Nos fóruns de discussão sobre religião na Internet, os críticos anticristãos manejam uma grande quantidade de objeções contra a verdade da Bíblia. Responder detalhadamente a todas essas objeções consumiria muito espaço e tempo; por isso tentaremos aqui dar apenas uma resposta global. Isso é possível porque tais objeções se inserem tipicamente dentro de um conjunto de problemas bem conhecido, que passou a ser chamado de “questão bíblica” e foi muito debatido entre os estudiosos da Bíblia desde o século XVII até meados do século XX. Depois de um tempo de maturação, os princípios gerais da solução da “questão bíblica” foram aceitos oficialmente pela Igreja Católica nos anos quarenta, por meio da encíclica “Divino Afflante Spiritu” do Papa Pio XII. De modo que o mínimo que se pode dizer dessas objeções anticristãs é que estão um pouco “fora de moda”.
A grande maioria desses argumentos críticos pode ser esquematizada assim em forma de silogismo:
Premissa maior: Se a Bíblia é Palavra de Deus, então não pode ensinar nenhum erro.
Premissa menor: Mas a Bíblia contém muitos textos que ensinam coisas contraditórias entre si ou com verdades demonstradas pelas ciências naturais ou históricas.
Conclusão: Portanto, a Bíblia não é Palavra de Deus.
A Igreja Católica aceita a premissa maior, mas rejeita a menor; portanto não se vê obrigada a chegar a essa conclusão.
Analisemos mais de perto a premissa menor. Ela supõe implicitamente uma interpretação fundamentalista da Bíblia, isto é, algo muito diferente da interpretação católica da Bíblia. Os cristãos fundamentalistas (que abundam em algumas comunidades eclesiais de origem protestante e em grupos semicristãos) rejeitam o estudo histórico-crítico da Bíblia e dão à Sagrada Escritura uma interpretação simplista e superficial, presa ao sentido aparente dos textos. A exegese católica, ao contrário, utiliza a fé e a razão, os resultados do estudo científico da Bíblia iluminados pela fé cristã.
Ilustremos isto com um exemplo. O capítulo 1 do Gênesis relata a criação do universo por obra de Deus. Segundo esse relato, Deus empregou seis dias para criar tudo o que é visível e invisível; no sexto dia Deus criou o ser humano e no sétimo dia descansou. Uma interpretação fundamentalista desse capítulo leva a rejeitar as descobertas científicas que supõem uma evolução cósmica de bilhões de anos anterior ao aparecimento do homem sobre a Terra. A interpretação católica, ao contrário, baseia-se nos dois princípios seguintes:
- “Já que tudo quanto afirmam os hagiógrafos ou autores inspirados deve ser tido como afirmado pelo Espírito Santo, deve confessar-se que os livros da Escritura ensinam com certeza, fielmente e sem erro a verdade que Deus, para nossa salvação, quis que fosse consignada nas sagradas Letras.” (Concílio Vaticano II, constituição dogmática Dei Verbum, n. 11).
- “Para descobrir a intenção dos hagiógrafos, devem ter-se em conta, entre outras coisas, também os géneros literários. Pois a verdade é proposta e expressa de modos diferentes nos textos de vários géneros históricos, proféticos, poéticos ou de outros modos de expressão.” (Concílio Vaticano II, constituição dogmática Dei Verbum, n. 12).
Vale dizer que a interpretação católica da Bíblia distingue a verdade salvífica transmitida pela Bíblia da “roupagem literária” utilizada como veículo para transmitir essa verdade. No exemplo citado, é claro que as verdades salvíficas que Deus nos transmite por meio de Gênesis 1 são coisas muito diferentes de uma cosmologia arcaica; refiro-me a verdades como as seguintes:
- Tudo o que existe foi criado por Deus.
- Tudo o que Deus criou é bom.
- O ser humano é o cume do universo material.
- O homem e a mulher foram criados à imagem e semelhança de Deus.
- etc.
A importância dos gêneros literários para uma interpretação racional é muito clara. Não se pode interpretar uma narrativa épica do mesmo modo que um poema, um drama ou um ensaio filosófico. É óbvio que seria absurdo rejeitar a verdade da parábola do filho pródigo com base no fato de que, historicamente, não existiu aquele “pai que tinha dois filhos”. Esse erro é semelhante ao cometido no tipo de argumentos que estamos comentando.
A Bíblia não é um manual de ciência e nem sequer, falando estritamente, um livro de história, mas um livro que transmite uma verdade religiosa salvífica. Muitas vezes faz isso por meio da narração de uma história, mas trata-se então de uma “história teológica”, ou melhor, de uma “teologia histórica”, uma descoberta profética da Palavra de Deus através dos acontecimentos históricos.
Como escreveu Santo Agostinho no início do século V, “a Bíblia não ensina como vai o céu, mas como se vai ao céu”. Se os críticos querem emitir um juízo sobre a verdade da Bíblia, devem elevar o olhar e apontar para o verdadeiro objeto do ensinamento bíblico, uma verdade propriamente religiosa.
Autor: Daniel Iglesias Grèzes