Os primitivos cristãos não estavam unidos apenas pelo vínculo do amor fraterno ou pelo prestígio dos dons carismáticos. Desde o princípio reconheceram-se na Igreja chefes e superiores aos quais incumbia a direção das comunidades.

Durante o tempo de fundação da primitiva comunidade de Jerusalém, os Apóstolos tiveram uma autoridade indiscutível. Depois da separação de Judas, completaram o número simbólico dos “Doze”. Eles decidiam em todas as questões importantes e, como o mostra o juízo sobre Ananias e Safira, com verdadeira jurisdição. A Pedro correspondia a suprema direção. Depois de sua saída de Jerusalém, ocasionada pela perseguição de Herodes, Tiago ocupou o posto principal na primitiva comunidade e destacou-se em todos os assuntos que se tratavam em Jerusalém (Atos 15, 13 ss.; 21, 17 ss.; Gl 1, 19; 2, 9).

Muito cedo sentiram os Apóstolos a necessidade de designar colaboradores para as tarefas que surgiam na comunidade, e assim poderem ficar livres para a pregação (Atos 6, 2 ss.; 8, 5). Foram escolhidos para o Diaconato sete membros da comunidade, aos quais os Apóstolos confiaram este ofício por meio da imposição das mãos (Atos 6, 5 s.). Nesta ocasião, a iniciativa dos Apóstolos acentua-se de tal modo “que não se pode pôr em dúvida o fato de que a constituição dos sete em seu ministério só é válida mediante a designação dos Apóstolos”. Os sete, como se deduz das atividades posteriores de Estêvão e Filipe, não só deviam servir aos pobres, mas exercer também o ministério da palavra. Na primitiva comunidade também existiam os Presbíteros, como se deduz de sua menção ocasional (Atos 11, 30; 15, 2 ss.; 21, 18). Eles se encarregaram da coleta dos cristãos de Antioquia e participaram do concílio dos Apóstolos (Atos 15, 2.6.22.24)

Assim aparece na primitiva comunidade uma legítima hierarquia distribuída em três graus.

Nas comunidades cristãs também existiam homens aos quais havia sido confiada a direção da Igreja e que estavam revestidos de um caráter ministerial.

1. Por causa do caráter missionário destas comunidades, sobressaem nelas antes de tudo os primeiros arautos do cristianismo, os profetas e doutores (Atos 13, 1). Em sua missão de pregar o Evangelho e mover os homens à Fé em Cristo, desempenhava naturalmente um papel importante o dom carismático de ensinar. Os pregadores ambulantes eram os comandos que precedem as tropas regulares. Eram delegados para uma missão de caráter transitório.

2. Junto a esta “Hierarquia ambulante” havia também nas comunidades cristãs superiores estáveis. Muitos pesquisadores não levam suficientemente em conta o influxo do Antigo Testamento. Barrer notou que a ideia de uma constituição hierárquica e de uma autoridade era tão familiar, que Paulo não pôde desentender-se dela. Paulo e Barnabé, em sua primeira viagem de missão, “constituíram em todas as comunidades…presbíteros, e os encomendaram ao Senhor, ao qual eles também se haviam confiado” (Atos 14, 23). Na terceira viagem, Paulo fez vir a Mileto os superiores de Éfeso, que são designados como “Presbíteros” ou “Bispos” (Atos 20, 17.28). “Bispos” e “Diáconos” são também nomeados no começo da carta aos filipenses. Paulo deu a seus discípulos Timóteo e Tito o encargo e os plenos poderes para constituir Bispos e Diáconos.

3. Não deve estranhar que São Paulo em suas cartas trate pouco da organização interior de suas comunidades; ao Apóstolo interessam em suas cartas, antes de tudo, os assuntos religiosos dos cristãos por ele conhecidos, na maioria das vezes até pessoalmente, e não tanto a determinação dos diversos ministérios entre os cristãos. No princípio, enquanto estava em todo o seu vigor o espírito de unidade fraterna, estes ofícios e ministérios passavam mais despercebidos frente aos dons carismáticos (1 Cor 12, 28). Mas São Paulo, mesmo em suas primeiras cartas, reconhece os ministérios eclesiásticos. Na primeira carta aos tessalonicenses (5, 12) e na carta aos romanos (12, 8) trata dos superiores em geral. Exorta os tessalonicenses a tratar “com reverência e amor em seu ministério os que trabalham entre eles e os presidem no Senhor”. À comunidade de Corinto exorta a que mostrem atenções “à casa de Estéfanas, primícias da Acaia, que se dedicaram ao serviço dos santos” (1 Cor 16, 15). Expressa sempre com clareza e atribui a Deus a ordem sagrada das tarefas e ministérios dentro da comunidade (Efésios 4, 11). Os superiores de Éfeso, que Paulo, em seu regresso da terceira viagem de missão, faz vir a Mileto, são exortados por ele como “pastores da comunidade postos pelo Espírito Santo” (Atos 20, 28) e são chamados presbíteros e bispos (Atos 20, 17.28). Em sua carta aos filipenses (1, 1) nomeia expressamente os bispos e diáconos. Nas cartas pastorais, finalmente, Paulo encarrega seus discípulos Timóteo e Tito de nomear bispos e diáconos (Tt 1, 5; 2 Tm 2, 3) e trata detalhadamente dos deveres e exigências destes ofícios e do respeito a eles devido (1 Tm 3, 1-13; 5, 17; Tt 1, 5-9).

4. Os cargos na comunidade eram conferidos, desde o princípio, num ato de culto por meio da imposição das mãos (Atos 6, 6; 13, 3; 14, 23; 1 Tm 4, 14; 5, 22; 2 Tm 1, 6). Isto demonstra que não se queria deixar o governo à livre inspiração do Pneuma, mas que se aspirava a uma ordem firme. A questão dos carismas no primitivo cristianismo ainda não está de todo esclarecida. Havia carismas de diferentes classes. Contavam-se entre eles as graças extraordinárias (glossolalia, curas milagrosas, discernimento de espíritos), mas também as graças necessárias para capacitar os “Apóstolos, Profetas, Evangelistas, Pastores” (Efésios 4, 11) a desempenhar sua missão. Não existia nenhuma oposição entre carisma e autoridade. Os carismáticos eram requeridos para os serviços da comunidade; em particular, a pregação do Evangelho era confiada aos dotados do dom de línguas. Por sua vez, reconhecia-se que os chefes da comunidade estavam cheios da força do Espírito (Atos 20, 28). Paulo, em Rm 12, 6-8, conta o serviço entre os dons de graça e, em 1 Tm 4, 14, chama de carisma o ofício que foi conferido a Timóteo pela imposição das mãos.

É importante notar que o nascimento dos ministérios e cargos de governo na Igreja não coincide com a reflexão sobre eles. Há que reconhecer que os nomes para os diversos ofícios tinham que ser primeiro cunhados e só pouco a pouco conseguiam circunscrever sua significação. No princípio não estava desenvolvido, ou só de um modo imperfeito, o vocabulário para os diversos cargos ou ofícios. Não é só Paulo o primeiro que falou dos “superiores” em geral Hb 13, 17, e no Pastor de Hermas usa-se ainda o indeterminado “os que dirigem”, e Justino, na descrição de uma reunião litúrgica, fala quase 150 vezes de “o que preside” só de um modo geral. Mas precisamente o fato de não se designarem os ofícios do Novo Testamento com os títulos sagrados que existiam anteriormente mostra que eram considerados como algo novo, como uma função nascida da missão dada por Cristo.

A palavra Diácono parece ter sido a primeira a receber sua precisa significação. Por ser um termo que expressava uma relação não muito concreta, tinha a suficiente flexibilidade para poder receber um novo conteúdo de significado. As palavras: diakoneuo, diakonía, diákonos foram empregadas para significar também o serviço da mesa, o cuidado pela subsistência e, em geral, qualquer serviço; com esta significação foram empregadas também no Novo Testamento (Lc 10, 40; Mc 1, 31; At 6, 1 s.; 11, 29; 12, 25; Rm 15, 31). Mas pouco a pouco se usaram para significar os atos de serviço na comunidade cristã (1 Ts 3, 2; 2 Cor 11, 23; Ef 6, 21; Cl 1, 7). Nas “cartas pastorais” a palavra diákonos significa já um ofício determinado, a saber, o encarregado de servir no culto divino e na pregação (1 Tm 3, 8.12).

Foi no começo do século II, e no Ocidente talvez algo mais tarde, que se começou a dar à palavra “episcopus” (bispo) o sentido preciso de hoje.

Caráter Hierárquico da Autoridade na Igreja primitiva

Mais importante que a questão da forma exterior da autoridade na Igreja é a investigação acerca de seu fundamento e legitimação. A essência íntima de uma comunidade depende menos da pessoa que exerça a autoridade na comunidade do que do fundamento com que a exerce.

Os que defendem a ideia de uma igreja democrática afirmam que os cargos de governo na primitiva Igreja, enquanto em seus começos se pode falar deles, só tinham que desempenhar uma função de ordem. A autoridade eclesiástica nasceu, segundo eles, dos serviços indispensáveis para a vida e a atividade comum de uma comunidade. Por conseguinte, suas funções hão de compreender-se a partir de categorias sociais, e seus poderes hão de deduzir-se da vontade da comunidade. Esta autoridade, segundo eles, não se apoia em direito divino, não procede de “cima”, mas de “baixo”, é democrática, não hierárquica. Esta concepção da autoridade eclesiástica está em contradição com os dados que nos oferecem as fontes. Embora estas informem só escassamente sobre a organização das primitivas comunidades cristãs, uma coisa se deduz delas claramente: que a primitiva Igreja em seus traços fundamentais tinha um caráter hierárquico, isto é, que os poderes em que se apoiava, as exigências que apresentava, as graças que oferecia, eram atribuídos a uma ordenação ou promessa de Deus.

Os Apóstolos exerciam seu ministério fundados na autoridade de Deus. Isto se vê expressamente na eleição do sucessor de Judas. Confiam à sorte o decidir entre Barsabás e Matias para conhecer “qual destes dois o Senhor escolheu” (At 1, 21 ss.). A consciência de serem chamados por Deus (Atos 4, 7; 4, 29; 20, 24), ao qual sempre se deve obedecer mais que aos homens (Atos 4, 19), dá-lhes força para fazer frente aos obstáculos interiores e exteriores. Antes da eleição dos sete diáconos (Atos 6, 1 ss.), os Apóstolos convocam a comunidade para que eles deliberem e proponham homens aptos para o novo ministério. Mas a constituição no cargo e a entrega dos poderes necessários só se faz por meio dos Apóstolos e precisamente com a imposição das mãos (1 Tm 4, 14; 2 Tm 1, 6; Cf. Atos 6, 6). A imposição das mãos sobre a cabeça aparece muitas vezes na história das religiões como meio ou símbolo de conferir a outro força e poder. No Antigo Testamento também era usual a imposição das mãos no rito dos sacrifícios (Lv 1, 4; 16, 21; 24, 14), na consagração dos levitas (Nm 8, 10) e, mais tarde, na admissão ao grau de doutor na Lei.

O primeiro decreto, por nós conhecido, da autoridade da Igreja tem também um estilo hierárquico. A forma do decreto dos Apóstolos imita a fórmula dos decretos da antiga polis. Mas diferencia-se em que não funda sua autoridade no povo, mas em Deus: “pareceu bem ao Espírito Santo e a nós…” (Atos 15, 28).

A mesma “consciência de missão” enche Paulo em todo o seu trabalho. Considera-se como um enviado, que tem de cumprir uma missão elevada, como um arauto, que tem de anunciar a mensagem de alegria; exerce o ofício de Apóstolo no nome e na autoridade de Deus.

A “consciência de missão” expressa-se em quase todas as suas cartas: está “chamado pela vontade de Deus a ser Apóstolo de Jesus Cristo” (1 Cor 1, 1), “escolhido para o Evangelho” (Rm 1, 1), “constituído Apóstolo não da parte dos homens, nem por meio de um homem, mas por Jesus Cristo e por Deus Pai” (Gl 1, 1), “Apóstolo de Cristo Jesus por ordem de Deus…e de Cristo Jesus” (1 Tm 1, 1). De Cristo procedem sua missão e seu direito “de submeter todos os homens e povos à obediência da fé” (Rm 1, 5) e “cativar todo pensamento para fazê-lo servo de Cristo” (2 Cor 10, 5). Seu poder funda-se na autoridade divina: “somos embaixadores de Cristo, é Deus mesmo quem exorta por meio de nós” (2 Cor 5, 20).

Mas não só vem de Deus a autoridade do Apóstolo, mas também a de seus sucessores e dos que desempenham algum ministério de governo. Em seu discurso de despedida em Mileto, Paulo encarrega os presbíteros-bispos de Éfeso do cuidado do rebanho a eles confiado e lhes recorda que o “Espírito Santo os constituiu para reger a Igreja de Deus” (Atos 20, 28). No mesmo sentido admoesta Timóteo: “faze reviver a graça de Deus que reside em ti em virtude da imposição das minhas mãos” (2 Tm 1, 6). A constituição dos presbíteros feita por Timóteo e Tito não era “uma última repercussão da autoridade apostólica especial e única no tempo”, mas um testemunho de que a missão dos Apóstolos não devia extinguir-se, mas devia transmitir-se na Igreja por uma sucessão ininterrupta.

Pode-se, pois, apreciar na primitiva Igreja a linha hierárquica que o Senhor assinalou no grande discurso de missão. Todo poder vem do Pai; o Pai o deu ao Filho; este o transmitiu aos Apóstolos, para que estes o transmitam de novo a outros. A missão e o poder, os ministérios e as graças provêm do alto. Na Igreja de Jesus não existe uma autoridade democrática, mas um poder hierárquico.

A autoridade cristã é uma missão e um encargo que vem do alto. Daqui se deduzem suas características fundamentais. É dom de Deus, poder outorgado por Deus e, por isso, de uma autoridade singular. Não sofre nenhuma limitação (Atos 4, 19.29 s.; 2 Tm 2, 9) e só é responsável diante de Deus (1 Cor 4, 3 s.). Mas também é uma autoridade “recebida”, que obriga ao humilde agradecimento. Toda vaidade e arrogância sobre a própria autoridade é imprópria das autoridades eclesiásticas. Todos são “servos, pelos quais se chega à fé” (1 Cor 3, 5), “colaboradores de Deus” (1 Cor 3, 9), “servos de Cristo e administradores dos mistérios de Deus” (1 Cor 4, 1).

A autoridade eclesiástica é dom e, ao mesmo tempo, missão. “De um administrador exige-se que seja fiel” (1 Cor 4, 2). Está obrigado ao serviço e caracteriza-se, precisamente por isso, como um ministério de serviço (Atos 20, 24; Rm 11, 12; 12, 7). O sentido de serviço tem de manifestar-se tanto na fiel obediência a Deus, como na entrega servicial aos homens. Paulo chama seus colaboradores de “servos”, “servos de Deus” (1 Ts 2, 3), “servos de Cristo”, e ele mesmo se designa precisamente como “servo de Cristo” (Rm 1, 1; Fl 1, 1; Tt 1,1). O serviço tem de acreditar-se na ajuda aos irmãos da comunidade, especialmente no serviço da Palavra (Atos 6, 2-4; 20, 24), da Eucaristia (Atos 2, 46; 20, 11) e no cuidado pastoral (Ef 4, 12-16). Mas a obrigação e a autorização deste serviço procedem somente da missão e do encargo de Cristo (Rm 10, 14, 17).

A autoridade eclesiástica recebeu já durante o primeiro século cristão sua forma determinada. Seus graus e características concretas aparecem já de um modo claro e seguro. E é digno de nota que se reconhece e expressa de um modo claro e acentuado a consciência de seu essencial caráter hierárquico. Assim o atestam de um modo evidente tanto a carta de São Clemente de Roma à Igreja de Corinto, como as cartas de Santo Inácio de Antioquia.

São Clemente, em sua carta aos coríntios, não expressa claramente quais eram as queixas que se levantavam contra os superiores daquela comunidade. A ele interessa, antes de tudo, a grande importância do assunto, embora só tivessem sido uns poucos os que se rebelaram contra os superiores. O núcleo de sua carta é constituído pelas explicações dos capítulos 40-44: a Igreja e sua organização são uma instituição divina. A autoridade dos superiores provém de Deus por meio de Cristo e dos Apóstolos. Os superiores estão dentro da linha hierárquica: Cristo é enviado por Deus; Cristo é, por conseguinte, de Deus, e os Apóstolos são de Cristo. Tudo sucedeu dentro da ordem e da vontade de Deus. Ao pregarem os Apóstolos nos territórios e cidades, e batizarem os que escutavam a vontade de Deus, constituíam as primícias (de sua pregação) como bispos e diáconos dos futuros crentes, depois de provados no Espírito. E depois deram a estes a ordem de que, se eles morressem, tomassem seu ministério outros homens de provados costumes. Os superiores não recebem sua autoridade da comunidade, nem esta pode tampouco tirá-la deles. Sacrifício e culto a Deus devem realizar-se segundo a ordenação do Senhor. Ele determinou em sua suprema vontade onde e por meio de quem há de ser desempenhado.

Santo Inácio de Antioquia expôs também com vigor a essência hierárquica da autoridade eclesiástica. Inácio exige obediência ao bispo e põe sempre como fundamento dela a missão divina do bispo: “Porque a todo aquele que o dono da casa envia para exercer a administração, havemos de recebê-lo como ao mesmo que o envia”. “O Bispo preside em lugar de Deus”. “A ele há que obedecer, como Cristo obedeceu a seu Pai”. A autoridade do bispo não depende, portanto, de sua pessoa, nem de suas qualidades, e não pode ser desprezado por ser jovem. O bispo tampouco depende da comunidade, “como bispo, só tem sobre si a Deus Pai e ao Senhor Jesus Cristo”.

Quando os gnósticos no século II combateram o caráter único e absoluto da revelação cristã e a necessidade da sucessão apostólica, esta doutrina foi geralmente rechaçada e negada, como um ataque ao fundamento essencial da Igreja. Até mesmo membros das seitas heréticas eram conscientes de que uma autoridade hierárquica procedente dos Apóstolos pertencia à essência da Igreja cristã. Assim, o cismático Hipólito apoia-se no fundamento hierárquico da autoridade eclesiástica, o mesmo que o herege Novaciano, que se fez ordenar e ele mesmo ordenou bispos.

As disputas com o Gnosticismo e a reflexão teológica levaram a destacar a importância essencial da autoridade eclesiástica, isto é, a necessidade de uma ininterrupta sucessão apostólica. Cristo é a fonte vital da salvação sobrenatural e da Graça, que é comunicada pela Igreja; Ele é porta-voz da revelação divina no mundo, que por meio da Igreja há de chegar a todos. Se a Igreja quer cumprir esta missão, tem de permanecer numa união vital com Cristo. Esta consiste em que o poder e a missão de Cristo, sua mensagem e sua Graça se perpetuem na Igreja. “O Espírito Santo, que rege a Igreja —diz Hipólito—, confunde os hereges. Os Apóstolos o receberam e o transmitiram aos verdadeiros crentes. Nós, seus sucessores, participamos de sua Graça, de seu supremo poder e de seu magistério”. Tertuliano fez valer especialmente a necessidade da ininterrupta sucessão do episcopado: “Consultem a lista de seus bispos, para ver se de tal maneira se sucedem, que o primeiro bispo tenha como antecessor algum dos Apóstolos ou dos varões apostólicos”.

A autoridade da Igreja está numa união orgânica com Cristo por meio da sucessão e tradição apostólica, pelas quais recebe a vocação e a aptidão para transmitir a todos os homens a Verdade e a Graça de Cristo pela Palavra e pelos Sacramentos. Sucessão e tradição apostólica representam apenas dois aspectos do processo orgânico de transmissão dos poderes apostólicos: a sucessão sublinha mais o aspecto ontológico dos poderes transmitidos, a saber, o poder de missão e administração de sacramentos, enquanto a tradição se relaciona mais com o conteúdo deles, a saber, com a conservação intacta do depósito da fé e dos bens de salvação. Com a demonstração de uma ininterrupta sucessão dos bispos a partir dos Apóstolos pode uma comunidade assegurar a legitimidade de sua autoridade eclesiástica e a autenticidade da tradição apostólica. Mas também constitui um critério para isso a unanimidade e a harmonia com as outras Igrejas e bispos, especialmente com o sucessor de São Pedro na Igreja de Roma. Notas indispensáveis para a legitimidade da autoridade eclesiástica são, por conseguinte, a apostolicidade ou radicação em Cristo e nos Apóstolos, e a catolicidade ou o vínculo da união e colaboração universal.

O caráter Monárquico e a estrutura colegial da autoridade Eclesiástica 

A Igreja esteve no princípio sob a direção dos Apóstolos. Segundo as necessidades, estes constituíram colaboradores (diáconos, presbíteros) para as tarefas, que aumentavam dentro da comunidade cristã (Atos 6, 1; 14, 23; 15, 2 ss.). Suas funções e diversas relações só pouco a pouco foram fixadas e delimitadas de um modo correspondente à situação de então. O desenvolvimento fez-se de tal modo que a estrutura da autoridade eclesiástica, dada no princípio só em germe, chegou a plasmar-se claramente: a direção das comunidades esteve a cargo de bispos, que se sentiam unidos colegialmente num comum trabalho e responsabilidade.

É um fato histórico incontrovertível que já no século II as comunidades cristãs eram regidas por bispos. No Ocidente fala-se já do episcopado monárquico desde a metade do século II; na Ásia Menor e na Síria aparece já em começos do mesmo século.

Irineu de Lião (+ 202), o discípulo de São Policarpo (e este discípulo do Apóstolo João), lutou contra os gnósticos e, para rebater suas novidades, invoca o testemunho da tradição apostólica. O fim principal era demonstrar a existência desta. Para isso alega a sucessão ininterrupta dos bispos. Como a doutrina dos Apóstolos é garantida pela sucessão apostólica, “nós podemos enumerar os bispos das Igrejas particulares postos pelos Apóstolos e seus sucessores até nossos dias” (Santo Irineu, Adv. Haer., III, 3, 1). Segundo isto, no tempo de Irineu, cada Igreja tinha seu bispo particular. Irineu enumera os nomes dos bispos de Roma desde Lino até Eleutério. A Lino foi entregue pelos Apóstolos o ministério episcopal para reger a Igreja. (Ibidem III, 3, 3)

Eusébio proporcionou-nos valiosos testemunhos sobre a história do episcopado em sua História da Igreja, cujo valor está precisamente em que contém muitos extratos de fontes anteriores, que Eusébio tinha ainda à mão.

a) Nas narrações de Eusébio sobre a luta contra o montanismo e sobre as disputas acerca da celebração da Páscoa pode-se advertir que no ano 150 cada Igreja era geralmente governada por um bispo particular. O montanismo pôs em dúvida a Hierarquia da Igreja e contrapôs-lhe o direito dos “profetas”. Contra estas tendências levantaram-se os bispos de muitas Igrejas, primeiro individualmente e, depois, como isto não bastava, reunidos em Sínodos (Eusébio, HE V, 3, 4; V, 16; V, 17; V, 20, 2; V, 12, 1 ss). A decisão sobre o dia da celebração da Páscoa está também em mãos de bispos particulares, que muitas vezes são citados nominalmente (S. Irineu V 23, 3 ss.; V, 24, 8).

b) Eusébio consultou as cartas que o Bispo Dionísio de Corinto (ano 170) dirigiu às diversas Igrejas na Grécia, Creta, Nicomédia, no Ponto e também a Roma. Dos dados e citações de Eusébio deduz-se que as mencionadas Igrejas eram regidas por bispos monárquicos (S. Irineu, IV, 23, 1 ss.). Em Atenas, por exemplo, depois do martírio de Públio, Quadrato tinha a sede episcopal, da qual é nomeado primeiro titular Dionísio Areopagita (Santo Irineu, IV, 23, 3 s.)

c) Eusébio conhecia também as “Memórias” de Hegesipo, um cristão da Palestina, que, pelo ano 160, percorria as regiões do Mediterrâneo e visitava muitos bispos para confirmar sua doutrina e comprovar a sucessão apostólica. Em Corinto tratou com Primo, o bispo do lugar (S. Irineu, IV, 23, 2); em Roma pôde convencer-se da “ininterrupta ‘Diadoché’ (transmissão) da pura doutrina”, graças, precisamente, à ininterrupta sucessão dos bispos (S. Irineu IV, 22, 3), também em Jerusalém pôde seguir a sucessão dos bispos até os Apóstolos (S. Irineu, IV, 22, 4)

O testemunho mais importante para a existência do episcopado monárquico são as cartas de Inácio de Antioquia. Delas se deduz que nas comunidades da Ásia Menor, entre os séculos I e II, existia uma firme constituição hierárquica da autoridade eclesiástica em três graus: o bispo, o colégio de presbíteros e os diáconos. Em todas as partes exercia toda a jurisdição um bispo particular. Inácio cita nominalmente Onésimo, bispo de Éfeso; Damas, bispo de Magnésia; Políbio, bispo de Trales; Policarpo, bispo de Esmirna. Esta forma de governo não só existia na Ásia Menor, mas também em todo o mundo. Era para Inácio algo essencial e inseparável da Igreja (S. Inácio, Carta aos efésios, 3, 2). Tão essencial como a unidade no Sacrifício e no Ágape fraterno: “Só existe uma carne de Nosso Senhor Jesus Cristo e só um cálice para unir-se a seu Sangue, um só altar, como também um só bispo em união com o colégio dos presbíteros e com os diáconos, meus conservos” (S. I., Carta aos filadelfienses, 4). O bispo é a imagem do Pai (S.I., Carta aos tralianos, 3, 1). Por conseguinte, a obediência ao bispo é condição e sinal de pertencer à Igreja: “Onde aparecer o bispo, ali esteja também a multidão, como onde está Jesus Cristo ali está a Igreja católica” (S.I., Carta aos esmirnenses, 8, 2). “Todos os que pertencem a Deus e a Jesus Cristo estão junto ao bispo” (S.I., carta aos filadelfienses, 3, 2). Por isso, nada se pode fazer sem o bispo, pois só se está com Jesus “se se está submetido a seu bispo” (S.I., carta aos tralianos, 2, 1). Inácio não diz nada sobre a origem, os fundamentos e a justificação do episcopado monárquico; isto é para ele um dado firme e evidente, transmitido pela tradição. A força do testemunho de Inácio a favor do episcopado monárquico chega, por conseguinte, até o século I.

Não é, pois, certo que o episcopado monárquico se tenha estabelecido pela primeira vez na luta contra a Gnose e o marcionismo.

O primeiro e mais claro exemplo de uma comunidade dirigida monarquicamente é a comunidade primitiva de Jerusalém. Depois da partida de Pedro, ocasionada pela perseguição de Herodes, é Tiago o supremo diretor da comunidade. Em todos os assuntos que se tratam em Jerusalém sobressai como a autoridade decisiva. Paulo dirigiu-se a Tiago tanto em sua primeira como em sua segunda visita à comunidade de Jerusalém (Gl 1, 19; Atos 21, 18 ss.). No concílio dos Apóstolos corresponde-lhe um papel de direção como bispo do lugar. Tiago teve como sucessores outros bispos, como o demonstra a lista de sucessão apresentada por Hegesipo (Eusébio, HE, IV, 23, 4). Assim resume K. Holl seu juízo sobre a primitiva Igreja: “Encontramos na comunidade cristã desde o princípio uma hierarquia legítima, uma estrutura determinada por Deus, um direito divino da Igreja”. Complemento disto é o que afirma Fr. Heiler: “encontramos na primitiva comunidade em forma embrionária a hierarquia completa da Igreja católica, o tríplice ofício: diaconato, presbiterato e episcopado”.

Pelo contrário, a autoridade nas comunidades pagão-cristãs (chamam-se pagão-cristãs porque eram formadas por “gentios” convertidos a Cristo) estava confiada a um colégio de presbíteros (Atos 14, 23; 20, 17; 1 Ts 5, 12; Fl 1, 1; Ef 4, 11; Hb 13, 17; 1 Tm 4, 14; 5, 17; Tt 1, 5). A suprema direção sobre as comunidades fundadas por São Paulo reservou-a para si mesmo o Apóstolo das Gentes; as disposições necessárias, dava-as por cartas ou por meio de seus companheiros ou por legados especiais; ele é o modelo original do bispo monárquico. As especiais circunstâncias das comunidades pagão-cristãs tornam oportuna esta estrutura, como ocorre ainda hoje nas regiões de missões. A libertinagem e a arrogância democrática dos coríntios, os sonhos apocalípticos dos tessalonicenses, os ciúmes exagerados e soberbos dos “superapóstolos” mostram a razão desta maneira que o Apóstolo tinha de governar as comunidades. Por intenso serviço de correios era Paulo informado sobre o estado das comunidades por ele fundadas e dirigidas, enquanto enviava uma e outra vez seus companheiros com especiais missões às comunidades. Colson mantém, pois, como possível que, junto à hierarquia estável de âmbito local, existia uma “hierarquia itinerante”, mensageiros “en mission à travers une province”, em sua maioria companheiros de Paulo, que ocupavam o primeiro posto depois dele.

Mas também nas comunidades paulinas se deu uma evolução para o episcopado monárquico. Onde as comunidades já estavam organizadas mais solidamente e haviam conseguido uma certa estabilidade e independência, entrou em vigor o governo monárquico. O próprio Paulo constituiu Tito e Timóteo como bispos estacionários em Creta e em Éfeso.

O bispo, autoridade suprema de sua Igreja, não se deve considerar como algo isolado. Há de trabalhar em colaboração com os presbíteros e diáconos de sua comunidade e há de estar em contato com os bispos de toda a Igreja.

O animado comércio epistolar entre os diversos bispos, as repetidas viagens de informação, que se empreendiam para constatar a unanimidade na doutrina e na tradição, e, sobretudo, os frequentes sínodos, mais ou menos universais, com suas conclusões obrigatórias para todos, demonstram que a consciência da união colegial estava viva entre os bispos dos primeiros séculos. Às normas dos bispos dadas colegialmente atribuiu-se não só a força da soma quantitativa destes, mas uma autoridade especial. Além disso, tinha-se consciência de que tais conclusões e normas deviam cumprir os pressupostos da autêntica colegialidade. Atendia-se, por isso, à extensão e, em tudo, buscava-se o consentimento e a harmonia com a Igreja de Roma. Sabia-se que, sem a colaboração do bispo de Roma, que, como sucessor de Pedro, era também a cabeça do colégio dos bispos, não se dava uma autêntica colegialidade episcopal.

O episcopado monárquico está no ponto médio de duas linhas igualmente essenciais para a Igreja: a linha vertical, histórica, da sucessão apostólica e a horizontal da unidade católica. Nas listas da ininterrupta sucessão dos bispos encontra sua mais clara expressão e sua comprovação mais segura o fundamento hierárquico do episcopado. Mas, por sua vez, por meio do vínculo colegial, o bispo vê-se unido à comunidade do episcopado universal e participa da doutrina infalível e da Graça garantidas à Igreja universal pelas promessas de Cristo e pelo Espírito sempre vivo nela. Por meio da sucessão apostólica recebe o bispo, como um dom, a herança do poder apostólico e da tradição, e, como um sagrado dever, o cuidado da comunhão fraterna e da unidade na fé.

 

Autor: Albert Lang

Fonte: Teologia Fundamental, Tomo II, Ed. Rialp, S.A.

Colaboração: Ana Beatriz Aparicio Gereda