PERGUNTA
Sr. Martín. Gostaria que explicasse algo sobre a Inquisição, pois há muitos que nos dizem como podemos falar da Igreja se ela fez tanto mal por esse meio.
É verdade tudo o que se ouve dizer? ou podemos responder alguma coisa?
RESPOSTA
Claro que sim. Há algumas coisas importantes e pouco conhecidas sobre a Inquisição que devemos saber para sermos mais objetivos e não acreditarmos nos exageros.
Em primeiro lugar, é preciso esclarecer que não é nossa intenção falar sobre este tema para afirmar que a Inquisição foi algo muito bom e belo na história da Igreja. Nem queremos ressuscitá-la ou que volte a ser estabelecida.
O objetivo deste artigo, antes, é precisar e eliminar uma série de exageros que muito comumente ouvimos da parte de não católicos ou de pseudo-historiadores que nunca se preocuparam nem minimamente em investigar seriamente o que foi que aconteceu.
A maior parte da informação que usaremos o senhor pode consultar indo a qualquer biblioteca e dedicando alguns minutos a lê-la em qualquer enciclopédia que encontrar, inclusive em enciclopédias feitas por irmãos não católicos e protestantes. Não sou eu que o digo; qualquer pessoa pode comprová-lo por si mesma.
1.- Uma lenda negra anticatólica e anti-espanhola.
Ao falar da Inquisição, é comum que muitos historiadores sérios a chamem pelo nome de “lenda negra”, porque se distorceu e exagerou muito sobre o que foi realmente a Inquisição católica e, sobretudo, a que ocorreu na Espanha. Neste artigo você se surpreenderá ao conhecer como há um mito criado em torno dela e, em honra da verdade, é necessário mencionar algumas coisas sobre isso.
2.- Galileu não morreu numa fogueira, nem foi julgado por motivos científicos.
Eu sei que mais de alguém já estará pensando que sempre ouviu o contrário, mas tenha calma por alguns momentos e leia com atenção. É comum ouvir, inclusive de alguns mestres ou professores, dizer que a Inquisição queimou Galileu porque afirmou que a terra se movia e que o sol era o centro do universo, mas isto é Falso. Basta ir a qualquer enciclopédia e perceberá que Galileu não morreu queimado nem nada parecido.
Seu castigo foi ler os 7 salmos penitenciais por dois anos. Tempos depois, morreu tranquilamente na casa de um amigo seu que era bispo e, de fato, continuou com sua cátedra e com seus escritos. Ele tampouco foi julgado por sua teoria científica; uma prova disso é que ele não foi o primeiro a dizer essa teoria, mas sim Copérnico.
Ainda hoje chamamos sistema copernicano em honra ao seu nome, e a Copérnico, que aliás era cônego, nunca se fez nada. O que aconteceu é que Galileu quis basear sua posição em passagens da Bíblia, atitude que Copérnico não seguiu. Isto foi o que se rejeitou, pois era uma interpretação pessoal não conforme com seu tempo nem com a Igreja. Por isso, e não por motivos científicos, a Inquisição lhe impôs como penitência rezar os salmos penitenciais. O senhor não acha que isto é muito diferente da fogueira, como a inventaram algum tempo depois?
3.- Os protestantes, muçulmanos e outras religiões também tiveram suas “inquisições”.
Certamente você não tinha ouvido isto, não é verdade? Pergunto-me por que isto não se ouve dizer, se nos livros de história se fala disso. Claro que todo mundo tinha sua espécie de inquisição.
Por exemplo, William Cobbet, que foi um escritor protestante, em seu livro “História da reforma protestante” afirma que Isabel da Inglaterra (protestante) fez e causou mais mortes de católicos em um ano do que a Inquisição espanhola em toda a sua história.
A razão pela qual todos, até o próprio Calvino (reformador protestante), faziam isto é que eles acreditavam num princípio social que existia naquele tempo: “cuyus regio ipsius religio” = de quem é a região é a religião. Assim, se o príncipe, o rei ou o governante era católico, o povo em sua maioria seria dessa fé; se era luterano, da mesma maneira; se era calvinista ou muçulmano, o povo seria dessa fé. Estar contra a religião era estar contra o rei.
Basta ler como Calvino assumiu igualmente de modo radical esta postura contra os católicos. Não existia, como hoje em dia, na sociedade a chamada “liberdade religiosa” no mesmo nível. Todos caminharam pelo mesmo erro, se o senhor quiser ver desta maneira, mas não somente a Igreja Católica mas todos assim pensavam.
Além disso, julgar a Inquisição com critérios atuais é um verdadeiro anacronismo. Isto é, «fora de tempo». É como se hoje se acusasse os astecas de danificar o ecossistema e violar as leis ecológicas.
4.- O castigo era dado pelo poder civil, não pela Igreja.
Outro conto ou invenção muito difundido e que ainda aparece em filmes e romances é apresentar o sacerdote impondo o castigo. Isso é mais falso do que uma moeda de três dólares. O castigo era imposto pelo chamado “braço secular” ou poder civil. O que a Igreja fazia eram os ‘autos de fé’, onde se declarava se a pessoa em questão era culpada ou não. O poder civil era quem depois aplicava o castigo.
A propósito disto, eu estava participando de um programa de rádio quando uma irmã católica ligou e disse que aquilo que eu havia mencionado não era certo, que era a Igreja que dava o castigo.
Quando lhe perguntei como ela sabia disso, respondeu tranquilamente que acabara de ver no dia anterior pela televisão ao assistir à telenovela… por isso estamos como estamos. Pobre católico cuja fonte de formação são as novelas. Se é por isso que se chamam no-velas, ou seja, não as veja. Enfim, expliquemos um pouco mais.
5.- A fogueira não era o castigo comum, mas o extraordinário.
Quanta novela e quantos protestantes há falando da fogueira como se a cada dia se queimasse uma pessoa na Inquisição. Creio que, se queremos formar-nos bem e seriamente, é preciso ver menos novelas e ler mais livros de história. Os castigos impostos pela Inquisição eram muitas vezes coisas simples: rezar algumas orações, fazer alguma penitência, carregar algum símbolo de seu arrependimento, etc.
Inclusive, muitas vezes bastava o arrependimento para que não se lhe aplicasse castigo algum. Por isso é que a Galileu simplesmente se impôs rezar os 7 salmos penitenciais. Não foi para a fogueira, como por ignorância muitos afirmam.
Mais ainda, o que muitas vezes se queimava não era a pessoa, mas a ‘efígie’, isto é, um boneco que representava a pessoa. Ainda nos arquivos da nação do México, para dar um exemplo, consta quantas vezes em um ano se fazia isto: quantas em efígie e quantas na pessoa.
Neste país, em cerca de trezentos anos foram 57; os demais em efígie. Claro que esteve mal, mas daí ao exagero de que foram milhares há muita diferença. Ah, e também é preciso mencionar que nunca se julgou ou condenou nenhum indígena, pois estes eram protegidos pelas leis dos reis católicos.
6.- A Inquisição não era somente para protestantes, muçulmanos, judeus e bruxas. Também era para os católicos.
De onde alguns protestantes terão tirado a barbaridade de que era só para eles, porque da história não se pode tirar.
Basta dizer que dois daqueles que hoje consideramos grandes santos e místicos católicos na espiritualidade também foram chamados à Inquisição e nada lhes aconteceu. Nada. Refiro-me a Santa Teresa de Ávila e a São João da Cruz.
No caso dos judeus e muçulmanos, nem sequer eram chamados ou investigados por serem dessa religião. Era antes aos judeus que se faziam passar por convertidos-católicos chamados ‘judaizantes’, e aos muçulmanos que falsamente se haviam convertido ao catolicismo chamados ‘mouriscos’, que se fazia uma investigação.
A ninguém se obrigava a ser católico. Foi o contrário, pois em países onde os protestantes eram maioria houve, sim, uma tremenda perseguição ao catolicismo. Recomendo-lhe ver em qualquer enciclopédia como Calvino aplicava as leis, inclusive com seus próprios correligionários.
De fato, os primeiros fundadores dos Estados Unidos, chamados comumente “puritanos”, eram protestantes fugindo das perseguições de intolerância de outros protestantes.
Isto é calado e ignorado por todos os protestantes; por isso é importante mencioná-lo para recordar um pouco a memória histórica àqueles que desejam manipulá-la.
7.- A tolerância religiosa por parte dos católicos nos Estados Unidos.
Para terminar, mencionemos que Maryland, a única das treze colônias de maioria católica, no mesmo tempo da Inquisição, no ano de 1649, foi uma das primeiras a proclamar a lei pela “tolerância religiosa”.
Espero ter respondido às suas inquietações e ânimo.
Autor: Martín Zavala, M.P.D.