Um programa da BBC refuta o mito do Santo Ofício como paradigma do terror 

As sinistras salas de tortura equipadas com rodas dentadas, instrumentos para quebrar ossos, grilhões e outros mecanismos aterradores só existiram na imaginação de seus detratores.

No entanto, ainda hoje seu nome é invocado como sinônimo de repressão, obscurantismo e crueldade. Que mecanismos do destino transformaram a Inquisição espanhola no exemplo mais duradouro de terror? A resposta, de acordo com os dados exaustivos reunidos por uma nova geração de historiadores internacionais, é simples: o Santo Ofício enfrentou uma gigantesca máquina de propaganda. Os efeitos da deturpação, promovida pelo mundo protestante graças à imprensa, foram tão duradouros que, ainda hoje, o termo inquisição ou inquisidor se identifica com horror, tortura e assassinato em todos os idiomas.

É paradoxal que tenha sido a BBC — a televisão pública britânica — a encarregada de reconstruir a imagem de uma instituição tão espanhola. No domingo, um programa noturno de grande audiência — Time Watch — mostrou o verdadeiro rosto de um tribunal criado pelos Reis Católicos para lutar contra a heresia. Especialistas da estatura de Henry Kamen, Stephen Haliczer ou os professores espanhóis José Álvarez-Junco e Jaime Contreras reconstroem, na reportagem O mito da Inquisição espanhola, o verdadeiro panorama de uma instituição que, embora não seja defensável aos olhos do século XX, foi sim intencionalmente desvirtuada.

Uma instituição controlada por juristas relutantes em aplicar a tortura e muito menos inquisidores do que seus homólogos da França, Alemanha ou Inglaterra, onde, sem necessidade de um tribunal específico, foram assassinados três vezes mais hereges, bruxas ou personagens mais ou menos excêntricos. Para o professor da Universidade de Illinois, Stephen Haliczer, os próprios arquivos da Inquisição são eloquentes: em cerca de 7.000 casos, apenas se aplica algo parecido com tortura em 2%.

Em 350 anos de história repressiva, e enquanto a lenda fala de milhões de assassinatos, o número real de vítimas situa-se entre 5.000 e 7.000 pessoas.

Ao longo de cinquenta minutos, o programa da BBC, coproduzido pelo historiador e hispanista Nigel Townson, leva seu empenho de reconstrução da verdade histórica até a figura de Filipe II, autêntica besta negra do imaginário internacional. A política de Filipe II é perfeitamente discutível.
Para mim, ele não é particularmente simpático — explica no programa o professor Álvarez-Junco —, mas seu filho Carlos era simplesmente um adolescente de saúde frágil que morreu em um acidente. Transformá-lo em paladino da liberdade, como fez a história, no jovem libertador dos Países Baixos, que cai assassinado por seu pai, como conta a ópera Don Carlos, de Giuseppe Verdi, é um dos casos mais gritantes de injustiça histórica.

Londres.

Autora: Lola Galán.