Fui recebido na Igreja Católica em fevereiro de 1991 pelo padre John Hardon SJ., um fato que um ano antes me teria parecido completamente inconcebível. Não muito em minha vida teria indicado essa surpreendente reviravolta dos fatos, mas tal questão foi mostra da sempre inescrutável misericórdia e providência de Deus.
Meu primeiro conhecimento sobre a Cristandade veio na Igreja Metodista Unida, a denominação na qual fui educado. A igreja que frequentávamos, num bairro operário da cidade de Detroit (Michigan, Estados Unidos), me parecia, assim como a qualquer criança no início da década de 1960, que estava em declínio, sociologicamente falando, tanto que a média de idade dos membros era de aproximadamente cinquenta anos ou mais. Em meus estudos, anos depois, como evangélico, aprendi que a redução e o envelhecimento das congregações eram um dos sinais visíveis da deterioração do protestantismo de corrente principal.
Como acabou acontecendo, nossa igreja fechou em 1968 e, depois disso, raramente frequentei a igreja nos nove anos seguintes. Minha educação religiosa inicial não foi de todo em vão, contudo; à medida que eu ia ganhando respeito por Deus, o que nunca abandonei foi a compreensão de Seu amor pela humanidade e uma apreciação do sentido dos mandamentos morais básicos e sagrados.
De todo modo, por alguma razão, não tive um interesse crescente na Cristandade nesse momento. Em 1969, aos onze anos de idade, entrei em contato pela primeira vez com o chamado altar quintessencial da cristandade fundamentalista numa Igreja batista que visitamos duas ou três vezes. Fui à frente para ser “salvo”, de forma absolutamente sincera, mas sem o conhecimento ou a força de vontade requeridos (pelas normas evangélicas mais zelosas) para levar a cabo essa resolução temporária.
Durante esse período, fascinei-me com o sobrenatural, mas, infelizmente, entrei nos terrenos de um ocultismo vago, de tudo. Envolvi-me, com grande seriedade, com a ESP, a telepatia, o Ouija, a projeção astral, inclusive a feitiçaria vodu (com um professor de ginástica cruel em mente!). Eu lia sobre Houdini (1) e Uri Séller (2), entre outros.
Entretanto, meu irmão Gerry, que é dez anos mais velho do que eu, converteu-se, em 1971, ao Evangelicalismo do Jesus Louco (3), uma tendência que estava em seu apogeu naquele momento. Ele sofreu uma transformação realmente notável, saindo do círculo cultural do típico roqueiro drogado e brigão, e começou a pregar de forma zelosa à nossa família. Aquilo era um espetáculo novo para mim. Eu já havia sido influenciado pela contracultura hippie e, como sempre tinha sido de alguma forma anticonformista, o “Jesus Movement” (Movimento de Jesus) exerceu uma estranha fascinação sobre mim, embora eu não tivesse nenhuma intenção de me unir a eles.
Eu me sentia orgulhoso de minha “moderação” com respeito às questões religiosas. Como a maioria dos cristãos nominais e dos incrédulos sinceros, reagi a qualquer manifestação de Cristandade séria e devota com uma mistura de medo, zombaria e condescendência, ao mesmo tempo em que pensava que tal conduta era “imprópria”, fanática e fora da corrente principal da cultura americana.
No início dos anos 1970, visitei de vez em quando a Igreja luterana o Messias, em Detroit, onde meu irmão frequentava, junto com seus amigos cabeludos do “Jesus Freak”, e eu me contorcia em meu assento sob a convicção dos poderosos sermões do pastor Dick Bieber, um personagem do tipo de que eu nunca havia ouvido falar. Lembro-me de que pensava que o que ele estava pregando era indisputavelmente a pura verdade e que, quando se tratava da questão do “ser salvo”, não haveria lugar algum para os do meio-termo ou para os covardes. Por conseguinte, eu estava relutante, por assim dizer, porque pensei que seria o fim da diversão e do convívio com meus amigos. Devido à minha rebeldia e orgulho, Deus teve de usar os métodos mais drásticos para o meu despertar.
Em 1977 experimentei uma depressão severa durante seis meses, o que era totalmente atípico em meu temperamento anterior. As causas imediatas eram as pressões da adolescência tardia, mas, retrospectivamente, está claro que Deus estava me fazendo ver o completo sem-sentido da minha vida — uma busca individualista, vazia e fútil por felicidade, sem propósito ou relação com Deus. Fui levado, cambaleando, ao fim de mim mesmo. Era uma crise existencial aterradora na qual eu não tinha nenhuma outra saída senão clamar a Deus. Ele respondeu rápido.
Aconteceu que, na Páscoa de 1977, o extraordinário filme Jesus de Nazaréde Franco Zeffirelli (ainda meu filme cristão favorito) estava passando na televisão. Eu sempre havia apreciado filmes da Bíblia, como Os Dez Mandamentos. Eles davam vida às personalidades bíblicas, e o elemento de drama (como forma de arte) comunicava a vitalidade da Cristandade de uma maneira única e eficaz. Jesus, como foi retratado nesse filme, deixou uma impressão extraordinária em mim, e o momento não poderia ser melhor. Ele aparecia como o anticonformista supremo, o que me atraía.
Maravilhei-me com a maneira como Ele tratava as pessoas, e dava a sensação de coisas que jamais se poderia esperar do que Ele diria ou faria, sempre algo com uma visão ou impacto incomparáveis. Comecei a compreender, com a ajuda de meu irmão, a razão do evangelho pela primeira vez: o que a Cruz e a Paixão significavam, e alguns dos pontos básicos de teologia e soteriologia (a Teologia da Salvação) que eu nunca havia pensado antes. Também aprendi que aquele Jesus não era apenas o Filho de Deus, mas Deus o Filho, a Segunda Pessoa da Trindade — algo que, incrivelmente, eu não havia ouvido previamente, ou simplesmente não compreendi caso o tivesse ouvido. Comecei a ler seriamente, pela primeira vez em minha vida, a Bíblia (a tradução da Bíblia Viva, que é a paráfrase mais informal).
Foi a combinação de minha depressão e do novo conhecimento da Cristandade que provocou minha decisão de seguir a Jesus como meu Senhor e Salvador de uma forma muito mais séria, em julho de 1977 — o que eu ainda consideraria uma “conversão a Cristo”, e o que a visão evangélica considera a experiência do “novo nascimento” ou de ser “salvo”. Continuo vendo isso como um passo espiritual válido e indispensável, embora, como católico, eu tivesse, claro, de interpretá-lo de uma maneira um tanto distinta da que eu tinha anteriormente. Apesar de meu ímpeto inicial de zelo, acomodei-me novamente na tibieza durante três anos, até agosto de 1980, quando finalmente entreguei todo o meu ser a Deus e experimentei uma “renovação” profunda em minha vida espiritual.
Ao longo dos anos oitenta frequentei Igrejas luteranas, as “Assembleias de Deus” (4), e seitas não denominacionais com fortes conexões com o “Jesus Movement”, caracterizadas pela juventude, pela espontaneidade do culto, pela música contemporânea e pelo caloroso companheirismo. Muitos de meus amigos eram antigos Católicos (apóstatas) (5). Soube pouco de Catolicismo até o início da década de 1980. Eu o considerava uma “denominação” exótica, austera e desnecessariamente ritualística, que não tinha muito atrativo para mim. Eu não me sentia atraído por natureza pela liturgia e não cria de modo algum nos sacramentos, embora sempre tivesse grande reverência pela “Ceia do Senhor” e cresse que algo real era transmitido nela.
Por outro lado, nunca fui publicamente anticatólico. Tendo tido parte ativa em trabalhos apologéticos anti-seitas (especializando-me no russelismo, ou testemunhas de Jeová), compreendi rapidamente que o Catolicismo era completamente diferente das seitas, no sentido de que possuía “doutrinas centrais” corretas, como a da Trindade e a da Ressurreição corporal de Cristo, bem como uma legitimidade histórica admirável; totalmente cristão, embora imensamente inferior ao evangelicalismo (6).
Eu era, poderíamos dizer, um evangélico típico do tipo que tinha certo interesse teológico um pouco acima da média. Familiarizei-me com as obras de muitos dos “grandes”: C.S. Lewis, Francis Schaeffer, Josh McDowell, A.W. Tozer, Billy Graham, Hal Lindsey, John Stott, Chuck Colson, a revista Christianity Today, Keith Green e os Ministérios “Last Days”, a Jesus Peopleem Chicago e a revista Cornerstone, a irmandade Cristã Inter.-Varsity(uma organização universitária), assim como a cena da música cristã: no conjunto, influências bastante benéficas, a ponto de não haver nada de que me arrepender em absoluto.
Meu forte interesse na evangelização e na apologética me levou a tornar-me, com a permissão de minha igreja, missionário nos campi universitários durante quatro anos. Também me envolvi no movimento pró-vida e na Operação Resgate (Operation Rescue).
Ficou claro para mim rapidamente que os resgatadores católicos eram tão comprometidos com Cristo e piedosos quanto os evangélicos. Retrospectivamente, não há substituto para a observância amplamente rígida dos Católicos devotos. Eu havia me encontrado com um sem-número de evangélicos que exibiam o que julguei ser um caminho sério com Cristo, mas raramente com a intensidade da vida dos Católicos. Comecei a fazer amizade com meus irmãos católicos dos Resgates, e às vezes na prisão, inclusive sacerdotes e freiras. Embora ainda cético teologicamente, minha admiração pessoal pelos católicos ortodoxos decolou como um míssil Tomahawk.
Em janeiro de 1990 iniciei um grupo de discussão ecumênico que eu moderava. Três amigos católicos conhecedores do movimento do Resgate (Operation Rescue) — John McAlpine, Leno Poli e Don McSween — começaram a participar. Suas reivindicações em favor da Igreja, particularmente no concernente à infalibilidade papal e conciliar, me levaram a mergulhar num projeto massivo de pesquisa sobre esse assunto. Cri que havia encontrado muitos erros e contradições ao longo da história. Depois compreendi, contudo, que meus muitos “exemplos” nem sequer entravam na categoria de declarações infalíveis, tal como definido pelo Concílio Vaticano de 1870. Eu também era um pouco desonesto, pois passava por alto fatos históricos que confirmavam fortemente a posição católica, como a ampla aceitação primitiva da Presença Real, a saber, a autoridade do Bispo e a comunhão dos santos.
Entretanto, eu estava lendo livros exclusivamente católicos (e todos os tratados curtos da Respostas Católicas (7) ), com uma mente aberta, e meu respeito e entendimento do Catolicismo cresceram enormemente. Comecei (providencialmente) com O Espírito do Catolicismo de Karl Adam, um livro extraordinário demais para se resumir adequadamente aqui. É, creio eu, um livro quase perfeito sobre o Catolicismo como um mundo e um estilo de vida, sobretudo para uma pessoa familiarizada com a teologia católica básica. Li os livros de Christopher Dawson, um grande historiador cultural, de Joan Andrews (uma heroína do movimento do Resgate), e de Thomas Merton, o famoso monge trapista, todos os quais me impressionaram sumamente.
Meus três amigos de nosso grupo de discussão continuaram respondendo serenamente às quase centenas de perguntas minhas. Eu estava assombrado ao dar-me conta de que o Catolicismo parecia ter sido “bem pensado” — era um maravilhoso e complexo sistema de crenças, consistente e incomparável com qualquer parcela do evangelicalismo.
Nesse momento fiquei tremendamente preocupado com a aceitação protestante (e minha própria) livre e fácil da contracepção. Vim a crer, de acordo com a Igreja, que, uma vez que se considera o prazer sexual como um fim em si mesmo, então o chamado direito ao “aborto” não está logicamente longe. Meus amigos evangélicos pró-vida poderiam facilmente ser a exceção, mas os menos dispostos espiritualmente não fariam isso, como se confirmou por completo pela revolução sexual em pleno auge desde que o uso generalizado da Pílula começou por volta de 1960.
Uma vez que um casal pensa que pode frustrar o desejo de Deus na questão de uma possível concepção, então a noção de interromper uma gravidez se segue por uma certa lógica diabólica, desprovida da orientação espiritual da Igreja. Nisto, como em outras áreas tais como o divórcio, a Igreja é inegavelmente sábia e verdadeiramente progressiva. G.K. Chesterton e Ronald Knox, os grandes apologistas, já puderam ver os grafites na parede por volta dos anos trinta.
Eu estava absolutamente assustado com o fato de que nenhum corpo cristão havia aceitado o anticoncepcionismo até que os anglicanos, em 1930, o fizeram, e com a inevitável progressão nas nações do anticoncepcionismo ao aborto, como havia sido mostrado irrefutavelmente pelo padre Paul Marx. Finalmente, um livro intitulado O Ensino de “Humanae Vitae” de John Ford, Germain Grisez, et al., convenceu-me da distinção moral entre o anticoncepcionismo e o Planejamento Familiar Natural e me colocou no limiar.
Eu aceitava agora uma crença muito “não protestante”, mas ainda assim nem sequer sonhava em tornar-me católico (o que é, claro, inconcebível para um evangélico). Eu ainda era presa que caía no princípio de conversão de Chesterton — aquele segundo o qual não se pode ser justo com o Catolicismo sem começar a admirá-lo e a convencer-se dele.
Entretanto, minha esposa Judy, que foi educada como católica e se tornou protestante antes de nos conhecermos, também havia se convencido independentemente do equívoco do anticoncepcionismo. Ela retornou à Igreja no dia em que fui recebido. Que linda é a unidade! Então, em julho de 1990, eu já estava convencido de que o Catolicismo possuía a melhor teologia moral do que a de qualquer outro corpo cristão, e respeitava grandemente seu senso de comunidade, devoção e contemplação.
A teologia moral e os intangíveis elementos místicos começaram a dançar a dança da conversão para mim, e cada vez mais se enraizavam profundamente dentro de minha alma; para além de, mas não opostos a, os cálculos racionais de minha mente — o que o Cardeal Newman (8) chamou de “o Senso Ilativo”.
Meu amigo católico, John, cansado de minha ladainha constante sobre os erros católicos e adições ao longo dos séculos, sugeriu que eu lesse o Ensaio sobre o Desenvolvimento da Doutrina Cristã do Cardeal Newman. Este livro demoliu completamente todo o esquema de história da Igreja que eu havia construído. Eu pensava, tipicamente, que a Cristandade primitiva era protestante e que o Catolicismo era uma corrupção tardia (embora eu situasse o desmoronamento na baixa Idade Média, em vez do tempo usual de Constantino, no século IV).
Martinho Lutero, eu reconhecia, havia descoberto na Sola Scriptura os meios para limpar as cracas católicas acumuladas na originalmente limpa e imaculada nau cristã. Newman, em contraste, destruiu a noção de uma nau sem cracas. As naus sempre têm cracas. A verdadeira questão era se a nau chegaria ao seu destino. A Tradição, para Newman, era como um leme e um timão, e era completamente necessária para a orientação e a direção. Como uma carta de navegação.
Newman demonstrou brilhantemente as características dos verdadeiros desenvolvimentos, em oposição às corrupções, dentro da Igreja visível e historicamente instituída por Cristo. Encontrei-me incapaz e sem vontade de refutar seu raciocínio, e uma peça crucial do enigma se havia encaixado em seu lugar — a Tradição era agora crível e evidente para mim. Assim começou o que de alguma forma se chamava uma “mudança de paradigma”. Enquanto lia o Ensaio, experimentei um peculiar, intenso e inexprimível sentimento místico de reverência pela ideia de uma Igreja “Una, Santa, Católica e Apostólica”. O Catolicismo era agora pensável, e eu caí de repente numa crise intensa. Eu cria agora na Igreja visível e suspeitava de que também era infalível. Uma vez que aceitei a eclesiologia católica, a teologia seguiu seu curso naturalmente, e eu a aceitei sem dificuldade (inclusive as doutrinas Marianas).
Meus amigos católicos vinham cultivando as terras rochosas de minha vontade e de minha mente tão teimosas durante quase um ano, enquanto plantavam as “Sementes Católicas”, que agora rapidamente criaram raízes e cresceram, para sua grande surpresa. Eu havia lutado mais arduamente justamente antes de ler Newman, num esforço desesperado para salvar meu Protestantismo, tanto quanto um homem que se afoga logo antes de sucumbir! Continuei a leitura, enquanto tentava agora ativamente convencer-me totalmente do Catolicismo, passando pela autobiografia de Newman, pelo livro de Tom HowardO Evangelicalismo não é suficiente, que me ajudou a apreciar o gênio da liturgia pela primeira vez, e dois livros de Chesterton (9) acerca do Catolicismo.
Mais ou menos nessa época tive uma conversa com um velho amigo, Al Kresta, que também havia sido meu pastor durante alguns anos e cujas opiniões teológicas eu tinha em altíssima consideração. Admiti diante dele que eu estava tremendamente em apuros com certos elementos do Protestantismo e que poderia, talvez (mas era uma noção improvável), estar pensando em tornar-me Católico. Para meu assombro, ele me disse que também estava indo na mesma direção, citando, em particular, o problema que a formulação e a definição do Cânon da Escritura representam para os protestantes e sua premissa de “Somente a Bíblia”.
Esses tipos de raros eventos “confirmados” ajudaram a criar um forte sentimento de que algo estranho simplesmente estava se sucedendo durante o período desconcertante antes de minha total conversão. Al estava em tal crise teológica (como eu estava) que renunciou ao seu pastorado dois meses após nossa conversa.
Também nesse momento tive o grande privilégio de encontrar-me com o padre John Hardon, o eminente catequista jesuíta, e comecei a assistir às suas aulas informais sobre a espiritualidade. Isso me deu a oportunidade de aprender pessoalmente de um sacerdote católico autorizado, que também é um homem encantador e humilde. Depois de sete semanas de, alternadamente, questionar minha sanidade e chegar a novos cumes de imensa descoberta, o último sopro de morte veio justamente na forma que eu vinha suspeitando. Soube que, se eu devia rejeitar o Protestantismo, então tinha de examinar suas raízes históricas: a autodenominada Reforma protestante. Eu havia lido previamente algum material acerca de Martinho Lutero, e o considerava um dos meus maiores heróis. Aceitei o mito comum de Lutero como o intrépido, o rebelde virtuoso contra a escuridão da tirania católica e a superstição acrescentada à “Cristandade Primitiva”.
filosofia foi liberal, acabou sendo um conservador e fundou um jornal para expor suas opiniões com seu amigo, o escritor Hilaire Belloc, também conservador. O estilo brilhante, vigoroso e agudo de Chesterton o tornou muito famoso. Embora não tenha se convertido ao catolicismo até 1922, quase todas as suas obras o defendem, assim como a ortodoxia em geral. (Extraído de MS Encarta 2003). Mas quando estudei uma grande parte do livro biográfico de seis volumes sobre Martinho Lutero, Lutero, do jesuíta alemão Hartmann Grisar, minha opinião sobre Lutero foi virada de cabeça para baixo. Grisar me convenceu de que os princípios fundamentais da Revolução protestante eram, no todo, débeis. Eu sempre havia rejeitado as noções de Lutero sobre a predestinação absoluta e a depravação total da humanidade. Agora compreendi que, se o homem tivesse livre-arbítrio, ele não teria por que ser declarado justo meramente num sentido judicial, abstrato, mas poderia participar ativamente de sua redenção e realmente poderia tornar-se justo pela Graça de Deus. Este, de certa forma, é o debate clássico sobre a Justificação.
Aprendi muitos fatos desfavoravelmente perturbadores acerca de Lutero; por exemplo, sua metodologia existencial sumamente subjetiva, seu desdém pela razão e pelo precedente histórico, e sua intolerância ditatorial para com os pontos de vista contrários, incluindo aqueles provenientes de seus próprios companheiros protestantes (10). Estas e outras descobertas estavam me atordoando, e me convenceram, para além de toda dúvida, de que ele realmente não era um “reformador” da Igreja “pura” e pré-nicena, mas antes um revolucionário que criou uma nova teologia em muitos aspectos, ainda que não em todos. O mito foi aniquilado.
Agora eu estava “cético” quanto ao conceito protestante comum da igreja invisível, “redescoberta”. No final, meu amor inato pela história desempenhou uma parte crucial em meu abandono do Protestantismo, que tende a prestar muito pouca atenção à história (como de fato é necessário para reter qualquer nível de verdade plausível contra o Catolicismo).
A esta altura, tornou-se, em minha opinião, um dever moral e intelectual abandonar o Protestantismo em sua forma evangélica. Ainda assim não era fácil. Os velhos hábitos e percepções custam a morrer, mas recusei-me a permitir que os sentimentos e preconceitos interferissem no maravilhoso processo de iluminação no qual predominou a graça de Deus. Esperei, expectante, o último ímpeto para render-me totalmente. O curso imprevisível da conversão chegou à sua culminação em 6 de dezembro de 1990, enquanto eu lia a meditação do Cardeal Newman sobre “A Esperança em Deus Criador”, e num instante compreendi de forma resoluta que eu já não devia opor resistência alguma à Igreja Católica. No final, como na maioria das experiências dos convertidos, um medo gelidíssimo toma seu lugar, semelhante aos tremores anteriores ao casamento. Num instante, esse último obstáculo desapareceu, e uma paz emocional e teologicamente tangível prevaleceu.
Nos três anos seguintes à minha conversão, ocorreram algumas coisas assombrosas em nosso círculo de amigos (não reclamo crédito para mim nesses casos, talvez uma pequena influência, mas sim a forma tão maravilhosa com que Deus move os corações das pessoas). Quatro pessoas retornaram à Igreja de sua infância e três, como eu, converteram-se do protestantismo de toda a vida. Estes incluem meu antigo pastor, Al, e sua esposa, Sally; um de meus melhores amigos e companheiro frequente na comunidade evangélica, e sua esposa Lori; o amigo de toda a vida de Dan, Joe Polgar, que havia estado virtualmente no paganismo por alguns anos; outro amigo, Terri Navarra, e a filha de um amigo, Tom McGlynn, Jennifer. Adicionalmente, outro casal que conhecemos havia se convertido à Ortodoxia Oriental, um segundo está pensando a sério no mesmo passo, e um terceiro casal pode converter-se ao Catolicismo. Nem é preciso dizer que muitos de nossos amigos protestantes veem esses acontecimentos com muda trepidação. Um de meus antigos pastores, no encontro mais acalorado que tive desde minha conversão, chamou-me de “blasfemo” porque eu cria que havia mais na Tradição Cristã do que simplesmente o que está contido na Bíblia! Outro bom amigo, que é um ministro batista, diz que, embora eu tivesse cometido um erro terrível, ainda estou salvo devido à sua crença na segurança eterna! Afinal de contas, graças a Deus, tem sido uma experiência bastante suave entre nossos amigos protestantes evangélicos. Muitos ignoram completamente nosso Catolicismo. Creio que todos os Católicos podem compartilhar estas experiências que vivi e que venho descrevendo, no sentido de que cada nova descoberta de alguma verdade católica é igualmente estimulante. À medida que todos nós crescermos em nossa fé, regozijemo-nos nas abundantes fontes de deleite, bem como nos instrutivos tempos de sofrimento que
Deus nos provê em seu Corpo, plenamente manifestado na Igreja Católica. Sinto-me muito em casa nela, tanto quanto se poderia esperar deste lado do céu.
AD MAIOREM GLORIAM DEI
Autor: Dave Armstrong
Notas
1 Famosíssimo mágico norte-americano do início do século XX.
2 Britânico de origem israelense que entortou uma colher sem tocá-la, apenas com a mente, ao vivo e a cores (que fera!)
3 “Jesus Freak”, com o perdão dos leitores e inclusive da pessoa de Dave, outro de tantos inventos norte-americanos e ingleses para convencer as pessoas sobre a soberania de Jesus Cristo Nosso Senhor em nossas vidas, mas caindo num sincretismo que beira o pagão e o vicioso. A pessoa de Jesus não precisa de tais espetáculos e doutrinas tão showbiz para ser proclamada. (nota do tradutor)
4 Grupo sectário pentecostal. É considerado em toda a Europa como seita perigosa e é proibido na Rússia. John Ashcroft pertence a esta seita e sua nomeação como Procurador-Geral dos EUA causou grande comoção na mídia (no Terceiro Mundo não, por quê?)
5 Sem mais nem menos. Este fenômeno está ocorrendo muito na América Latina, pois não há educação a respeito das seitas pentecostais. Autodenominam-se cristãos ainda em detrimento da verdadeira Fé Universal em Jesus Cristo.
6 (??????)
7 Catholic Answers, de John Keating. www.Catholic.com (deveria haver uma seção em espanhol <reclamação do tradutor>)
8 O Venerável John Henry Newman, escritor inglês. Campeão do Catolicismo na Inglaterra. Cardeal da Igreja em 1877. Seu lema cardinalício: Ex umbris et Imanigibus ad Veritatem(Das sombras e das imagens à Luz que dá a Verdade)
9 Gilbert Keith Chesterton (1874-1936), escritor inglês, nascido em Londres. Embora no início sua
10 Entre outras coisas, mandou queimar anabatistas e seu líder Thomas Müntzer e pendurá-los nos capitéis dos templos (?!). Escreveu um manual sobre como fazer uma Noite dos Cristais Quebrados e genocídios. 400 anos depois, seu filho espiritual o fez na Alemanha. Abandonou os camponeses e uniu-se ao Estado (Extraído de My Beliefs de Hermman Hesse) (Nota do tradutor, que também o considerava um herói).