A doutrina católica sobre o sentido das imagens religiosas pela Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos

 

As imagens

18. Uma expressão de grande importância no âmbito da piedade popular é o uso das imagens sagradas que, segundo os cânones da cultura e a multiplicidade das artes, ajudam os fiéis a colocarem-se diante dos mistérios da fé cristã. A veneração das imagens sagradas pertence, de fato, à própria natureza da piedade católica: é sinal disso o grande patrimônio artístico que se encontra nas igrejas e santuários, para cuja formação a devoção popular frequentemente contribuiu.

É válido o princípio relativo ao uso litúrgico das imagens de Cristo, da Virgem Maria e dos Santos, tradicionalmente afirmado e defendido pela Igreja, consciente de que “a honra prestada à imagem se dirige à pessoa representada”. O necessário rigor exigido para as imagens das igrejas — no que diz respeito à verdade da fé, à sua hierarquia, beleza e qualidade — deve encontrar-se também nas imagens e nos objetos destinados à devoção privada e pessoal.

Visto que a iconografia dos edifícios sagrados não é deixada à iniciativa privada, os responsáveis pelas igrejas e oratórios devem tutelar a dignidade, a beleza e a qualidade das imagens expostas à veneração pública, para impedir que quadros ou imagens inspirados pela devoção privada sejam, de fato, impostos à veneração comum.

Os Bispos, assim como os reitores de santuários, vigiem para que as imagens sagradas reproduzidas muitas vezes para uso dos fiéis, para serem expostas em suas casas, levadas ao pescoço ou guardadas consigo, nunca caiam na banalidade nem induzam ao erro. […]

As imagens sagradas

238. Foi especialmente o Concílio Niceno II [ano 787], “seguindo a doutrina divinamente inspirada dos nossos Santos Padres e a tradição da Igreja Católica”, que defendeu com vigor a veneração das imagens sagradas: “definimos, com todo rigor e insistência, que, à semelhança da figura da cruz preciosa e vivificante, as veneráveis e santas imagens, quer pintadas, quer em mosaico ou em qualquer outro material adequado, devem ser expostas nas santas igrejas de Deus, sobre os diferentes vasos sagrados, nos ornamentos, nas paredes, em quadros, nas casas e nas ruas; tanto a imagem do Senhor Deus e Salvador nosso Jesus Cristo, como a da nossa Imaculada Senhora, a santa Mãe de Deus, dos santos Anjos, de todos os Santos e justos”.

Os Santos Padres encontraram no mistério de Cristo, Verbo encarnado, “imagem do Deus invisível” (Cl 1,15), o fundamento do culto prestado às imagens sagradas: “foi a santa encarnação do Filho de Deus que inaugurou uma nova economia das imagens”.

239. A veneração das imagens, sejam pinturas, esculturas, baixos-relevos ou outras representações, além de ser um fato litúrgico significativo, constitui um elemento relevante da piedade popular: os fiéis rezam diante delas, tanto nas igrejas como em seus lares. Adornam-nas com flores, luzes, pedras preciosas; saudam-nas com diversas formas de veneração religiosa, levam-nas em procissão, penduram junto delas ex-votos como sinal de agradecimento; colocam-nas em nichos e pequenas capelas, no campo ou nas ruas.

Contudo, a veneração das imagens, se não se apoia numa concepção teológica adequada, pode dar lugar a desvios. É necessário, portanto, que se explique aos fiéis a doutrina da Igreja, sancionada nos concílios ecumênicos e no Catecismo da Igreja Católica, sobre o culto às imagens sagradas.

240. Segundo o ensinamento da Igreja, as imagens sagradas são:

– tradução iconográfica da mensagem evangélica, na qual imagem e palavra revelada se iluminam mutuamente; a tradição eclesial exige que as imagens “estejam de acordo com a letra da mensagem evangélica”;

– sinais santos que, como todos os sinais litúrgicos, têm Cristo como referente último; as imagens dos Santos, de fato, “representam Cristo, que é glorificado neles”;

– memória dos irmãos Santos “que continuam participando da história da salvação do mundo e aos quais estamos unidos, sobretudo na celebração sacramental”;

– auxílio na oração: a contemplação das imagens sagradas facilita a súplica e move a dar glória a Deus pelos prodígios de graça realizados em seus Santos;

– estímulo para sua imitação, porque “quanto mais frequentemente os olhos se detêm nestas imagens, tanto mais se aviva e cresce, em quem as contempla, a lembrança e o desejo daqueles que nelas estão representados”; o fiel tende a imprimir em seu coração aquilo que contempla com os olhos: uma “imagem verdadeira do homem novo”, transformado em Cristo pela ação do Espírito e pela fidelidade à própria vocação;

– uma forma de catequese, visto que “por meio da história dos mistérios da nossa redenção, expressa nas pinturas e de outras maneiras, o povo é instruído e confirmado na fé, recebendo os meios para recordar e meditar assiduamente os artigos da fé”.

241. É necessário, sobretudo, que os fiéis percebam que o culto cristão das imagens é algo que se refere a outra realidade. A imagem não é venerada por si mesma, mas por aquilo que representa. Por isso, às imagens “deve-se tributar a honra e a veneração devidas, não porque se creia que nelas há certa divindade ou poder que justifique este culto, nem porque se deva pedir alguma coisa a estas imagens ou pôr nelas a confiança, como faziam antigamente os pagãos, que punham sua esperança nos ídolos, mas porque a honra que se lhes tributa se refere às pessoas que representam”.

242. À luz destes ensinamentos, os fiéis evitarão cair num erro que às vezes ocorre: estabelecer comparações entre imagens sagradas. O fato de que algumas imagens sejam objeto de uma veneração particular, a ponto de se tornarem símbolo da identidade religiosa e cultural de um povo, de uma cidade ou de um grupo, deve ser explicado à luz do acontecimento de graça que deu origem a esse culto e dos fatores histórico-sociais que concorreram para que ele se estabelecesse: é lógico que o povo faça referência, com frequência e gosto, a esse acontecimento; assim fortalece sua fé, glorifica a Deus, protege sua própria identidade cultural, eleva com confiança súplicas incessantes que o Senhor, segundo sua palavra (cf. Mt 7,7; Lc 11,9; Mc 11,24), está disposto a ouvir; assim aumenta o amor, dilata-se a esperança e cresce a vida espiritual do povo cristão.

243. As imagens sagradas, por sua própria natureza, pertencem tanto à esfera dos sinais sagrados como à da arte. Nelas, “que frequentemente são obras de arte cheias de intensa religiosidade, aparece o reflexo da beleza que vem de Deus e a Deus conduz”. Contudo, a função principal da imagem sagrada não é proporcionar deleite estético, mas introduzir no Mistério. Às vezes, a dimensão estética é colocada em primeiro lugar e a imagem resulta mais um “tema” do que um elemento transmissor de uma mensagem espiritual.

No Ocidente, a produção iconográfica, muito variada em sua tipologia, não é regulamentada, como no Oriente, por cânones sagrados vigentes durante séculos. Isso não significa que a Igreja latina tenha descuidado a atenção à produção iconográfica: mais de uma vez proibiu expor nas igrejas imagens contrárias à fé, indecorosas, que podiam dar lugar a erros nos fiéis, ou que são expressões de um caráter abstrato, desencarnado e desumanizador; algumas imagens são exemplo de um humanismo antropocêntrico, mais do que de autêntica espiritualidade. Também se deve reprovar a tendência de eliminar as imagens dos lugares sagrados, com grave prejuízo para a piedade dos fiéis.

A piedade popular aprecia as imagens que levam as marcas da própria cultura; as representações realistas, os personagens facilmente identificáveis, as representações nas quais se reconhecem momentos da vida do homem: o nascimento, o sofrimento, as núpcias, o trabalho, a morte. Contudo, deve-se evitar que a arte religiosa popular caia em reproduções decadentes: há correlação entre a iconografia e a arte para a Liturgia, a arte cristã, segundo as épocas culturais.

244. Por seu significado cultual, a Igreja abençoa as imagens dos Santos, sobretudo as que são destinadas à veneração pública, e pede que, iluminados pelo exemplo dos Santos, “caminhemos seguindo as pegadas do Senhor, até que se forme em nós o homem perfeito segundo a medida da plenitude em Cristo”. Assim também, a Igreja emanou algumas normas sobre a colocação das imagens nos edifícios e nos espaços sagrados, que devem ser observadas diligentemente; sobre o altar não se devem colocar nem estátuas nem imagens dos Santos; nem sequer as relíquias, expostas à veneração dos fiéis, devem ser colocadas sobre a mesa do altar. Cabe ao Ordinário vigiar para que não sejam expostas à veneração pública imagens indignas, que induzam ao erro ou a práticas supersticiosas.

Fonte: tradução portuguesa de trabalho a partir do texto espanhol, cotejada com as versões oficiais inglesa e francesa do Vatican.va, Diretório sobre a piedade popular e a liturgia. Princípios e orientações, nn. 18 e 238-244.