1. Fundamento teológico da maternidade espiritual de Maria
Para que o leitor tenha, desde o início, uma visão sintética de conjunto e compreenda melhor a doutrina que depois exporemos, oferecemos o seguinte resumo de um dos mais excelentes mariólogos contemporâneos
“A solução da questão sobre o fundamento teológico da maternidade espiritual de Maria depende da solução do problema acerca do nexo que existe entre a maternidade divina e a maternidade espiritual. Aqueles (pouquíssimos) para quem a maternidade divina de Maria Santíssima não é senão a maternidade do Homem-Deus não veem evidentemente nexo algum entre maternidade divina e maternidade espiritual. Aqueles, ao contrário, para quem a maternidade divina de Maria é a maternidade do Homem-Deus Redentor enquanto tal (isto é, enquanto Redentor, Cabeça da humanidade, que Ele veio regenerar para a vida sobrenatural), veem um nexo estreitíssimo entre a maternidade divina e a maternidade espiritual de Maria Santíssima. Para estes, pois, o verdadeiro fundamento da maternidade espiritual encontra-se em nossa incorporação a Cristo. Com efeito, em virtude da encarnação redentora, o Verbo encarnado no seio virginal de Maria fica constituído Cabeça mística de toda a humanidade (síntese de toda a criação), e a humanidade fica constituída seu Corpo místico. Cristo, com efeito, pode ser considerado sob um duplo aspecto: como Homem-Deus e como Redentor. Como Homem-Deus tem um corpo físico, como todos os demais homens; como Redentor do gênero humano, ao contrário, tem um Corpo místico, que é a sociedade de todos os que creem n’Ele (Rm 12,5). A Virgem Santíssima, pois, ao gerar física e naturalmente a Cristo, gerava espiritual e sobrenaturalmente todos os cristãos, membros místicos de Cristo, isto é, todo o gênero humano. Segue-se que tanto a Cabeça como os seus membros místicos são frutos do mesmo seio, o de Maria; e que Maria fica assim constituída Mãe do Cristo total, isto é, da Cabeça e dos seus membros, embora de modo diverso: fisicamente da Cabeça, espiritualmente dos membros.
Tudo isto é consequência de uma maternidade divina soteriológica, ou seja, da maternidade do Homem-Deus Redentor enquanto tal; de uma maternidade ordenada por si mesma, em virtude do plano divino, à redenção, à regeneração sobrenatural da humanidade caída. Isto se deduz, como veremos, da Escritura, da Tradição e, de modo claríssimo, do ensinamento do magistério eclesiástico. Em resumo: a maternidade espiritual de Maria Santíssima em relação a todos os cristãos é uma prolongação de sua maternidade divina e física em relação a Cristo…: somos filhos no Filho (filii in Filio), em quem estamos como incluídos, a quem estamos incorporados.(1)
Ao contrário, os que não admitem (e são bem poucos, um número quase desprezível) essa maternidade divina soteriológica (isto é, com finalidade redentora), encontram o fundamento da maternidade espiritual de Maria Santíssima nas palavras de Cristo na cruz: “Eis aí tua mãe… Eis aí teu filho!” (Jo 19,26-27)… Mas as citadas palavras de São João, como veremos, não têm um valor causativo, mas somente declarativo ou proclamativo da maternidade espiritual de Maria».
Na realidade, no belo parágrafo que acabamos de transcrever está dito quase tudo o que se pode dizer acerca do fundamento da maternidade espiritual de Maria sobre todo o gênero humano redimido por Jesus Cristo: a maternidade espiritual de Maria é o complemento de sua maternidade divina, pois Ela é a Mãe do Cristo total: Mãe física de Cristo-Cabeça e Mãe espiritual de todos os membros de seu Corpo místico.
Mas, tratando-se de um tema tão belo e admirável para quem se aproxima dos mistérios do Filho de Deus, Nosso Redentor, sem preconceitos — e, ao contrário, obscuro ou inventado para quem está cheio deles — queremos aproveitar esta ocasião para expor mais algum detalhe, para consolo e alegria de todos os filhos amantes de Maria, nossa doce Mãe.
2. Verdadeiro sentido da maternidade espiritual de Maria
É preciso, antes de tudo, determinar o verdadeiro sentido da maternidade espiritual de Maria sobre nós, pois, a esse respeito, correm pelo mundo (particularmente da parte de alguns pretensos exegetas bíblicos) conceitos falsos ou incompletos.(2)
a) Sentido falso: MATERNIDADE METAFÓRICA. Aos olhos de alguns, Maria é chamada nossa Mãe porque nos ajuda e nos ama “como se fosse nossa Mãe”. Aplicando-lhe, pois, este nome suave, exprimimos somente uma maternidade metafórica, por mais inefavelmente doce que se queira, mas uma simples maternidade figurada e não uma maternidade verdadeira.
Outros veem no título de “Mãe” a expressão dos cuidados que Maria toma para nos alimentar e elevar; obtém-nos inumeráveis favores espirituais para fortalecer nossa vida sobrenatural, para desenvolvê-la, para preservá-la de todo mal. Rodeia-nos de tantos favores naturais na saúde e na doença, em todas as circunstâncias de nossa vida, que jamais mãe verdadeira fez a centésima parte pelo mais querido de seus filhos. Contudo, trata-se dos cuidados que uma ama de leite procura, e em nenhum caso se pode afirmar que ela seja mãe no sentido próprio do termo.
b) Sentido incompleto: MATERNIDADE ADOTIVA. Para outros, Maria é nossa Mãe por adoção. Quando estava para perder seu Filho único, Jesus lhe deu em seu lugar o discípulo predileto, e, na pessoa de João, todos os seus discípulos presentes e futuros, quando lhe disse: «Mulher, eis aí teu filho». E a João: «Eis aí tua mãe» (Jo 19,26-27). Naquele momento, sustentam alguns, Maria teria adotado como filhos seus aqueles que o amor de seu Filho lhe confiava e, desde aquele momento, os teria tratado como se ela os tivesse dado ao mundo.
É verdade — como veremos — que as palavras de Cristo na cruz se referem à maternidade espiritual de Maria. Mas querer buscar nessas palavras o fundamento de sua maternidade seria fazer dela uma ideia superficial. Seria então algo puramente acidental, apoiado em palavras que Nosso Senhor poderia não ter pronunciado; sempre algo extrínseco a Maria e a nós. Uma adoção é uma ação legal que dá ao adotado os direitos de filho, mas não pode fazer dele um filho verdadeiro; confere-lhe bens exteriores, mas não pode fazer que tenha recebido sua natureza do pai ou da mãe que o adota.
Ora, de fato, a maternidade espiritual de Maria é uma realidade muito mais íntima que uma simples adoção humana; é uma realidade ligada a toda a missão, a toda a razão de ser da Santíssima Virgem.
c) Sentido verdadeiro: MARIA NOS TRANSMITE A VIDA SOBRENATURAL. Que é, pois, esta maternidade espiritual? Por esta maternidade entendemos que Maria nos deu a vida sobrenatural tão verdadeiramente como nossas mães nos deram a vida natural; e que, como nossas mães fazem em nossa vida natural, Ela nutre, protege, aumenta e estende nossa vida sobrenatural a fim de conduzi-la à sua perfeição.
Todos compreendem a realidade da vida natural. Vemo-la, tocamo-la, sentimo-la, percebemo-la em todas as nossas atividades exteriores e interiores; confunde-se, por assim dizer, com o nosso eu, pois não temos consciência do nosso eu senão sentindo-nos viver. É a grande realidade tão querida que, para conservá-la, fazemos, se necessário, o sacrifício de todos os demais bens terrenos: fortuna, prazeres, ambições…
Pois bem: ao lado desta vida natural, a fé nos ensina que há para o cristão outra vida, chamada sobrenatural ou espiritual, ou também estado de graça. Mas, como esta vida não pode ser vista, nem tocada, nem constatada diretamente, a muitos cristãos parece algo vago, etéreo, inconsistente; algo antes negativo (a ausência de pecado grave) ou, se algo positivo, uma relação exterior de amizade entre Deus e a alma. E, contudo, esta vida sobrenatural é uma realidade muito superior a qualquer outra realidade criada, muito superior em particular a esta vida natural que nos é tão querida; é por isso que tantos mártires sacrificaram alegremente esta por aquela. Por isso todos nós devemos — ou deveríamos — estar dispostos a perder nossa vida natural antes que o estado de graça, visto que o Filho de Deus se encarnou e deu sua vida para nos merecer esta vida da graça.
Que é, pois, esta vida sobrenatural tão impalpável e, contudo, tão preciosa? Não é outra coisa senão a própria vida de Deus, a vida de Cristo em nós. Por ela, diz-nos São Pedro, chegamos a ser «participantes da própria natureza divina» (2 Pd 1,4). E São Paulo exclama: «Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim» (Gl 2,20). E em outro lugar: «Minha vida é Cristo» (Flp 1,21). Por outro lado, ensina-nos que formamos um corpo com Jesus Cristo, que é nossa Cabeça (1 Cor 12 e em outros lugares). Ora, num corpo, a mesma vida anima a cabeça e os membros. Mas, já antes de Pedro e antes de Paulo, Jesus Cristo havia ensinado a seus discípulos: «Eu sou a vida, vós os ramos. Quem permanece em mim e eu nele, esse dará muito fruto» (Jo 15,5). A mesma seiva circula no tronco e nos ramos; a mesma vida circula em Cristo e em seus discípulos.
Esta participação da vida infinita, eterna, de Deus, Maria nos comunica. Como a comunica? Pode-se responder com pouquíssimas palavras: «Nossa vida é Cristo. Maria nos deu Cristo. Logo, Ela nos deu a vida»; ou, expresso de outro modo: “Maria é nossa Mãe” na ordem sobrenatural.
Autor: Lic. Sergio Pérez
Fonte: Apologetica.org
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Notas
(1) Cf. ROSCHINI, A Mãe de Deus segundo a fé e a teologia (Madrid, 1955), vol. 1, pp. 384-386.