Um ex-cristão evangélico explica a realidade do Purgatório

Suponhamos que um amigo ou colega de trabalho venha e lhe diga:

“A Igreja Católica tem esta extensa doutrina do purgatório, inventada na Idade Média. A Igreja inclusive costumava vender indulgências para encurtar o tempo que alguém passaria no purgatório em um número fixo de dias. Esta doutrina se baseia em livros que não pertencem à Bíblia. Não há lugar ou região no além para os salvos, exceto o céu. Não há dor no além, e no mesmo minuto em que morremos vamos para o céu, como diz Paulo: ‘Estar ausente do corpo é estar presente com Cristo’; orar pelas pessoas no purgatório não tem sentido. Pior ainda, contradiz a suficiência da obra de Cristo. É completamente antibíblica. Nenhum protestante poderia acreditar nela.”

O que você diria?

Bem, a primeira coisa que você deveria dizer é: “Opa! Calma! Um argumento de cada vez, está bem?” Então considere com ele os seus argumentos individualmente…

1. “A Igreja Católica tem esta extensa doutrina do Purgatório”.

Isto é bem falso. Como ilustração, a seção sobre o purgatório no Catecismo da Igreja Católica consta de apenas três parágrafos (CIC 1030-1032). Em essência, há apenas três pontos sobre o tema nos quais a Igreja Católica insiste: (1) que há uma purificação depois da morte, (2) que essa purificação envolve algum tipo de dor ou desconforto, e (3) que Deus assiste aos que atravessam essa purificação, em resposta às ações dos que estão vivos. Entre as coisas sobre as quais a Igreja não insiste estão as ideias de que o purgatório é um lugar ou de que dura um tempo, como veremos mais abaixo.

2. “Inventada na Idade Média”.

A ideia de que o purgatório é uma invenção tardia é igualmente falsa. Na verdade, tem feito parte da verdadeira religião desde o tempo de Cristo. Ela é atestada não só em 2 Macabeus, que dá testemunho diretamente da crença (ver mais abaixo), mas também em outros livros judaicos pré-cristãos, como A Vida de Adão e Eva, que diz que Adão será libertado do purgatório no Último Dia.

Também fazia parte da verdadeira religião nos tempos de Jesus, como mostram os escritos do Novo Testamento. E tem feito parte da verdadeira religião sempre, desde os tempos de Cristo, como também mostram os escritos dos Padres da Igreja (ver o tema “O Purgatório na Igreja Primitiva e os Padres da Igreja”).

Não são apenas os católicos que creem nesta purificação final, mas também os ortodoxos orientais (embora frequentemente não usem o termo “purgatório” para se referir a ela), assim como os judeus ortodoxos. De fato, hoje em dia, quando morre um ente querido de uma pessoa judia, esta reza uma oração conhecida como o Kadish do enlutado, durante os onze meses seguintes à morte, pela purificação da pessoa amada.

Como a doutrina do purgatório foi sustentada por judeus pré-cristãos, judeus pós-cristãos, católicos e ortodoxos orientais, ninguém pensou em negá-la até a Reforma protestante, e é assim que só os protestantes a negam hoje em dia.

3. “A Igreja inclusive costumava vender Indulgências para encurtar o tempo que alguém passaria no Purgatório em um número fixo de dias”.

Acerca deste argumento, primeiro assinale que na verdade ele trata das indulgências, que é um tema à parte (ver meu artigo, “Introdução às Indulgências”). Se alguém deseja realmente escutar o que os católicos têm a dizer sobre si mesmos, deve-se tratar de um tema de cada vez, e não de vários ao mesmo tempo, numa espécie de abordagem apologética “à queima-roupa”.

Em segundo lugar, as indulgências nunca foram vendidas. Em determinada época, durante um período de talvez duzentos anos, era possível dar uma doação caritativa a determinada causa, como um fundo para construir um orfanato ou um templo, como uma das maneiras pelas quais uma indulgência poderia ser obtida. Não é diferente do que fazem os ministérios protestantes que oferecem algo em troca de uma contribuição caritativa ou “oferta de amor” a uma causa meritória. No entanto, por causa do escândalo que os protestantes produziram, há mais de quatrocentos anos (pouco depois do Concílio de Trento) a Igreja proibiu a doação caritativa como meio de obter indulgências.

Em terceiro lugar, os protestantes costumam se confundir a respeito do número de “dias” que costumavam estar associados às indulgências. Eles não têm nada a ver com o tempo no purgatório. As indulgências originalmente surgiram como uma maneira de encurtar o período de penitência na terra. O número de “dias” associado às indulgências não era entendido como encurtando o tempo no purgatório, mas como facilitando a purificação depois da morte, de uma maneira análoga à redução do período penitencial terreno durante o número de dias indicado.

Em quarto lugar, como algumas pessoas se confundiam pensando que o purgatório era reduzido em um dado número de dias por meio de uma indulgência, a Igreja aboliu o número de “dias” associado às indulgências, especificamente para eliminar essa confusão.

Em quinto lugar, a razão pela qual os “dias” nunca foram entendidos literalmente como dias de desconto do purgatório é que os teólogos medievais, tais como Santo Tomás de Aquino, que viviam precisamente no período em que esses “dias” se associavam às indulgências, foram muito claros a respeito do fato de que o tempo não funciona no além da mesma maneira que aqui. De fato, tinham um termo especial para ele e contrastavam três diferentes modalidades temporais: o curso ordinário dos acontecimentos que experimentamos aqui na terra, chamado “tempo”; o presente perpétuo que Deus experimenta, chamado “eternidade”; e o estado intermediário, não tão bem compreendido, experimentado pelos que estão no além, conhecido como “eviternidade”.

De modo que a Igreja nunca disse que o purgatório envolva o mesmo tipo de tempo que experimentamos aqui na terra, ou sequer qualquer tempo. Por isso o cardeal Joseph Ratzinger, que não é nenhum teólogo liberal, escreve que o purgatório pode envolver uma duração “existencial” mais do que “temporal” (ver o livro “Escatologia”, de Ratzinger). Pode ser algo que a pessoa experimenta, mas que experimenta num momento, em vez de algo que atravessa ao longo do tempo.

4. “Esta doutrina se baseia em livros que não pertencem à Bíblia”.

Quando um protestante diz isso, tem em mente 2 Macabeus 12, onde Judas Macabeu e seus homens oram por seus companheiros caídos que “tinham adormecido na piedade”, para que pudessem ser “livres de seus pecados” no além, e que era “um santo e salutar pensamento” que fizessem isso.

Portanto, 2 Macabeus apoia a oração pelos mortos para que estes possam ser libertados das consequências de seus pecados (já que o que tinham em mente eram necessariamente as consequências do pecado, pois não se peca no além). Como não é agradável estar sujeito às consequências dos próprios pecados, podemos inferir algum tipo de dor ou desconforto, e portanto a doutrina completa do purgatório: uma purificação (libertação) depois da morte, que envolve algum tipo de dor ou desconforto, e que pode ser assistida pelas orações dos vivos.

No entanto, embora 2 Macabeus 12 certamente ensine a doutrina do purgatório, a doutrina de forma alguma está “baseada” nessa passagem. Esta doutrina pode ser sustentada por numerosas passagens do Novo Testamento, mas, mais fundamentalmente (e isto é o que você deveria assinalar aos protestantes), pode ser deduzida dos próprios princípios da teologia protestante por si sós.

Veja, os protestantes são muito firmes (na verdade, insistentes) quanto ao fato de que continuamos pecando até o fim desta vida por causa de nossa natureza corrompida. No entanto, são igualmente insistentes (se você os pressionar) quanto ao fato de que não pecaremos no céu porque já não teremos uma natureza corrompida. Portanto, entre a morte e a glória tem de haver uma santificação — uma purificação — de nossa natureza.

Esta purificação talvez não transcorra no tempo, mas, como vimos, isso não é obstáculo para a doutrina do purgatório. Permanece o fato de que entre a morte e a glória deve haver uma purificação, e isso é, por definição, o purgatório: a purificação final ou, para dizê-lo em termos mais protestantes, “a santificação final” ou “o último trecho da santificação”.

5. “Não há lugar ou região no além para os salvos, exceto o céu.”

Bem, talvez isso seja verdade. A Igreja ensina que o purgatório é a purificação final, mas não que ele ocorra em alguma região especial do além. Assim como não sabemos como funciona o tempo no além — o que significa que o purgatório talvez não leve tempo —, tampouco sabemos como funciona o espaço no além, especialmente para as almas desencarnadas — o que significa que o purgatório poderia não ocorrer em um lugar em especial.

A purificação final pode ter lugar na presença imediata de Deus (na medida em que a presença de Deus possa ser descrita em termos espaciais). De fato, em seu livro sobre a escatologia, o cardeal Joseph Ratzinger descreve o purgatório como um ardente e transformador encontro com Cristo e seu amor:

“O purgatório não é, como pensava Tertuliano, uma espécie de campo de concentração supramundano onde alguém é forçado a suportar castigos de uma maneira mais ou menos arbitrária. É antes o processo de transformação internamente necessário pelo qual uma pessoa se torna capaz de Cristo, capaz de Deus [isto é, capaz da união total com Cristo e Deus] e, portanto, capaz de unidade com toda a comunhão dos santos. O simples fato de considerar as pessoas com certo grau de realismo é dar-se conta da necessidade de um processo assim. Ele não substitui a graça pelas obras, mas permite que a primeira alcance sua vitória total precisamente como graça. O que de fato salva é o pleno consentimento da fé. Mas na maioria de nós essa opção fundamental está enterrada sob uma grande quantidade de madeira, feno e palha. Só com dificuldade consegue emergir de baixo do emaranhado de um egoísmo que somos incapazes de demolir com nossas próprias mãos. O homem é o receptor da divina misericórdia, mas isso não o libera da necessidade de ser transformado. O encontro com o Senhor é esta transformação. É o fogo que consome nossa escória e nos transforma para sermos vasos de eterna alegria.”

Portanto, de acordo com a maneira pela qual Ratzinger explica a doutrina, somos retirados desta vida para a união direta com Jesus; seu ardente amor e santidade consome toda a escória e as impurezas de nossas almas e nos torna aptos para a vida na gloriosa e insuperável luz da presença e santidade de Deus.

6. “Não há dor no além”.

Este argumento é bem falso. Não é verdade que não haja dor no além, nem sequer para os salvos. Diz-se-nos que um dia, na ordem eterna, “Ele enxugará todas as lágrimas de seus olhos e já não haverá morte, nem luto, nem clamor, nem dor, porque passou a primeira condição” (Apocalipse 21,4) — mas note quando isso ocorre: na ordem eterna, depois da descida da Nova Jerusalém e do fim dos atuais céus e terra.

Antes desse tempo, a Escritura não nos dá promessa alguma de que estaremos livres de toda dor. De fato, indica justamente o oposto. Paulo nos diz:

“Por isso, quer no corpo, quer fora dele, nosso único desejo é ser-lhe agradáveis. Porque todos devemos comparecer ante o tribunal de Cristo, para que cada um receba, segundo suas obras boas ou más, o que mereceu durante sua vida mortal. Compenetrados, pois, do temor do Senhor, procuramos persuadir os homens.” (2 Coríntios 5,9-11)

Paulo afirma que, por temor do Senhor, procura agradar a Deus, porque todos compareceremos diante de Deus para ser julgados a respeito de se o que fizemos é bom ou mau. Portanto, a perspectiva de aparecer diante do tribunal de Cristo é algo temível, mesmo para os cristãos.

Isto é algo que até os protestantes reconhecem. Por exemplo, em sua série Através da Bíblia (sobre Romanos 14, neste caso), o pregador protestante J. Vernon McGee comentava que não estava ansioso por chegar ao tribunal de Cristo, porque em seu tribunal Jesus Cristo iria tomar à parte J. Vernon McGee — o que é certamente algo que Cristo confirma, dizendo a seus discípulos (os cristãos):

“Sobre este fundamento pode-se edificar com ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno ou palha: a obra de cada um virá a lume, pois o dia do Juízo, que se revelará por meio do fogo, a manifestará; e o fogo provará a qualidade da obra de cada um. Se a obra construída sobre o fundamento subsistir à prova, quem a fez receberá a recompensa; se a obra for consumida, ele sofrerá a perda. Contudo, seu autor será salvo, mas como que passando pelo fogo.” (1 Coríntios 3,12-15)

Isto claramente se aplica aos salvos, pois Paulo o diz (“seu autor será salvo”), mas não indica que esse exame da vida seja algo divertido, já que, como Paulo também diz, a obra da pessoa em questão “é consumida” e “se perderá”, e ainda que ele seja salvo, será “como que passando pelo fogo”. Nem é preciso dizer que ver a obra da própria vida consumir-se em chamas, perder-se quando se esperava “receber uma recompensa” e escapar por entre as chamas não é algo divertido.

Portanto, o dia em que recebermos nosso juízo particular no fim da vida não será divertido na medida em que nossas obras não sejam boas. Isto mostra claramente a realidade da dor e do desconforto depois da morte, mas antes da inauguração da ordem eterna.

Ora, alguns protestantes tentam um estratagema para contornar esta passagem, dizendo que são nossas obras que são provadas. É certo que, superficialmente, nesta passagem Paulo diz que nossas obras serão provadas por meio do fogo. Mas isso não muda nada, pois sentiremos existencialmente como nossas obras são provadas e consumidas. É por isso que Paulo diz que aquele cujas obras resistirem “receberá a recompensa” — algo que sentirá — e que aquele cujas obras forem consumidas sofrerá a sua perda — novamente, algo que sentirá.

Por isso Paulo coroa a passagem dizendo que o salvo que sofrer essa perda se salvará somente “como que passando pelo fogo” — a imagem de um homem escapando de um edifício em chamas, que é precisamente ao que Paulo se referia: a igreja local como um edifício construído por homens, seja com materiais à prova de fogo, seja com materiais que serão consumidos (ver o contexto anterior). Portanto, a imagem de um homem que construiu sua própria igreja local incorretamente e depois vê sua obra — o edifício que construiu — consumida pelo fogo, de modo que tem de fugir dele por entre as chamas para escapar.

Portanto, ainda que Paulo diga que nossas obras (o edifício que construímos) serão provadas no fogo, ele visualiza as chamas tocando a nós mesmos se nosso edifício se incendiar e formos obrigados a fugir dele. Assim, sob esta metáfora em Paulo, nossas obras são provadas, e nós mesmos sentimos as consequências desse exame da maneira mais dolorosa possível, pois não é divertido ter de escapar de um edifício em chamas enquanto o trabalho de sua vida desaba ao seu redor.

7. “Diz Paulo: ‘estar ausente do corpo é estar presente com Cristo’.”

Este é virtualmente o mantra de algumas personalidades protestantes do rádio. No entanto, é total e completamente falso. Paulo não disse: “Estar ausente do corpo é estar presente com Cristo”. O que ele realmente disse foi:

“[6] Por isso, sentimo-nos plenamente seguros, sabendo que habitar neste corpo é viver no exílio, longe do Senhor; [7] porque caminhamos pela fé e ainda não vemos claramente. [8] Sim, sentimo-nos plenamente seguros e, por isso, preferimos deixar este corpo para estar junto do Senhor; enfim, quer vivamos neste corpo, quer fora dele, nosso único desejo é ser-lhe agradáveis. [10] Porque todos devemos comparecer ante o tribunal de Cristo, para que cada um receba, segundo suas obras boas ou más, o que mereceu durante sua vida mortal. [11] Portanto, compenetrados do temor do Senhor, procuramos persuadir os homens. Deus já nos conhece plenamente, e espero que também vós nos conheçais da mesma maneira.” (2 Coríntios 5,6-11)

Observe-se que Paulo está falando de si mesmo por meio do plural “nós” nesta passagem, como o mostra no versículo 11, mencionando seu ministério evangelizador e contrastando o “nós” que procura persuadir os homens com a esperança de que “vós” também tenhais o mesmo conhecimento. Suas palavras têm claramente aplicação para outras pessoas em geral, mas ele está falando primariamente de si mesmo.

Portanto, o que Paulo diz aqui (v. 6) é que ele sabe que, enquanto está no corpo, está longe do Senhor, o que é certamente algo verdadeiro e que nenhum católico negaria. Não estamos na presença imediata, desvelada e visível de Cristo nesta vida. De modo que a este versículo um católico pode responder simplesmente: “E daí? Quem é que não sabe isso?”

Paulo então afirma (v. 8) que preferiria estar fora do corpo e junto do Senhor. Isto é o que as personalidades protestantes do rádio fazem passar por “estar fora do corpo é estar junto de Cristo”. Não é isso o que Paulo disse.

Antes de mais nada, ele está falando de si mesmo, lembremos, não das pessoas em geral. Há vários cristãos — e, para ser franco, a maioria deles — que prefeririam muito mais estar presentes no corpo do que morrer e ir estar com Jesus. A preferência de Paulo por morrer para estar com Jesus em vez de viver para permanecer no corpo não é de forma alguma um sentimento universal entre os cristãos.

Em segundo lugar, ele está expressando um desejo. Deseja que algo aconteça. Mas há uma grande diferença entre dizer que se deseja que algo aconteça e dizer que acontecerá infalivelmente.

Em terceiro lugar, há uma diferença ainda maior entre dizer que se deseja que duas coisas aconteçam e dizer que, quando uma ocorrer, a outra ocorrerá instantaneamente. Por exemplo, se eu, como pessoa não casada, dissesse: “Quero ir para casa e jantar”, não quereria dizer que no instante em que chegar em casa estarei jantando. Como não sou casado, antes de poder jantar terei de preparar o jantar. Há obviamente certo adiamento temporal entre minha chegada em casa e meu jantar. O mesmo se poderia dizer no caso de uma pessoa que diz: “Quero ir para casa e ver meu programa favorito”. Quando se chega em casa, isso não significa que se esteja instantaneamente vendo o programa favorito. De fato, podem passar horas antes que o programa favorito seja transmitido.

E observe-se que na parábola de Lázaro e do homem rico Jesus mostra a alma do falecido sendo levada pelos anjos ao seu lugar de descanso (Lucas 16,22). Obviamente, sob esta imagem, descreve-se certo tempo de transporte.

Em quarto lugar, tampouco se deduz, ainda que uma coisa automaticamente siga à outra, que as duas sejam idênticas. Se B se segue de A, isso não garante a afirmação de que A seja B; contudo, é precisamente assim que as personalidades protestantes do rádio distorcem a linguagem de Paulo quando declaram: “Paulo diz: ‘Estar ausente do corpo é estar presente com o Senhor’.” Eles o dizem de tal modo que parece uma citação direta, e não um resumo, e, como muita gente nunca procura o versículo para ver o que Paulo realmente diz, nunca se dão conta de que não é uma citação direta e são erroneamente levados a pensar que a Escritura diz algo que não diz.

Por isso, este resumo (inexato) da linguagem de Paulo passou ao âmbito dos mitos. É um daqueles versículos míticos que as pessoas ouviram tantas vezes que pensam que a Bíblia o diz, embora na verdade não seja assim (por exemplo, “Poupar a vara e estragar a criança”, “O leão se deitará com o cordeiro”, entre os pentecostais: “Falar em línguas é a evidência do batismo no Espírito Santo”, e o rei de todos os versículos míticos: “Deus ajuda a quem se ajuda a si mesmo”). As personalidades protestantes do rádio, portanto, contribuem, ao dizer isso, não só para a ignorância bíblica da sociedade, mas também para as afirmações bíblicas errôneas.

Em quinto lugar, é especialmente irônico que esta passagem seja usada para reprovar o purgatório, já que ela fala (v. 9, 10, 11) da necessidade de agradar ao Senhor nesta vida, porque, quando estivermos ausentes do corpo e presentes com o Senhor, teremos de “comparecer ante o tribunal de Cristo” para prestar contas de tudo o que fizemos em nossa vida no corpo — o que, diz Paulo, o motiva, já que é alguém “compenetrado do temor do Senhor”. De modo que se pode dizer: “Você quer estar ausente do corpo e instantaneamente presente com Cristo? Magnífico! Ótimo para você! Mas o que vai acontecer quando você estiver ausente do corpo e presente com Cristo — como mostra esta passagem — é o juízo particular, no qual você prestará contas de cada um de seus atos e suas obras serão provadas no fogo”.

Em todo caso, a primeira coisa que você deveria assinalar a um protestante que recorre ao “ausente do corpo / presente com Jesus” é: “Não é isso o que Paulo disse. O que ele realmente disse é que ‘preferiria estar fora do corpo e presente com o Senhor’. Mas há uma grande distância entre a afirmação ‘Desejo A e B’ e a afirmação ‘Todo aquele que faz A instantaneamente fará B’, e mais ainda ‘A é B’!”

A segunda coisa que você deveria assinalar é: “Ei! Lembre-se: o purgatório pode ser instantâneo. De modo que, se estivéssemos instantaneamente na presença de Cristo depois da morte (contrariamente à ilustração de Cristo de sermos levados pelos anjos ao nosso destino), e daí? Isso não faz diferença alguma na posição católica, já que o tempo não funciona da mesma maneira no além, e o purgatório poderia ser simplesmente uma transformação instantânea ‘num abrir e fechar de olhos’.”

8. “Orar pelas pessoas no purgatório não faz sentido”.

Uma das coisas que os protestantes acham difíceis de entender, especialmente se estão conscientes do fato de que o purgatório pode não transcorrer no tempo, é a prática de orar pelos que estão sendo santificados. Perguntarão: “Se alguém morreu e o tempo de encontrar o perdão já passou, como pode a oração fazer alguma diferença? E se a purificação não transcorre no tempo, como você pode orar por ela depois que ela já ocorreu?”

Em resposta à primeira pergunta, lembre-se do que é o purgatório: a etapa final da santificação. Ora, a santificação pode ser dolorosa ou não dolorosa (geralmente o primeiro caso), inclusive em sua etapa final. Portanto, assim como podemos orar por outros nesta vida para que sejam tornados santos mais rapidamente ou de maneira não dolorosa, do mesmo modo podemos orar pelos que estão na etapa final da santificação para que sejam tornados santos mais rapidamente ou de maneira não dolorosa.

Considere uma analogia: suponha que você tenha um amigo que se alista no exército e está no campo de treinamento. Ora, (teoricamente) todo aquele que se alista no exército deve ser levado a certo nível de excelência física, que é o propósito do campo de treinamento. Não importa de onde ele partiu, o propósito do treinamento é levá-lo a esse nível de excelência física.

Isto é o que o purgatório faz. O purgatório é o campo de treinamento do céu. O propósito do purgatório é levá-lo ao nível de excelência espiritual necessário para experimentar toda a força da presença de Deus. Não importa de onde você partiu: não haverá pecado no céu, e você tem de ser levado a esse nível durante a santificação final, antes de ser glorificado com Deus no céu.

Ora, quando você tem um amigo no campo de treinamento, seja o treinamento físico aqui na terra, seja o treinamento espiritual no além, você pode orar por ele para que o treinamento lhe seja fácil, para que ele seja levado ao nível de excelência de que necessita da maneira menos dolorosa possível. Isso pode ou não encurtar o tempo dele no campo (de fato, nos Estados Unidos o campo de treinamento do exército tem duração fixa), mas você pode igualmente orar para que lhe seja mais fácil enquanto é levado ao nível em que precisa estar.

Com respeito à segunda pergunta, sobre como podemos orar por alguém se a sua purificação foi instantânea, não há nenhuma diferença em relação a orar por qualquer evento passado. Deus está fora do tempo e, portanto, conhece o seu pedido desde toda a eternidade, o que significa que pode aplicar o seu pedido a qualquer período de tempo em que este seja relevante.

Por isso muitos ministros protestantes, pensando em alguém que acaba de morrer e cuja profissão de fé foi duvidosa, dirão: “Ó Senhor, se é da tua vontade, que ele tenha colocado a sua fé em teu Filho antes de morrer!”

De modo semelhante, muitos leigos protestantes, quando correm angustiados para casa porque ocorreu um acidente terrível e têm medo de que, por exemplo, sua filha esteja morta, orarão: “Ó Senhor, quando eu chegar lá, que ela não esteja morta! Que ela não esteja morta, ó Senhor!” Naturalmente, ou ela está ou não está. Já morreu ou não morreu. Mas, como Deus está fora do tempo e ouve todos os nossos pedidos simultaneamente, continua sendo racional pedir-lhe que não tenha permitido que algo lhe acontecesse enquanto estávamos ausentes.

C. S. Lewis, o conhecido autor protestante, fala sobre a oração por eventos passados de maneira bastante extensa em seus escritos, e ressalta que a única ocasião em que é irracional orar por um evento passado é quando se sabe que não foi da vontade de Deus responder à oração, porque já se sabe como o fato aconteceu. Por isso seria irracional orar para que Abraham Lincoln não fosse assassinado, pois já sabemos que o foi; ou seria irracional orar para que os nazistas perdessem determinada batalha na Segunda Guerra Mundial se já se sabe que venceram essa batalha. Nesses casos é irracional orar, porque já se conhece a vontade de Deus nessa matéria e se sabe que não foi a vontade de quem ora. Mas, na medida em que não se conheça qual é a vontade de Deus a respeito de algo, seja passado, presente ou futuro, continua sendo racional orar.

Portanto, se vier a ser o caso de que o purgatório é instantâneo no momento da morte, continua sendo racional orar para que essa santificação final tenha sido mais fácil para os que a experimentaram, da mesma maneira que é racional que um ministro protestante presente em um funeral ore assim em seu coração: “Ó Senhor, que este homem tenha colocado a sua confiança em teu Filho!”

9. “Contradiz a suficiência da obra de Cristo”.

Muito bem. A ideia aqui é que, já que o purgatório envolve sofrimento, ele deve de alguma maneira contradizer os sofrimentos de Cristo e dar a entender que estes não foram suficientes.

Não é assim!

Lembre-se: o purgatório é simplesmente a etapa final da santificação. A santificação nesta vida envolve a dor, “porque o Senhor corrige a quem ama, e castiga a todo aquele a quem recebe por filho” [e] “todo castigo, no momento em que se recebe, é motivo de tristeza e não de alegria” (Hebreus 12,6.11); no entanto, ninguém diz que esse sofrimento contradiga os sofrimentos de Cristo. Da mesma maneira, o sofrimento durante a santificação final de modo algum contradiz os sofrimentos de Cristo nem implica que estes sejam insuficientes.

Muito pelo contrário! O fato é que o sofrimento que experimentamos na santificação nesta vida é algo que recebemos por causa do sacrifício de Cristo por nós. Seus sofrimentos pagaram o preço para que fôssemos santificados, e seus sofrimentos pagaram o preço de toda a nossa santificação — tanto a parte inicial quanto a final. Por isso, em primeiro lugar, é por causa do sacrifício de Cristo que recebemos a santificação final! Se ele não tivesse sofrido, não nos seria dada a santificação final (nem a glorificação a que ela conduz), mas iríamos diretamente para o inferno. Portanto, o purgatório não implica que os sofrimentos de Cristo tenham sido insuficientes; pelo contrário, o fato de que se nos dá a santificação final do purgatório é por causa dos sofrimentos de Cristo!

10. “É completamente antibíblica”.

O que dissemos até agora deveria revelar a falsidade dessa acusação. O purgatório não é de modo algum uma doutrina antibíblica. Pelo contrário, é completamente bíblica, com fundamentos tanto implícitos quanto explícitos. Implicitamente, pode ser derivada dos princípios bíblicos de que continuamos pecando até a morte, mas não haverá pecado na glória. Portanto, entre a morte e a glória deve haver uma purificação.

Explicitamente, não temos apenas o testemunho de passagens como a de 2Macabeus 12, mas também o testemunho de passagens que descrevem a nossa responsabilidade diante de Cristo no juízo particular, incluindo a descrição especialmente vívida de alguém escapando por entre as chamas em 1Coríntios 3,11-15.

O próprio Jesus acrescenta a isso quando fala em Mateus 12,32 sobre um pecado que não será perdoado nem nesta vida nem na vindoura, dando a entender que alguns pecados (os pecados veniais dos quais não nos tenhamos arrependido antes da nossa morte) serão perdoados quando nos arrependermos no primeiro instante da nossa vida de além-túmulo.

Mais ainda, em Mateus 5,25-26, Jesus nos diz: “Reconcilia-te sem demora com o teu adversário, enquanto estás a caminho com ele, para que não aconteça que o adversário te entregue ao juiz, e o juiz ao guarda, e sejas posto na prisão. Em verdade te digo: não sairás dali enquanto não pagares o último centavo.”

Nesta parábola, Deus é o juiz, e, se não nos tivermos reconciliado com o nosso próximo antes de ver a Deus, Deus nos pedirá contas pelo mal que lhes fizemos. Isto é o que a Bíblia quer dizer quando afirma que Deus tomará vingança por nós, razão pela qual não devemos tomá-la nós mesmos, porque Deus defenderá a causa dos pobres e das viúvas. Cada vez que uma pessoa pobre ou uma viúva (ou qualquer outra pessoa) é oprimida ou sofre uma injustiça, Deus pedirá contas ao opressor pelo que fez — a menos que a pessoa oprimida escolha livremente perdoar o ofensor. Nesse caso, Deus não pedirá contas ao ofensor pelo mal que fez no nível humano (isto é, contra o ser humano com quem foi injusto), mas, a menos que tenhamos obtido o perdão de Deus pelo mal que fizemos contra Deus, ele continuará nos pedindo contas por isso.

Por isso, em nossos pecados contra os outros há duas dimensões: a humana, pela qual pecamos contra o nosso próximo nesse ato, e a divina, pela qual pecamos contra Deus nesse ato. Por isso o roubo é um pecado contra o próximo de quem roubamos e um pecado contra Deus, cuja lei violamos. Devemos obter o perdão de Deus pelo aspecto divino do nosso pecado, mas, como Jesus nos diz em Mateus 5,25-26, devemos obter perdão pelo aspecto humano do nosso pecado, do ser humano contra o qual pecamos. Se não o fizermos, Deus nos pedirá contas.

Naturalmente, como os seres humanos são seres finitos, os nossos pecados contra eles só podem merecer um castigo finito (comparados com os nossos pecados contra Deus, que é um ser infinito, de modo que os nossos pecados contra ele podem merecer um castigo infinito). Como esse castigo é finito, tem de ser temporário (já que um castigo eterno é infinito, pois envolve a recepção de dor durante um período infinito de tempo). Mas, se esse castigo que receberemos quando formos julgados por Deus (segundo a parábola de Jesus) é temporário, então é o purgatório. Por isso Jesus diz: “Não sairás dali enquanto não pagares o último centavo”, porque chegará um momento em que se acabará o castigo finito devido à dimensão humana e finita dos seus pecados.

Em todo caso, já se disse mais do que suficiente para mostrar a inexatidão da acusação de que o purgatório é uma doutrina antibíblica. Na realidade, está firmemente enraizada na Escritura.

11. “Nenhum protestante poderia crer nela”.

Lamento, mas isto também é falso. Há protestantes que creem no purgatório. Um que foi muito explícito a respeito dele foi C. S. Lewis. Em suas Cartas a Malcolm, escreveu:

“Claro que oro pelos mortos. A ação é tão espontânea, tão inevitável, que só o argumento teológico mais coercitivo contra ela poderia me deter. E mal sei como poderia sobreviver o resto das minhas orações se aquelas que são pelos mortos fossem proibidas. Na nossa idade, a maioria dos que mais amamos está morta. Que tipo de relação eu poderia ter com Deus se não pudesse mencionar-lhe o que mais amo?”

“Eu creio no purgatório… Nossas almas reclamam o purgatório, não é verdade? Acaso não nos partiria o coração se Deus nos dissesse: ‘É certo, filho, que tens mau hálito e que teus farrapos escorrem lama e lodo, mas aqui somos caridosos e ninguém te importunará por essas coisas, nem se afastará de ti. Entra no gozo’? Acaso não lhe responderíamos: ‘Com todo o respeito, senhor, e se não houver objeção, eu preferiria ser limpo primeiro’? ‘Sabes que pode ser doloroso.’ ‘Ainda assim, senhor.’”

“Suponho que o processo de purificação normalmente envolverá sofrimento. Em parte por tradição; em parte porque a maior parte do que me foi feito de verdadeiramente bom o envolveu. Mas não penso que o sofrimento seja o propósito da purificação. Bem posso crer que pessoas não muito piores nem muito melhores do que eu sofrerão menos ou mais do que eu… o tratamento dado será o que for necessário, quer doa pouco, quer muito.”

“Minha imagem favorita nesta matéria vem da cadeira do dentista. Espero que, quando me for extraído o dente da vida e eu estiver ‘me recuperando’, uma voz diga: ‘Enxágue a boca com isto’. Isto será o purgatório. O enxágue pode durar mais tempo do que agora imagino. Seu sabor pode ser mais ardente e adstringente do que a minha sensibilidade atual poderia suportar. Mas… [não] será repugnante nem ímpio.”

Mas, para além de protestantes como Lewis, que abertamente admitem sua crença no purgatório, pode-se dizer que os protestantes em geral creem no purgatório e simplesmente não o chamam assim. Pois todo protestante histórico admitirá que o nosso contínuo pecar nesta vida não continua no céu. De fato, insistirão bastante em que, embora a nossa santificação não seja completa nesta vida, ela será completada (instantaneamente, dizem eles) tão logo esta vida termine. Mas isso é o que é o purgatório! — a santificação final, a purificação. Portanto, é lícito dizer que muitos protestantes creem no purgatório sem se dar conta.

Um movimento positivo

Todas estas reflexões ajudam a que entendamos como responder aos desafios que um protestante pode fazer à doutrina do purgatório. No entanto, já que são refutações, não constituem em si mesmas uma explicação positiva da doutrina para os protestantes. Se alguém quer fazer isso — apresentar uma explicação da doutrina em vez de explicar por que falham as objeções a ela —, então se deveriam entrelaçar as reflexões anteriores e dizer algo como isto:

“O purgatório é o nome que os católicos dão à purificação final que ocorre no fim da vida. Como ainda pecamos nesta vida, mas não pecaremos quando estivermos na glória, entre a morte e a glorificação deve haver uma purificação. Isto é algo que até os protestantes admitem. O purgatório é, então, a etapa final da nossa santificação. É a nossa transição para a glória. Ao longo de toda a vida cristã, Deus está purificando os nossos corações, dando-nos maior santidade, mas esse processo santificador não está completo (nem nada que se lhe pareça) até o fim da nossa vida. Por isso, aquilo que Deus não quis nos dar nesta vida, quer nos dar uma vez que morremos.

“O único ponto adicional em que a Igreja Católica insiste a respeito da purificação final é que, tal como a santificação nesta vida, ela pode envolver dor ou incômodo, e que, assim como quando alguém está sendo santificado nesta vida, podemos orar por alguém que esteja sendo santificado no purgatório. A Igreja não ensina que o purgatório ocorra em uma região especial do além, nem sequer que ocorra através do tempo, já que temos muito pouca ideia de como o tempo funciona no além, e o purgatório pode ser instantâneo do nosso ponto de vista.”

Você pode então respaldar isto com os versículos bíblicos e o demais material que discutimos. Em geral, deveria usar o termo “santificação” em vez de “purificação” ou “purga”, porque “santificação” é um termo que os protestantes entendem e com o qual se sentem confortáveis. Expressando a doutrina em termos de santificação, ela se torna mais compreensível para eles e derruba muitas de suas objeções-chave (por exemplo, a ideia de que o purgatório implica que os sofrimentos de Cristo foram insuficientes).

Por isso é útil falar sobre as almas sendo santificadas no purgatório e descrever o purgatório como a etapa final da santificação. Se fizer isso, tornará a conversa muito mais fluida, falando na linguagem da pessoa com quem está falando, em vez de insistir em que ela se disponha a usar a sua linguagem, quando mal está familiarizada (e muito cética, se é que não altamente hostil) com a ideia que você está expressando.

Além disso, há alguns pontos adicionais que você deveria abordar em sua explicação, já que muitos protestantes estão confusos a respeito deles.

O Purgatório não é um destino intermediário!

Primeiro, você deveria explicar que o purgatório não é um estado intermediário entre o céu e o inferno. Isso leva os protestantes a pensar nele não apenas como um lugar distinto no além (algo que a Igreja não ensina!), mas, pior ainda, como se o purgatório fosse um destino intermediário entre o céu e o inferno. Isso é totalmente falso, e você deveria enfatizar muito fortemente aos protestantes que todo aquele que vai ao purgatório vai ao céu. De fato, a razão pela qual alguém vai ao purgatório é para que possa ser adaptado à vida no céu. O purgatório constitui, então, o salão de beleza do céu, o lugar aonde se vai para ser aprontado antes de ser conduzido à Sala do Trono.

Por essa razão, você deveria evitar totalmente qualquer expressão como “O purgatório é para onde a pessoa vai quando não é má o bastante para o inferno, mas não é boa o bastante para o céu”. Essa linguagem, além de soar legalista, também fará com que um protestante pense que o purgatório é algum tipo de destino intermediário, em vez de um fenômeno temporário. Em vez disso, use a linguagem que a Igreja usa:

“Os que morrem na graça e na amizade de Deus, mas imperfeitamente purificados, embora estejam seguros de sua salvação eterna, sofrem, depois da morte, uma purificação, a fim de obter a santidade necessária para entrar na alegria do céu.” (Catecismo da Igreja Católica, 1030)

Assim, deve-se pôr a ênfase onde corresponde, na purificação incompleta da pessoa, em vez de dizer “não suficientemente bom”, o que implica (ao menos para os ouvidos protestantes) um modo legalista de ganhar o céu.

Os gozos do purgatório

Para melhor derrubar as barreiras protestantes à compreensão da doutrina, assinale que a Igreja de modo algum ensina que o purgatório seja exclusivamente dor. De fato, alguns dos maiores santos e teólogos enfatizaram que, já que a alma está em maior união com Deus do que aqui na terra, experimenta, por consequência, maiores gozos. Por isso Santa Catarina de Gênova escreveu:

“Deus inspira na alma, no purgatório, um movimento tão ardente de amor devoto que seria suficiente para aniquilá-la se ela não fosse imortal. Iluminada e inflamada por esta pura caridade, quanto mais ama a Deus, mais detesta a menor mancha que lhe desagrade, o menor defeito que impede a sua união com ele.”

Também escreveu:

“Afora a felicidade dos santos no céu, penso que não há gozo comparável ao das almas no purgatório. Uma incessante comunicação com Deus faz que a sua felicidade seja cada dia mais intensa, e esta união com Deus cresce cada vez mais intimamente, à medida que os impedimentos a essa união, que existem na alma, vão sendo consumidos. Estes obstáculos… são, por assim dizer, como a ferrugem e os resíduos do pecado; e o fogo continua a consumi-los, e assim a alma gradualmente se expande sob a influência divina. Dessa forma, à medida que a ferrugem diminui e a alma jaz a descoberto sob os raios divinos, a felicidade aumenta. Uma aumenta e a outra diminui, até que o tempo da tribulação termine… Com respeito à vontade destas almas, nunca podem dizer que estas dores sejam dores, tão grande é a sua conformidade com a vontade de Deus, à qual as suas vontades estão unidas em perfeita caridade.”

De fato, as almas no purgatório têm um grande número de motivos para o gozo: (a) a liberdade do fato de cometer pecados, (b) a liberdade do desejo de pecar, (c) maior união com Deus e Cristo, (d) a certeza da salvação final de uma maneira não possível nesta vida, (e) uma apreciação final e completa de quão misericordioso Deus foi com a pessoa, (f) uma apreciação final e completa de quanto Deus a ama, (g) o amor puro e livre, enfim, que sentiremos por Deus e pelos outros, (h) recompensas parciais que podem ser dadas em antecipação da entrada na glória total do céu ao final do purgatório.

Mais ainda, não há ensinamento algum de que as dores do purgatório superem os gozos do purgatório. Como diz Santa Catarina: “nunca podem dizer que estas dores sejam dores, tão grande é a sua conformidade com a vontade de Deus, à qual as suas vontades estão unidas em perfeita caridade”. Pode ser (e, na minha opinião, é muito provável) que a dor de ver alguma de nossas obras converter-se em fumaça seja mais do que compensada pelo gozo de ver algumas delas permanecerem e de ouvir interiormente: “Muito bem, servo bom e fiel”, da parte da sempre amorosa e infinitamente boa Fonte da nossa redenção, da nossa vida e da nossa própria existência.

Mantenha a doutrina em perspectiva

Por fim, encareça ao seu irmão ou irmã protestante que mantenha a doutrina do purgatório em perspectiva. Os protestantes frequentemente sentem (como eu bem sei, já que fui um deles) que os católicos põem muita ênfase em determinadas doutrinas, tal como faz a literatura protestante anticatólica. Assim, por exemplo, quando um protestante pensa em um católico, com mais frequência pensa nele como alguém que crê no purgatório, e não como alguém que crê na Trindade, e pode erroneamente passar a pensar que o purgatório é uma doutrina mais importante para um católico do que a Trindade.

Por isso, como as polêmicas protestantes anticatólicas se concentram em áreas de desacordo (real ou aparente) com os católicos, essas áreas assumem uma proeminência maior na mente protestante e a levam a uma visão distorcida de quão importantes determinadas doutrinas são para os católicos. Assim, os protestantes frequentemente imaginam que o catolicismo é uma religião de nada mais que santos e estátuas e contas do Rosário e obras e penitências e purgatório e sofrimento e um monte de coisas menores.

Ao fazer isso, estão coando o mosquito, mas engolindo o camelo, perdendo “as coisas mais graves” da fé católica e o que é mais importante para os católicos. O catolicismo é, na realidade, uma religião de Deus e Cristo e da Trindade e redenção e perdão e fé e graça e gozo, como se ilustra pelo fato de que, se você for à Missa e simplesmente escutar as orações oficiais da Igreja, ouvirá muito mais sobre Deus e Cristo e graça e gozo do que ouve sobre santos e estátuas e contas e purgatório.

Isto deveria ser assinalado, forte e repetidamente, a um irmão protestante, para que tenha uma melhor compreensão da essência do ensinamento católico e da vida católica, em vez de supor que a discussão que ouve no tratamento protestante do tema é representativa da ênfase que os próprios católicos põem nessas matérias.

Para tal fim, seria proveitoso mostrar-lhe realmente a seção sobre o purgatório no Catecismo da Igreja Católica, já que são apenas três parágrafos de 750 páginas que explicam do que se trata a fé. Para isso, encerremos simplesmente olhando a seção sobre o purgatório no Catecismo e deixando que a Igreja fale por si mesma:

A purificação final, ou purgatório

1030 Os que morrem na graça e na amizade de Deus, mas imperfeitamente purificados, embora estejam seguros de sua salvação eterna, sofrem, depois da morte, uma purificação, a fim de obter a santidade necessária para entrar na alegria do céu.

1031 A Igreja chama de Purgatório essa purificação final dos eleitos, que é completamente distinta do castigo dos condenados. A Igreja formulou a doutrina da fé relativa ao Purgatório sobretudo nos Concílios de Florença (cf. DS 1304) e de Trento (cf. DS 1820; 1580). A tradição da Igreja, referindo-se a certos textos da Escritura (por exemplo, 1Cor 3,15; 1Pd 1,7), fala de um fogo purificador:

“Quanto a certas faltas leves, é preciso crer que, antes do juízo, existe um fogo purificador, segundo o que afirma Aquele que é a Verdade, ao dizer que, se alguém pronunciou uma blasfêmia contra o Espírito Santo, isso não lhe será perdoado nem neste século nem no futuro (Mt 12,31). Nesta frase podemos entender que algumas faltas podem ser perdoadas neste século, mas outras no século futuro” (São Gregório Magno, Dial. 4,39).

1032 Este ensinamento apoia-se também na prática da oração pelos defuntos, de que já fala a Escritura: “Por isso [Judas Macabeu] mandou fazer este sacrifício expiatório em favor dos mortos, para que fossem libertados do pecado” (2Mac 12,46). Desde os primeiros tempos, a Igreja honrou a memória dos defuntos e ofereceu sufrágios em seu favor, em particular o sacrifício eucarístico (cf. DS 856), para que, uma vez purificados, possam chegar à visão beatífica de Deus. A Igreja também recomenda as esmolas, as indulgências e as obras de penitência em favor dos defuntos:

“Socorramo-los e façamos a sua comemoração. Se os filhos de Jó foram purificados pelo sacrifício de seu pai (cf. Jó 1,5), por que haveríamos de duvidar de que as nossas oferendas pelos mortos lhes levem certa consolação? Não hesitemos, pois, em socorrer os que partiram e em oferecer as nossas preces por eles” (São João Crisóstomo, Hom. in 1 Cor. 41,5).

Autor: Jimmy Akin

Fonte: http://www.apologetica.org

Tradutor: Daniel Cotarelo García