“Apóstolo”: um carisma extinto?

1. Muitos notáveis pesquisadores protestantes aproximam-se do pensamento católico no juízo sobre a autenticidade dos textos fundamentais para a constituição da Igreja primitiva. Na interpretação desses textos, muitos deles também coincidem com a exegese católica: Cristo deu aos Apóstolos e a Pedro privilégios singulares. Mas precisamente esses pesquisadores afirmam unanimemente que a missão e os poderes que os Apóstolos e Pedro receberam valiam somente para eles e não eram transmissíveis. A opinião católica de que Cristo pensava em sua Igreja ao conferir esses poderes de modo duradouro é rejeitada unanimemente como postulado dogmático.

a) A ideia de uma sucessão no ministério dos Apóstolos está, segundo eles, muito distante do Novo Testamento. Os Apóstolos foram as testemunhas privilegiadas dos acontecimentos salvíficos, as primícias da nova comunidade. Mas esse privilégio é intransferível. Os Apóstolos não puderam ter sucessores. Sua influência na idade posterior da Igreja consiste apenas em que esta foi fundada por eles e recebeu deles seu fundamento perene[1. Em todo o Novo Testamento, a imagem do fundamento referiu-se sempre ao ministério dos Apóstolos, que só se deu no início da Igreja (Ef 2,20; Rm 15,20; 1 Cor 3,10; Gl 2,9; Ap 21,14.19).

b) Do mesmo modo, as palavras que o Senhor dirigiu a Pedro devem ser entendidas como um privilégio pessoal, que o Senhor concedeu somente a ele. «A ilegitimidade de os católicos terem empregado em favor de Roma o texto de Mt 16,18 consiste em que nessa passagem se trata de Pedro e somente dele, não de seus sucessores»[2]. Pedro está «no ponto de partida da Igreja, e somente nesse ponto de partida»; daí não se pode deduzir que «na época posterior deva haver sempre uma pessoa sobre toda a Igreja»[3. As razões para provar essa opinião são variadas e muitas vezes apriorísticas. Segundo alguns, a distinção de Pedro foi ocasionada por sua confissão, que brotou de uma especial inspiração pneumático-carismática e, assim como esse carisma, não pode ser transmitida a ninguém. Outros veem a posição privilegiada de Pedro no papel que desempenhou no desenvolvimento da Igreja nascente, sobretudo na reunião dos discípulos depois da morte de Jesus e nos dias que se seguiram à ressurreição. Cullmann[4] chega a admitir «que ao Apóstolo Pedro pertence de fato uma importância fundamental para a Igreja de todos os tempos». Mas a obra de Pedro pertence ao «único acontecimento da fundação» da Igreja, momento que criou uma situação permanente para toda a Igreja.

2. Não há mais que esse significado restrito nas palavras do Senhor? A missão dos Apóstolos devia terminar com a morte deles?

a) A resposta depende do que se entenda por missão dos Apóstolos. Se for entendida como fundamento e ponto de partida cronológico da Igreja, ninguém negará que essa posição é única e, portanto, irrepetível, como todo fato histórico. Mas com isso fica esgotado o sentido das palavras do Senhor? Queria ele fazer apenas essa afirmação evidente? Essa posição única não compete também aos demais discípulos e companheiros do Senhor que estiveram com ele «desde o batismo de João até a Ascensão» (At 1,21s.), a Barnabé, a Marcos, a Mnason (At 21,16) e aos 500 irmãos, que foram favorecidos com uma aparição do Ressuscitado (1 Cor 15,6)? Os «Doze» ocuparam uma posição especial entre os discípulos porque haviam sido constituídos pelo Senhor como testemunhas autênticas de sua Ressurreição e órgãos de sua revelação. A eles foi confiada a missão especial de pregar o Evangelho e lhes foi confiado o poder de ensinar, santificar e reger. Eles foram os primeiros portadores dessa missão e desses poderes e, por isso, são fundamento e fonte de sua eficácia — isto constitui sua função apostólica única e irrepetível —, mas não deviam permanecer como os únicos detentores da missão de ensinar e reger. Foram constituídos pais do novo povo de Deus que devia substituir as doze tribos de Israel e, como tais, eram princípio e fundamento da era salvífica da Nova Aliança. Mas eram também pastores e guardiães do povo de Deus e, como tais, a Igreja sempre precisava deles, e o Senhor os constituiu «usque ad consummationem saeculi» (até o fim dos tempos).

b) A vocação e os poderes dos «Doze» não eram privilégios puramente pessoais, nem uma medida passageira. As palavras com que o Senhor descreve a missão dos Apóstolos não podem ser limitadas à época fundacional da Igreja. Não estão restritas ao tempo da fundação da Igreja, mas referem-se à essência da Igreja, que está acima das mudanças e dos tempos.

O discurso de Mt 18 dá instruções para a conservação da ordem e da disciplina na Igreja e não faz nenhuma referência à época da fundação da Igreja. O poder de «ligar e desligar» deve atuar na Igreja sempre que a correção fraterna não seja suficiente; por conseguinte, deve ser algo duradouro. «Todos os ortodoxos — diz W. Solowjew — estão de acordo em afirmar que o poder apostólico de ligar e desligar não foi conferido aos «Doze» como pessoas privadas ou como privilégio limitado no tempo, mas é a origem e a fonte autêntica de um direito sacerdotal permanente, que é transmitido dos Apóstolos a seus sucessores na ordem hierárquica, os bispos e sacerdotes da Igreja universal»[5].

O discurso da grande missão (Mt 28) está ainda mais claramente numa perspectiva secular. A missão do Senhor estende-se a todos os povos e a todos os tempos, e a garantia de sua assistência vale «até o fim do mundo». Se ele chama os Apóstolos de «luz do mundo», «sal da terra», isso só tem sentido se no mundo existem sempre titulares e portadores da missão apostólica.

c) Evitam-se muitas confusões se se observa que a palavra Apóstolo, então como agora, é usada em sentido estrito e em sentido amplo, isto é, no sentido da posição particular e irrepetível dos «Doze», de seu caráter de fundamento, e no sentido de seu poder de missão, que devia continuar. No primeiro sentido, os Apóstolos não têm sucessores; no segundo sentido, seu ofício passou aos bispos. O povo cristão sempre teve consciência de que aos Apóstolos competia uma posição peculiar no plano da salvação e de que a época apostólica ficou encerrada com sua morte. Mas também era consciente de que as funções de ensinar e reger, inseparáveis da vida da Igreja, perduravam no ministério dos bispos. Assim, no princípio, não se incluíam os nomes dos Apóstolos nas listas dos bispos, mas estas começavam com o primeiro bispo constituído por um Apóstolo. Queria-se destacar a posição especial dos Apóstolos. Essa disposição encontra-se ainda em Irineu e Hipólito. Mais tarde, porém, já em Cipriano, os Apóstolos são incluídos nas listas dos bispos. Queria-se então acentuar a permanência do poder hierárquico sacerdotal e pastoral conferido aos Apóstolos. Trata-se apenas de uma diversa concepção histórica e de uma diferença na simples exposição, não na coisa mesma[6].

3. Também as palavras dirigidas pelo Senhor a Pedro não podem ser entendidas somente da missão especial de Pedro limitada ao tempo da fundação da Igreja. O sentido natural de todas as imagens que o Senhor empregou para expressar a posição privilegiada de Pedro é que esta é essencial e imprescindível para a Igreja e não se limita ao tempo de sua fundação. Os adversários, em sua maioria, fixam-se apenas na imagem da «rocha-fundamento» e a interpretam no sentido de que Pedro deve ser a primeira pedra, sobre a qual o edifício da Igreja se apoia uma vez para sempre. Mas essa concepção estática da Igreja não é exata, pois ela não é um edifício rígido e morto, mas um organismo vivo, uma sociedade. A existência e a coesão dessa sociedade viva só podem ser garantidas por uma função de rocha permanente e eficaz na Igreja. Isso se deduz também claramente das outras imagens com que Cristo descreve a missão de Pedro e que, como observa com razão Cullmann, são pouco ou nada consideradas pelos teólogos protestantes. O encargo de administrador de uma casa, a posse do supremo poder de «ligar e desligar», a atividade daquele que «confirma seus irmãos» e de pastor, não podem de modo algum ser limitados temporalmente; o sentido dessas imagens não pode referir-se somente ao tempo dos começos da Igreja. Elas não têm relação exclusiva com a fundação da Igreja, mas aludem à sua consistência e permanência. A casa precisa sempre de um administrador; a fé ameaçada, de um apoio dado por Deus; o rebanho, de um pastor solícito.

A Igreja primitiva era consciente da posição única e irrepetível dos «Doze», que haviam sido escolhidos pelo próprio Jesus e dotados de um poder ilimitado no espaço. Mas ela era consciente também de que a missão e os poderes dos Apóstolos, por serem essenciais para a Igreja, deviam passar a homens que, depois da morte dos Apóstolos, ocupariam seu lugar.

Autor: Albert Lang

Fonte: Teologia Fundamental – Tomo II: A Missão da Igreja – Ediciones Rialp, S.A. Madrid, 1977, pp. 103-107.

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NOTAS

[1] O. Cullmann, Petrus. Jünger-Apostel-Martyrer, Zurique, Stuttgart 1960, 247s.

[2] K. L. Schmidt, Die Kirche des Urchristentums, (Tubinga 1927) 300.

[3] O. Cullmann, o.c., 259.

[4] Ibidem, 237.

[5] W. SOLOWJEW, Monarchia sancti Petri (trad. alemã de L. Kobilinski-Ellis, Mainz 1929) 473.

[6] G. Söhngen, Die Einheit in der Theologie (Munique 1952) 307; O. Karrer, Um die Einheit der Christen (Frankfurt am Main 1953) 116.