O que vocês vão ler aqui é um testemunho dividido em duas partes. A primeira é a história da minha conversão à Ortodoxia. A segunda, o testemunho da minha volta à Igreja Católica.
Ortodoxo pela graça de Deus (21-5-99)
…para que saibas como deves portar-te na casa de Deus, que é a Igreja do Deus vivo, coluna e sustentáculo da verdade. (1Tm 3,15)
e sujeitou todas as coisas debaixo de seus pés, e o constituiu cabeça sobre todas as coisas para a Igreja, A QUAL é o seu corpo, A PLENITUDE daquele que enche todas as coisas em todos. (Ef 1,22-23)
Muita água passou debaixo da ponte desde que, há 10 anos, o Senhor houve por bem resgatar-me do naufrágio em que a minha vida tinha se transformado. Depois de uma infância na qual tive experiências preciosas com Ele, eu havia me tornado carne para os predadores da Nova Era e do ocultismo. Certamente o diabo era o leão que ruge, que havia encontrado uma presa para devorar (1Pd 5,8). Mas Cristo veio em meu resgate e me libertou das garras do inimigo. Logo encontrei uma igreja evangélica em que me congregar. Pouco depois do meu reencontro com Deus, minha esposa também aceitou o Senhor, e juntos empreendemos o caminho de ser cristãos evangélicos na Amistad Cristiana de Madri. Nos 6 anos seguintes tivemos a bênção de crescer nessa congregação. A Amistad Cristiana era como uma pequena família, onde encontramos verdadeira irmandade. O homem que era nosso pastor, Gregorio Jacob, teve que sofrer bastante por causa do cabeça-dura que eu era e das minhas dificuldades para amadurecer como cristão. Só Deus sabe o quanto agradeço ao Greg todas as coisas que fez por mim e pela minha família. Mas não só ele: irmãos como Flores, Lupita Campos e muitos outros foram verdadeiras bênçãos do Pai para a minha vida. Deus nos permitiu ver o seu poder na vida de um irmão muito especial, Miguel, que foi homossexual ativo durante muitos anos de sua vida, mas que, graças à redenção de Cristo e à santificação do Espírito Santo, pôde abandonar esse mundo de miséria e corrupção. Houve um tempo, nesses anos, em que a nossa casa serviu de pousada para vários irmãos que estavam de passagem por Madri ou para servir na Igreja. Ainda nos lembramos de uma mulher muito especial, Elizabeth, que, com apenas 3 dias de estadia em nossa casa, nos deixou um aroma de Deus que dificilmente esqueceremos em toda a nossa vida.
As coisas começaram a mudar quando encontrei trabalho na seção de mensageria de uma empresa de segurança muito importante na Espanha. O trabalho era em horário noturno e seis dias por semana, com exceção de 4 meses no verão, em que eu trabalhava só cinco dias por semana. O fato é que ficava muito complicado para mim dormir bem durante a semana, e no domingo não me era fácil assistir ao culto com a família. Fomos nos afastando da igreja.
Quando decidimos nos mudar para uma cidade próxima a Madri (Getafe), o afastamento da Amistad Cristiana se tornou irreversível. Quando deixei o trabalho e, morando outra vez em Madri, voltamos a visitar a Amistad Cristiana, já não era a mesma coisa. Muitas pessoas tinham ido embora e outras novas entravam. Isso é lei da vida numa congregação, mas o fato é que eu nunca voltei a sentir que a Amistad era a minha igreja no Senhor.
Por outro lado, eu já tinha começado a estudar a história da Igreja, assim como livros de teologia, especialmente de anabatistas. Tentamos buscar uma igreja menonita e encontramos uma, mas ficava em Torrejón, a vários quilômetros de Madri, e além disso percebemos que nos resultaria quase impossível nos integrar num grupo que já funcionava havia muitos anos. O certo é que estávamos nos tornando cristãos sem igreja em que nos congregar. Minha “igreja” começava a ser os livros e minhas conversas com outros irmãos de diferentes congregações.
Em não poucas ocasiões assisti ao culto da igreja reformada situada em Vallecas, um bairro de Madri. Unia-me uma boa amizade ao pastor, mas eu estava teologicamente muito distante do calvinismo. Foi por essa época, já faz mais de três anos, que comecei a minha odisseia na Internet. No princípio me dediquei a participar dos chats da GCN, uma das mais famosas páginas de chat cristão de toda a Internet. Como o meu inglês é bastante aceitável, consegui fazer boas amizades por esse meio. Foi poucos meses depois que descobri os fóruns cristãos — também em inglês — na rede. Aquilo era muito diferente dos chats, porque as pessoas tinham tempo de preparar as respostas nos debates. Depois de uma experiência na Internet que não posso contar porque afeta outras pessoas, afastei-me do Senhor. De novo, Ele me deu outra oportunidade. Talvez tenha sido então que vi mais de perto a realidade de que a salvação é algo que se pode desprezar e jogar pela janela.
Sei que há irmãos que não creem que tal coisa possa acontecer, mas eu conto o que vivi. Depois de experimentar o perdão e o poderio da graça de Deus na minha vida, retomei as minhas andanças cibernéticas em páginas cristãs. Encontrei o site Atrévete (www.atrevete.com), que tinha fórum e chat. Mas o Atrévete estava mais voltado para a juventude e a adolescência cristã do que para as conversas e os debates sérios. Poucos meses depois encontrei um fórum que haveria de ser muito importante na minha vida. É o Foro del Reino de Dios (http://forums.delphi.com/elreino/), dirigido então pelo irmão Carlos Devetac. Ao Foro del Reino de Dios dediquei muitas horas da minha vida nos últimos dois anos e meio. Numa primeira fase me vi envolvido numa polêmica muito azeda com um pastor da Elim. Não foi nada edificante aquele debate.
Depois começou um dos debates mais frutíferos da minha vida, sob a epígrafe “Igreja Católica”. Poucos dias depois de iniciado o diálogo, apareceu pelo Foro del Reino o Frei Nelson Medina, O.P., com quem mantive uma troca de mensagens — ou, como diz ele, de epístolas — que passou de trezentas. É claro que outros irmãos também participaram do mesmo debate, e entre todos conseguimos, não sem dificuldades, discutir sem brigar nem atirar os pratos na cabeça uns dos outros, embora de vez em quando se infiltrasse alguém — católico ou evangélico — que conseguia estragar o clima. No princípio, o debate com Nelson girou em torno da importância da Palavra e da sua relação com a Comunidade que vive essa Palavra. Muito meditei nessa primeira parte do nosso debate. Creio que boa parte da “culpa” pela decisão que tomei a posteriori tem suas raízes na análise que fiz sobre esse aspecto tão importante que é a Palavra de Deus e a Igreja. Cristo é o Logos de Deus, a Palavra. A Igreja é o Corpo de Cristo. Nem a Igreja pode viver sem a Palavra, nem a Palavra encontra o seu verdadeiro sentido fora da Igreja. Essa é a minha posição atual. Mas não adiantemos os acontecimentos. Depois de espremer o debate sobre Palavra-Igreja, houve uma pausa de uns dois meses, em que pareceu que tudo o que tínhamos a dizer já havia sido dito.
Se bem me lembro, foi naquele momento que descobri a Web cristiana (www.iglesia.net). Se o Foro del Reino de Dios tinha sido uma bênção, a Web cristiana não o foi menos. Parece mentira, mas tenho a impressão de que a época em que o fórum da web cristiana tinha o formato antigo é uma época muito distante, mas só se passou pouco mais de um ano e meio. Por alguma razão que me escapa, os debates no fórum da Iglesia.net foram “diferentes” dos que mantive no Foro del Reino de Dios. Por assim dizer, fui dialeticamente bem mais beligerante na Iglesia.net do que no Reino. Atribuo isso a que os temas que me coube debater na web cristiana foram mais “graves”. Por exemplo, pode-se discordar quanto aos detalhes da Segunda Vinda de Cristo sem que por isso as bases da fé cristã sejam grandemente afetadas. No entanto, quando se discute sobre a Trindade, aí sim se entra num terreno-chave. Além disso, no fórum da Iglesia.net participaram pessoas de procedência um pouco mais variada, como é o caso de alguns ateus, como Stauros (Hernán Toro), com quem tive vários debates realmente interessantes, nos quais defendi a inerrância da Bíblia.
O fato é que, entre um debate e outro, e em boa medida por culpa deles, estudei teologia e a história do cristianismo como nunca até então. Mas, além do estudo teológico e histórico, houve algo que começou a pesar na minha alma como um quintal de ferro. O fato de tantas pessoas terem opiniões tão diferentes sobre muitas doutrinas estava me levando a considerar que algo não podia estar certo em tudo aquilo. O Sola Scriptura dos Reformadores é um lema muito bonito, mas que começa a rachar quando esses próprios reformadores eram incapazes de chegar a um acordo sobre a interpretação da Scriptura. Em outro nível, os fóruns estavam reproduzindo o mesmo problema. Comecei a ver que a fé cristã, o credo, dependia demais do que a Fulano ou a Beltrano pudesse parecer que era a verdade. Dou um exemplo. Sabemos que existem protestantes que creem na doutrina “uma vez salvo, sempre salvo”, enquanto outros consideram essa doutrina algo perigoso. Uns e outros se gabam de proclamar que usam o Sola Scriptura, mas não conseguem se pôr de acordo. Sabemos que Deus não é um Deus de confusão, mas de ordem. Ora, um dos dois lados está ensinando algo que não é verdade. Quem decide quem tem razão?…
Comecei a meditar sobre como podemos chegar a saber em quem reside a correta interpretação da Palavra de Deus. Onde buscar primeiro? Na própria Palavra. Assim me dei conta de que, em Atos 15, a Igreja teve a sua primeira grande reunião para tratar de um problema doutrinal que ameaçava destruir os alicerces da própria obra de Cristo. Ou seja, como a Igreja solucionava um problema doutrinal grave? Reunindo-se num concílio do qual participava TODA a Igreja, representada pelos apóstolos. Uma vez visto isso, foi fácil para mim relacionar Atos 15 com os concílios ecumênicos que a Igreja de Cristo celebrou nos 8 séculos seguintes para solucionar outros graves erros doutrinais que ameaçavam a cristandade. Quando o arianismo começou a negar a divindade de Cristo, Niceia proclama a verdade sobre a natureza trina de Deus. Quando, depois de Niceia, começam a surgir interpretações errôneas do símbolo de fé niceno e aparecem os que negavam de alguma forma a divindade do Espírito Santo, a Igreja se reuniu em Constantinopla para fixar com mais clareza o credo universal. A Igreja era, e é, coluna e sustentáculo da verdade (1Tm 3,15).
Quando alguém, usando o seu próprio critério pessoal de interpretação das Escrituras, atacava essa verdade, a Igreja se reunia e fixava os limites dessa verdade. Havia duas opções: ou a grande maioria dos bispos cristãos estava equivocada, ou equivocados estavam aqueles que eram acusados de heresia. Ora, ocorre a alguém pensar que, em Atos 15, os equivocados eram os apóstolos e o Espírito Santo, e que quem tinha razão eram os judaizantes? NÃO, tal coisa não ocorre a ninguém. Pois bem, eu digo e afirmo que a Igreja de Atos 15 era a mesma que se reuniu em Niceia, em Constantinopla, em Éfeso, Calcedônia… e o Espírito Santo também era o mesmo. Essa Igreja é a que soube discernir quais eram os livros canônicos. Essa Igreja foi a que soube criar um Credo que serve para definir quem é cristão doutrinalmente ou quem é um herege disfarçado de cristão. Essa Igreja foi e é a Igreja de Cristo.
Evidentemente, estou tentando resumir o que para mim foi uma descoberta gradual e progressiva. O dia-chave, em que tudo virou de cabeça para baixo, foi quando me dei conta de que a minha fé estava construída muito mais sobre a minha própria percepção da verdade bíblica do que sobre o que a Igreja de Cristo declarou acerca da própria Bíblia. Eu ia direitinho pelo caminho de fundar a minha própria igreja, baseada na fé de Luis Fernando. Que essa fé coincidisse em grande medida com a fé declarada pela Igreja em seus concílios universais em nada diminuía a realidade de que era eu quem julgava o que há de bom nesses concílios, em vez de ser essa Igreja conciliar a julgar o que há de bom na minha crença como cristão. Chegava o momento da grande pergunta: onde está essa Igreja dos oito primeiros séculos?
Quando me dei conta de que a teoria Sola Scriptura não pode ser válida, é até certo ponto lógico que fixasse o olhar na Igreja em que eu havia sido criado. Roma, a sempiterna Roma. Podia ser Roma a solução? Nem preciso dizer que, depois de 8 anos de protestante, nos quais Roma sempre tinha sido o grande inimigo a abater, a simples ideia de voltar a essa Igreja era pouco menos que irônica. Eu, que havia sido acusado de romanista por determinados irmãos que não entendiam que nos últimos meses eu não tivesse querido seguir pelo caminho do enfrentamento armado — em sentido dialético — com Roma, comecei a pensar que talvez estivesse voltando a ser católico.
A leitura da “Apologia pro vita sua”, de J. H. Newman, foi uma chave importantíssima nesse período da minha vida. Newman foi um sacerdote anglicano que acabou passando ao catolicismo, no qual chegou a ser cardeal. O curioso em Newman é que ele sabia entender os erros do sistema anglicano em que lhe coube viver, mas, ao mesmo tempo, o seu anticatolicismo, próprio dos anglicanos, o impedia de dar o passo que finalmente acabou dando. Mas, ao mesmo tempo em que lia a obra de Newman, dei-me conta de algo. Perguntava-me por que esse homem ignorava quase totalmente a existência das igrejas ortodoxas. Não encontrei uma resposta lógica a essa pergunta. Além disso, a Igreja Católica à qual Newman se uniu, acreditava eu, não era a Igreja Católica do final do século XX. Aquela Igreja não tinha o dogma da infalibilidade papal. Tampouco o da Imaculada Conceição, nem o da Assunção. Como na minha conversa com o padre Nelson Medina tive que analisar a base na Tradição do dogma da Imaculada Conceição de Maria, eu sabia que esse dogma mal havia sido discutido pela Igreja durante os primeiros 15 séculos. E, quando se debateu se Maria havia sido concebida imaculadamente, não foram poucos os teólogos que se opuseram a essa doutrina. Para não falar do dogma da infalibilidade papal. Para mim, que havia descoberto a Igreja dos grandes concílios, era muito importante que qualquer novo dogma fosse aprovado por outro Concílio Ecumênico, e não somente por uma parte da Igreja. Naquele momento, não me restou outra saída senão olhar para o Oriente. O que descobri? Igrejas que, no último milênio, não haviam se movido nem para a direita nem para a esquerda em relação ao Credo cristão declarado pelos concílios universais. A Igreja Ortodoxa era, e é, a grande desconhecida no Ocidente. Apesar de muitos patriarcados terem tido que conviver com uma grande maioria muçulmana que não era precisamente amiga do cristianismo, pode-se ver que esses cristãos não se lançaram à loucura de mudar as suas crenças para acomodá-las à sociedade em que lhes coube viver. Mas, além das considerações históricas sobre a sobrevivência de algumas Igrejas ortodoxas, o que acreditei entender com clareza meridiana é que foi essa Igreja que se manteve fiel quando, a partir do Ocidente, quis-se impor uma mudança no Credo niceno. Quando Carlos Magno chegou ao poder, começou uma batalha teológica na igreja latina acerca da inclusão do termo “filioque” (e do Filho) no Credo niceno, para indicar a dupla procedência do Espírito Santo. Podia parecer coisa sem importância, mas a mim parecia inaceitável que a igreja latina, encabeçada pelo bispo de Roma, decidisse que podia mudar o Credo niceno sem submeter esse assunto à discussão em outro concílio universal. Isso apesar de ter havido papas romanos (p. ex., Leão III) que se opuseram firmemente a essa inclusão do filioque. Cheguei à conclusão de que a primeira igreja que decidiu que podia, sozinha, mudar o credo cristão foi a Igreja de Roma. Agora pode soar engraçado, mas eu acreditava então que Roma foi a primeira igreja protestante e que, portanto, era lógico que cinco séculos depois essa igreja sofresse a cisão das igrejas protestantes. Meu conceito da primazia petrina não estava muito desenvolvido, e eu não havia reparado no fato de que foi Roma, precisamente Roma, que havia salvado todo o Oriente de sucumbir às heresias cristológicas em mais de uma ocasião.
Uma vez abençoado com o convencimento de que a Igreja Ortodoxa era a que não havia saído do lugar no último milênio, chegou o momento de enfrentar as coisas que eu não entendia dessa Igreja. Evidentemente, estou falando dos ícones e do papel dos santos e de Maria. Por um lado, eu sabia que o meu pertencimento à ortodoxia não podia depender do meu juízo pessoal sobre esses aspectos da religiosidade ortodoxa. Se eu havia aceitado o fato de que é a Igreja que julga as minhas crenças, e não o contrário, agora eu não podia me pôr a julgar, sem mais, as doutrinas que não aceitava dessa Igreja. Mas Deus sabia que me custaria muito dar o passo de me unir a uma Igreja na qual eu tivesse a impressão de que se praticava a idolatria de imagens. Então assisti pela primeira vez a um culto da Igreja Ortodoxa grega em Madri. Para aqueles que nunca assistiram a um culto ortodoxo, asseguro-lhes que aquilo é outro mundo. A liturgia ortodoxa dificilmente pode ser comparada a uma missa católica de meia hora. Para começar, o culto segundo o rito grego dura uma hora e quinze. Mas essa primeira hora e quinze passou voando para mim. Não poderia explicar com palavras, mas, desde esse primeiro culto, eu vivia a semana inteira esperando que chegasse o domingo seguinte para voltar a assistir a outro. Por quê? Não sei. Só Deus sabe. Como me foi impossível marcar um encontro com o sacerdote ortodoxo grego, um amigo me falou de outro sacerdote ortodoxo, Teófilo Moldován, que está encarregado da Igreja Ortodoxa romena na Espanha. Antes de continuar, gostaria de esclarecer algo. Surpreendeu-me gratissimamente a atitude dos fiéis ortodoxos diante dos ícones. Não vi nada que se pudesse parecer com idolatria. Supus que, como em toda parte, existiriam ortodoxos com uma relação idolátrica com os ícones, mas me dei conta de que um ortodoxo que sentisse e vivesse como algo próprio a divina liturgia, na qual se dá um papel muito preponderante à pneumatologia, dificilmente poderia cair na iconolatria. E, se me restava alguma dúvida a respeito, tudo ficou ainda mais claro para mim no domingo em que assisti ao culto ortodoxo celebrado pelo padre Teófilo Moldován, presbítero da Igreja Ortodoxa romena na Espanha. Se o culto grego durava uma hora e quinze, a liturgia que o padre Teófilo celebrava se prolongava por duas horas longas. Aquilo foi uma experiência inesquecível para mim. A participação do pessoal no culto ortodoxo romeno era mais ativa. Os cantos, embora eu mal entendesse a letra, pareceram-me preciosos. Nunca antes havia sentido a sensação de que o céu se transladava à terra para que pudéssemos dar uma espiada no que será essa grande liturgia eterna no mundo vindouro.
Depois do culto, falei com a esposa de Teófilo, e ela me disse que ele não poderia me atender bem naquele momento, já que várias pessoas queriam falar com ele para aconselhamento pastoral. Teófilo se aproximou de mim e disse que hoje pela manhã poderíamos conversar com mais calma. E assim foi. Encontrei um homem que soube me escutar e entender rapidamente a minha situação. Seus conselhos me serviram de muita ajuda, e nunca poderei agradecer o suficiente ao Senhor por ter posto o padre Teófilo nesses momentos da minha vida.
Lembro que, numa das ocasiões em que falei com o padre Teófilo, disse-lhe algo que eu sentia como muito verdadeiro e que agora resumo: “Quando Deus me salvou do naufrágio, agarrei-me com todas as minhas forças a uma balsa de madeira para não me afogar. Nessa balsa Deus me sustentou por mais de 8 anos, não permitindo que eu voltasse a afundar. Mas uma balsa de madeira vai para onde a corrente a leva. Pode permanecer no oceano anos e anos sem chegar a lugar nenhum. Deus não quis que eu ficasse nessa balsa e fez com que um grande barco passasse perto de mim. Levantei os braços e pedi ajuda. Agora estou subindo pela escada desse barco. Sei que o barco tem como destino a terra firme. Essa terra não é outra senão os novos céus e a nova terra que Deus nos prometeu. A Deus dou graças por me conceder o privilégio de ser membro da Igreja que Ele fundou há 2000 anos. Essa Igreja é agora fundamento e coluna da verdade e da minha vida. Cristo é a rocha e a pedra angular. Nele confio”.
Chegou então o mês de outubro do ano de 1999. Eis o texto com o qual tentei descrever o que aconteceu então.
E o Barco atracou em Porto seguro (22-10-99)
Irmãos, hoje posso comunicar-lhes com alegria que o barco chegou a terra firme. A travessia foi muito mais curta do que eu pensava. Cheguei a porto seguro. E vejam qual foi a minha surpresa quando, à medida que chegávamos ao porto, comecei a reconhecer as ruas da cidade da qual nos aproximávamos. Logo soube que tinha voltado para casa. Esse bendito barco, que sempre será o meu barco, que sempre estará entre as maiores bênçãos de Deus para a minha vida, havia me devolvido ao lugar onde encontrei o meu Cristo, quando era pequeno. Havia me devolvido à nossa amada Igreja católica e romana. Católica porque é universal, e dela fazemos parte cidadãos de todos os países. Romana porque foi em Roma que os dois grandes apóstolos, Pedro e Paulo, entregaram suas vidas em martírio, como mostra e exemplo do caminho a seguir para os que amamos o Senhor.
Ah, irmãos, como é bonito andar pelas ruas onde a gente se criou! Como é bonito recordar os momentos em que dávamos os primeiros passos no caminho de Cristo! Recordar aquela primeira comunhão enquanto volto a tomar o corpo precioso do nosso Salvador entre os meus lábios! Recordar os ensinamentos dessa mãe que me trouxe ao mundo, enquanto outros irmãos dão testemunho do quanto ela os ajudou a entender como enfrentar o sofrimento e a doença! Recordar aqueles seminaristas que tinham o fogo de Deus em seus corações, enquanto contemplo como esse fogo segue presente num homem de Deus, sacerdote, que aos 60 anos continua contagiando com o amor de Deus aqueles que o rodeiam! Recordar aquele momento em que meu pai se fechou no meu quarto para orar comigo por João Paulo II, que acabava de sofrer um atentado, enquanto agora posso seguir contemplando o resultado dessas orações na pessoa do nosso Pedro de fim de século, no nosso apóstolo que segue incansável o seu ministério de pastorear o rebanho de Cristo! Recordar a doçura da nossa bendita Mãe Santa Maria, enquanto agora volto a contemplar o seu exemplo e o seu amor pelo seu Filho nas Escrituras!
Louvado seja Deus Pai, que me permitiu voltar à sua casa! Louvado seja Jesus Cristo, que me perdoa por todas as vezes em que fui profundamente injusto ao condenar a sua Igreja pelas coisas passadas!
Louvado seja o Espírito Santo, que transformou o meu ser, limpando-o do orgulho e da sabedoria humana para me devolver ao estado da infância espiritual, na qual tanto me resta por aprender e gozar dos seus mistérios à luz do Magistério da sua Amada Igreja!
Quero agradecer publicamente a um homem de Deus, a um pai espiritual que soube ser paciente comigo e que, eu sei, derramou mais de uma lágrima e muitas orações antes de poder contemplar o que agora os seus olhos estão vendo. Quero agradecer a você, irmão Nelson, amado filho de Deus, por ter sido servo fiel a Deus, que o usou para me ajudar na travessia de volta para casa. Quando eu estava na balsa, você me disse que buscasse o barco. Quando me viu no barco, orou a Deus para que me devolvesse logo para casa. E, quando o barco atracou, você esteve ao pé da escada de descida à terra firme para me dar as boas-vindas e me mostrar de novo as preciosas ruas da nossa Jerusalém, da nossa Igreja. E, como diz a Escritura, “aquele que é instruído na palavra reparta todos os seus bens com aquele que o instrui” (Gl 6,6), assim eu o fiz participante desta bênção tão grande que Deus me deu ao voltar à nossa amada Igreja. Deus o abençoe por tudo o que fez por mim e pelos meus.
No amor de Deus Pai, na bênção de Jesus Cristo e na presença do amado Espírito Santo, despeço-me de vocês.
Em Cristo e na sua bendita Igreja, que é a de todos vocês,
Luis Fernando.
* * *
Poucas semanas depois, coube-me comunicar as boas-novas no Foro del Reino de Dios, aquele em que tanto debati com o padre Nelson.
Estas foram as razões que expus no dito fórum:
Testemunho no Foro del Reino de Dios (13-11-99)
Bem, antes de anunciar a decisão tomada por minha esposa e por mim mesmo, quero esclarecer algo. Não é fruto de nenhuma crise. Muito pelo contrário.
O fato é que, há pouco mais de um mês, Lidia e eu, conjuntamente, decidimos voltar à Igreja Católica. Poderia expor muitas razões de tipo teológico, pessoal e até pragmático, mas prefiro ser breve nesta mensagem; então vou tentar resumir tudo em uns poucos pontos:
1- Eu não “abandono” a Igreja Ortodoxa. Continuo a senti-la como MINHA Igreja e pretendo seguir avançando no conhecimento dos imensos tesouros que estão guardados dentro dela. De vez em quando assistirei às liturgias tanto em romeno como em grego e eslavo, porque, acima da problemática do idioma, pode-se apreciar e desfrutar da presença de Deus no meio dessas celebrações litúrgicas. Duvido que em muito tempo eu possa encontrar uma atitude tão reverente pelo sagrado e pelo divino como a que encontrei entre os meus irmãos ortodoxos na Espanha. Essa experiência pessoal estará sempre comigo, e Deus sabe o quanto ela me ajudou nestes últimos meses. Contudo, era muito evidente que a minha família não poderia me seguir no caminho que empreendi. A princípio me pareceu que tal coisa seria possível se em breve tempo a liturgia pudesse ser adaptada ao espanhol, mas vi que isso é impossível nos próximos anos. Evidentemente, eu não podia nem queria empurrar meus filhos e minha esposa para uma situação assim.
2- Desde antes mesmo do meu ingresso na Igreja Ortodoxa, eu tinha a sensação de que Lidia, minha esposa, não só não colocaria nenhum obstáculo a um possível regresso nosso à IC, como estaria decidida a fazer tal coisa com a maior das alegrias. Ela, que não é uma pessoa interessada nas polêmicas doutrinais, mas em viver o cristianismo da forma mais simples possível (e ao mesmo tempo comprometida), sempre me disse que o importante não é a que igreja se pertence, mas a que Deus servimos. Nesse sentido, minha esposa tem sido o complemento perfeito para mim, que sou “teólogo” demais e preciso de alguém que me faça descer das nuvens à realidade prática da vida cotidiana em Cristo. Por isso, quando lhe perguntei se me acompanharia num hipotético regresso à IC, ela me deu um sim imediato e categórico.
3- Como todos sabem, fui neste fórum (e em outros) uma das pessoas que mais trabalho de apologética anticatólica realizou. Desde o sistema sacramental e o hierárquico até dogmas como o da perpétua virgindade de Maria, sua Imaculada Conceição, infalibilidade papal etc.; todos esses temas foram discutidos por mim a partir de uma perspectiva evangélico-radical (meio quacre, meio menonita). Quando cheguei a entender o papel fundamental da Igreja como coluna e sustentáculo da verdade, muitas das minhas objeções a grande parte desses dogmas vieram abaixo. Anteriormente eu já havia me dado conta de que o lema “Sola Scriptura” era algo não só antibíblico, mas simples e claramente falso, já que as tradições interpretativas chegavam a ocupar nas igrejas protestantes um papel tão fundamental quanto — ou mais que — o papel de muitas tradições populares nas igrejas tradicionais. A evidência de que a Igreja que Cristo queria era uma Igreja unida, e não dividida em milhares de denominações diferentes, também foi uma chave para que eu entendesse que o cristianismo evangélico, com todas as suas coisas boas, com todo o amor pela Palavra e pelo fervor missionário, não era SUFICIENTE. Não digo que não seja suficiente para a salvação dos seus membros, porque tal coisa está assegurada pela fé em Cristo Jesus, e não pelo pertencimento a esta ou aquela Igreja; mas certamente o sistema eclesial protestante é todo o contrário do que Cristo expressou no evangelho de João e das indicações dos apóstolos. Se a isso unimos a nula autoridade apostólica existente na imensa maioria das denominações protestantes, o que impede uma batalha efetiva e real contra as novas heresias que estão surgindo em nossos dias, a coisa fica, pelo menos para mim, bastante clara: a solução para o mundo não crente não pode ser a oferecida por igrejas que não mantêm uma só fé, nem têm um só batismo, e que não possuem uma sucessão apostólica de acordo com a instituída por Cristo e seus apóstolos e mantida pela Igreja ao longo dos séculos. Sei que muitos não estarão de acordo com nada disto, e conheço as suas razões, porque eu mesmo as sustentei. Se alguma vantagem (?) possuo hoje sobre muitos irmãos, é que eu sei como pensa um protestante e sei como pensa um cristão que pertence à Igreja que é herdeira da do primeiro milênio. E entendo que a solução para o cristianismo do terceiro milênio não é o exemplo da igreja deste milênio que termina, mas a do primeiro da nossa era.
4- Um detalhe que considero muito importante e que desimpediu de forma muito decisiva o meu caminho de volta para casa (minha primeira casa foi a IC) é a evidência de que o dogma cristão está em constante evolução desde o primeiro século até que Cristo volte. Não se trata de que a revelação de Deus precise de coisas totalmente novas; é, antes, uma evolução no conhecimento de verdades que foram depositadas por Deus na sua Igreja, a qual é a que anuncia a MULTIFORME sabedoria de Deus nos lugares celestiais. Nesse sentido, o que para mim era um elemento essencial na minha aproximação à IO foi, justamente no sentido contrário, o elemento que veio a me ajudar no regresso à IC. A IO é o expoente mais claro da conservação de uma tradição recebida e frutificada no primeiro milênio do cristianismo. Mas nestes últimos anos ela se limitou, salvo alguma rara exceção, a conservar isso que recebeu. Como é evidente que houve uma ENORME evolução dogmática na fé cristã do primeiro milênio (p. ex., a evolução dogmática trinitária e cristológica), não há nenhuma razão de peso para supor que tal evolução parou o seu caminho depois do Cisma. E o cristianismo ocidental tomou a dianteira na liderança de seguir buscando novas fórmulas de reformulação do credo cristão. Este é um tema muito complexo e delicado, pelo que só quero deixar esboçado o essencial do meu argumento, mas com certeza muitos de vocês sabem compreender o que digo.
Deus os abençoe
* * *
Já se passou um ano desde o nosso regresso à Igreja Católica. Um ano de muita luta interior, de muita controvérsia com protestantes evangélicos, de muitas mudanças no âmbito familiar. Lidia e eu nos casamos pela Igreja no dia 11 de dezembro de 1999, o mesmo dia em que batizamos o nosso filho Juan, que acabava de completar 5 anos. Embora estivéssemos casados no civil desde 1988, não havíamos considerado imprescindível sermos “recasados” na nossa passagem pela Amistad Cristiana, ainda que tal possibilidade tenha sido levada em conta seriamente em alguma ocasião. No entanto, ao voltar à Igreja Católica, pareceu-nos imprescindível consagrar a nossa união através do sacramento do matrimônio. O Senhor quis nos abençoar imediatamente com o presente de outro filho. E, para nossa maior alegria, o bebê acabou sendo uma menina, o que satisfazia plenamente os nossos desejos. A gravidez de Lidia não foi fácil, já que sofreu ameaças de aborto e, finalmente, a menina nasceu prematura, embora saudável. Seu nome é Rut e atualmente é a felicidade da nossa casa. Além da nova filha, este ano tomamos uma decisão muito importante. Decidimos deixar Madri para vir morar na província de Huesca, em Aragão. Aqui esperamos servir ao Senhor e à sua Igreja durante o resto dos nossos dias, embora sempre conscientes de que os caminhos do Senhor são inescrutáveis e nunca se sabe aonde a sua vontade pode nos levar.
Se algo mais tenho a agradecer ao Senhor neste ano, é o amor que Ele pôs no meu coração pela Igreja. Os sacramentos, especialmente a Eucaristia, converteram-se na fonte de graça à qual recorro com gosto sempre que posso. Lembro-me dos meus tempos de ignorância a respeito da vida sacramental quando era evangélico, e dou graças ao Senhor por ter me livrado dessa insensatez, pela qual eu considerava o sacramento algo pseudognóstico e pagão. Quantas bobagens cheguei a dizer sobre os “mysterion” cristãos quando protestante! Quanta bênção encontro neles agora!
Não posso deixar de fazer uma menção especial ao sacramento da Eucaristia. Tive o privilégio de tomar a comunhão nas duas espécies em pelo menos um par de ocasiões, mas sobretudo senti, em muitas ocasiões, a necessidade de comungar não só aos domingos e dias de preceito, mas também diariamente. Creio que, por mais que se tente explicar teologicamente a essência da Eucaristia católica, nada nem ninguém pode descrever com perfeição em que consiste essa comunhão do crente com o corpo e o sangue de Cristo. Comunhão que nos ilumina e nos abre os olhos como àqueles dois homens do caminho de Emaús, que não puderam reconhecer Cristo até que Este partiu o pão, em clara referência ao mistério eucarístico. Não conheço nenhum grande santo da nossa Igreja que não tenha tido um profundo amor pelo Cristo presente na Eucaristia. É através deste sacramento que Cristo é realmente Emanuel, Deus conosco e em nós. É através deste sacramento que Cristo cumpre a sua promessa de estar conosco até o fim do mundo. Eucaristia, alimento divino que nos renova para a vida eterna.
Poderia incluir neste testemunho, para ir finalizando, todas as circunstâncias desagradáveis que Lidia e eu tivemos de enfrentar depois do nosso regresso a Roma. Mas para quê? Que sentido teria falar detidamente das pressões, ameaças, chantagens, zombarias, desprezos, infâmias e calúnias que tivemos de suportar por parte de alguns que se autodenominam cristãos evangélicos? Não, creio que não é necessário entrar em detalhes nem dar nomes. Só gostaria de esclarecer um par de coisas. Primeiro: apesar dessa gente, não foram poucos os evangélicos que respeitaram a nossa decisão e até nos defenderam dos ataques dos seus “irmãos na fé”. A esses verdadeiros irmãos em Cristo agradeço a honestidade e a amizade. Segundo, quero dizer que todos e cada um desses ataques, chantagens, pressões etc. que recebemos serviram para nos reafirmar cada vez mais na fé da minha Igreja. Estou plenamente convencido de que a atitude desses fundamentalistas evangélicos trará como fruto que muita gente imparcial, que não tinha simpatia pela Igreja Católica, comece a ver as coisas de forma diferente, já que é impossível ficar impassível quando se vê o ódio visceral que esses “cristãos” demonstram por tudo o que cheire a catolicismo. Uma coisa é não estar de acordo com muitas das doutrinas católicas; outra, muito diferente, é o ódio que toma por desculpa essas diferenças doutrinais. O Senhor, que conhece e discerne as intenções do coração, saberá julgar com justiça todas essas atitudes.
Pouco mais resta a dizer. Só anunciar a minha intenção de escrever um livro que possa ser útil aos meus irmãos católicos na defesa da fé da nossa Igreja. Espero que o Senhor me dê sabedoria para fazer um bom trabalho com esse livro. Também desejo que Ele me ajude a ser um bom catequista na paróquia à qual estamos vinculados. Muito trabalho resta por fazer na Igreja de Cristo na Espanha. Precisamos de obreiros e de vidas entregues à vocação religiosa de serviço a Deus na sua Igreja. Só peço a Deus saúde e energia suficientes para poder servi-lo durante o resto dos meus dias.
Abençoo a todos em nome de Cristo, de cuja amada Igreja faço parte.
16.10.2000
Autor: Luis Fernando Pérez