Antes de iniciar. O tratado da inspiração e inerrância das Sagradas Escrituras fez-nos ver que existem Livros Sagrados, que têm a Deus por autor, enquanto foram escritos sob a moção do Espírito Santo. Deus é o autor principal desses livros e, em consequência, eles não podem conter erro algum. Nesta seção estuda-se o tratado do cânon, que nos dá a conhecer quais e quantos são os livros inspirados. O tratado do cânon tende a provar a existência do catálogo sagrado dos livros inspirados, que nos foi transmitido pelo Magistério da Igreja, e, ao mesmo tempo, propõe-se expor a história da formação do cânon, isto é, a evolução e peripécias pelas quais teve de passar antes que a Igreja determinasse oficialmente o seu cânon. A Igreja teve grande cuidado, já desde o princípio, em distinguir os livros inspirados dos que não o eram, pois logo começaram a aparecer livros apócrifos que pretendiam passar por inspirados.

Neste tratado estudaremos a lenta formação do cânon das Sagradas Escrituras e as causas que contribuíram mais diretamente para a sua fixação.

2. Etimologia e significado de “cânon”. A palavra cânon, que provém do grego “kanón”, significava primitivamente uma cana reta que servia para medir, uma regra, um modelo. O termo grego “kanón” é afim aos vocábulos “káne”, “kánne”, “kánna” = cana, que provavelmente procedem das línguas semíticas, nas quais encontramos a mesma raiz. Assim temos em hebraico “qaneh” = “vara de medir”[1], em assírio “kanú”, em sumério-acádico “qin”[2]. Por conseguinte, a voz “kanón”, transcrita ao latim sob a forma de canon, designava em sentido próprio uma vara reta de madeira, uma régua que era empregada pelos carpinteiros. Em sentido metafórico indicava certa medida, lei ou norma de agir, de falar e de proceder. Esta é a razão de os gramáticos alexandrinos chamarem “kanón” à coleção de obras clássicas que, pela sua pureza de língua, eram dignas de ser consideradas como modelos[3]. Também os cânones gramaticais constituíam os modelos das declinações e conjugações e as regras da sintaxe. Segundo Plínio, existia o chamado cânon de Policleto, com cujo nome se designava a estátua do Doríforo, do escultor Policleto (séc. V a.C.), que pela sua perfeição foi considerada como a regra das proporções do corpo humano. Epicteto designava com o epíteto de “kanón” o homem que podia servir de modelo aos demais por causa da sua retidão de vida. Também nos falam os antigos dos “chronikoi kanónes” de Plutarco, que eram datas ou épocas principais da história que serviam de pontos de referência dos acontecimentos humanos.

A palavra “kanón” encontra-se quatro vezes no Novo Testamento. Mas somente é empregada nos escritos de São Paulo. Em três ocasiões usa-se no sentido passivo de coisa medida: trata-se do campo de apostolado assinalado por Deus ao Apóstolo dos Gentios[4]. Em outro lugar emprega-se no sentido de regra de vida, de ação[5].

Os autores eclesiásticos antigos deram à voz cânon significações muito variadas. A partir da metade do século II emprega-se “kanón” em sentido moral, para designar a regra da fé (“ho kanón tes písteos”), a regra da verdade (“ho kanón tes alethéias”), a regra da tradição (“ho kanón tes paradóseos”), a regra da vida cristã ou da disciplina eclesiástica (“ho kanón tes ekklesías”, “ho ekklesiastikós kanón”)[6].

Os Padres latinos empregam também fórmulas idênticas às dos Padres gregos: regula fidei, regula veritatis, como se pode ver já desde o século III nos escritos de Tertuliano e Novaciano.

Neste mesmo sentido, os decretos dos concílios chamaram-se cânones, enquanto eram as normas, as regras que a Igreja estabelecia para a mais perfeita regulação de sua vida. Talvez se lhes tenha dado este nome por contraposição às leis (“nómoi”) dos reis e imperadores, como também mais tarde se chamaram cânones às leis eclesiásticas, para distingui-las das leis civis.

A fé, ou seja, a doutrina revelada, é a regra que há de servir para julgar tudo; é a norma à qual os fiéis hão de adaptar a sua vida[7]. E como a Sagrada Escritura foi considerada, já desde as origens da Igreja, como o livro que continha a Revelação, a regra de fé e de vida, chegou-se de um modo natural a falar do cânon das Escrituras para designar esta regra escrita, e começou-se a dar o nome de cânon à coleção dos livros inspirados.

A palavra cânon, aplicada à Sagrada Escritura, começa a usar-se no século III. O primeiro a empregá-la talvez seja Orígenes, o qual afirma que a Assunção de Moisés “in canone non habetur” (“não está no cânon”)[8]. O Prólogo monarquiano, que uns atribuem ao século III e outros ao século IV, afirma que o cânon começa com o Gênesis e termina com o Apocalipse. O primeiro que com segurança aplica o termo cânon à Sagrada Escritura é Santo Atanásio (por volta do ano 350), o qual observa que o Pastor de Hermas não faz parte do cânon (“kaítoi me on ek tou kanónos”)[9]. Depois de Santo Atanásio, o termo torna-se comum entre os escritores gregos e latinos[10].

Do substantivo cânon deriva-se o adjetivo canônico (“kanonikós”). O primeiro a usá-lo parece ter sido Orígenes[11], o qual queria designar com esse adjetivo os livros que eram os reguladores da fé, a regra propriamente dita da fé, e constituíam uma coleção bem determinada pela autoridade da Igreja. O termo canônico também aparece com certeza no cânon 59 do concílio de Laodiceia (por volta do ano 360), no qual se estabelece que, na Igreja, não se leiam “os livros não canônicos, mas tão só os canônicos do N. e do A. T.”[12]. A partir da metade do século IV torna-se comum chamar às Sagradas Escrituras canônicas (“kanonikai”)[13]. E visto que já naquele tempo existiam muitos livros apócrifos, que constituíam um grave perigo para a Igreja e para os fiéis porque se apresentavam como inspirados, foi necessário fixar o catálogo dos Livros Sagrados a fim de que os fiéis pudessem distinguir os livros inspirados dos que não o eram. Isto deu lugar à formação de outras expressões derivadas de cânon, como canonizar (“kanonízein”), canonizado (“kanonizómenos”), que na linguagem eclesiástica daquela época significava que algum livro havia sido “recebido no catálogo dos Livros Sagrados”[14]. E, por contraposição, “apokanonízein” designava um livro “excluído do cânon”.

Finalmente, do adjetivo canônico formou-se o termo abstrato canonicidade, que expressa a qualidade de algum livro que, pela sua autoridade e origem, é divino e, enquanto tal, foi introduzido pela Igreja no cânon dos Livros Sagrados.

3. Canonicidade e inspiração. – Se bem que os termos canônico e inspirado sejam equivalentes sob muitos conceitos, contudo, canonicidade e inspiração distinguem-se formalmente. De fato, todos os livros canônicos são inspirados, e parece que não existe nenhum livro inspirado que não tenha sido recebido no cânon das Sagradas Escrituras. Contudo, um livro é inspirado pelo fato de ter a Deus por autor, e canônico, enquanto foi reconhecido pela Igreja como inspirado. Por conseguinte, a canonicidade supõe, além do fato da inspiração, a declaração oficial da Igreja do caráter inspirado de um livro. Esta declaração da Igreja nada acrescenta ao valor interno do livro, cujo valor canônico procede precisamente da sua inspiração, mas confere ao livro sagrado uma autoridade absoluta do ponto de vista da fé e converte-o em regra infalível da fé e dos costumes. Mas nem por isso se lhe pode chamar, sem mais, canônico senão depois da declaração da Igreja, feita implícita ou explicitamente. Segundo isto, os livros deuterocanônicos (no próximo ponto tratamos deles), que eram inspirados e tinham verdadeira virtude reguladora, não foram reconhecidos por todos como canônicos senão num segundo tempo, depois que a Igreja os recebeu no cânon[15].

Esta é a doutrina ensinada pelo concílio Vaticano I: “A Igreja tem os (livros do Antigo e Novo Testamento) por sagrados e canônicos não porque, havendo sido escritos pela só indústria humana, tenham sido depois aprovados pela sua autoridade, nem só porque contenham a revelação sem erro, mas porque, havendo sido escritos por inspiração do Espírito Santo, têm a Deus por autor, e como tais foram entregues à mesma Igreja”[16]. O mesmo afirmam Leão XIII em sua encíclica Providentissimus Deus (18 de novembro de 1893) e Pio XII na encíclica Divino afflante Spiritu (30 de setembro de 1943).

4. Livros protocanônicos e deuterocanônicos. – A distinção dos Livros Sagrados em protocanônicos e deuterocanônicos traz à mente a lembrança de controvérsias que surgiram na antiguidade a propósito da canonicidade de certos livros da Bíblia. Mas com ela não se pretende estabelecer uma distinção de valor canônico e normativo, nem do ponto de vista da dignidade, entre os proto e deuterocanônicos. Sob este aspecto, todos os Livros Sagrados contidos na Bíblia têm o mesmo valor e dignidade, pois todos têm igualmente a Deus por autor. A distinção é legítima só do ponto de vista histórico, do tempo, enquanto os livros deuterocanônicos foram recebidos no cânon das Sagradas Escrituras só mais tarde, por causa de certas dúvidas surgidas a propósito de sua origem divina.

Os escritores eclesiásticos gregos costumam designar os livros protocanônicos com o termo “homologoúmenoi”, ou seja, livros “universalmente aceitos”, e os deuterocanônicos com as palavras “antilegómenoi”, isto é, livros “discutidos”, ou também com “amphiballómenoi”, a saber, livros “duvidosos”[17]. Contudo, no século XVI foi Sisto de Siena (+ 1596) o primeiro a empregar os termos protocanônicos, para designar os livros que já desde o princípio foram recebidos no cânon, pois todos os consideravam como canônicos, e deuterocanônicos, para significar aqueles livros que, embora gozassem da mesma dignidade e autoridade, só em tempo posterior foram recebidos no cânon das Sagradas Escrituras, porque sua origem divina foi posta em causa por muitos[18].

Os livros deuterocanônicos são sete no Antigo Testamento e sete também no Novo Testamento:

No Antigo Testamento: Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Baruc, 1 e 2 Macabeus. E os sete últimos capítulos de Ester: 10,4-16,24, segundo a Vulgata; assim como os capítulos de Daniel 3,24-90; 13; 14.

No Novo Testamento: Epístola aos Hebreus, epíst. de Tiago, epíst. 2 de São Pedro, epíst. 2-3 de São João, epíst. de São Judas e Apocalipse. Também é bastante frequente considerar como deuterocanônicos os seguintes fragmentos dos Evangelhos: Mc 16,9-20; Lc 22,43-44; Jo 7,53-8,11. Contudo, as dúvidas acerca destes textos surgiram só em nossos dias entre os críticos, pelo fato de que essas passagens faltam em alguns códices e versões antigas.

Os protestantes empregam uma nomenclatura um pouco distinta da dos católicos ao falar dos livros deuterocanônicos. Entre eles, os livros deuterocanônicos do Antigo Testamento recebem o apelativo de apócrifos, que nós damos aos livros que, tendo certas semelhanças com os livros inspirados, nunca foram recebidos no cânon. E os protestantes chamam pseudoepígrafos aos livros que nós designamos com o termo apócrifos. No que se refere aos deuterocanônicos do Novo Testamento, católicos e protestantes coincidem na sua designação.

5. O critério de canonicidade. – Do critério de canonicidade podemos dizer quase o mesmo que do critério da inspiração (tratado em outro lugar). A diferença está tão só no fato de que o critério da inspiração olha para a Sagrada Escritura em geral; em compensação, o critério de canonicidade olha para cada livro em particular. Assim como, para conhecer o fato da inspiração, o único critério suficiente e eficaz era o testemunho do Magistério da Igreja, igualmente o único critério próprio de canonicidade é a testificação da Igreja. Porque a Igreja é a única autoridade legítima que pode determinar com certeza infalível se tal livro é canônico ou não. Esta é doutrina que ensinam já os Padres antigos, como Orígenes[19] e Tertuliano[20] e outros. São bem conhecidas as palavras de Santo Agostinho: “Ego vero evangelio non crederem, nisi me catholicae Ecclesiae commoveret auctoritas… In locum autem traditoris Christi quis successerit, in Actibus legimus: cui libro necesse est me credere, si credo evangelio, quoniam utramque Scripturam similiter mihi catholica commendat auctoritas” (“Eu não creria no evangelho se não me movesse a isso a autoridade da Igreja católica… Lemos nos Atos dos Apóstolos quem sucedeu àquele que entregou Cristo; e devo crer neste livro, se creio no evangelho, porque é a autoridade católica que me recomenda uma e outra Escritura”) [21].

O testemunho da Igreja foi-se manifestando a todos os fiéis por diversos condutos: pelos testemunhos explícitos dos escritores eclesiásticos, pelas decisões sinodais, pela proposição solene do Magistério universal ou ordinário da Igreja, pela leitura litúrgica e por todos aqueles meios que a Igreja costuma empregar para propor aos fiéis a doutrina cristã.

E como a canonicidade de um livro constitui um fato sobrenatural, que só podemos conhecer por revelação divina, através da tradição da Igreja, daí que seja necessária a testificação do Magistério eclesiástico para saber com certeza se um livro determinado é canônico e inspirado. A simples leitura litúrgica não parece ser critério suficiente, pois sabemos pelo testemunho de diversos Padres antigos que também se liam nas assembleias litúrgicas outros escritos que nunca fizeram parte do cânon da Sagrada Escritura[22]. Tampouco basta que a doutrina de um livro concorde com a doutrina dos apóstolos para determinar a sua canonicidade, porque podem encontrar-se muitos livros que concordem perfeitamente com a doutrina revelada e, contudo, não são inspirados. Nem sequer parece ser critério suficiente a origem apostólica de um livro, visto que no Novo Testamento há livros que não foram escritos pelos próprios apóstolos, mas por discípulos destes.

Os judeus também possuíam o cânon dos Livros Sagrados do Antigo Testamento. Qual era entre eles a autoridade à qual competia distinguir os Livros Sagrados dos que não o eram? Provavelmente foi o colégio sacerdotal, encarnado principalmente nos príncipes dos sacerdotes, que eram os que exerciam vigilância sobre as coisas religiosas. Outros autores pensam que seriam os profetas os que gozavam de autoridade para julgar se um livro era inspirado. Mas há que ter presente que nem sempre houve profetas em Israel. E precisamente na época em que se fixou o cânon do Antigo Testamento, a máxima autoridade religiosa era ostentada pelo sacerdócio, como veremos mais adiante neste trabalho.

Os protestantes, ao rejeitar a Tradição, viram-se obrigados a julgar da canonicidade dos Livros Sagrados por critérios propriamente internos. Para Calvino este critério seria “o testemunho secreto do Espírito”[23]; para Lutero, a concórdia do ensinamento de um livro com a doutrina da justificação pela só fé[24]. Os protestantes ortodoxos posteriores, além dos critérios internos, admitem também critérios subsidiários externos, como o carisma profético ou apostólico do autor, o testemunho da Igreja antiga, a história do cânon criticamente estudada. Para os protestantes liberais, ao não admitirem praticamente a inspiração, tampouco tem interesse a questão da canonicidade dos livros bíblicos. Os livros que a Igreja conservou seriam unicamente aqueles que se impuseram praticamente na leitura pública como mais aptos para a edificação dos fiéis. Deste fato ter-se-ia passado à afirmação da inspiração.

A renovação teológica protestante moderna conduziu alguns de seus principais expoentes a adotar novas posições. Uma das que merecem maior atenção é a de O. Cullmann[25], o qual se declara “absolutamente conforme com a teologia católica na afirmação de que foi a mesma Igreja que constituiu o cânon”. Mas ele vê nesta decisão da Igreja a manifestação explícita e definitiva da consciência que ela foi adquirindo da inspiração dos Livros Sagrados. Esta decisão eclesiástica ia dirigida a distinguir claramente a tradição apostólica das demais que se lhe pudessem juntar. Entre todos os escritos cristãos que corriam na Igreja primitiva, foram-se impondo aqueles que haviam de formar o cânon pela sua autoridade apostólica intrínseca. O Antigo Testamento foi aceito no cânon enquanto era o testemunho da história da salvação que havia preparado a encarnação. A Igreja seguiu nisto o sentir de Cristo e dos apóstolos.

A posição de O. Cullmann parece-se bastante com a de certos autores católicos modernos, como Karl Rahner, Norbert Lohfink, etc.

6. Importância atual da questão do cânon. – Na teologia atual, de marcada tendência eclesiológica, adquiriu grande importância o problema do cânon das Sagradas Escrituras. Vários foram os que trataram a questão; mas a nós interessam-nos de modo especial as ideias de K. Rahner e N. Lohfink pela relativa novidade que representam. Digo relativa, porque em parte seguem as ideias já expostas por O. Cullmann e algum outro autor protestante.

a) Karl Rahner define a inspiração da Sagrada Escritura da seguinte maneira: “Inspiração da Escritura é aquela causalidade absolutamente singular mediante a qual Deus se converte em autor da Igreja, enquanto uma tal causalidade tem por objeto o elemento constitutivo da Igreja apostólica, que é a Escritura”[26].

Os Livros Sagrados procedem de modo vital da vida íntima da Igreja nascente. E enquanto tais constituem uma manifestação da vida da Igreja. Quando a Igreja apostólica consigna por escrito a sua fé, o seu espírito, a sua tradição, a sua vida íntima, cria a Sagrada Escritura. E esta é, segundo Rahner, um elemento constitutivo da Igreja.

Pelo próprio fato de os Livros Sagrados serem um produto da vida íntima da Igreja primitiva, pode-se deduzir que a Igreja está em ótimas condições para conhecer a inspiração deles. A Igreja, por uma certa conaturalidade, advertiu que esses escritos estavam em perfeita conformidade com a sua natureza e que eram ao mesmo tempo “apostólicos”, isto é, como um pedaço da vida da Igreja primitiva. A Igreja, enquanto guardiã do depósito da fé, recebeu do Espírito Santo o dom de discernir o que realmente pertence a esse depósito. E este ato de discernimento, segundo Rahner, pôde ser feito inclusive depois da época apostólica, sem necessidade de admitir uma nova revelação ou uma afirmação explícita dos apóstolos. Mas isto só o podia fazer a Igreja com absoluta certeza enquanto era dirigida pelo Espírito Santo. De fato, a Igreja só no século IV reconheceu como inspirados e canônicos todos os livros da Bíblia, o que resultaria difícil de explicar no caso de se admitir uma revelação explícita sobre a inspiração de cada livro sagrado transmitida pelos apóstolos.

No que se refere ao Antigo Testamento, Rahner admite que a Igreja recebeu da sinagoga um certo cânon. Mas a sinagoga não possuía uma autoridade doutrinal infalível para determinar com absoluta certeza o cânon. Além disso, o cânon do Antigo Testamento não podia considerar-se como definitivamente fechado antes do nascimento da Igreja. Esta, enquanto herdeira e continuadora legítima do povo eleito, cuja história considerava como a sua própria pré-história, podia prosseguir e concluir a formação oficial do cânon do Antigo Testamento. Isto explicaria por que a Igreja pôde aceitar no cânon do Antigo Testamento os livros deuterocanônicos e por que introduziu no cânon diversos livros do Novo Testamento sobre cuja autenticidade e canonicidade haviam surgido graves dúvidas nos primeiros séculos da Igreja.

b) Norbert Lohfink, num artigo publicado na revista Stimmen der Zeit[27], apresenta algumas ideias que têm importância para compreender melhor a questão do cânon. Para ele, o processo de canonização dos Livros Sagrados tem grande importância. O cânon pressupõe um longo processo de formação, pois os diversos livros são tão só partes integrantes de todo o complexo. Uma vez juntadas estas partes integrantes para formar o complexo total da Bíblia, já não podem ter existência separada e independente, mas condicionam-se mutuamente. Isto significa que o sentido final e decisivo de cada livro e de cada um dos ensinamentos que contêm depende do contexto total no qual foram introduzidos. Este contexto é o da revelação inteira, que esteve em progresso contínuo e chegou ao seu fim só com a promulgação do cânon da Sagrada Escritura. O Novo Testamento é a última etapa deste progresso e é o que dá a chave para a perfeita inteligência de todo o complexo e de cada uma de suas partes.

A coleção ou reunião de todos os Livros Sagrados no cânon, com o que ficou constituído como norma da Igreja, conferiu a estes livros uma nova orientação, uma finalidade e uma intencionalidade novas, que foram consideradas como definitivas para a comunidade dos fiéis. Cristo e os apóstolos deram ao Antigo Testamento o sentido último e definitivo.

A inspiração das Escrituras pressupõe um longo processo que começou no A. T. e terminou no Novo. Este longo processo esteve sempre ordenado à composição de todo o complexo da Bíblia. Dentro deste complexo, os livros e as doutrinas particulares recebem o seu sentido definitivo do contexto de todo o conjunto.

Com efeito, a inspiração e a interpretação da Sagrada Escritura finalizou com o último livro do N. T. e com a inclusão de todos os livros inspirados no cânon. Desde então se pode afirmar que a inerrância pertence à Sagrada Escritura como um todo indivisível e formando uma unidade intrínseca.

7. Perdeu-se algum livro inspirado? – Pelo testemunho da própria Sagrada Escritura conhecemos alguns escritos provenientes de algum profeta ou apóstolo que não chegaram até nós. No Antigo Testamento fala-se repetidas vezes do “livro do Justo” (cf. Js 10,13; 2 Sm 1,18), do “livro de Samuel, vidente”, das “crônicas de Natã, profeta, e das de Gad, vidente” (cf. 1 Cr 29,29), das “profecias de Ido, vidente” e dos “livros de Semaías, profeta” (2 Cr 9,29; 12,15). O Novo Testamento também fala de uma epístola de São Paulo aos Coríntios (cf. 1 Cor 5,9)[28] que parece ter-se perdido, e de outra aos Laodicenses (cf. Cl 4,16)[29]. Se considerarmos estes escritos como inspirados, teríamos de admitir que de fato se perderam livros inspirados. Mas, para conhecer a sua inspiração, seria preciso possuir o testemunho da Igreja, que é o único critério suficiente para sabê-lo. O Magistério da Igreja, contudo, não disse absolutamente nada sobre a inspiração desses livros. E como o critério do profeta ou do apostolado não é suficiente para conhecer a inspiração ou a canonicidade de um determinado livro, daí que não estejamos em condições de afirmar que de fato se perderam alguns livros inspirados.

Alguns autores católicos negam firmemente a possibilidade de que se tenham perdido certos livros inspirados. O seu raciocínio é o seguinte: a inspiração bíblica não é um carisma privado, dado para o bem de um indivíduo, mas é um carisma social, destinado ao bem de uma sociedade, que é a Igreja fundada por Cristo. Em consequência, a destinação do escrito inspirado para a Igreja entraria nos elementos essenciais da inspiração bíblica, como ensina claramente o concílio Vaticano I[30]. Tendo em conta este princípio, não parece possível afirmar que se tenha dado um livro inspirado perdido antes de chegar à Igreja. Nem tampouco se poderia dizer que a perda tenha tido lugar depois de ser recebido pela Igreja, já que seria acusar a Igreja de infidelidade à sua missão divina de guardiã das fontes da revelação. Contudo, a nosso parecer, há que distinguir nesta questão entre livro tão só inspirado e livro inspirado e canônico. No que se refere a isto último, não parece possível que um livro reconhecido e declarado como inspirado pela Igreja se tenha perdido. Neste caso haveria que admitir que a Igreja não foi a fiel guardiã do depósito revelado. Em compensação, poder-se-ia admitir que um livro inspirado se tenha perdido antes do reconhecimento oficial e universal da Igreja. É certo que a inspiração, como carisma, foi dada ao autor humano com vistas ao bem religioso da comunidade, mas é muito possível que um livro inspirado tenha sido destinado exclusivamente a uma determinada comunidade religiosa dos primeiros séculos, e, uma vez cumprida a sua finalidade, tenha desaparecido antes que chegasse o reconhecimento da Igreja universal.

Também se poderia admitir que no decurso dos séculos se tenham podido perder alguns fragmentos dos livros inspirados. Mas com a condição de que estes fragmentos não sejam de importância substancial para a revelação. Por outra parte, a história do texto demonstra claramente que o texto sagrado chegou até nós substancialmente íntegro.

Autores: Manuel de Tuya – José Salguero
Fonte: Introducción a la Biblia, Tomo I, Biblioteca de Autores Cristianos, Madri, 1967, pp. 323-334.

Fonte: Apologetica.org

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NOTAS

  1. Cf. Ez 40,3.5. Os LXX traduzem, neste lugar, qaneh por “kanón”.
  2. Cf. W. Gesenius-F. Buhl, Hebräisches und Aramäisches Handwörterbuch17 (Leipzig 1921).
  3. Cícero, numa carta dirigida a seu amigo Tirão, diz-lhe: “Tu, qui ‘kanón’ esse soles meorum scriptorum” (Epist. ad famil. l. 16, epíst. 17). Ver também Aristóteles, Ethica ad Nicomachum 3.4.5.
  4. Cf. 2 Cor 10,13.15-16.
  5. Cf. Gl 6,16.
  6. Cf. S. Clemente Romano, S. Polícrates (segundo Eusébio), S. Ireneu. Há autores que costumam dar ao termo canon o sentido de catálogo, lista, elenco, e costuma-se citar como exemplos o “kanón basiléon”, de Cláudio Ptolomeu (por volta do ano 150 d.C.), que é um catálogo dos reis assírios, babilônicos e persas, e os “chronikoi kanónes” de Eusébio, que compreendem tabelas sincronizadas dos vários povos da antiguidade. Contudo, ainda que estes “kanónes” de Ptolomeu e de Eusébio sejam listas, têm antes o significado de regra, pois eram datas, medidas cronológicas, que serviam de base a sistemas cronológicos. Se canon tem agora, na linguagem eclesiástica, o sentido de lista, catálogo, este é relativamente recente e, além disso, é um significado secundário. O significado formal é o de regra, norma, modelo.
  7. Neste sentido diz Santo Ireneu: “Tendo por regra a própria verdade”, “a verdade, que é pregada pela Igreja” (Adv. Haer. 2,28,1; 1,9,5)
  8. In Iosue hom. 2,1. Mas desta obra de Orígenes só temos uma tradução latina; por isso não sabemos se empregava o termo “kanón” ou antes “endiáthetos”.
  9. Decr. Nic. Syn. 18.
  10. Conc. de Laodiceia, Santo Anfilóquio, Orígenes, Rufino, São Jerônimo, Santo Agostinho, etc.
  11. In Cant. Prol. Só possuímos a tradução latina feita por São Jerônimo.
  12. Cf. Enchiridion Biblicum (EB), 4ª edição (Roma 1961), n. 11.
  13. Cf. São Jerônimo, Praef. in libr. Salom.; Prisciliano, Lib. Apol. 27, etc.
  14. Cf. Orígenes, In Matth. 28.
  15. A declaração da Igreja sobre a canonicidade de um livro não precisa ser feita solene nem explicitamente; basta que a Igreja, na prática, os tenha tido sempre como inspirados.
  16. EB n. 77.
  17. Cf. Eusébio, Hist. Eccl. 3,25,4; São Cirilo de Jerusalém, Catech. 4,33.
  18. Cf. Bibliotheca Sancta ex praecipuis catholicae Ecclesiae auctoribus collecta (Nápoles 1742) vol. 1, 2s.
  19. In Lc. Hom., 1; cf. em Eusébio, Hist. Eccl. 6,25,35.
  20. Adv. Marc. 4,5.
  21. Contra Epist. Manichaei 5,6.
  22. Por São Dionísio de Corinto sabemos que a epístola de São Clemente Romano aos Coríntios era lida nas assembleias litúrgicas (cf. em Eusébio, Hist. Eccl. 4,23,11). Nas igrejas da Ásia lia-se a carta de São Policarpo (cf. S. Jerônimo, De viris illustribus, 17).
  23. Cf. J. Calvino, Institutio religionis christianae, l. 1, c. 6-8 (Basileia 1536).
  24. Cf. O. Scheel, Luthers Stellung zur hl. Schrift (Tübingen 1902), p. 42-45; M. Meinertz, Luthers Kritik am Jakobusbriefe nach dem Urteile seiner Anhänger: BZ 3 (1905) 273-286.
  25. La Tradition (Paris-Neuchâtel 1953) p. 41-52.
  26. Cf. K. Rahner, Über die Schriftinspiration. Quaestiones disputatae I (Herder, Friburgo de Br. 1958) p. 58.
  27. Über die Irrtumslosigkeit und die Einheit der Schrift, Stimmen der Zeit 174 (1964) 161-181.
  28. Certos autores querem descobrir vestígios desta carta perdida de São Paulo em 2 Cor 6,14-7,1.
  29. A epístola aos Laodicenses dever-se-ia identificar, segundo bastantes autores, com a epístola aos Efésios, que originariamente levaria na saudação inicial “en Laodikéia”. Estas palavras teriam sido suprimidas — segundo o P. J. Vosté — pela terrível repreensão que o autor do Apocalipse lança contra a igreja de Laodiceia (Ap 3,14ss).
  30. EB n. 77.