–Todos te devem servir – Virgem e Mãe de Deus – que sempre rogas por nós – e tu nos fazes viver.
–Ó clara virgindade – fonte de toda virtude! – não cesses de dar saúde – a toda a cristandade.
Alguns exegetas católicos estão negando que Maria foi sempre virgem. Ainda que admitam a conceição virginal de Jesus –no melhor dos casos–, segundo eles, a Virgem não foi virgem. Ao menos, segundo asseguram, é isso o que confirma um exame científico, filológico-histórico-crítico, da questão. Antes foi mãe de família numerosa. Esta tese não provocou uma avalanche de reprovações enérgicas por parte dos exegetas e teólogos católicos, pois a maioria deles se atém ao “academicamente correto” no tempo atual: deixar que cada um exprima livremente o seu pensamento, sem combatê-lo publicamente.
Vittorio Messori, pelo contrário, no capítulo 50 da sua obra Ipotesi su Maria (Madri, LibrosLibres 2012, 3ª ed., pgs. 425-441), faz uma boa síntese da exegese católica sobre esta grave questão. No que segue farei uma síntese da sua síntese, entremesclando considerações suas e minhas. Mas comecemos por assinalar, a modo de exemplo, um exegeta católico que nega o fundamento histórico-evangélico à fé da Igreja na virgindade perpétua de Maria.
John P. Meier (1942-) é sacerdote católico, professor de Novo Testamento na Catholic University of America de Washington, professor de N. T. na Notre Dame University de Indiana, ex-presidente da Catholic Biblical Association, diretor da revista Catholic Biblical Quarterly. Um dos autores mais influentes nos estudos bíblicos atuais do mundo católico.
Nos anos noventa do século passado publicou em vários volumes uma obra enorme, traduzida às línguas principais, intitulada Jesus: a Marginal Jew (Jesús, un judío marginal, editada em espanhol pela Edit. Verbo Divino, Estella, Espanha; também em edição digital. Na aba da capa diz-se que “é, provavelmente, o mais eminente estudioso bíblico da sua geração”. O imprimatur original (25-VI-1991) foi concedido por Mons. Patrick Sheridan, então vigário-geral da diocese de Nova Iorque; em 2001 constituído Bispo auxiliar da mesma diocese.
Este eminente e tão prestigiado autor, tratando dos “irmãos e irmãs de Jesus” citados nos Evangelhos, escreve (grifos meus) que, “se –prescindindo da fé e do ensinamento ulterior da Igreja– o historiador ou exegeta é chamado a exprimir um juízo sobre o Novo Testamento e sobre os textos patrísticos que examinamos, considerados simplesmente como fontes históricas, a opinião mais provável é que os irmãos e irmãs de Jesus sejam verdadeiros irmãos”. Em outros lugares da obra esta “opinião mais provável” é dada como uma certeza. Deste modo Meier, sem negar a fé católica na virgindade perpétua de Maria, elimina os seus fundamentos históricos e exegéticos; mais ainda, considera como o mais provável que o Evangelho negue o que a fé da Igreja afirma. E como ele, tantos outros exegetas e teólogos católicos…
A exegese racionalista, prescindindo por sistema da fé nas suas investigações, não teme chegar a conclusões contrárias à fé da Igreja. Iniciou-se modernamente no mundo protestante, exigida logicamente pela teologia liberal. E concretamente em relação à Virgem Maria, tanto a exegese como a teologia protestante liberal –luteranos, anglicanos e outros– tiveram uma tendência clara contra a devoção católica mariana, e consequentemente puseram especial empenho em negar à Mãe de Jesus os seus mais altos títulos dogmáticos e devocionais, um dos quais é, e não o menos importante, a sempre Virgem.
O teólogo protestante suíço Karl Barth (1886-1968), um dos mais prestigiosos do século XX, ainda que distanciando-se da teologia protestante liberal, e criando a sua própria, mantém a alergia antimariana dos protestantes. Referindo-se a Lourdes, escrevia: “essa gruta é o lugar onde se torna mais evidente o que é a mariologia católica: um tumor da autêntica cristologia”. E numa carta amistosa a um colega católico dizia-lhe: “essa mariologia vossa, que há que eliminar desde a raiz”.
No entanto, no princípio da mal chamada “Reforma”, esta reconhece a perpétua virgindade de Maria. Tanto Lutero, como Calvino e Zwínglio, professam com todo o empenho essa verdade da fé. Com a sua habitual ferocidade de expressão, Lutero considera “loucos e vilões” os poucos hereges que negaram esta fé. E mais tarde, em meados do século XVII, a confissão de fé dos calvinistas segue afirmando que “Jesus nasceu da Virgem Maria e que permaneceu Virgem antes e depois do parto”.
Pelo contrário, os herdeiros dos pais da Reforma, assumindo o naturalismo racionalista do Iluminismo, geram a exegese protestante liberal. Fundando-se nela, afirmam há tempo como um fato indiscutível que Maria foi uma mãe de família judia, que teve pelo menos quatro filhos e duas filhas. Maurice Goguel, racionalista reformado, escreve: “não existe o problema dos irmãos do Senhor para a história, mas só para a dogmática católica”. Giuseppe Barbaglio (1934-2007), biblista católico, cita e faz sua essa frase de Goguel (Jesús, hebreo de Galilea. Investigación histórica. Ed. Secretariado Trinitario, Salamanca 2003, pg. 129-130). Joseph Bornkamm, luterano, declara: “somente conveniências doutrinais católicas (ou ortodoxas), não os documentos de que dispomos, fizeram destes irmãos meios-irmãos ou primos, para defender a virgindade perpétua de Maria”. Pois bem, tal heresia –e tal erro exegético– foi contagiando não poucos professores católicos, “livres de preconceitos confessionais”, habitualmente seguidistas dos mais notáveis exegetas protestantes liberais.
É de notar, de passagem, que todas as confissões cristãs que seguem em exegese um historicismo-crítico racionalista extremo seguem um evidente caminho de extinção. Nada querem saber deles os evangélicos, antes tentados de fundamentalismo bíblico, nem menos os orientais ortodoxos. São comunidades cristãs degeneradas, que aceitam o aborto, a anticoncepção, a eutanásia, o divórcio, a homossexualidade, o sacerdócio presbiteral ou episcopal de mulheres, às vezes lésbicas reconhecidas, e são as que produzem as exegeses mais aberrantes, ao gosto do autor e das ideologias mundanas da moda… Estas comunidades cristãs, ao não serem assistidas pela sucessão apostólica, são conduzidas de fato não tanto pelos seus pastores como pelos seus teólogos (muito mais valorizados no protestantismo que os pastores), e mostraram no nosso tempo um instinto quase infalível para aderir sucessivamente a todos os piores erros: nacional-socialismo, anarquismo, autoritarismo fascista, feminismo extremo, revolução sexual, pacifismo ilimitado, ecologismo pseudorreligioso, conformismo permanente com o modelo cultural predominante no mundo: na educação, os costumes, a política, a arte ou o que seja. Vivem intensamente o Romanos 12,1-3, mas ao contrário.
Parece incrível que quem começou com a “Sola Scriptura” tenha ficado praticamente “Sine Scriptura”. Mas é perfeitamente compreensível: dado o livre exame das Escrituras, tendo-a triturado modernamente com as exegeses analíticas mais destruidoras da Palavra divina, e tendo negado a historicidade de quase toda a Bíblia, também dos Evangelhos, ficaram sem Bíblia. Sobrevivem às vezes malamente estas confissões em Estados protestantes confessionais, sustentadas pelos impostos eclesiásticos arrecadados pela Administração política. Em algumas cidades, subsiste a Faculdade teológica, mas já cessou toda forma de culto nas igrejas, porque ficaram vazias. Têm os dias contados.
E as Igrejas locais católicas que estão mais ou menos contagiadas do seu espírito levam o mesmo caminho para a extinção ou para uma redução extrema. Enquanto isso a Igreja Católica verdadeira e a Ortodoxia subsistem, e os Evangélicos fundamentalistas crescem. Peço perdão por esta digressão, e volto ao nosso tema.
* * *
A filologia rejeita as objeções contra a virgindade perpétua de Maria. Ao menos três dos Evangelhos são seguramente traduções ao grego de originais escritos em hebraico ou em aramaico, nas quais abundam os semitismos, o que parece não ser levado suficientemente em conta pela exegese histórico-crítica no referente aos “irmãos” de Jesus. Como assinala Vittorio Messori,
“por trás do grego dos Evangelhos adelphòs, irmão, está o aramaico aha, ou o hebraico ‘ah, que pode significar ao mesmo tempo irmão de sangue, meio-irmão, primo ou sobrinho, mas também discípulo, aliado, membro da mesma tribo e até ‘próximo’ em geral, ou da mesma cidade ou nação. Ainda hoje não existe em hebraico moderno um termo para distinguir o irmão do primo e é necessário recorrer a expressões como ‘filho da mesma mãe (ou do mesmo pai)’. [E alude a vários lugares do AT e do NT]… Precisamente por isto, os evangelistas –ou os tradutores do aramaico ao grego– não hesitaram em usar as palavras ‘irmão de Jesus’, seguros de não ser mal-interpretados por ninguém. Assim continua sendo no Oriente: tampouco o árabe moderno, como o hebraico atual, tem um termo para distinguir irmãos de primos; e na África e em todas as culturas tradicionais” (pg. 436).
Irmão é nessas culturas “o filho da minha mãe (ou do meu pai)”. Segundo isto, o que é problema para os biblistas ocidentais não o é nas amplíssimas zonas das línguas orientais ou africanas. Ainda que o grego tenha um termo próprio para significar “primo” (anepsios; p. ex., Cl 4,10), mesmo a Bíblia dos Setenta quase nunca o emprega, preferindo usar a palavra adelphòs, pois os dois termos podem usar-se indistintamente (p. ex., “nosso irmão Tobias”, Tb 7,2). Mas examinemos a questão em algumas cenas concretas dos Evangelhos.
Nas bodas de Caná, segundo o relato de São João (2,1-12), alude-se aos irmãos de Jesus. “Depois [da celebração das bodas, Jesus] desceu a Cafarnaum com sua mãe, seus irmãos e [em grego kai] seus discípulos; mas ali permaneceram poucos dias” (2,12). E examinando este texto, o biblista José Miguel García Pérez (Madri, 1951-), professor na Faculdade de Teologia San Dámaso (Madri), escreve:
“A partícula grega kai traduz textualmente um waw aramaico que, com frequência, corresponde à conjunção copulativa portuguesa e. Mas, neste caso, o waw é explicativo e o seu equivalente português é ‘portanto, isto é, ou seja‘. No grego dos Evangelhos não são raros os casos em que esta conjunção grega reveste tal significado”. Por exemplo: “Os sumos sacerdotes, os anciãos, e os mestres da lei e (kai) o tribunal supremo em pleno” (Mc 15,1). Esta tradução é imprópria, pois o texto realmente diz: “Os sumos sacerdotes, os anciãos e os mestres da lei, ou seja, o tribunal supremo em pleno”, pois, efetivamente, os citados eram os que o integravam. Do mesmo modo o texto antes aludido de Caná, há de ser traduzido corretamente assim: “Depois desceu a Cafarnaum com sua mãe e seus irmãos, isto é, seus discípulos; mas ali permaneceram poucos dias”. O argumento filológico vê-se reforçado pelas circunstâncias concretas: “Se se tratasse de verdadeiros irmãos, seria evidente supor uma volta a Nazaré, onde todos tinham a sua casa. Se vão a Cafarnaum, a cidade escolhida por Jesus como base para a sua obra na Galileia, é simplesmente porque os seus acompanhantes não são nem irmãos nem outros familiares, mas discípulos. Como consequência, este versículo de João especifica com clareza quem são realmente estes ‘irmãos'”.
Em torno de Jesus mestre forma-se um pequeno clã espiritual, no qual todos são “irmãos”. Neste sentido diz: “Quem é minha mãe e meus irmãos? E, olhando para os que estavam sentados ao seu redor, disse: Estes são minha mãe e meus irmãos. Porque aquele que faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (Mc 3,33).
Que Maria “deu à luz o seu primogênito” (Lc 2,7) é um dado aceito mesmo pelos mais críticos. Portanto, se Jesus tivesse tido mais irmãos, filhos de Maria, estes seriam irmãos menores –quatro varões e provavelmente duas meninas, segundo asseguram estes exegetas–. O lar de Nazaré estaria cheio de crianças. Não resulta fácil explicar então como São Lucas refere que José e Maria, quando Jesus tinha doze anos, foram com ele sozinho a Jerusalém na peregrinação anual, e permaneceram toda a festa, uns sete dias. Inclusive refere o evangelista que “todos os anos iam a Jerusalém para a festa da Páscoa” (2,41). Quando Jesus tinha doze anos, quantos mais irmãos pequenos havia na casa de Nazaré? Essa peregrinação anual é compatível com a vida de uma mãe de família numerosa, sujeita a sucessivas gestações, com um lar cheio de crianças menores de doze anos? A peregrinação supunha umas duas semanas de ausência da casa. E de resto, não era obrigatória… Maria teve somente um filho, Jesus.
Tampouco se compreende, conhecendo qual era no marco social de Israel a rigidez da hierarquia intrafamiliar e a primazia absoluta reconhecida ao primogênito, como é possível que os irmãos menores se atrevessem a buscar Jesus para obrigá-lo a regressar à sua casa (Mt 12,46-50). Aqueles “irmãos” eram sem dúvida parentes de Jesus, e maiores que ele.
Ainda mais. Os evangelistas, concretamente Mateus, que aplicava sistematicamente às distintas vicissitudes da vida de Jesus toda antecipação profética do Antigo Testamento, não teriam de modo algum deixado de citar nesta cena aquilo do Salmo: “sou como um estrangeiro para meus irmãos, como um estranho para os filhos de minha mãe” (69,9). Mas não; certamente, estes que veem com maus olhos o seu ministério público não são para Jesus “filhos de sua mãe, irmãos” de sangue; são parentes. Jesus é filho único de Maria.
São José, ao que parece, morreu cedo, pois já no ministério público de Jesus, na Cruz e na Ressurreição, não está presente. Portanto, ao ficar viúva Maria, não permaneceu sozinha com o seu filho pequeno em Nazaré, mas sim, segundo a norma e o costume do seu povo, uniu-se à sua família, fundindo-se nela. O normal, pois, é que todos os de fora considerassem “irmãos e irmãs” de Jesus os jovens que com ele conviviam no seu novo lar.
Jesus, antes de morrer, confia a São João a custódia de sua Mãe santíssima. Esta decisão tão grave não teria sentido se Maria fosse a mãe de um bom número de filhos e filhas. Sabemos que no dia de Pentecostes, estão reunidos todos os apóstolos, perseverando “unânimes na oração, com algumas mulheres, com Maria, a Mãe de Jesus, e com os irmãos deste” (At 1,13-14). Se estes “irmãos” aqui citados fossem “filhos de Maria”, irmãos reais de Jesus, não era o natural que fossem estes quem acolhessem em sua casa a sua própria mãe? E no entanto foi São João o favorecido: “e desde aquela hora o discípulo a recebeu como algo próprio” (Jo 19,27). Maria virgem só teve um filho, concebido por obra do Espírito Santo; o filho que morreu na Cruz e ressuscitou ao terceiro dia. Foi sempre virgem.
Mas digamo-lo claramente: todos esses argumentos não têm força alguma para quem nega, ao menos em sua maior parte, a historicidade dos Evangelhos. Têm valor para quem reconhece a historicidade das palavras e fatos aludidos. Mas, por exemplo, o último argumento citado não terá força alguma para quem, fazendo uma aproximação histórica a Jesus, nos diga que na realidade não conhecemos os sucessos concretos do Calvário. Concretamente, “parece bastante claro que o ‘diálogo’ de Jesus com sua ‘mãe’ e o ‘discípulo amado’ é uma cena construída pelo evangelho de João” (Pagola, Jesús, 10ª ed., 418). Com uma arbitrariedade semelhante para ir negando sucessivamente a historicidade de ditos e fatos referidos pelos evangelistas ficamos sem Evangelhos. E desde logo é impossível qualquer debate sobre uma questão de exegese, se uma das partes está disposta a rejeitar a historicidade de todos aqueles ditos ou fatos que são contrários ao seu pensamento. Não há nada a fazer.
Josef Blinzler (1910-1970), sacerdote e professor de exegese do Novo Testamento em Munique e em Passau, escreveu sobre a questão que nos ocupa uma obra muito valiosa, Die Brüder und Schwestern Jesu (Stuttgart 1967), traduzida a vários idiomas (p. ex., I fratelli e le sorelle di Gesù, Paideia 2011). E nela, com outros autores, expõe vários dos argumentos que acabo de citar em favor da perpétua virgindade de Maria. Suas teses sintetiza-as com estas palavras:
“Os chamados irmãos e irmãs de Jesus eram primos e primas. Para Simão e Judas o parentesco vinha de seu pai Cléofas, que era irmão de São José e, como este, descendente de David; o nome de sua mãe não se conhece. A mãe de Tiago e José (Joses) era uma Maria, distinta da mãe de Jesus. Ela, ou seu marido, estavam aparentados com a família do Senhor, mas não é possível acertar de que parentesco se tratava. Existe algum indício de que o pai de Tiago e de José (Joses) fosse de origem sacerdotal ou levítica e que fosse um irmão de Maria”, etc. Ao não podermos entrar aqui na análise pormenorizada destas questões, citarei outras palavras de Blinzler de grande valor:
“Podemos demonstrar que a interpretação católica da expressão ‘irmãos do Senhor’ não é apriorística, não é defesa abstrata de um dogma, mas sim que toma seriamente em consideração o testemunho da história, isto é, do Novo Testamento e da Tradição mais antiga“. E observa com pena que “se existe uma diferença na forma em que a exegese protestante e a católica apresentam suas posições, esta consiste no fato de que, na parte católica se tem o cuidado de levar em consideração os argumentos da parte contrária, para replicar; enquanto que os autores protestantes consideram supérfluo perder mais tempo e proceder à comparação”.
Dizem que “o amor é cego”. Grande falsidade. Quanto mais se ama uma pessoa melhor se a conhece. O mau amor sim é cego. Mas, por exemplo, um esposo, se ama muito e bem a sua esposa, “conhece” com grande facilidade as suas penas, o que a alegra, as suas preferências, os seus temores, capta em seguida os seus estados de ânimo. Por isso, a Igreja Católica e a Ortodoxia, porque amam muitíssimo a Mãe de Jesus, e sobretudo pela graça de Deus, conhecem muito bem a Maria, tanto na exegese como na teologia e na mística. Sabem com lucidez certíssima que o dom excelso da virgindade, que Deus concede a tantos cristãos e cristãs, recebeu-o com plenitude infinita e perpétua a Santíssima Virgem Maria, a bendita entre todas as mulheres. Sabem que o seu sacratíssimo seio virginal concebeu o Filho eterno de Deus por obra do Espírito Santo, e que o Unigênito do Pai foi o Unigênito de Maria bendita. Sabem com absoluta certeza que jamais a Providência divina dispôs que desse ventre inefavelmente sagrado nascessem, por obra de homem, outros seres humanos.
A exegese protestante liberal em geral, mas especialmente no que a Maria respeita, olha com frequência despectivamente as argumentações dos autores católicos. Considera-os atrasados e milagreiros, e não leva quase em conta os seus estudos e argumentos. Pensa que, por causa do nosso marianismo fanático, estamos fixos em questões trivialmente ginecológicas acerca da virgindade de Maria. Pensa também que nos vemos obrigados a sujeitar a exegese ao ensinamento dogmático da Igreja –quando na realidade é a exegese protestante liberal, tão errônea, tão maléfica, a que está cativa dos seus preconceitos naturalistas e antimarianos–. Não alcançam a intuir estes filhos da Reforma o mistério de Maria, o vínculo tão profundo e coerente que existe entre conceição imaculada, maternidade divina virginal, unicidade de graça “entre todas as mulheres”, totalidade absoluta da sua perpétua consagração virginal ao Senhor, em alma e corpo.
* * *
Confessemos finalmente a fé da Igreja na virgindade perpétua de Maria. Diz o Catecismo: “O aprofundamento da fé na maternidade virginal levou a Igreja a confessar a virgindade real e perpétua de Maria… E a liturgia da Igreja celebra Maria como a Aeiparthénos, a ‘sempre virgem'” (499). “A isto se objeta às vezes que a Escritura menciona uns irmãos e irmãs de Jesus (cf. Mc 3,31-55; 6,3; 1Cor 9,5; Gl 1,19). Mas a Igreja sempre entendeu estas passagens como não referidas a outros filhos da Virgem Maria. Com efeito, Tiago e José “irmãos de Jesus” (Mt 13,55) são os filhos de uma Maria discípula de Cristo (cf. Mt 27,56), que se designa de maneira significativa como “a outra Maria” (Mt 28,1). Trata-se de parentes próximos de Jesus, segundo uma expressão conhecida do Antigo Testamento (cf. Gn 13,8; 14,16; 29,15; etc.)” (ib. 500). Portanto, “Jesus é o Filho único de Maria” (ib. 501).
Nunca essas alusões a “irmãos e irmãs” de Jesus fizeram duvidar a Igreja primeira da virgindade perpétua de Maria. Todos sabiam que nas línguas orientais esses termos significavam não só os irmãos carnais, mas os parentes em geral, os membros de uma mesma grande família. E quando um tal Helvídio, por volta do 380, alega que José e Maria tinham tido muitos filhos, afirma-o para combater a superioridade do celibato monástico sobre o matrimônio, e para justificar a sua tese. Responde-lhe São Jerônimo, o mais alto exegeta da época, perfeito conhecedor do hebraico e do grego, com o tratado Adversus Helvidium de perpetua virginitate Mariæ (383), no qual demonstra, com argumentações que seguem sendo válidas, que os aludidos “irmãos e irmãs” eram primos de Jesus, não filhos de Maria. O ensinamento do grande Doutor da Bíblia não fez senão exprimir com argumentos de perito biblista a tradição unânime da Igreja. A tese de Maria como mãe de família numerosa somente surgiu, como recordamos, nos séculos XVIII e XIX, em âmbitos do protestantismo liberal, afetado pelo racionalismo ilustrado do seu tempo.
A fé da Igreja na virgindade perpétua de Maria foi muitas vezes confessada na Tradição e no Magistério. O Catecismo da Igreja, como mais acima recordei, afirma isto breve e claramente (499-501), e remete a numerosos documentos que aqui citarei abreviadamente:
“Maria virgem”, “a Virgem Mãe”, “a sempre Virgem Maria”, ou simplesmente “a Virgem”, são termos usados nas fórmulas tradicionais que exprimiram a fé da Igreja: –(215) Traditio apostolica; Dz 10. –(374) Símbolo de Epifânio: “Maria sempre virgem” (aeiparthénos); Dz 44, título que se repetirá em muitos documentos posteriores. –(391) Santo Agostinho; Dz 14. –(404) Tyrannius Rufinus; Dz 16. –(414) Nicetas; Dz 19. –(449) Carta de S. Leão Magno a Flaviano; Dz291. –(553) V Concílio de Constantinopla; Dz 427. –(561) Pelágio I, Carta ao rei Childeberto; Dz442. –(653) Sínodo de Latrão; Dz 503. –(693) XVI Sínodo de Toledo; Dz 573: “a Virgem, assim como antes da conceição conservou o pudor da virgindade, assim depois do parto não experimentou nenhuma corrupção da sua integridade, pois virgem concebeu, virgem deu à luz e depois do parto conservou sempre o pudor da virgindade”. –(1274) II Concílio de Lyon; Dz 852. –(1555) Pio V, Cum quorundam; Dz 1880: “a sempre Virgem Maria… permaneceu sempre na integridade da virgindade, antes do parto, no parto e perpetuamente depois do parto”… Esta é a fé do povo cristão, confortada e expressa por inumeráveis Padres e Doutores da Igreja.
Também o concílio Vaticano II confessa “a gloriosa sempre Virgem Maria” (LG 52; cf. UR 15). E Paulo VI, no Credo do Povo de Deus (1968), confessa como dogma da fé que “Maria permaneceu sempre Virgem” (n. 14). No Catecismo holandês (1968) dizia-se sobre a virgindade perpétua de Maria: “João 19,27 [as palavras de Jesus na cruz à Virgem e a São João] torna particularmente improvável que Maria tivesse outros filhos fora de Jesus” (Novo Catecismo de Adultos, Barcelona, Herder 1969, pg. 81). Mas a Comissão Cardinalícia formada para corrigi-lo exigiu-lhe uma declaração mais firme: “A virgindade permanente de Maria é afirmada pela tradição da Igreja e é ensinada como uma verdade de fé pelo magistério”. Esta é também, evidentemente, a fé unânime da Ortodoxia.
Todos os dias do ano os católicos, ao começo da Missa, confessamos a perpétua virgindade da Santíssima Virgem Maria: “confiteor Deo omnipotenti, beatæ Mariæ semper Virgini“… “Por isso rogo a santa Maria, sempre Virgem”… Lex orandi, lex credendi.
Nota do editor: José María Iraburu é sacerdote e doutor em teologia há mais de 30 anos.
Post post. –José Antonio Pagola, nas oito primeiras edições da sua obra Jesús; aproximación histórica, dizia numa nota: “Meier, talvez o investigador católico de maior prestígio neste momento, depois de um estudo exaustivo conclui que ‘a opinião mais provável é que os irmãos e irmãs de Jesus o foram realmente'” (pg. 43). Segundo isso, o exame científico da questão no plano histórico e exegético leva provavelmente à convicção de que a Virgem não foi virgem... E na edição revisada do seu livro (9ª e 10ª) modifica parcamente essa nota nos termos que seguem:
“Segundo Marcos 6,3, os habitantes de Nazaré exprimem-se assim: ‘Não é este o carpinteiro, o filho de Maria e irmão de Tiago, José, Judas e Simão?, não estão suas irmãs aqui entre nós?’. Na Igreja antiga havia já diversas respostas ao abordar a interpretação deste texto e de outros que falam de ‘irmãos’ e ‘irmãs’ de Jesus (Marcos 3,31-32; 1 Coríntios 9,5; Gálatas 1,19). A interpretação mais divulgada até os nossos dias tem sido a de Jerônimo, que os considera ‘primos ou parentes próximos’. Os estudos de Meier e outros exegetas descartam hoje esta interpretação por razões sobretudo filológicas, e consideram que estes textos falam de ‘irmãos’ reais de Jesus. Estas conclusões há que situá-las no contexto de uma cultura patriarcal baseada na agnatio (descendência através de varões): nesta cultura, o único que se afirma quando se diz que duas pessoas são ‘irmãos’ é que têm o mesmo pai. A Igreja católica sempre entendeu que estas passagens não se referem a outros filhos da Virgem Maria” (pg. 53).
Duas opções, pois, para escolher: o que dizem “os estudos de Meier e outros exegetas” ou “o que a Igreja católica sempre ensinou” com o apoio dos exegetas católicos, que dão fundamento evangélico ao Magistério apostólico. Como veem, a escassa modificação do texto feita por Pagola, depois de 8 edições, com mais de 70.000 exemplares vendidos, nos quais a Virgem não é virgem, não é tão patente como fora de desejar.
Autor: Pe. José María Iraburu