Um ponto em comum.
Eu quis começar com este assunto, porque todas as denominações protestantes que se separaram e se mantêm afastadas da Igreja Católica justificam sua existência assim. Este é, portanto, para mim, “o cerne da questão”, “o quid da questão” ou, como dizia o célebre G. K. Chesterton, “a coisa”[1]. E é que, embora haja diferenças notáveis entre essas denominações, todas, sem exceção, adotaram a hipótese de que a Igreja foi se corrompendo paulatinamente, quando tradições humanas e ensinamentos falsos foram se infiltrando na Igreja cristã, a ponto de deslocar as verdades de fé contidas na Escritura.
É nesta situação que Deus “decide” renovar a Igreja, refundando-a em uma nova “Igreja”, “grupo” ou “organização” que é, sim, capaz de se manter fiel à verdade, e cada um está convencido de pertencer a esse grupo. Alguns dos nomes que eles dão a si mesmos são muito sugestivos: “A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias”[2], “A verdadeira Igreja de Jesus Cristo”[3]; outros não tanto: luteranos, metodistas, presbiterianos, pentecostais, adventistas, testemunhas de Jeová, etc.; mas o fato é que todos, sem exceção, acreditam ser uma reforma e renovação do cristianismo autêntico, e a nova e verdadeira Igreja de Jesus Cristo.
Eles não acreditam ser cismáticos ou apóstatas porque seu fundador saiu da Igreja Católica ou de algum outro grupo saído dela, mas “reformadores”. Se saíram da Igreja é porque acreditam que ela se “corrompeu”, e se saíram de outra denominação cristã é porque acreditam que essa também se “corrompeu”[4]. Neste contexto, em que se faz necessário, uma e outra vez, “refundar” a Igreja, produz-se um círculo vicioso no qual o cisma aparece de maneira contínua e degenera nas múltiplas divisões que observamos nas denominações protestantes da atualidade.
Mas, se a Igreja Católica não se corrompeu, sendo a única realmente fundada por Jesus Cristo, com uma legítima sucessão que remonta diretamente aos Apóstolos, não há uma desculpa válida para se afastar dela. Um luterano, por exemplo, não poderia afirmar que sua Igreja foi fundada por Jesus Cristo, porque o próprio nome de sua denominação lhe recorda que foi fundada por um homem, Martinho Lutero, em pleno século XVI. O mesmo se aplica a qualquer outra, embora não se identifique com o nome de seu fundador. Se estudarmos a história dos presbiterianos, reformados e calvinistas, encontramos sua origem em João Calvino (século XVI); se investigarmos os metodistas, encontramos como fundador John Wesley (século XVIII); os adventistas foram fundados por William Miller e Ellen White (século XIX); por trás dos mórmons está José Smith (século XIX); as testemunhas de Jeová foram fundadas por Charles Russell (século XIX); etc.[5]
Esta é a razão pela qual esses grupos acusam, em maior ou menor medida, a Igreja Católica de corrupção (alguns mais, outros menos), para justificar sua existência diante do mundo e sua própria consciência, apresentando uma desculpa para sua própria separação. Não se duvida em nenhum momento de que a grande maioria possa estar honestamente convencida disso, mas se discute a validade ou veracidade desse modo de pensar. É também a razão pela qual escrevi este livro, para analisar cada uma das objeções mais importantes ou mais comuns que cada um desses grupos faz, e os leitores possam refletir, à luz dessa evidência, se essas reclamações são fundamentadas ou não.
O início da “apostasia”
Também chama a atenção que, embora todas essas denominações estejam de acordo em que ocorreu uma apostasia, não concordem exatamente em que momento ela começou. A grande maioria é partidária de localizá-la quando o imperador romano Constantino, o Grande, concedeu liberdade de culto aos cristãos no Édito de Milão[6] (ano 313 d.C.). Outros, mais ousados, apontam uma data muito mais precoce, chegando até mesmo a localizar seu início com a morte do último Apóstolo.
Também há diferenças no que eles consideram “apostasia”. Para os adventistas, por exemplo, a apostasia começa quando a Igreja deixa de guardar o sábado como dia do Senhor e o substitui pelo domingo. Para as testemunhas de Jeová, ela começa ao abraçar doutrinas como a divindade de Cristo e a Trindade. Para os protestantes mais tradicionais, o argumento costuma ser que a Igreja esqueceu que a salvação é “somente pela fé” e adotou a heresia pelagiana[7]. E assim, para cada denominação há “algo” que a distingue substancialmente das outras e é a razão pela qual eles — e não os outros — são a Igreja “verdadeira”. Encontram também uma desculpa nas típicas menções à inquisição, às cruzadas e à vida corrupta de alguns membros do clero católico.
Mas, embora esta hipótese possa ser facilmente digerida por pessoas impregnadas de preconceitos e sentimentos anticatólicos, o importante aqui é estudar se essa hipótese se adequa à realidade.
1. Uma hipótese em conflito com a Escritura
As portas do inferno não prevalecem contra a Igreja, que é coluna e sustentáculo da verdade
Muito do que sabemos sobre Jesus, o sabemos através do testemunho da Escritura, e é precisamente por ela que vemos Jesus profetizando uma e outra vez acontecimentos que iriam ocorrer. No entanto, não se pode encontrar nenhum texto na Escritura que, analisado seriamente, permita inferir que Jesus ou os Apóstolos pensaram que a Igreja se corromperia ao ponto de deslizar para uma grande apostasia que duraria milênios. Ocorre antes o contrário: toda a evidência bíblica aponta em sentido oposto, como veremos a seguir.
“E eu te declaro: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela.” (Mateus 16,18)
Na passagem anterior, Jesus promete que as forças do inferno não prevaleceriam contra sua Igreja. Um protestante pode concordar com isso, pensando que finalmente as portas do Hades não prevaleceram porque o fundador de sua “Igreja” a reformou e renovou, mas não faz muito sentido interpretar essas palavras dessa maneira, pois significaria que o mal prevaleceu na Igreja por mais de 16 séculos (no caso das seitas mais recentes, como testemunhas de Jeová, adventistas e mórmons, por mais de 18 ou 19 séculos), deixando bilhões de almas abandonadas. Como poderia acontecer isso com a Igreja que a própria Bíblia chama de “coluna e sustentáculo da verdade”?
“Todavia, se eu tardar, quero que saibas como deves portar-te na casa de Deus, que é a Igreja de Deus vivo, coluna e sustentáculo da verdade.” (1 Timóteo 3,15)
Não é convincente pensar que Cristo, que prometeu estar com sua Igreja “todos os dias, até o fim do mundo” (Mateus 28,20), permitiu que a apostasia prevalecesse durante todos esses séculos em prejuízo de todas as pessoas que viveram durante essa época. Isso implica acreditar que Jesus e seus Apóstolos eram uma espécie de incompetentes que fundaram uma Igreja que se apressou em corromper-se no momento de sua partida. Na Escritura, no entanto, encontramos algo diferente. É Jesus mesmo quem ora para que a fé — a confiança — de Pedro, a quem entrega as chaves do Reino dos céus, não desfaleça:
“Simão, Simão, eis que Satanás vos reclamou para vos peneirar como o trigo; mas eu roguei por ti, para que a tua confiança não desfaleça; e tu, por tua vez, confirma os teus irmãos.” (Lucas 22,31-32)
É a Igreja a quem Jesus promete que enviará o Espírito Santo para guiá-la à verdade completa:
“Quando vier o Paráclito, o Espírito da Verdade, ele vos ensinará toda a verdade, porque não falará por si mesmo, mas dirá o que ouvir, e vos anunciará as coisas que virão.” (João 16,13)
Pobre guia seria aquele que durasse apenas até a morte do último Apóstolo, e não é sensato acreditar que o Espírito Santo não pôde cumprir sua missão por mais de 1.600 anos, até a vinda de um Martinho Lutero ou um João Calvino, para não mencionar líderes de seitas mais recentes como Charles Russell, Ellen White ou José Smith.
Se assim fosse, em vão Jesus mandou a Igreja batizar todas as nações e ensinar-lhes a guardar tudo o que Ele lhes ensinou, pois teria sabido que acabariam pregando-lhes uma falsa doutrina.
“Ide, pois, e ensinai a todas as nações; batizai-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ensinai-as a observar tudo o que vos prescrevi. Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo.” (Mateus 28,19-20)
É a Igreja Católica, e não outra, que levou o Evangelho ao mundo todo. Nenhuma denominação protestante pode atribuir-se o mesmo feito, já que não pode demonstrar a sua existência nos primeiros 16 séculos da história cristã.
Na Bíblia fica atestado o firme propósito dos Apóstolos de que o ensinamento da Igreja se mantivesse incorrupto de geração em geração, para o que ordenaram doutrinar homens fiéis para que fossem capazes de instruir outros:
“Tu, portanto, meu filho, procura progredir na graça de Jesus Cristo. O que de mim ouviste em presença de muitas testemunhas, confia-o a homens fiéis que, por sua vez, sejam capazes de instruir a outros.” (2 Timóteo 2,1-2)
Maus cristãos dentro da Igreja — O trigo e o joio
Muitos protestantes que defendem a hipótese da grande apostasia costumam citar a parábola do trigo e do joio em seu favor, pois lá é anunciado que haveria cristãos falsos dentro da Igreja:
“Jesus propôs-lhes outra parábola: O Reino dos Céus é semelhante a um homem que tinha semeado boa semente em seu campo. Na hora, porém, em que os homens repousavam, veio o seu inimigo, semeou joio no meio do trigo e partiu. O trigo cresceu e deu fruto, mas apareceu também o joio. Os servidores do pai de família vieram e disseram-lhe: ‘Senhor, não semeaste bom trigo em teu campo? Donde vem, pois, o joio?’. Disse-lhes ele: ‘Foi um inimigo que fez isto!’. Replicaram-lhe: ‘Queres que vamos e o arranquemos?’. ‘Não’ — disse ele —; arrancando o joio, arriscais tirar também o trigo. Deixai-os crescer juntos até a colheita. No tempo da colheita, direi aos ceifadores: arrancai primeiro o joio e atai-o em feixes para o queimar. Recolhei depois o trigo no meu celeiro.” (Mateus 13,24-30)
A existência de cristãos falsos dentro da Igreja não implica que ela apostataria e sua doutrina se corromperia. Esse é precisamente um dos textos que permite mostrar aos protestantes seu erro, especialmente se lermos a explicação da parábola pelo próprio Jesus:
“Então despediu a multidão. Em seguida, entrou de novo na casa e seus discípulos agruparam-se ao redor dele para perguntar-lhe: ‘Explica-nos a parábola do joio no campo’. Jesus respondeu: ‘O que semeia a boa semente é o Filho do Homem. O campo é o mundo. A boa semente são os filhos do Reino. O joio são os filhos do Maligno. O inimigo, que o semeia, é o demônio. A colheita é o fim do mundo. Os ceifadores são os anjos. E assim como se recolhe o joio para jogá-lo no fogo, assim será no fim do mundo. O Filho do Homem enviará seus anjos, que retirarão de seu Reino todos os escândalos e todos os que fazem o mal e os lançarão na fornalha ardente, onde haverá choro e ranger de dentes. Então, no Reino de seu Pai, os justos resplandecerão como o sol. Aquele que tem ouvidos, ouça’.” (Mateus 13,36-43)
Observe-se, em primeiro lugar, que Jesus estabelece como um fato que o trigo e o joio sempre estarão misturados na Igreja. Sempre haverá cristãos melhores e piores.
Em segundo lugar, isso não é uma desculpa para sair da Igreja e pretender fundar uma nova, pois, quando um dos servos pergunta se deve recolher o joio, o Senhor responde que os deixem crescer juntos, para que, ao arrancar o joio, não arranquem também o trigo. Alguém que hoje pode ser “joio” amanhã pode se converter e tornar-se “trigo”. Será no julgamento que Jesus separará uns dos outros. As próprias comunidades protestantes que se dividem pensando fundar uma Igreja sem pecadores acabam descobrindo que dentro delas também há pecadores, porque todos o somos.
O que distingue os cristãos falsos
Mas, se estudarmos ainda mais a fundo a Escritura, encontraremos que ela identifica esses falsos cristãos com aqueles que, com uma atitude cismática[8], abandonaram a Igreja para fundar a própria:
“Filhinhos, esta é a última hora. Vós ouvistes dizer que o Anticristo vem. Eis que já há muitos anticristos, por isso conhecemos que é a última hora. Eles saíram dentre nós, mas não eram dos nossos. Se tivessem sido dos nossos, ficariam certamente conosco. Mas isso se dá para que se conheça que nem todos são dos nossos.” (1 João 2,18-19)
O Apóstolo chega ao ponto de chamar de “anticristos” aqueles que abandonaram a Igreja. Não deixa de ser curioso que seitas como as testemunhas de Jeová, os adventistas e os mórmons apliquem esses textos àqueles que abandonam suas fileiras, esquecendo justamente que suas respectivas denominações foram fundadas por homens que, por sua vez, abandonaram suas antigas denominações; cumprindo-se assim o ditado popular “o sujo falando do mal lavado”. Eles foram cismáticos ao abandonar a Igreja fundada por Cristo, e depois têm o desplante de acusar de cismáticos aqueles que os abandonam.
Há algum tempo, um pastor protestante me disse que as divisões da Igreja eram benéficas porque permitiam a pluralidade e a liberdade de opiniões, mas nas Escrituras, pelo contrário, aqueles que dividem a Igreja são identificados com aqueles que carecem do Espírito Santo:
“Mas vós, caríssimos, lembrai-vos das palavras que vos foram preditas pelos apóstolos de nosso Senhor Jesus Cristo, os quais vos diziam: ‘No fim dos tempos virão impostores, que viverão segundo as suas ímpias paixões’; homens que semeiam a discórdia, homens sensuais que não têm o Espírito.” (Judas 1,17-19)
As divisões são chamadas pelo apóstolo de “obra da carne” no mesmo nível que orgias, idolatria, fornicação, etc.
“Ora, as obras da carne são estas: fornicação, impureza, libertinagem, idolatria, superstição, inimizades, brigas, ciúmes, ódio, ambição, discórdias, partidos, invejas, bebedeiras, orgias e outras coisas semelhantes. Dessas coisas vos previno, como já vos preveni: os que as praticarem não herdarão o Reino de Deus!” (Gálatas 5,19-21)
A ordem dada aos cristãos era, pelo contrário, manter a unidade doutrinária: um só Senhor, um só batismo e uma só fé:
“Rogo-vos, irmãos, que desconfieis daqueles que causam divisões e escândalos, apartando-se da doutrina que recebestes. Evitai-os!” (Romanos 16,17)
“Rogo-vos, irmãos, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que todos estejais em pleno acordo e que não haja entre vós divisões. Vivei em boa harmonia, no mesmo espírito e no mesmo sentimento.” (1 Coríntios 1,10)
Se a árvore se reconhece por seu fruto, não pode ser o sistema protestante, dividido até o extremo, o legítimo representante da Igreja de Cristo. Neles, infelizmente, cumpre-se o que já havia sido profetizado:
“Porque virá tempo em que os homens já não suportarão a sã doutrina da salvação. Levados pelas próprias paixões e pelo prurido de escutar novidades, ajustarão mestres para si. Apartarão os ouvidos da verdade e se atirarão às fábulas.” (2 Timóteo 4,3-4)
Mais adiante aprofundaremos com mais detalhe as diferenças doutrinárias que existem entre as distintas denominações protestantes, mas é um fato que a verdade é uma só. Se entre elas não se ensina a mesma doutrina, deduz-se que nem todas podem ter razão, de modo que a grande maioria estará ensinando erros misturados com meias verdades, e acusando as outras de estar no erro. Não se pode deixar de apreciar a coincidência assombrosa desta profecia com o sistema protestante (embora não exclusivamente com ele), no qual diferentes mestres agrupam pessoas atrás de si, ensinando-lhes doutrinas conforme seu próprio entendimento da Bíblia.
2. Uma hipótese em conflito com a história
A hipótese da grande apostasia também não encontra sustento na história. Quem se anima a estudar os escritos dos primeiros cristãos encontra que professavam essencialmente a mesma fé que professamos os católicos hoje. Quem sustenta que a corrupção veio por causa do imperador Constantino descobre que não há mudanças substanciais entre o que os cristãos acreditavam antes e depois de seu reinado. Para demonstrar isso, cada um dos temas deste livro será abordado do ponto de vista bíblico e patrístico. Encontrará aqui dezenas de testemunhos cristãos primitivos anteriores a Constantino que o demonstrarão. Essa descoberta foi feita, e continua sendo feita, por muitos protestantes que buscaram incansavelmente a verdade e acabaram por abraçar a comunhão plena com a Igreja Católica. São tantos os testemunhos que é impossível mencioná-los todos, mas quero recomendar dois testemunhos notáveis: o de John Henry Newman[9] e o de Gilbert Keith Chesterton[10].
A razão de outras seitas terem preferido situar o início da apostasia em datas tão precoces quanto a morte do último Apóstolo radica em que não conseguiram encontrar, em um período de mais de 1.600 anos, um grupo de cristãos com cujas doutrinas pudessem identificar-se plenamente. Se assim fosse, poderiam alegar que havia verdadeiros cristãos em tal ou qual época e quais eram; mas não conseguem identificar-se nem mesmo com os grupos heréticos do primeiro milênio, porque tampouco acreditam no mesmo que eles. Não lhes resta, portanto, outra alternativa senão colocar o rótulo de hereges e apóstatas em todos, como se antes deles não tivessem existido cristãos verdadeiros. Não é sinal de humildade nem de sabedoria acreditar-se mais santo, inteligente, sábio e inspirado do que os bilhões de cristãos que viveram antes de nós. Aqui está presente não apenas o pecado da soberba, que se manifesta ao menosprezar seus antepassados na fé, mas também uma noção deficiente do conceito de Igreja.
Assim, se uma dessas pessoas encontrar alguns textos patrísticos primitivos e perceber que esses cristãos acreditavam em doutrinas católicas que ela hoje rejeita, estará condicionada a pensar que já eram apóstatas ou hereges naquele momento. Estará predisposta a considerar mais confiável a interpretação das Escrituras pelo fundador de sua denominação, nascido milhares de anos depois de Cristo, e que, sem ter conhecido nem Ele nem seus apóstolos, começou a interpretar a Bíblia à sua maneira.
Outros preferem pensar que sim houve cristãos “verdadeiros” que pensavam como eles, mas que, por serem perseguidos pela Igreja oficial, não deixaram notícia e permaneceram ocultos. Mas essa hipótese também tem um problema de fundo, porque equivale a confessar que até os que eles próprios consideram hereges, dos quais temos abundantes notícias ao longo da história, eram mais valentes para defender sua fé e seus princípios do que esses cristãos anônimos e invisíveis. Jesus comparou os verdadeiros cristãos com “a luz do mundo” e disse a respeito deles: “Não se pode esconder uma cidade situada sobre uma montanha” (Mateus 5,14). No Evangelho encontramos numerosos exemplos da valentia dos Apóstolos, que nunca pararam de pregar apesar de serem perseguidos e presos (Atos 5,29). Não parece lógica a tese de que os verdadeiros cristãos permaneceram ocultos ao mundo e não restou notícia deles. O fato puro e simples é que não podemos encontrar, em 1.600 anos de história, alguém interpretando a Bíblia da mesma maneira como o faziam Lutero, Calvino, Zwinglio, ou como o faz hoje um batista ou um pentecostal.
Como católico, reconheço que entre essas denominações protestantes separadas abundam cristãos que honestamente acreditam estar na verdade; excelentes pessoas que buscam adorar e servir a Deus de coração. Reconheço-os fraternalmente como irmãos no Senhor e cristãos, mas são vítimas de um sistema que os enganou e os utiliza para captar mais prosélitos que propagam os mesmos erros como um círculo vicioso. Como dizia o arcebispo Fulton Sheen, a grande maioria não odeia a Igreja Católica, mas sim o que erroneamente pensa que é a Igreja Católica. Também reconhecemos que no protestantismo, ainda que dividido em numerosas comunidades eclesiais e seitas, há coisas muito boas; mas tudo aquilo de bom e santo que se possa encontrar neles pertenceu e pertence ao patrimônio da Igreja Católica, a começar pela própria Bíblia.
Notas
- Gilbert Keith Chesterton, The Thing: Why I Am a Catholic (A Coisa e outros artigos de fé). ↩
- Comumente conhecidos como mórmons. O nome da sua Igreja reflete a sua convicção de que nosso Senhor, após a corrupção precoce da Igreja, fundou uma nova apenas para “os últimos dias”. ↩
- Igreja de tipo pentecostal conhecida em inglês como True Jesus Church, ou TJC. ↩
- Não pretendo aqui julgar o foro interno de cada uma das pessoas que se unem a esses grupos, e nem mesmo o de seus fundadores cismáticos. Concedo como perfeitamente possível (e é o mais provável em muitos casos) que eles estejam sinceramente convencidos de que a Igreja se tornou corrupta e apóstata e que é seu dever moral tirar pessoas dela. O que se julga aqui é a validade dessa hipótese e se ela se ajusta ou não à verdade. ↩
- Refiro-me aqui, é claro, às denominações protestantes surgidas na Reforma Protestante, não às igrejas ortodoxas, que, embora em cisma e em comunhão imperfeita com a Igreja, conservam a sucessão apostólica e sacramentos válidos. ↩
- É preciso reconhecer que, mesmo dentro do protestantismo, há vozes que questionam essa hipótese. No ano de 2004, o pastor Rick Wade, graduado com honras em 1990 na Trinity Evangelical Divinity School com um M.A. em Pensamento Cristão (teologia/filosofia), escreveu um artigo em que afirmava: “Ocasionalmente, encontram-se referências à ideia da ‘queda’ da igreja após a conversão do imperador Constantino no século IV. Alguns creem que sob Constantino a igreja começou seu deslizamento rumo a uma religião de Estado, tendo sido corrompida pelo poder e pelo dinheiro. Os interesses da igreja e do Estado se sobrepuseram, resultando na corrupção da igreja. Isso lançou uma sombra sobre toda a história da igreja até a Reforma. A tradição é considerada um elemento da igreja corrompida e institucionalizada. Embora seja verdade que a nova liberdade que a igreja experimentou sob Constantino teve, sim, seu lado negativo, disso não se deduz que a igreja ‘caiu’, como dizem alguns. Ao longo da história, a igreja cometeu erros em suas relações com a sociedade secular e em saber como administrar adequadamente a liberdade e o poder que experimentou. Alguns se queixam hoje de que os cristãos se vinculam estreitamente demais a partidos políticos, beirando com isso a transigência. Isso em nada difere do que ocorria no tempo de Constantino. Que a igreja adquiriu uma nova feição quando se estabeleceu sob Constantino, ninguém o questiona. Mas a ideia de que a igreja se tornou rapidamente corrupta, e de que os concílios convocados sob seu reinado eram simples peões do imperador, é simplista. A igreja continuou fiel à tarefa de esclarecer e transmitir a tradição apostólica. ‘A fé professada e praticada nas igrejas primitivas não foi determinada por maquinações políticas de imperadores e hierarquias episcopais’, diz Williams. ‘A formulação e construção essencial da identidade cristã foi algo que o século quarto recebeu e continuou ampliando mediante a exegese bíblica e a vida litúrgica, conforme se reflete na tradição dos credos’” Rick Wade, Scripture and Tradition in the Early Church (As Escrituras e a Tradição na Igreja primitiva), Probe Ministries, 2004. ↩
- O pelagianismo é uma antiga heresia que sustentava a capacidade natural do homem para alcançar a salvação; bastava para isso o uso da razão e da liberdade sem a intervenção sobrenatural de Deus; negava, ao mesmo tempo, a substância e as consequências do pecado original, além da absoluta necessidade da graça para realizar obras sobrenaturais. ↩
- Cismático é aquele que cria divisões, não aquele que nasce dentro delas e não tem culpa de tê-las causado. ↩
- Foi um presbítero anglicano que, após sua conversão, chegou a ser cardeal da Igreja Católica. Ainda como anglicano, começou a escrever An Essay on the Development of Christian Doctrine (Ensaio sobre o desenvolvimento da doutrina cristã), no qual descobre que a Igreja Católica é a Igreja verdadeira, e acaba por se converter. Sua célebre obra Apologia Pro Vita Sua (História de minhas ideias religiosas), onde ele mesmo narra seu caminho de conversão, tem ajudado milhares de pessoas a seguir o mesmo caminho. ↩
- Célebre escritor que passou do agnosticismo ao anglicanismo e do anglicanismo ao catolicismo. Suas obras têm movido inumeráveis agnósticos, ateus e protestantes à conversão. Recomendo principalmente duas delas: The Everlasting Man (O Homem Eterno) e The Thing (A Coisa e outros artigos de fé). ↩