Reflexões sobre a realidade por trás das aparências.
Uma amiga que é cristã evangélica me escreveu uma mensagem na qual me dizia, referindo-se ao uso das imagens na Igreja, que a idolatria está claramente proibida em Êxodo 20 para todo crente… e insistia que ninguém jamais poderia convencê-la de que as imagens de Maria e dos demais santos não são idolatria. Acrescentava que, se se entendeu de verdade a mensagem de Cristo, nunca se poderia dobrar o joelho diante de uma imagem: “não farás para ti imagem de escultura, nem semelhança alguma do que há em cima nos céus, nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra; não te inclinarás diante delas nem lhes prestarás culto…”. Eis a minha resposta. (JMR, Madri)
Obrigado por me enviar a tua opinião sobre Êxodo 20 e a Igreja Católica.
A meu modo de ver, tudo pode transformar-se num ídolo: a comida, as imagens, a família, o sucesso, o sexo, a aparência física e a beleza, o dinheiro, o poder, a arte, práticas concretas de uma igreja, a nossa interpretação pessoal da Bíblia, etc. etc.
De todo modo, recuso-me a julgar o interior das pessoas, sejam católicos numa procissão, sejam protestantes reunidos num culto no domingo. Muitas vezes gente que me parecia ter uma vida espiritual superficial me surpreendeu. Errei demasiadas vezes na minha vida julgando os outros. Só sei que, para mim, as imagens me remetem àquele que representam e que este me aponta para Deus; e que rezar a Maria e aos santos me ajuda, pois são obras-primas, cada uma a seu modo e com suas peculiaridades, daquilo que Deus fez no gênero humano, e são intercessores, não intermediários, de grande estatura. (Deus não gosta que recordemos que as maravilhas da natureza são obra sua? Também Maria e os santos são obra sua, pois, à força de humildade, deixaram-se modelar por Ele. A Bíblia não diz que a oração de um justo tem muito poder? — Tg 5,16. Deus quer conceder as suas graças não diretamente a indivíduos isolados numa relação de solidão com Ele, mas através da Igreja que Ele criou.)
O fato de me teres citado a tua interpretação pessoal de Êxodo 20, texto que, embora inspirado pelo Espírito Santo, como sabes, pertence à antiga aliança, quando o Verbo ainda não se havia feito carne, quer dizer que desejas falar e que te interessa dialogar; caso contrário, não o terias citado nem explicado. Os filólogos dizem que, quando lemos algo, colocamos lentes através das quais interpretamos o que foi lido. Ninguém lê nada em “estado puro”. Somos frágeis seres humanos, limitados pelas coordenadas de tempo e espaço, condicionados pela cultura em que vivemos. Creio que devemos ter sempre presentes as nossas limitações.
É importante fixar o contexto em que isso é dito. Trata-se da Antiga Aliança e, portanto, ninguém conhecia ainda o rosto de Deus através de seu Filho. O Filho ainda não havia completado a sua obra redentora nem ressuscitado. Ainda não havia criado uma Igreja que iluminaria com o Espírito Santo até o fim dos tempos (Jo 16,12-13; Mt 28,20) e contra a qual as portas do inferno não prevaleceriam (Mt 16,18-19). Uma Igreja habilitada para ligar e desligar. E, na sociedade em que viviam os judeus, as imagens significavam, de fato, idolatria. Mas os gestos e as palavras mudam de significado no decorrer da história. O importante não é o significante (a palavra ou o gesto), mas aquilo que significam.
Para a Igreja Católica, as imagens não são ídolos que se adoram (só Deus é adorado; os teólogos chamam isso de culto de latria), mas recordações de pessoas que estão ausentes da nossa forma atual de vida, da Igreja peregrina (a da terra), mas que continuam pertencendo à Igreja enquanto Igreja triunfante, pois estão vivos, mais vivos que nós, ao estarem junto do Senhor, que é a fonte da vida. Não é o Deus de Abraão, Isaac e Jacó um Deus de vivos e não de mortos? (Mc 12,26-27). Quando pedes a um amigo que reze por ti, estás passando por cima do papel mediador de Cristo? (1 Tm 2,5). Deus já sabe o que tu ou o teu amigo lhe pedirão, até antes de que isso te ocorra. Paulo pedia aos cristãos que rezassem por ele (Rm 15,30; Cl 4,3; 2 Ts 1,11), embora ele também rezasse (e embora Deus já soubesse o que Paulo lhe pediria antes que o pedisse). Pois bem, quando alguém pede a Maria ou aos santos que intercedam por ele ou por ela, também não está negando o papel mediador de Cristo. Maria e os santos, e nossos amigos que rezam por nós, são intercessores, e sua intercessão procede de pertencerem ao corpo de Cristo, isto é, à Igreja. Poderíamos ir diretamente a Deus sem que nossos amigos ou os santos rezassem por nós. Mas parece que Deus quer que, além de recorrermos diretamente a Ele, uns rezemos pelos outros. Em vez de nos salvar isoladamente, criou uma Igreja através da qual realiza a sua obra. Estás adorando o teu filho ou o teu marido quando vês uma foto dele e entabulas um diálogo em tua cabeça?
Maria e os santos não têm valor algum senão o derivado de sua união com Cristo. Fora d’Ele, são meras criaturas. Mas são criaturas divinizadas por sua união com Ele. Maria tornou possível a redenção dizendo sim à Encarnação e, além disso, toda a carne de Nosso Senhor procede de Maria. Recordemos que Jesus é “nascido de mulher”. Ela é a humildade personificada e por isso Deus a escolheu para habitar entre nós. Todas as gerações a chamarão bem-aventurada. (Lc 1,48). Os santos são os maiores cooperadores que seu Filho teve. E suas vidas, modeladas à imagem de Jesus, são um exemplo a imitar por todos os cristãos.
Todos os membros da Igreja estão unidos a Cristo como o corpo está unido à cabeça e como os ramos à videira (Jo 15,1-8; 1 Cor 12,25-27).
Em Ap 5,8; 8,3 podes ler sobre as orações dos santos e dos anjos.
Se devemos interpretar literalmente algumas passagens, também devemos interpretar outras, sobretudo se são da Nova Aliança.
1 Cor 11: devem hoje as mulheres levar véu no culto? É próprio que a mulher hoje ore sem cobrir a cabeça? Devemos excluir hoje do culto os homens que usam cabelo comprido? A mulher é glória do homem?
E que me dizes de 1 Cor 14,34-35? Devem as mulheres calar-se nas congregações cristãs? Devem perguntar a seus maridos quando querem aprender algo?
E sobre os bens em comum: devemos tornar-nos todos monges e monjas e viver o voto de pobreza? (At 2,44-46)
Como tu dizes: não sou eu quem o diz, é a Bíblia que o diz. O problema é: quem a interpreta? A Igreja que precedeu o Novo Testamento e em cujo seio ele foi escrito, ou cada indivíduo segundo seu critério pessoal, ou segundo o que ele ou ela crê que o Espírito Santo lhe diz? Se a Bíblia é inspirada, por que não haveria de estar inspirada essa mesma Igreja que, fundada na sucessão apostólica, além de elaborar seu cânon e afirmar sua inspiração, no-la transmitiu até os nossos dias? Eu estarei convosco até o fim dos tempos.
Como é possível que o Espírito Santo tenha estado ausente durante tantos séculos da única Igreja que Cristo fundou? Não é isso o que eu entendo que a Bíblia diz.
Espero que estas reflexões te sejam úteis.
Que Deus te abençoe.
Autor: JMR, Espanha