Cristo único mediador, a Igreja necessária para a salvação.

Senhores cardeais; venerados irmãos no episcopado e no sacerdócio; amadíssimos fiéis colaboradores:

1. Alegra-me muito reunir-me convosco no final da vossa assembleia plenária. Desejo manifestar-vos o meu agradecimento e o meu apreço pelo trabalho diário que o vosso dicastério realiza ao serviço da Igreja para o bem das almas, em sintonia com o Sucessor de Pedro, primeiro guardião e defensor do sagrado depósito da fé.

Agradeço ao senhor cardeal Joseph Ratzinger os sentimentos que, em nome de todos, me manifestou nas suas palavras de saudação e a exposição que fez dos temas que foram objeto de atenta reflexão ao longo da vossa assembleia, dedicada em particular ao aprofundamento do problema da unicidade de Cristo e à revisão das normas dos chamados “delicta graviora”.

Unicidade e universalidade da Igreja

vaticano2. Agora gostaria de me referir brevemente aos principais temas discutidos na vossa assembleia. O vosso dicastério considerou conveniente e necessário estudar os temas da unicidade e da universalidade salvífica de Cristo e da Igreja. A reafirmação da doutrina do Magistério sobre esses temas realiza-se com a finalidade de fazer que o mundo veja “o resplendor do Evangelho da glória de Cristo” (2 Cor 4, 4) e de refutar alguns erros e graves ambiguidades que surgiram e se estão difundindo em vários âmbitos.

 

Com efeito, nestes últimos anos surgiu em ambientes teológicos e eclesiais uma mentalidade que tende a relativizar a revelação de Cristo e a sua mediação única e universal em ordem à salvação, assim como a atenuar a necessidade da Igreja de Cristo como sacramento universal da salvação.

Para pôr remédio a esta mentalidade relativista é preciso, antes de tudo, reafirmar o caráter definitivo e completo da revelação de Cristo. O Concílio Vaticano II, fiel à palavra de Deus, ensina: “A verdade profunda acerca de Deus e da salvação dos homens, que esta revelação transmite, resplandece em Cristo, mediador e plenitude de toda a revelação” (Dei Verbum, 2).

Por isso, na carta encíclica Redemptoris missio voltei a propor à Igreja a tarefa de proclamar o Evangelho, como plenitude da verdade: “Nesta Palavra definitiva da sua revelação, Deus deu-se a conhecer do modo mais completo; disse à humanidade quem Ele é. Esta autorrevelação definitiva de Deus é o motivo fundamental pelo qual a Igreja é missionária por natureza. Ela não pode deixar de proclamar o Evangelho, isto é, a plenitude da verdade que Deus nos deu a conhecer sobre si mesmo” (n. 5).

Jesus Cristo é a revelação plena e completa

Jesús3. Assim, é contrária à fé da Igreja a tese sobre o caráter limitado da revelação de Cristo, que encontraria um complemento nas demais religiões. A razão de fundo desta afirmação pretende fundamentar-se no fato de que a verdade sobre Deus não poderia ser captada e manifestada em sua totalidade e integridade por nenhuma religião histórica e, consequentemente, tampouco pelo cristianismo, nem sequer por Jesus Cristo. Contudo, esta posição contradiz as afirmações de fé segundo as quais em Jesus Cristo se dá a plena e completa revelação do mistério salvífico de Deus, enquanto a compreensão do mistério infinito deve ser sempre avaliada e aprofundada à luz do Espírito da verdade que, no tempo da Igreja, nos guia “à verdade completa” (Jo 16, 13).

As palavras, as obras e todo o acontecimento histórico de Jesus, embora limitados enquanto realidades humanas, têm como fonte a Pessoa divina do Verbo encarnado e, por isso, encerram o caráter de definitividade e integridade da revelação dos seus caminhos salvíficos e do próprio mistério divino. A verdade sobre Deus não fica abolida nem reduzida pelo fato de se expressar em linguagem humana. Pelo contrário, continua a ser única, plena e completa, porque quem fala e atua é o Filho de Deus encarnado.

Evitar o indiferentismo e o relativismo

4. Em conexão com a unicidade da mediação salvífica de Cristo está a unicidade da Igreja que Ele fundou. Com efeito, o Senhor Jesus constituiu a sua Igreja como realidade salvífica: como o seu Corpo, mediante o qual Ele mesmo atua na história da salvação. Como há um só Cristo, assim existe um só Corpo seu: “uma só Igreja católica e apostólica” (cf. Símbolo da fé, DS 48). O Concílio Vaticano II diz a este respeito: “Este santo Concílio (…), apoiado na Sagrada Escritura e na Tradição, ensina que esta Igreja peregrina é necessária para a salvação” (Lumen gentium, 14).

Por conseguinte, é errôneo considerar a Igreja como um caminho de salvação ao lado daqueles constituídos por outras religiões, que seriam complementares em relação à Igreja, encaminhando-se juntamente com ela para o reino escatológico de Deus. Assim, deve-se excluir certa mentalidade de indiferentismo “marcada por um relativismo religioso que acaba por pensar que ‘uma religião vale a outra’” (Redemptoris missio, 36).

É verdade que, como recordou o Concílio Vaticano II, os não cristãos podem “conseguir” a salvação eterna “com a ajuda da graça” se “procuram Deus com coração sincero” (Lumen gentium, 16). Mas, na sua busca sincera da verdade de Deus, estão de fato “ordenados” a Cristo e ao seu Corpo, a Igreja (cf. ibid.). De qualquer modo, encontram-se numa situação deficitária se comparada com a daqueles que, na Igreja, possuem a plenitude dos meios salvíficos. Assim, compreensivelmente, seguindo o mandato do Senhor (cf. Mt 28, 19-20) e como exigência do amor por todos os homens, a Igreja “anuncia e tem a obrigação de anunciar incessantemente Cristo, que é ‘caminho, verdade e vida’ (Jo 14, 6), em quem os homens encontram a plenitude da vida religiosa e em quem Deus reconciliou consigo todas as coisas” (Nostra aetate, 2).

Prosseguir o caminho do ecumenismo

5. Na carta encíclica Ut unum sint confirmei solenemente o compromisso da Igreja Católica em favor do “restabelecimento da unidade”, na linha da grande causa do ecumenismo que o Concílio Vaticano II tanto impulsionou. Vós, juntamente com o Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, contribuístes para que se alcançasse o acordo sobre verdades fundamentais da doutrina da justificação, assinado em 31 de outubro do ano passado em Augsburgo. Confiando na ajuda da graça divina, prossigamos por este caminho, embora não faltem dificuldades. Contudo, o nosso ardente desejo de chegar um dia à comunhão plena com as demais Igrejas e comunidades eclesiais não deve obscurecer a verdade segundo a qual a Igreja de Cristo não é uma utopia que se deveria refazer juntando os fragmentos atualmente existentes, com as nossas forças humanas. O decreto Unitatis redintegratio falou explicitamente da unidade “que acreditamos subsistir indefectivelmente na Igreja Católica e esperamos que cresça cada dia até à consumação dos tempos” (n. 4).

Amadíssimos irmãos, com o serviço que a vossa Congregação presta ao Sucessor de Pedro e ao Magistério da Igreja, contribuís para que a revelação de Cristo continue a ser na história “a verdadeira estrela que orienta” a humanidade inteira (cf. Fides et ratio, 15).

Ao mesmo tempo que me congratulo convosco por este importante e valioso ministério, encorajo-vos a prosseguir com novo impulso no serviço à verdade salvífica: Cristo ontem, hoje e sempre.

Com estes sentimentos, concedo de coração a todos vós, como penhor de afeto e gratidão, uma especial bênção apostólica.

(Tradução de «L’Osservatore Romano»)

Discurso de Sua Santidade João Paulo II à Congregação para a Doutrina da Fé, 28/01/2000