Em outubro de 1992, coincidindo com o 350.º aniversário da morte de Galileu Galilei, apresentava suas conclusões a Comissão especial de teólogos, cientistas e historiadores, criada por João Paulo II em 1981, para examinar os possíveis erros cometidos pelo tribunal eclesiástico que condenou (1633) o famoso astrônomo. Esse exame tampouco trouxe nenhuma novidade desconhecida: os teólogos pontifícios do século XVII transpuseram os limites da doutrina da fé para interferir numa questão do âmbito científico. Por sua parte, Galileu apresentava como conclusões irrefutáveis verdades que não havia conseguido demonstrar cientificamente: só seriam provadas um século mais tarde. Em todo caso, convém assinalar que o episódio de Galileu não é, de modo algum, representativo: é o único conflito histórico desse gênero.

A primeira metade do século XVII supõe o início daquilo que Paul Hazard chamou de “a crise da consciência europeia”, título de uma de suas obras mais famosas. Um complexo conjunto de fatores faz mudar a mentalidade dos homens.

No âmbito filosófico vivem Francis Bacon — que considerou a experiência como única fonte de conhecimento — e René Descartes, que define a verdade como a clareza dos conceitos; não tanto sua adequação à realidade. E é no campo científico-astronômico que Galileu desenvolve sua nova cosmologia.

“Sua ideia básica era a existência de uma harmonia no universo e a aplicação da matemática aos fenômenos observados, afastando-se da física aristotélica. Galileu abriu caminho à ciência moderna ao afirmar que os fenômenos materiais obedecem a leis bem definidas e que o objeto dos cientistas é descobri-las mediante observações cuidadosas e experimentos controlados. Ciência e filosofia se separam no século XVII: o objeto daquela não será buscar respostas aos porquês filosóficos, mas encontrar o como dos fenômenos naturais” (Valentín Vázquez de Prada). A ciência busca soluções quantitativas e se separa da busca por unidades de sentido metafísicas ou existenciais.

O PARADOXO DO PROBLEMA

Galileu, aprofundando a cosmovisão de Copérnico, apresentou a teoria heliocêntrica com um marcado tom polêmico diante das ideias de sua época. Sua base científica foi refutada por insuficiente e errônea, como de fato era. Sua intuição genial, mais tarde confirmada, não se apoiava em provas corretas. Contudo, diante de seus juízes teólogos, esgrimiu raciocínios acertados no campo que não lhe era próprio: a interpretação da Sagrada Escritura.

Apelou a critérios de Santo Agostinho referentes à interpretação não necessariamente literal da Bíblia. Alguma passagem da Bíblia — aquela em que Josué deteve o sol em sua carreira — parece corroborar a ideia da terra como centro do cosmos. Mas não teria por que tratar-se de uma ideia científica, e sim metafórica, em ordem ao sentido último do universo ao qual se chega pela fé. Isso tornaria o Antigo Testamento compatível com a teoria heliocêntrica.

Paradoxalmente, o Santo Ofício — em virtude do parecer de uma comissão de teólogos astrônomos — pôs de manifesto os erros científicos de Galileu.

Segundo Walter Brandmüller, estudioso do tema, os membros da comissão inquisitorial tinham ideias semelhantes às do astrônomo italiano, mas não podiam comprová-las. Contudo, erraram em seu próprio terreno: a interpretação das Escrituras. O Tribunal, no aparente dilema, optou pela inviolabilidade do texto bíblico.

SEPARAR DADOS E OPINIÕES

Para Brandmüller, este acontecimento manifesta a historicidade dos saberes humanos. O juízo da Igreja só está preservado de erro quando se pronuncia sobre fé e moral. Mas a Igreja não condenou Galileu dogmaticamente. Só quem se considere isento de falibilidade — conclui Brandmüller — poderia julgar os juízes de Galileu.

Por outro lado, convém superar opiniões passadas que misturam dados com interpretações incoerentes. Por exemplo, Owen Gingerich (cf. O caso Galileu em “Investigación y ciencia”, 1982, II) cita o papa Urbano VIII quando este adverte Galileu de que o movimento das marés poderia não se dever ao movimento da terra, como efetivamente acontece. Contudo, Gingerich fixa-se mais num pretendido a priori: “talvez a verdade não seja o que dizes segundo tua hipótese” (interpretando nessa visão uma salvaguarda da doutrina contra toda conquista científica que possa comprometê-la), em vez de sublinhar a prudente observação do Pontífice contra o que era um erro de Galileu, como reconhece logicamente o próprio Gingerich.

Esse autor também diz que o Papa Paulo V (anterior a Urbano VIII) era da opinião de declarar Copérnico — ponto de partida de Galileu — como contrário à fé, embora não tenha chegado a fazê-lo. A fonte em que se baseia para afirmar isso são, segundo o próprio Gingerich, “os mexericos recolhidos no diário de Giovanfrancesco Buanamici, um secretário de Galileu” (uma fonte pouco séria).

Por outra parte, Gingerich, ao falar da negação de Galileu a respeito de suas próprias ideias por pressão da Inquisição, desvincula-a de sua contextualização histórica. Não se trata de justificar, ou não, uma pressão do Santo Ofício sobre Galileu, mas de afirmar que uma visão atual — que não leve em conta o valor, não só pessoal, mas estatal e social que a religião tinha no século XVII — não pode julgar com acerto uma questão em que a mentalidade histórica é fundamental. Gingerich não nega o valor da Sagrada Escritura, mas não chega a entender o caráter harmônico e complementar da separação entre o método exegético-escriturístico e o científico-astronômico.

Foi a própria Santa Sé quem melhor pôs todos os pontos nos is.

JOÃO PAULO II: “UM MAL-ENTENDIDO QUE PERTENCE AO PASSADO”

Como a maior parte de seus adversários, Galileu não fez distinção entre a análise científica dos fenômenos naturais e a reflexão acerca da natureza, de ordem filosófica, que essa análise geralmente suscita. Por isso mesmo, rejeitou a sugestão que lhe foi feita de apresentar como hipótese o sistema de Copérnico, enquanto não fosse confirmado por provas irrefutáveis. Essa era, aliás, uma exigência do método experimental, do qual ele foi o genial iniciador. (…)

A nova ciência, com seus métodos e a liberdade de pesquisa que supunha, obrigava os teólogos a interrogar-se acerca de seus próprios critérios de interpretação da Escritura. A maioria não soube fazê-lo. Paradoxalmente, Galileu, crente sincero, mostrou-se neste ponto mais perspicaz que seus adversários teólogos. (…)

O horizonte cultural da época de Galileu era unitário e trazia impressa a marca de uma formação filosófica particular. Esse caráter unitário da cultura, que em si é positivo e desejável ainda hoje, foi uma das causas da condenação de Galileu. A maioria dos teólogos não percebia a distinção formal entre a Sagrada Escritura e sua interpretação, e isso levou a transpor indevidamente para o campo da doutrina da fé uma questão que de fato pertencia à investigação científica (…). A partir do Século das Luzes e até nossos dias, o caso Galileu constituiu uma espécie de mito, no qual a imagem dos acontecimentos que se criou estava muito longe da realidade (…). Os esclarecimentos trazidos pelos estudos históricos recentes permitem-nos afirmar que esse doloroso mal-entendido pertence já ao passado. (Discurso à Academia Pontifícia das Ciências, 31-X-1992).

UM CASO ÚNICO

O Papa não realizou uma “reabilitação” de Galileu, pois a Igreja já reconheceu seu erro em 1741, quando se dispôs de instrumentos que permitiram comprovar a verdade do heliocentrismo copernicano. O que a Igreja sublinhou é que os juízes de Galileu se equivocaram no campo da explicação da Sagrada Escritura, a exegese bíblica, ao pensar que a “letra” da Bíblia defendia o sistema ptolomaico, isto é, que o Sol gira ao redor da terra (…)

Segundo a doutrina católica, a infalibilidade da Igreja circunscreve-se às solenes declarações ex cathedra do Papa e dos concílios ecumênicos em comunhão com o Papa. É evidente, portanto, que um tribunal eclesiástico pode equivocar-se.

Gostaria de sublinhar a este propósito que a condenação do Santo Ofício a Galileu nunca foi assinada pelo Papa nem foi uma condenação do magistério da Igreja, mas de um tribunal. Além disso, é importante situar o episódio em seus devidos limites, porque, por ser um caso único, criou-se um “mito Galileu” que pouco tem a ver com a realidade. (…). Prof. JUAN JOSÉ SANGUINETI (Roma)

A COMISSÃO PAPAL

Foi o Papa quem desejou encerrar “um contencioso histórico que, amplificado e mitificado, foi o instrumento para difundir uma imagem obscurantista da Igreja em relação ao progresso científico”. No âmbito da reunião anual da Academia Pontifícia das Ciências, deram-se a conhecer as conclusões elaboradas por uma comissão interdisciplinar, instituída por João Paulo II em 1981, para examinar a fundo as circunstâncias da condenação que o Santo Ofício romano fez, em 1633, das teorias do astrônomo italiano.

“Alguns meios de comunicação apresentaram este ato como a reabilitação de Galileu por parte da Igreja, como se esta reconhecesse agora pela primeira vez o erro de então. A realidade é que a teoria heliocêntrica foi reconhecida oficialmente pelo Santo Ofício já em 1741, quando apareceram os instrumentos mecânicos e ópticos que permitiram demonstrar que a Terra gira em torno do Sol e sobre o seu próprio eixo.

Este esforço de esclarecimento deve ainda superar certos clichês, que esquecem que tanto Copérnico como Galileu eram crentes sinceros e que suas teorias eram ensinadas em Universidades da Igreja”.

CONCLUSÕES DA COMISSÃO

As conclusões do exame podem ser extraídas do discurso que pronunciou diante do Papa o Cardeal Paul Poupard, coordenador dos trabalhos:

“O objetivo desses grupos de trabalho era responder às expectativas do mundo da ciência e da cultura no que diz respeito à questão de Galileu, repensar inteiramente a questão — com plena fidelidade aos fatos historicamente estabelecidos e em conformidade com as doutrinas e a cultura do tempo — e reconhecer lealmente, no espírito do Concílio Ecumênico Vaticano II, os erros e os acertos, viessem de onde viessem (…)

“A investigação foi ampla e exaustiva, e foi levada a cabo em cada um dos campos interessados (…)

“Numa carta de 12 de abril de 1615 dirigida ao carmelita Foscarini, o Cardeal Roberto Belarmino já havia exposto as duas verdadeiras questões suscitadas pelo sistema de Copérnico: a astronomia copernicana é verdadeira, no sentido de que se funda sobre provas reais e verificáveis, ou, ao contrário, baseia-se somente em conjecturas e aparências? As teses copernicanas são compatíveis com os enunciados da Sagrada Escritura? Segundo Roberto Belarmino, enquanto não fossem proporcionadas provas da rotação da terra em torno do sol, era necessário interpretar com muita circunspecção as passagens da Bíblia que declaravam que a terra era imóvel. Mas, se se demonstrasse que a rotação da terra era certa, então os teólogos deviam — segundo ele — rever suas interpretações das passagens da Bíblia aparentemente em contraste com as novas teorias copernicanas, de modo que não se considerassem falsas as opiniões cuja verdade estivesse demonstrada (…)

“De fato, Galileu não conseguiu provar de maneira irrefutável o duplo movimento da terra, sua órbita anual em torno do Sol e sua rotação diária em torno do eixo polar, enquanto estava convencido de ter encontrado a prova nas marés oceânicas, cuja verdadeira origem somente Newton haveria de demonstrar (…)

“Em 1741, diante da prova óptica da rotação da terra em torno do Sol, Bento XIV fez conceder pelo Santo Ofício o Imprimatur à primeira edição das Obras Completas de Galileu (…)

“A releitura dos documentos do arquivo demonstra uma vez mais que todos os atores do processo, sem exceção, têm direito ao benefício da boa-fé, na ausência de documentos extraprocessuais contrários. As qualificações filosóficas e teológicas abusivamente atribuídas às novas teorias de então sobre a centralidade do Sol e a mobilidade da terra foram consequência de uma situação de transição no âmbito dos conhecimentos astronômicos e de uma confusão exegética no que diz respeito à cosmologia. Herdeiros da concepção unitária do mundo que se impôs universalmente até a aurora do século XVII, alguns teólogos contemporâneos de Galileu não souberam interpretar o significado profundo, não literal, das Escrituras, quando estas descrevem a estrutura física do universo criado, fato que os conduziu a transpor indevidamente para o campo da fé uma questão de observação factual”.

GALILEU CONTINUOU TRABALHANDO

Com frequência falo de Galileu em minhas aulas e conferências. Muitos ouvintes pensam que Galileu foi queimado pela Inquisição. Por isso costumo recordar que Galileu morreu de morte natural aos 78 anos (…). Em 1633 teve lugar, em Roma, o famoso processo contra Galileu. Não foi condenado à morte, nem ninguém o pretendeu. Ninguém o torturou, nem lhe bateu, nem lhe pôs um dedo em cima; não houve nenhuma espécie de maus-tratos físicos. Foi condenado à prisão que, tendo em conta suas boas disposições, foi imediatamente comutada para prisão domiciliar. Desde o processo até morrer, viveu em sua casa. Continuou trabalhando com intensidade e publicou sua obra mais importante nessa época. Três dos dez altos dignitários do tribunal se negaram a assinar a sentença. Sem dúvida, o processo não deveria ter ocorrido, e foi lamentável. Mas os trabalhos de Galileu seguiram adiante. (Pamplona)

Autor: Mariano Artigas

Fonte: Arvo.net