Um ex-membro da sede mundial das Testemunhas de Jeová no Brooklyn e sua esposa foram recebidos na Igreja Católica em 2006. Esta é a história desde o princípio
Meus pais foram batizados como Testemunhas de Jeová na primavera de 1954, logo depois do meu quarto aniversário. Meu pai, na época um rancheiro — daqueles de antigamente — dedicado à criação de gado, cresceu sem frequentar nenhuma igreja. Minha mãe tinha sido até então nominalmente metodista, sem frequentar a igreja com muita regularidade. Sentiram-se atraídos pela versão do cristianismo que a Watchtower lhes oferecia e aderiram a essa crença com muito entusiasmo.
Em cerca de dois anos, convencidos de que o fim do mundo (o Armagedom) se aproximava, venderam sua casa em Phoenix, Arizona, e se ofereceram como voluntários para se mudar para um lugar “onde a necessidade de pregadores é maior”. Em 1956, meu pai foi nomeado superintendente da congregação de Cottonwood, no Arizona, que naquela época consistia apenas em nossa família e uma Testemunha de idade avançada. Em 1960, o grupo já havia crescido e era uma pequena mas muito dedicada congregação de uma dúzia de famílias. Papai reavivou o espanhol aprendido no ensino médio e começou um pequeno grupo de estudo da Bíblia entre os hispânicos de Cottonwood. Depois, a pedido da Watchtower, mudamo-nos para El Centro, uma cidade do sul da Califórnia, onde meu pai serviu como superintendente de uma congregação de língua espanhola.
Minha mãe e eu começamos a estudar espanhol. Eu o aprendi com bastante facilidade, mas ela teve muitas dificuldades para aprendê-lo e nunca chegou a falá-lo com fluência. Alguns anos depois, pediram-nos novamente que nos mudássemos para uma pequena congregação de língua espanhola no Arizona. Depois de me formar no ensino médio em 1967, dediquei-me ao ministério de tempo integral (pioneiro). Como resultado, fui classificado como Ministro Religioso perante a junta local de recrutamento das forças armadas e fui dispensado do serviço militar. No verão de 1968, por sugestão de meus pais, apresentei minha solicitação para trabalhar na sede mundial das Testemunhas de Jeová no Brooklyn, Nova York. Fui aceito para começar em 14 de novembro de 1968.
Progresso no Brooklyn
No Lar de Betel (como normalmente se chama a sede do Brooklyn), apliquei-me com diligência ao meu trabalho. Estava decidido a aprender o máximo possível sobre os ensinamentos da Watchtower. Minha disposição de me entregar ao trabalho e uma aptidão natural para ele fizeram com que me fossem confiadas outras responsabilidades geralmente reservadas a pessoas mais velhas do que eu.
Pouco depois da minha chegada a Betel, meus pais começaram o ministério de tempo integral (serviço de pioneiro). Meu pai foi convidado a ser superintendente de circuito (pregador viajante) e assim se dedicou a visitar as congregações de língua espanhola no sudoeste e no nordeste dos Estados Unidos por uns dez anos.
Em Nova York, fui designado membro da comissão de serviço da minha congregação local aos dezenove anos e, depois, ancião em 1971, aos vinte e um anos. No ano seguinte, fui nomeado “ancião betelita”. Como tal, coube-me falar nas conferências e assembleias públicas como representante da Watchtower. Aos vinte e sete anos, fui o orador principal na assembleia de distrito de Roanoke, Virgínia. Em Betel, fui designado para trabalhar no grande linotipo que produzia a revista “A Sentinela”. Um ano depois, fui nomeado supervisor de uma série de linotipos. Aos vinte e sete anos, fui nomeado superintendente da oficina de impressão. Cultivava amizades com membros maduros e responsáveis de Betel, muitos deles escritores ou pessoas que trabalhavam em outros escritórios importantes aos quais eram designadas as Testemunhas mais leais e mais bem formadas. Naquele tempo, costumava conversar com eles sobre os ensinamentos da Sociedade e o funcionamento da organização.
No fim de 1973, voltei a encontrar uma jovem e encantadora mulher chamada Gloria, que também era betelita e a quem eu havia conhecido pouco depois de sua chegada a Betel, em 1971. Namoramos por um tempo, apaixonamo-nos e nos casamos em 25 de maio de 1974. Gloria, assim como eu, era uma fervorosa entusiasta da Sociedade Watchtower e uma pessoa muito trabalhadora. Ambos havíamos decidido dedicar completamente nossas vidas como membros da sede principal durante os poucos anos que restavam antes que chegasse o fim do mundo no Armagedom. Nós dois aprendemos francês e nos oferecemos para trabalhar com Testemunhas de língua francesa, em sua maioria haitianos, em Newark, Nova Jersey.
Surgem dúvidas inquietantes
Embora tivesse sido Testemunha por quase 10 anos (batizei-me em 1959), nunca havia lido a Bíblia por inteiro. Decidi então fazê-lo. Isso suscitou muitas dúvidas que rondavam os meus pensamentos. Quanto mais eu lia, mais contradições encontrava entre as explicações simples que as Escrituras ofereciam e as minhas crenças como Testemunha. No início, atribuí minha falta de compreensão à minha juventude e inexperiência. Mas, com o passar do tempo, o respeito e a confiança que meus pares me conferiam começaram a aumentar. A essa altura, comecei a falar com cautela sobre minhas dúvidas a respeito da Bíblia com membros mais velhos e bem respeitados da sede principal. Surpreendeu-me descobrir que havia muitos deles com os mesmos problemas que eu, e também a maneira aberta com que falavam desses assuntos. Comecei a olhar para os ensinamentos da Watchtower de diferentes pontos de vista a partir da publicação do livro “Ajuda ao Entendimento da Bíblia” em 1971. Produziram-se mudanças na organização que deixaram a porta aberta ao exame de outros ensinamentos fundamentais. Eu me perguntava: “se nos equivocamos ao pensar que certas atividades estavam solidamente baseadas nas Escrituras, não poderíamos acaso estar equivocados também nas doutrinas?” Eu não era o único a se perguntar essas coisas. Durante a década de 70, uma quantidade crescente de pessoas sinceras da sede principal começou a ler outras traduções bíblicas além da Tradução do Novo Mundo da Watchtower, e também comentários bíblicos. Começamos a nos reunir em grupos informais nos quais estudávamos e debatíamos abertamente, sem a “assistência” das publicações da Watchtower. Em 1979, convenci-me de que não havia como conciliar alguns ensinamentos-chave da Watchtower com a Bíblia. No entanto, ainda confiava que Deus estava guiando a organização, de modo que eu acreditava que grandes mudanças se aproximavam. Aguardei-as com ansiosa expectativa. Por outro lado, minha esposa Gloria estava descontente em Betel. Suas dificuldades não eram principalmente de índole doutrinária, mas tinham a ver com a maneira como as pessoas eram tratadas. Ela desejava deixar Betel para ter filhos. A meu ver, a cronologia da Watchtower era correta. Portanto, eu não conseguia entender por que todo mundo queria ir embora faltando já tão pouco para o fim do mundo.
Mencionei o assunto a um amigo de confiança do Corpo Governante, Ray Franz. Ele me deu uma cópia de uma carta que havia sido escrita à Sociedade Watchtower por Carl Olof Jonsson, uma Testemunha membro do corpo diretivo da Suécia. Jonsson apresentou provas irrefutáveis de que a cronologia da Watchtower continha erros graves. A lógica que utilizava e a documentação que apresentava eram sólidas e de grande erudição. Li as evidências repetidas vezes. Finalmente, convenci-me. O que era difícil de aceitar não era o erro em si mesmo, mas a sua consequência: a cronologia era e é absolutamente essencial para sustentar a afirmação da Sociedade Watchtower de que ela é o “canal de comunicação” de Deus com a humanidade no breve período anterior ao fim do mundo. Comecei a considerar seriamente a possibilidade de que a Sociedade Watchtower não fosse o que afirmava ser. Parecia haver a certeza de que os líderes da Sociedade, no melhor dos casos, haviam sido induzidos ao erro, ou, no pior dos casos, eram hipócritas e falsos profetas. Embora eu tivesse desfrutado muitíssimo de estar a seu serviço e amasse de verdade meus irmãos e irmãs Testemunhas, parecia praticamente certo que minha partida definitiva era inevitável.
Assim morreu em mim o desejo de apoiar ativamente algo em que eu já não acreditava. Minha função na sede principal havia chegado ao fim. Em meio a esse período de confusão, meus pais vieram do Texas a Nova York para nos visitar. Por causa de alguns comentários que fiz sobre a excomunhão de alguns de nossos amigos íntimos, eles intuíram que minha anterior atitude incondicional de apoio à organização estava mudando. Assegurei-lhes que nunca abandonaria a Deus, a Jesus Cristo ou a Bíblia, mas que não podia negar que tinha sérias dúvidas relacionadas à autoridade da organização. Mas, já sem a fé na cronologia da Watchtower, não existia nenhum motivo para adiar nosso desejo de formar uma família. Decidimos sair de Betel o mais rápido possível. Partimos em 15 de julho de 1980. Eu ainda não estava preparado para me afastar de toda a minha comunidade. Toda a nossa vida estava ligada às Testemunhas de Jeová. Também tinha a impressão de que estaríamos em uma situação mais favorável para que nossos pais compreendessem como minha forma de pensar havia mudado se ainda mantivéssemos um relacionamento. As coisas não saíram como eu esperava. Esse foi o começo de um profundo distanciamento que durou um quarto de século. Continuou aumentando até que me vi quase completamente isolado de meus pais. Nunca pude me reconciliar com meu pai antes de ele falecer em 2002. Ainda o amo e sinto sua falta. Tudo estava prestes a dar uma virada total. Tínhamos de recomeçar nossas vidas. Não tínhamos dinheiro, pois eu havia passado os doze anos anteriores como voluntário sem salário. Havia estudado muito e tinha experiência de trabalho e conhecimentos técnicos, mas não tinha diploma universitário. Pedi 300 dólares emprestados ao meu sogro para me mudar para Lancaster, Pensilvânia, com o pouco que tínhamos. Vivemos com os pais de Gloria durante dez semanas até que consegui um emprego e um lugar para morar.
Expulso (excomungado) da irmandade das Testemunhas de Jeová
Tivemos de deixar a sede principal por vontade própria, mas a organização ainda me tinha em grande estima, de modo que, pouco depois de chegar à Pensilvânia, fui nomeado membro do corpo de anciãos. Eu tinha dúvidas, mas não encontrava motivos para me afastar das Testemunhas de Jeová, desde que minha relação com elas não exigisse descumprir o que a consciência me ditava. No entanto, descobri que essa meta era cada vez mais difícil, já que a tendência geral das publicações da Watchtower durante aqueles meses consistia em advertências contra os que não concordavam com seus ensinamentos, aos quais rotulava de “apóstatas” e merecedores da condenação eterna. Depois de aproximadamente um ano, renunciei ao meu cargo de ancião. A essa altura, tínhamos um filho, Matthew, que havia nascido em 9 de agosto de 1981. Cerca de um ano e meio depois, os membros do conselho da congregação de Lancaster pediram para falar com Gloria e comigo depois da habitual Reunião de Serviço das quintas-feiras à noite. Acabou sendo uma sessão judicativa informal. Interrogaram-me (na presença de Gloria) durante mais de uma hora sobre se eu tinha algumas “dúvidas”. O único tema específico sobre o qual fui interrogado era se eu acreditava ou não que a Sociedade Watchtower era uma organização de Jeová. Respondi que Deus havia agido por meio das Testemunhas de Jeová, mas que não estava disposto a se limitar a agir exclusivamente por meio delas. Ele é Deus, afinal de contas, declarei, e pode fazer tudo o que quiser. A reunião terminou sem que se tomassem medidas.
Embora tivéssemos sido bastante ativos na congregação por mais de dois anos e meio, poucos, se é que havia alguém, sabiam que tínhamos dúvidas. Não obstante, em menos de dois dias, muitos tinham ouvido que éramos “céticos”. Pediram-nos que comparecêssemos a outra breve reunião umas duas semanas depois. Os membros do conselho nos fizeram saber que, como nossas dúvidas eram “vox populi” na congregação, tinham de tomar alguma medida. Mencionei que nenhuma pessoa da congregação sabia nada de nossas dúvidas antes de os anciãos se reunirem conosco. Era óbvio que os próprios membros do conselho haviam difundido essa ideia depois da nossa reunião. A esposa de um ancião havia mencionado a uma cunhada de Gloria alguns detalhes da reunião. Um dos membros do conselho respondeu: “Como a informação veio a ser conhecida não é o que interessa. Agora que é de domínio público, devemos tomar medidas”. Anunciaram sua decisão de nos expulsar. Isso significava que se exigiria de nossa família e amigos que nos rejeitassem; caso contrário, também seriam expulsos. Ficamos com a impressão de que a decisão de nos expulsar havia sido tomada antes de se reunirem conosco, com base em fatores que não eram nem provas nem o nosso próprio testemunho. Era evidente que de nada serviria apelar da decisão. Assim terminaram quase três décadas de nossa relação com as Testemunhas de Jeová. Nossa comunidade religiosa nos havia rejeitado e agora estávamos sós.
Deus age por meio de uma organização?
Apesar da forma como fomos tratados, havia muitas coisas admiráveis nas Testemunhas que eu tinha certeza de que estavam corretas. Eu havia descoberto o erro, mas o que queria era a verdade. Precisava de alguma maneira confiável de saber quais ensinamentos da Watchtower eram verdadeiros e quais eram falsos. Como um dia acreditei que Deus usava a organização da Watchtower como canal exclusivo para se comunicar com seus fiéis, concentrei minhas reflexões nesse tema. Minha esperança era poder escrever um ensaio que ajudasse meus pais (mais do que tudo) a entender por que eu havia modificado algumas das minhas opiniões sobre a Sociedade Watchtower. Usando minha concordância e o dicionário bíblico, comecei a buscar minuciosamente nas Sagradas Escrituras evidências sobre se Deus alguma vez havia usado ou não alguma organização como instrumento oficial para se comunicar diretamente com a humanidade.
Concluí que não, e publiquei meu ensaio em um artigo que intitulei “Deus age por meio de uma organização?”. Com os anos, foi traduzido para vários idiomas e teve uma circulação bastante ampla entre as Testemunhas que se separavam da organização, especialmente quando a Internet começou a ser usada massivamente. Embora naquele momento eu tenha agido sem sentimento de culpa, sinto um pouco de tristeza pelo êxito que tive e devo aceitar o fato de que meus escritos provavelmente induziram muitos ao erro. Inicialmente, eu não entendia a diferença entre as organizações humanas e a verdadeira igreja, o Corpo de Cristo. Mais tarde, corrigi meu artigo para demonstrar que Cristo estava organicamente unido ao Seu Corpo, o que não acontecia com as organizações humanas. Mas ainda tinha muito que aprender sobre o que Jesus havia iniciado e preservado: uma igreja visível; um corpo vivo no qual Ele habita.
Uma mão estendida aos ex-Testemunhas
Depois de deixar Betel, mantive contato com amigos ex-Testemunhas e fiz amizade com alguns novos. Começou a formar-se uma rede cada vez maior, por meio da qual se trocavam palavras de consolo e encorajamento. Durante o verão de 1983, meu amigo Peter Gregerson convidou a nós e a várias Testemunhas para uma reunião, na qual se decidiu dar caráter oficial ao grupo na forma de um ministério. Chamamos nosso grupo de “Biblical Research and Commentary Incorporated”, BRCI para abreviar. O objetivo era produzir materiais e proporcionar apoio às Testemunhas que se separavam, para facilitar-lhes a penosa transição da Sociedade Watchtower para o “mundo exterior”. No verão seguinte — em 1984 — a primeira de várias reuniões anuais foi realizada em Gadsden, Alabama.
Muitas Testemunhas expulsas têm familiares ou cônjuges que ainda continuam leais à organização. Parecia-nos que um nome mais ou menos neutro poderia facilitar o envio de materiais a alguém sem alertar os familiares que eram Testemunhas para o fato de que o destinatário estava falando com um ex-Testemunha, o que era terminantemente proibido. Pelo que me lembro, Ray Franz sugeriu o nome, embora nunca tenha sido membro da diretoria da BRCI.
Estabelecemos uma linha telefônica confidencial de ajuda para confortar as pessoas que se sentiam feridas por deixar a organização da Watchtower. Pouco depois de sua publicação, meu artigo sobre a Organização era sempre incluído no pacote informativo enviado aos que ligavam para a Linha de Ajuda da BRCI. Experiência eclesiástica
Durante aproximadamente os primeiros sete anos, Gloria e eu lemos e estudamos a Bíblia por conta própria ou com outros ex-Testemunhas com quem nos reuníamos semana sim, semana não, em um pequeno grupo de apoio. Formamos fortes laços sociais com esses queridos amigos, mas nosso crescimento espiritual foi lento. Geralmente, nossos debates se centravam mais em coisas que um dia acreditamos serem verdade, mas que havíamos rejeitado. Muitas vezes voltávamos ao mesmo assunto cada vez que nos reuníamos. Finalmente, Gloria disse: “Já estou cansada de examinar repetidamente as mesmas coisas de sempre. Quero aprender algo novo e verdadeiro sobre Cristo!” Também já havia chegado nosso segundo filho, James, nascido em 22 de novembro de 1986. À medida que nossos filhos começavam a crescer, sentíamos cada vez mais a necessidade de encontrar cristãos que cressem na Bíblia com os quais nossos filhos pudessem conviver.
Muitas das crianças do nosso bairro eram educadas como humanistas seculares e não compartilhavam nem nossos princípios cristãos nem nossos pontos de vista sobre a importância de agradar a Deus. Experimentamos uma igreja local e logo ficamos amigos do pastor e de sua esposa. Quando ele soube do meu currículo, pediu-me que assumisse uma classe de escola dominical para adultos. Surpreendeu-me que não me pedisse mais detalhes sobre minhas verdadeiras crenças. Nem sequer assistiu à aula para ver o que eu ensinava. Isso me pareceu estranho, pois, para mim, a precisão doutrinária ainda era importante. Mas eu sempre ensinava a “ortodoxia”, no sentido de que podia respaldar meus ensinamentos tanto a partir das Sagradas Escrituras quanto a partir de comentários protestantes respeitados. Nem Gloria nem eu jamais nos tornamos membros daquela igreja. Não queríamos nos incorporar a nenhuma organização religiosa. Depois de ensinar ali por cerca de um ano, o pastor, a contragosto, pediu-me que deixasse meu posto de professor, pois achava que não podia ter alguém que desse aulas e que, ao mesmo tempo, não fosse membro da igreja. Creio que ele tinha razão. Foi uma boa experiência em termos gerais. Começamos a fazer amigos cristãos. Ficamos sabendo que nem todos os cristãos evangélicos estavam totalmente convencidos da verdade doutrinária como nós estávamos. Buscávamos uma comunidade de crentes que tivesse muitas crianças e uma grande quantidade de programas para elas. Finalmente, fomos nos adaptando pouco a pouco a uma irmandade batista evangélica independente. Ali conhecemos muitos cristãos excelentes e rapidamente nos envolvemos em atividades eclesiásticas. Alguns meses depois de começarmos a nos associar àquela igreja, novamente me pediram que desse aulas bíblicas para adultos, atividade que desempenhei ininterruptamente durante catorze anos.
Lições de História
No fim da década de 90, comecei a trabalhar em outro artigo com o objetivo de complementar o que havia escrito sobre a organização. Minha intenção era ajudar ex-Testemunhas a encontrar outros crentes e a se relacionar com eles. Queria que se sentissem à vontade, ajudando-os a compreender que muitas igrejas atuais ensinam e prestam culto de forma semelhante aos discípulos do século primeiro. Pensei que seria útil mostrar como eram os primeiros cristãos, como estavam estruturadas suas congregações, como viviam e prestavam culto e em que aspectos se diferenciavam dos ensinamentos e da prática das Testemunhas de Jeová. Queria que compreendessem que viver como cristãos era o que mais importava e os encorajava a se unir a qualquer irmandade cristã centrada na Bíblia.
Comecei usando somente as Escrituras e logo me dei conta de que muitas coisas que se ensinam e praticam nas igrejas não podem ser fundamentadas diretamente a partir das Escrituras somente. Acabei comprando livros de história — com o tempo, obtive dezenas deles — além de fazer muita pesquisa na Internet. Quando terminei de escrever “Onde está o Corpo de Cristo?”, recebi alguns comentários gentis. Mas o que eu ia descobrindo suscitava em minha mente muito mais perguntas do que respostas.
Uma mudança de visão fundamental
Enquanto pesquisava, comecei a encontrar por acaso referências aos “Primeiros Padres da Igreja”. Praticamente todos os eruditos, tanto católicos quanto protestantes (exceto alguns eruditos modernos), demonstravam grande respeito por eles. Naquele momento, eu tinha apenas uma ideia muito vaga de quem eram. Quando fiquei sabendo, no fim dos anos 90, que meu amigo David Bercot havia publicado um Dicionário das Crenças dos Primeiros Cristãos, comprei um exemplar. Dei uma olhada, mas não li muito. Tinha minhas próprias ideias sobre como era a igreja dos primeiros cristãos e de que maneira criam e prestavam culto. Quase vinte anos depois de ter abandonado a Sociedade Watchtower, eu ainda acreditava que, pouco tempo depois do século primeiro, a fiel igreja apostólica dos primeiros cristãos havia se transformado na corrupta Igreja Católica Romana. Os Reformadores, como soube depois, tinham um ponto de vista semelhante, exceto que situavam a data da “grande apostasia” no século quarto ou quinto, ou ainda mais tarde. No entanto, tanto Lutero quanto Calvino acreditavam que a igreja antenicena era realmente autêntica. Um dos objetivos da Reforma foi devolver à igreja sua pureza original, imaculada, antenicena. Isso me fez pensar nas consequências do conceito da “grande apostasia”. O corolário dessa doutrina é que Jesus não teve uma congregação de discípulos fiéis, nenhuma organização visível ou igreja na terra, durante um período prolongado, possivelmente vários séculos, até que algum indivíduo (Martinho Lutero, João Calvino, John Wesley, Joseph Smith, Charles Russell ou qualquer outro), baseando-se somente nos escritos dos primeiros cristãos, os compreendeu corretamente e “restaurou” o verdadeiro cristianismo apostólico na terra. Finalmente concluí que esse ponto de vista era indefensável. Porque significaria que a maioria das pessoas que viveram entre a apostasia e a “restauração”, sempre que esta supostamente ocorresse, praticamente não teria nenhuma oportunidade de se converter em verdadeiros cristãos, dado que, ao que parece, ninguém era capaz de reconhecer “as verdades simples que se ensinam na Bíblia” até que aparecessem os reformadores.
A igreja: visível ou invisível?
Também comecei a pensar seriamente sobre como deve ser a verdadeira igreja de Jesus Cristo. Devido à minha própria experiência, não me custou aceitar o ponto de vista da “igreja invisível”, na qual todos os membros da “única santa igreja católica e apostólica” se encontram espalhados por todas as confissões cristãs do mundo, e que é composta pelos homens e mulheres de cada comunidade cristã que realmente levam a fé a sério e procuram viver de acordo com as Sagradas Escrituras. A maioria das comunidades de fé que vi estava aparentemente repleta de pecadores que não praticavam sua fé. Mas, enquanto pensava nisso, comecei a me dar conta de que essa perspectiva apresentava problemas insuperáveis. Uma igreja invisível é uma “comunidade” de pessoas dispersas que não se conhecem nem estão em contato umas com as outras. Na realidade, carece totalmente de características visíveis (porque, afinal, é invisível). Não podemos saber nada de seguro sobre uma igreja assim: onde estão, em que creem, como prestam culto. Concluí que tudo era questão de imaginação. É como queremos que seja, já que não existe nada real com que possamos compará-la. É uma igreja que interpretamos à nossa maneira. E o mais importante é que não se parece absolutamente em nada com a igreja descrita no Novo Testamento, que estava cheia de pessoas reais, santos e pecadores. Possuía uma estrutura que incluía presbíteros, diáconos e discípulos de Cristo que se submetiam, em maior ou menor grau, à sua liderança. Cada congregação dos fiéis de Deus descrita nas Escrituras não é somente visível: é humana, com todos os problemas que existem em qualquer família, clube ou comunidade de seres humanos em qualquer lugar. De que outra maneira poderia qualquer igreja ser o sal e a luz da comunidade? De que outra maneira poderiam os não crentes ver suas boas obras e glorificar a Deus? Até os reformadores, embora rejeitassem a autoridade de Roma, reconheciam a existência e a necessidade de um conjunto visível de crentes. Continuei lendo livros de história, assim como os escritos dos primeiros cristãos. Eu os considerava representações precisas do que o conjunto principal dos antigos cristãos cria e praticava. Surpreendeu-me que tantos conceitos e ensinamentos que eu antes rejeitava me tivessem sido apresentados de forma incorreta, e até desonesta, na Watchtower e na literatura evangélica, apresentando-os como se fossem ilógicos ou contrários às Sagradas Escrituras. Tal como os apresentavam os primeiros cristãos, geralmente faziam mais sentido e correspondiam melhor às Escrituras do que muitas das explicações que eu havia lido em comentários. Comecei a aceitar uma quantidade cada vez maior de ensinamentos que ali encontrava, simplesmente porque eram claros, maduros e se ajustavam às Escrituras. Um por um, analisei esses ensinamentos comparando-os com as Sagradas Escrituras e, à medida que me convencia de sua validade, paulatinamente minha interpretação do cristianismo começou a mudar. A complexidade de certas passagens com que eu havia lutado durante anos começou a desaparecer lentamente. Realmente todas as peças começavam a se encaixar (pela primeira vez na vida). Toda a minha interpretação do cristianismo se modificou.
Sacramentos
Os primeiros cristãos acreditavam que o pão e o vinho servidos durante a comunhão, quando consagrados pelo presbítero, realmente se convertem no corpo e no sangue de Jesus Cristo. É claro que isso é exatamente o que Jesus diz claramente em João, capítulo 6. No entanto, a maioria dos protestantes considera que as palavras de Jesus são simbólicas. Nenhum dos primeiros cristãos as entendeu assim. Na realidade, com pouquíssimas exceções, nenhum cristão antes da Reforma Alemã sequer pôs em dúvida esse ensinamento. Essa foi minha introdução ao conceito de “sacramentos” da fé cristã: objetos materiais por meio dos quais Deus transmite a graça a seus fiéis. Nunca os ouvi mencionar entre Testemunhas ou cristãos evangélicos. Todo o conceito me parecia novo e estranho. Mas, à medida que lia, orava e pensava nisso, o assunto fazia cada vez mais sentido. Em síntese, o culto sacramental ensina que Deus age por meio de coisas simples como água, pão, vinho e óleo. Esses objetos materiais, quando consagrados e empregados na igreja que Jesus fundou, transformam-se nos meios pelos quais a graça de Deus se comunica aos seres humanos. Desempenham um papel fundamental na cura e nos devolvem à plena comunhão com nosso Pai Celestial. Segundo essa perspectiva, Deus age por meio de sua criação, e não à margem dela ou apesar dela. No início, eu pensava que isso estava totalmente distante das Escrituras. Mas então, guiado pelos primeiros cristãos, comecei a encontrá-lo em todas as partes da Bíblia. Um exemplo: Naamã, um leproso sírio, foi curado obedecendo à ordem de Eliseu (diga-se de passagem, transmitida por um criado ávido de ganhos) de banhar-se sete vezes no rio Jordão. A água não era mágica, mas Naamã teve de obedecer à ordem e banhar-se naquela água para ser curado (1 Reis 5).
Os primeiros cristãos acreditavam que as águas do batismo tinham o poder de lavar ou eliminar o pecado dos novos discípulos (Atos 22,16), tal como haviam eliminado a lepra de Naamã. Outros exemplos: Jesus curou um cego fazendo lodo, colocando-o em seus olhos e ordenando-lhe que se lavasse na piscina de Siloé (João 9,6-11). Uma mulher que confiava que seria curada se apenas tocasse a orla da veste de Jesus curou-se verdadeiramente. O tecido não era mágico, mas, em conjunção com sua fé, transformou-se no meio pelo qual ela recebeu o poder de Jesus (Mateus 9,20-22). Enquanto relia as Escrituras, surpreendeu-me ver quantos relatos das obras poderosas realizadas por Jesus e pelos apóstolos implicavam ações físicas, como tocar ou soprar sobre os que as recebiam, ou objetos usados, como pão, peixe, óleo ou vinho. Uma descoberta impactante! Por essa época, eu estava curiosando numa liquidação de livros usados e vi um exemplar do Catecismo Católico à venda por uns centavos. Comprei-o e comecei a ler. Fiquei impactado com o que havia encontrado! A explicação católica da fé e dos princípios morais cristãos, inclusive a salvação, o batismo, a redenção e a expiação dos pecados, parecia-se muito mais com a da igreja dos primeiros cristãos do que com a de qualquer comentário protestante que eu havia lido. Com bastante frequência, referia-se aos primeiros cristãos como fonte de autoridade. Daquele ponto em diante, comecei a considerar seriamente a Igreja Católica Romana. Surpreendeu-me descobrir como seus ensinamentos e práticas guardavam estreita relação com a perspectiva dos primeiros cristãos. Mas como eu podia explicar a existência de muitos católicos que aparentemente não levavam a sério o cristianismo? No início, aceitei o conceito com certa dificuldade, mas, enquanto pensava e orava, lembrei-me de que Deus usou o antigo Israel como “recipiente” da autorrevelação divina transmitida por meio de Moisés durante mais de quinze séculos, ainda que a maioria dos israelitas, e até suas autoridades, fossem infiéis. Não poderia ter feito o mesmo com a igreja universal que Cristo fundou?
A Sagrada Tradição
Eu havia ficado sabendo, principalmente por fontes judaicas, que grande parte da prática judaica havia sido transmitida durante séculos de forma oral. Moisés comunicou as normas da Lei Mosaica aos israelitas no Sinai. Mas nem tudo foi posto por escrito. As tradições orais foram postas em forma escrita pela primeira vez (no Talmude e na Mishná) depois da destruição do segundo templo, no século primeiro d.C. É claro que Jesus disse que os fariseus haviam “anulado a palavra de Deus com suas tradições”. Mas me dei conta de que ele não queria dizer que toda tradição era negativa, somente aquelas que o homem havia criado e que estavam em conflito com a revelação divina. As Sagradas Escrituras dizem claramente que Cristo revelou a seus discípulos muitas coisas que não foram escritas (João 21,25). Também dizem que “a igreja” (e não as Sagradas Escrituras) é a “coluna e sustentáculo da verdade”. O que Jesus ensinou oralmente a seus discípulos não foi “acrescentado às Escrituras” pelos apóstolos. Era ensinado oralmente aos novos discípulos que eles faziam. As Escrituras eram redigidas dentro de um quadro eclesiástico em pleno funcionamento, no qual cada ensinamento cristão havia sido transmitido oralmente por décadas. Quando o apóstolo Paulo escrevia epístolas às congregações, já havia antes dedicado muito tempo a ensiná-las oralmente. Suas cartas podiam deixar, e muitas vezes deixavam, muitas coisas sem expor. As cartas de Paulo tratam majoritariamente de contingências e problemas que requeriam seu conselho, e não dos ensinamentos e práticas que todos conheciam e que haviam sido ensinados oralmente antes.
Momento decisivo: Seguimos Adiante na Fé
Finalmente fomos recompensados, e a evidência mostrou-se conclusiva. Minhas pesquisas sobre a história da igreja dos primeiros cristãos permitiram-me adotar uma perspectiva católica sem a interferência dos meus antigos preconceitos contra a Igreja Católica. O que íamos encontrando nos ensinamentos dos católicos era incrível: ensinamentos profundos, atraentes, respaldados pela história e de lógica coerente, que se ajustam às Escrituras e que são gratificantes não só para a mente, mas também para o coração. Agora sentimos que fizemos parte desse caminho durante todos esses anos. Descobri que os escritos de outros convertidos ao cristianismo católico foram de grande utilidade. Admito que havia examinado o tema muito vagamente ao estudar o cristianismo.
Muitos teólogos católicos são gigantes espirituais. Lendo-os, aprendi tanto sobre Deus e suas peculiaridades que eu jamais soube que existiam! Li “The Everlasting Man”, de G. K. Chesterton, que influiu na conversão de C. S. Lewis ao cristianismo. Seus livros “Orthodoxy”, “Heresy” e “Conversion” verdadeiramente me tocaram o coração. Os apologistas católicos têm profundo respeito por C. S. Lewis, embora ele fosse anglicano, já que sua teologia é praticamente ortodoxa. “A Map of Life, Theology for Beginners and Theology and Sanity”, de Frank Sheed, é claro e conciso. Os livros de convertidos ao catolicismo contemporâneos, como Jimmy Akin, Thomas Howard, Karl Keating, Scott Hahn, Dave Armstrong e Peter Kreeft, são especialmente úteis para enfrentar as dúvidas que os protestantes têm sobre a fé católica. “Catholic Christianity and his Christian Apologetics”, do Dr. Kreeft e Ron Tacelli, são mais claros e exaustivos do que qualquer defesa protestante do cristianismo que eu jamais tenha lido. Essas pessoas estão no caminho certo, pensei ao lê-las. Pensam com muito mais profundidade do que eu sobre a maioria das questões e estão dispostas a arriscar suas vidas e carreiras para seguir a verdade onde quer que ela esteja. Durante muito tempo, cometi o erro de julgar os ensinamentos católicos baseando-me em pessoas católicas, a maioria das quais (como seus primos protestantes) é bastante indiferente no que diz respeito à teologia. Mas, depois de aceitar a evidência histórica de que a fé católica era a expressão original e mais plena do cristianismo, e de que não se devia julgar a igreja inteira pelo comportamento de alguns pecadores, minha perspectiva mudou. Comecei a ler escritos católicos com entusiasmo. As explicações católicas do cristianismo ajustam-se às Escrituras, ao mundo real e ao coração do ser humano. Creio com toda a honestidade que qualquer pessoa que as siga fielmente se transformará em um homem ou uma mulher de Deus. Os ensinamentos do catolicismo são sólidos, plenos e retos. Chegamos a eles lenta e cuidadosamente, seguindo a verdade e identificando e rejeitando o erro. Compartilhei com Gloria as coisas que estava lendo. Ela também as leu e refletiu. Falamos sobre algumas coisas, mas eu não queria pressioná-la a tomar uma decisão, e sim que decidisse por conta própria. Ela continuou lendo e, um dia, simplesmente disse: “Deveríamos nos converter ao catolicismo”. (Ela havia sido batizada como católica ao nascer.) Consumamos nosso desejo de fazer parte desta venerável Igreja reunindo-nos com nosso pároco, o padre James Cronin, durante vários meses, com o propósito de examinar os ensinamentos católicos. Fomos admitidos no seio da Igreja Católica Romana na sexta-feira, 9 de junho de 2006. Estamos emocionados por ser católicos e nos alegra compartilhar as coisas boas que encontramos com qualquer um de nossos antigos companheiros cristãos evangélicos ou com nossos novos companheiros católicos. Sentimo-nos completamente felizes dentro da Igreja que Jesus Cristo fundou. Chegamos ao lar.
Autor: Tom Cabeen
Fonte: Voxfidei.com