristandade romana que São Pedro regeu sua Igreja e que em Roma deu sua vida por Cristo na perseguição de Nero.
Não é muito o que sabemos acerca dos primeiros passos desta Igreja romana, velados pela obscuridade que, nesses séculos, nos vela tantas coisas. Contudo, sabemos relativamente bastante, e é significativo o fato de que, sempre que Roma faz sua aparição, a vemos desempenhando esse papel privativo seu que nunca lhe foi negado (ainda que às vezes se tenha feito oposição ao seu exercício), papel que nenhuma outra igreja jamais tentou reclamar para si, isto é, o papel de uma superintendência geral sobre todas as igrejas da Igreja católica.
Assim, vemos a Roma do Papa Clemente I, por volta do ano 90, intervir nos assuntos da Igreja de Corinto. Aproximadamente na mesma época, Santo Inácio de Antioquia confirma a posição singular da Igreja romana nas famosas cartas escritas na véspera de seu martírio em Roma (107). Vimos a tradição como aparece em Santo Ireneu. Por volta da mesma época, sob o Papa Vítor (189-198), ocorre uma enérgica atuação da autoridade romana para reduzir à obediência a Igreja apostólica de Éfeso em uma disputa litúrgica. Sessenta anos depois surge outra crise entre Roma e Cartago. Desta vez a questão não é meramente disciplinar, e toda a atitude de Roma é uma vez mais a de um juiz sem apelação, ditando a lei e um ultimato para assegurar sua observância. O personagem enfrentado com Roma era aqui nada menos que São Cipriano, o primaz de Cartago; e no ano 262 encontramos o Papa Dionísio corrigindo a teologia de seu homônimo, o bispo de Alexandria.”[27]
Adalbert Hamman
Sacerdote e historiador franciscano especialista em patrologia. Tem em seu haver a publicação de cerca de cem traduções de textos patrísticos em francês, coleção conhecida como ‘Pères dans la Foi’ , assim como é autor de numerosos livros relacionados com os padres da Igreja e a história da igreja.
Embora sustente que a organização das primeiras comunidades cristãs não era uniforme, algumas regidas por colégios de presbíteros, ao mesmo tempo afirma que as grandes cidades contam desde os tempos apostólicos com um bispo que as preside como chefes dessas comunidades.
“A organização dos quadros
O fim do século I é de importância capital na história do cristianismo. Todos os Apóstolos desapareceram, menos João, a última testemunha. Converte-se em um personagem quase lendário. Permanece durante muito tempo na Ásia. Clemente afirma que organizou na Ásia comunidades que, durante todo o século II, evocam sua autoridade. Sua sombra se projeta sobre as igrejas distribuídas como as contas de um rosário ao longo do litoral.
A partir de então, as comunidades estão nas mãos de chefes que transmitem os relatos e os ensinamentos dos Evangelhos. Tomaram o lugar dos primeiros Apóstolos e de seus colaboradores. Estabelece-se uma organização flexível e progressiva. Procede por etapas cujas marcas ainda hoje são perceptíveis. As comunidades judeu-cristãs mantêm durante algum tempo uma direção colegial (anciãos ou presbíteros). As que nascem em terra pagã apoiam-se no binômio bispo-diácono. Ambas as organizações são simultâneas e, depois, unificam-se ao longo do século II. Seu estabelecimento realiza-se pouco a pouco, com atrasos, com vacilações e às vezes com crises. A vida não é uniformizada, mas se desenvolve organicamente, cresce com a vitalidade explosiva dos começos.
A atividade itinerante dos apóstolos e dos profetas dura apenas um determinado tempo; é uma preparação para o estabelecimento de uma organização permanente, de uma autoridade local que a substitui. Alguns desses itinerantes acabam por fixar-se no lugar de sua atividade missionária. Potino, talvez também Ireneu em Lyon, são bons exemplos dessa situação. Outros continuam movendo-se, abrindo novos terrenos e plantando a cruz sob novos céus. Sua atividade prolonga-se durante todo o século II, mas tende a acabar com ele.
A pregação evangélica dá seus frutos a partir do momento em que deixa atrás de si um mínimo de estrutura e de organização. Os convertidos se juntam, se agrupam e se fundem em uma comunidade, a igreja do lugar. Eusébio o diz explicitamente: «os apóstolos distribuem seus bens aos pobres, abandonam seu país, põem os fundamentos da fé em regiões estrangeiras, estabelecem pastores aos quais entregam a solicitude daqueles que trouxeram à fé».
Inácio em Antioquia, Policarpo em Esmirna, Potino em Lyon, Quadrato em Atenas, Dionísio em Corinto, são chefes de suas comunidades; chamam-se epíscopos, bispos, o que significa inspetores ou superintendentes, título que procede da administração civil. O nome de bispo, que durante certo tempo foi sinônimo de presbítero, acaba impondo-se para designar a autoridade monárquica.
Da organização colegial até chegar à responsabilidade episcopal houve um tempo indeciso, com vacilações e resistências. Algumas cidades, como Jerusalém ou Alexandria, possuem já desde as origens cristãs um bispo; outras, como Filipos, parece que ainda não haviam estabelecido nenhum quando Clemente de Roma lhes escreve. Ao menos a carta de Clemente não faz menção, somente fala da cábala que deu lugar a que os presbíteros jovens e velhos estejam em discórdia.
Há muitas cidades que têm como bispo personagens de grande estatura, como Policarpo ou Ireneu, mas há outras que escolhem uma estatura adaptada à sua medida. Nem todos os corsos são Napoleão. A vida da igreja local tem habitualmente começos mais modestos; escolhe o homem mais disponível, o mais generoso, que se impõe por sua qualidade e seu exemplo.
…
O epíscopo, já desde os começos de sua existência, é assistido por um colaborador direto, habitualmente mais jovem que ele, o diácono, cujas qualidades pessoais, familiares e sociais devem torná-lo apto para secundar eficazmente o chefe da comunidade. Juntos dirigem a reunião, celebram a eucaristia; juntos são gestores do bem comum e provêm às necessidades da comunidade.”
Ao longo do século II, a instituição epíscopo e diácono confunde-se com a de presbíteros ou anciãos, de origem verossimilmente judaica. Os «anciãos», no judaísmo, eram os notáveis, que faziam parte do sinédrio ou que dirigiam a comunidade e a sinagoga. Nos tempos dos Doze, existem em Jerusalém, quando Tiago é ali bispo. Assistem com os Apóstolos ao primeiro concílio de Jerusalém. No fim do século I os encontramos em Roma, em Filipos, em Corinto, onde são objeto do conflito que dá motivo à carta de Clemente de Roma.
A fusão dessas duas instituições foi se fazendo progressivamente e segundo os lugares e as circunstâncias, não sem choques aqui e ali. A carta de Paulo a Timóteo, que faz uma descrição do bispo, conhece o colégio presbiteral que, com Paulo, impôs as mãos a Timóteo. A Tito se recomenda que institua presbíteros.
A solução mais elegante para passar da autoridade colegial à instituição monárquica consistia em escolher o bispo entre o corpo presbiteral. Os dois termos, presbítero e bispo, são sinônimos durante algum tempo. Ireneu parece empregá-los indistintamente.
Na época de Inácio de Antioquia, a instauração da autoridade monárquica e a integração do conselho presbiteral são coisa feita na Ásia, desde Jerusalém até Pérgamo. As cartas inacianas às diversas comunidades pelas quais passou assim o atestam. Em outros lugares parece que a mudança foi mais dolorosa. A carta de Clemente à comunidade de Corinto, provocada por presbíteros aos quais não se aceitava, reconhece a existência de chefes ou bispos, escolhidos sem dúvida entre o conselho de anciãos, que presidem a liturgia e se distinguem claramente dos leigos, nomeados aqui pela primeira vez”[28]
Cesar Vaca O.S.A.
Sacerdote e Teólogo agostiniano, escritor de numerosos livros.
“Nas cartas de Inácio — escreve Grandmaison — liga-se pela primeira vez o epíteto glorioso de católica ao nome da Igreja: “Onde aparecer o bispo, ali está também a multidão, assim como, onde estiver Jesus Cristo, ali está a Igreja Católica” (Smyrn. VIII,2). Dessa maneira, o bispo encarna sua igreja particular, absolutamente como a grande Igreja é a encarnação continuada do Filho de Deus. Não acreditaríamos estar lendo um dos campeões da unidade eclesiástica de nosso tempo, um Adán Moehle, um Jaime Ralmes, um Eduardo Pie?” (Jésus Chist II p.634).
Demonstra-nos assim Santo Inácio que em seu tempo, fins do século I, a estrutura e o pensamento sobre a Igreja são completos e maduros. Bispos, presbíteros e diáconos constituem a hierarquia tripartida, sobre a qual se apoia toda a realidade do cristianismo. É preciso permanecer unidos a esta hierarquia para viver dentro do espírito de Cristo. “Por conseguinte7 à maneira que o Senhor nada fez sem contar com seu Pai, feito como estava uma coisa com Ele — nada, digo, nem por si mesmo nem por seus apóstolos —; assim vós nada façais tampouco sem contar com vosso bispo e os anciãos; nem trateis de colorir como louvável nada que façais sozinhos, mas reunidos em comum; haja uma oração, uma só esperança na caridade, na alegria sem mancha, que é Jesus Cristo, melhor que o qual nada existe” (Mag. VII,1). Sem esta hierarquia não existe a Igreja: “De vossa parte, escreve aos tralenses, todos haveis também de respeitar os diáconos como a Jesus Cristo. O mesmo digo do bispo, que é figura do Pai, e dos anciãos (presbíteros), que representam o senado de Deus e a aliança ou colégio dos apóstolos. Tirados estes, não há nome de Igreja” (Trall III,1).”[29]
Ludwig Ott
Sacerdote, doutor em Teologia pela Universidade de Munique, com uma tese sobre teologia medieval. Desde 1941 exerceu como professor de dogmática na Universidade Católica de Eichstaett até ocupar o cargo de reitor. Sua obra Manual de Teología Dogmática, publicada pela Editorial Herder, é considerada uma obra de referência indispensável.
“A perpetuação dos poderes hierárquicos é consequência necessária da indefectibilidade da Igreja (v. § 12), pretendida e garantida por Cristo. A promessa que Cristo fez a seus apóstolos de que lhes assistiria até o fim do mundo (Mt 28, 20) supõe que o ministério dos apóstolos se perpetuará nos sucessores dos apóstolos. Estes, conforme o mandato de Cristo, comunicaram seus poderes a outras pessoas; por exemplo, São Paulo a Timóteo e a Tito. Cf. 2 Tim 4, 2-5; Tit 2, í (poder de ensinar); 1 Tim $, 19-21; Tit 2, 15 (poder de reger); 1 Tim 5, 22; Tit 1, 5 (poder de santificar). Nesses dois discípulos do apóstolo aparece pela primeira vez com toda clareza o episcopado monárquico que desempenha o ministério apostólico. Os «anjos» das sete comunidades da Ásia Menor (Apoc 2-3), segundo a interpretação tradicional (que não careceu de impugnadores), são bispos monárquicos.
O discípulo dos apóstolos SÃO CLEMENTE ROMANO relata-nos o seguinte a propósito da transmissão dos poderes hierárquicos por parte dos apóstolos: «Pregavam pelas províncias e cidades e, depois de haver provado o espírito de suas primícias, constituíam-nos em bispos e diáconos dos que haviam de crer no futuro» (Cor. 42, 4); «Nossos apóstolos sabiam por Jesus Cristo nosso Senhor que surgiriam disputas em torno do cargo episcopal. Por essa razão, conhecendo-o bem de antemão, constituíram os que dissemos anteriormente e lhes deram o encargo de que, à morte deles, outros varões provados lhes sucedessem no ministério» (Cor. 44, 1-2).
SANTO INÁCIO DE ANTIOQUIA dá testemunho, no início do século II, de que à cabeça das comunidades da Ásia Menor e ainda «nos países mais remotos» (Eph 3, 2) havia um só bispo (monárquico) em cujas mãos estava todo o governo religioso e disciplinar da comunidade. «Sem o bispo, ninguém faça nada das coisas que correspondem à Igreja. Somente seja considerada válida aquela eucaristia que se celebre pelo bispo ou por algum delegado seu.
Onde quer que se mostre o bispo, esteja ali o povo, assim como onde quer que esteja Cristo, ali está a Igreja Católica. Não é permitido batizar sem o bispo nem celebrar o ágape; mas tudo o que ele aprova é agradável a Deus, para que tudo o que se realize seja sólido e legítimo… Quem honra o bispo é honrado por Deus; quem faz algo sem o bispo está servindo ao diabo» (Smyrn. 8, 1-2; 9, 1). Em toda comunidade existem, além do bispo e abaixo dele, outros ministros: os presbíteros e diáconos.
Segundo SÃO JUSTINO MÁRTIR, «aquele que preside aos irmãos» (isto é, o bispo) é quem realiza a liturgia (Apol. 165 e 67). SANTO IRENEU considera a sucessão ininterrupta dos bispos a partir dos apóstolos como a garantia mais segura da íntegra tradição da doutrina católica: «Podemos enumerar os bispos instituídos pelos apóstolos e todos os que lhes sucederam até nós» (Adv. haer. m 3, 1). Mas, como seria muito prolixo enumerar a sucessão apostólica de todas as Igrejas, limita-se o 423 Deus santificador santo a assinalar a daquela Igreja «que é a mais notável, antiga e conhecida de todos, e que foi fundada e estabelecida em Roma pelos gloriosos apóstolos Pedro e Paulo». Refere-nos a mais antiga lista dos bispos da igreja romana, que começa com os «bem-aventurados apóstolos» e chega até Eleutério, 12.º sucessor dos apóstolos (ibidem ni 3, 3). De São Policarpo, SANTO IRENEU refere (ib. 111 3, 4) que foi instituído como bispo de Esmirna «pelos apóstolos» — segundo TERTULIANO (De praescr. 32), pelo apóstolo São João —. TERTULIANO, assim como Santo Ireneu, funda a verdade da doutrina católica na sucessão apostólica dos bispos (De praescr. 32)”[30]
Autores: José Miguel Arráiz e Jesús Manuel Urones
NOTAS
http://ec.aciprensa.com/wiki/Obispo
http://www.mercaba.org/SANTORAL/Vida/10/10-17_IGNACIO_de_ANTIOQUIA.htm